Shine a light ***

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A simplicidade do filme é aparente, leram? Aparente. E o próximo que compará-lo a um DVD qualquer leva um tapa na orelha.

É que, sabe, os Rolling Stones têm um DVD oficial da turnê A bigger bang. Têm, é quádruplo, custa os olhos da cara e mostra até o Mick Jagger rebolando na areia de Copacabana. Está tudo lá. Umas 39 versões diferentes para Jumpin’ Jack Flash. E o som é tão poderoso que derrubaria as paredes do seu quarto. Garanto que nada-nada nos mais de 400 minutos daquele DVD (que vi de cabo a rabo) se assemelha ao que Scorsese faz em Shine a light. São projetos completamente diferentes.

Os Stones propuseram ao cineasta que ele acompanhasse a turnê e fizesse um documentário sobre (literalmente) o maior espetáculo da Terra. Scorsese tinha outra idéia, menos grandiosa: levar a banda a Nova York e encenar um show num espaço pequeno, com imagens capturadas por dez diretores de fotografia (todos eles vencedores ou indicados ao Oscar, informa o exibido material de divulgação) e entrecortadas por um econômico material de arquivo. Jagger fez birra, mas acabou topando a idéia. Provavelmente por causa de Keith Richards, fã assumido de Marty.

Não se trata exatamente de um documentário sobre a turnê. O show no Beacon Theatre não segue o script tradicional. O set list foi planejado especialmente para sugerir interpretações mais intimistas – e sublinhar a relação da banda com a herança do blues. O cenário é diferente, sem o degradê kitsch. E a platéia é pequena (e desanimada) demais. Tudo parece muito errado. Tudo parece até artificial, como um especial da VH1. Mas aí vem o golpe de Scorsese: este é um filme sobre a arte da performance. Sobre interpretar canções. É, ele próprio, um filme “armado”.

Os trechos de entrevistas antigas da banda, por exemplo, só existem para justificar a opção de Scorsese de não entrevistar os Rolling Stones. As perguntas são sempre as mesmas e, de tão repetidas, se desfizeram no ar. Não há mais o que perguntar a eles. E perguntar não interessa. O cineasta quer ir ao cerne daquilo que entende por Rolling Stones: a música e a forma como eles a interpretam hoje, depois de tanto tempo. Há um mistério nisso. Ao deslocar a banda para um ambiente até fantasioso (os Stones pertencem aos grandes estádios, ao intervalo do Superbowl), Scorsese os desconecta de um determinado contexto para ressaltar os elementos básicos da química que existe entre os quatro.

É bonito, muito bonito, quando a câmera se aproxima do rosto de Jagger e fica estática por alguns bons segundos. Ou quando cola em um Buddy Guy congelado diante do microfone. Scorsese quer a ruga, a marca na orelha, quer o cuspe e o aceno. A banda pode não ter entendido o exagero de câmeras, mas faz todo sentido: o aparato nos convida a pisar o palco, território sagrado dos Stones. Se The last waltz já era um belíssimo filme-concerto ao buscar intimidade entre o público e os músicos, Shine a light vai um pouco além. Soa ainda mais simples. É a mentira que, de tão bem contada, parece até verdade.

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