Mês: fevereiro 2009

Beware | Bonnie ‘Prince’ Billy

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bonnieprincecapaTodo álbum de Bonnie ‘Prince’ Billy é imediatamente tratado como o melhor álbum de Bonnie ‘Prince’ Billy. Você também ouviu essa história antes? Então bem-vindos a Beware, um Grande Álbum com uma Grande Banda gravado por um Grande Compositor em Grandes Estúdios, etc.

Admito que me assustei um pouco com a campanha de divulgação do disco. Pela primeira vez, Will Oldham adota uma estratégia que inclui um número expressivo de entrevistas à imprensa e fotos de divulgação. Para um sujeito declaradamente recluso, soa como um avanço. E um sinal de alerta.

Os fãs, de certa forma, estavam preparados para a transformação. Ano passado, Billy lançou Lie down in the light com o aviso de que aquele disco seria uma espécie de “lado suave” de um projeto mais grandioso. De fato, perto das ambições de Beware, o anterior fica parecendo um murmúrio (comovente, claro).

Trata-se do álbum mais ambicioso (e meticulosamente ambicioso) gravado por Oldham, e inclua aí I see a darkness, de 1999. É também o mais arriscado. Os fãs do músico certamente não cobravam um trabalho tão acessível e extrovertido  (a maioria prefere o trovador introspectivo de discos como The letting go e Ease down the road). E os fãs da fase soul de Cat Power… Será que eles estão prontos para o tom sombrio de canções como Death final e There is something I have to say?

Não há como prever. Mas, como Middle cyclone (de Neko Case) e Merriweather Post Pavillion (do Animal Collective), é um daqueles trabalhos que expandem a palheta de cores usada por ídolos indie e perigam cair no gosto do mainstream. Se acontecer, ficarei feliz por Oldham. Não que seja algo importantíssimo, mas o mainstream deve esse reconhecimento a ele.

No mais, o álbum faz algumas das concessões mais elegantes da história do alt.country. A estrutura clássica do disco nunca é negada por Oldham (para cada rompante country há uma balada emotiva), mas o que impressiona é a forma como essa nova estrutura não cai como um pedregulho sobre o lirismo sutil do compositor. Pelo contrário. Oldham conduz com muita segurança uma banda enérgica, talentosa (com flauta, banjo, saxofone, violino, palminhas e coro), além de um time de convidados especiais (a exemplo de Neko Case, lembremos).

Será acusado de ter tomado o caminho mais amplo e fotogênico. Mas não se deve desprezar um disco capaz de evocar tanto o Bob Dylan sereno de Nashville skyline quanto a atmosfera folk transcendental do Van Morrison de Astral weeks. O álbum soa universal assim, mesmo quando excessivamente formal ou previsível (lembra um pouco o rigor de The greatest, de Cat Power).

Com títulos como My life’s work e I am goodbyeBeware serviria até como um belíssimo testamento para Billy – vamos torcer para que, em vez disso, abra uma nova fase (com novos desafios; quem fica parado é poste) para o Grande Compositor.  

Sétimo álbum de Bonnie ‘Prince’ Billy. 13 faixas. Drag City/Palace Music/Domino Records. 8/10

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Lost | The life and death of Jeremy Bentham

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lostbentham

A estranha lógica de Lost: depois de um episódio sustentado numa Grande Revelação (o retorno dos sobreviventes à ilha), The life and death of Jeremy Bentham deveria ter batido como um longo anticlímax. Aqui, os roteiristas da série recuam para acompanhar as aventuras de John Locke entre os pobres mortais. Surpreendentemente, o flashback rende os melhores 40 minutos desta temporada.

E uma prova bastante sólida de que Lost, mesmo em dias frenéticos, ainda consegue se dedicar decentemente aos perfis dos personagens.

O episódio confirma a fé dos seguidores de Locke: o salvador da humanidade (podemos cravar logo isso de uma vez por todas?) é torturado, morto, enforcado e (oh!) ressuscita para liderar os irmãos bem-aventurados. Confesso que, num primeiro momento, desconfiei das metáforas religiosas da trama. Mas agora, devidamente convertido, deixo o futuro desta saga nas mãos de Damon Lindelof e Carlon Cuse. Amém.

É que, apesar do recurso fácil de citar a Bíblia em vão (estratégia para fisgar os leitores de O código Da Vinci?), a série sai-se bem num período em que organiza as peças do tabuleiro para compor uma temporada de guerras e revoluções. E sério: se John Locke é nosso Jesus Cristo, podemos esperar o apocalipse… agora?

Enquanto os heróis estão em transe, saltitando no tempo, o jogo dos vilões parece cada vez mais interessante. Qual é o seu favorito? Flor… Widmore, que até agora assumia o posto de Satã, começa a se revelar estranhamente adorável. Já Donate… Ben, bem, para esse eu não emprestaria dois reais.

Sorte a minha: fiz primeira comunhão e crisma. Caso contrário, ficaria perdidinho. 

PS: Ao contrário do que acontecia na quarta temporada, fico com a impressão de que os posts sobre Lost são um desastre de audiência aqui no blog. Para não desgastar nossa amizade, volto a escrever sobre o assunto no final da temporada. Certo?

It’s blitz! | Yeah Yeah Yeahs

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yeahyeahcapaAos que até agora não entenderam que o Yeah Yeah Yeahs é uma banda pop, It’s blitz! encerrará o assunto de uma vez por todas. O álbum serve como uma explicação didática, em amarelo fosforescente e gel cor-de-rosa, de que Karen O sempre esteve mais para Debbie Harry que para alguma das meninas do Sleater-Kinney.

O que nunca me pareceu um problema – até agora. Em Show your bones (2006), o trio saiu do casulo indie-punk para se remodelar como uma banda de arena, colorida e vibrante, numa reviravolta auto-irônica que me lembrou a fase Celebrity skin do Hole. Uma jogada que decepcionou muita gente, mas que me pareceu uma forma digna de escapar de alguns clichês que dominavam o rock nova-iorquino do início da década.

It’s blitz! acrescenta neon e sintetizadores ao figurino do disco anterior. Soa como uma versão remixada de canções que já conhecíamos. Pior que isso: um passo para trás. Já que o grupo se contenta com uma pegada indie-dance que nos leva de volta ao electroclash de Miss Kittin, a House of jealous lovers, do Rapture e ao primeiro álbum do LCD Soundsystem. Ou seja: a 2002, ou um pouco antes disso.

Ao contrário do Franz Ferdinand, o Yeah Yeah Yeahs veste o modelito dançante dos pés à cabeça. Pelo menos não fugiram da raia. O álbum inteiro, com produção corretinha de Dave Sitek (TV on the Radio), tem climas de dance musica setentista, ora saltitante (Heads will roll e Zero, os dois melhores momentos), ora um tanto dark (Skeletons).

Joy Division é uma das influências declaradas. Donna Summer é outra. Ambas são tratadas de forma rasa, com doses moderadas de angústia ou catarse, na linha inofensiva do remix que o The Killers gravou para Shadowplay. E as letras são qualquer nota (e tem gente interpretando Zero como uma canção sobre soldados em guerra, mas também pode ser sobre qualquer outra coisa).

Mais que nunca, o Yeah Yeah Yeahs soa como uma banda fashion, de grife – daquelas que se adaptam confortavelmente às cores da estação. Trocar guitarras por sintetizadores (pobre Nick Zinner) pode ser uma boa sacada. Convidar Tunde Adebimpe para fazer backing vocals também. No caso, porém, faltou timing. Tanto que, aposto dez reais, o álbum será comparado ao pop camaleônico (e unidimensional) do MGMT.  

Em Show your bones, o trio brincou com os artifícios do pop. It’s blitz! é o próprio artifício. Uma bala de festim, uma decepção.

Terceiro álbum do Yeah Yeah Yeahs. 10 faixas, com produção de Dave Sitek e Nick Launay. Interscope Records. 5/10

2 ou 3 parágrafos | Ponyo on the cliff by the sea

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ponyo

O filme deve ser lançado aqui no Brasil só em outubro, por isso serei mais ou menos breve e bastante superficial (se bem que, no caso de uma animação de Hayao Miyazaki, isso é quase um crime). Lendo tudo o que escreveram até agora sobre Ponyo on the cliff by the sea (8/10), não consigo vê-lo simplesmente como uma tentativa de retorno do cineasta ao espírito de Meu vizinho Totoro, ainda que seja um projeto claramente identificado com o universo infantil. Apesar da premissa (que sugere uma versão oriental de A pequena sereia, o conto de fadas) e do visual em tom pastel, é um filme tão siderado quanto os três longas anteriores do diretor.

Em um resumo bem rasteiro e enganador, a trama narra a amizade entre um menino de cinco anos e um peixe que, depois de fugir do oceano, se transforma numa menina. Parece simplezinho, mas Miyazaki faz com que detalhes surrealistas alterem toda a nossa percepção da trama. A fábula é encenada num ambiente habitado por extravagantes deuses marinhos (e peixinhos com feições de criança) e atormentado por ondas em formato de imensos cardumes, que aprisionam cidades inteiras em bolhas gigantes. Um sonho bizarro, como os outros, só que em azul-bebê.

E um delírio (como de hábito) bastante lírico, coberto pela névoa que é a excelente trilha de Joe Hisaishi e com todo um subtexto de conflitos domésticos que rende uma das mais belas cenas compostas pelo diretor – com flashes de luz, o pai marinheiro se comunica com o filho, que o espera na janela de casa. Não é tão complexo quanto A viagem de Chihiro. Mas que deslumbra, deslumbra.

Lost | 316

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lost316

Um episódio que, para mim, pareceu tão divertido (um exemplo: ele começa exatamente da mesma forma que a abertura da primeira temporada) quanto difícil de engolir. Todas as peças do jogo estão se encaixando, mas, a cada novo flash de luz branca, me pergunto se o trabalho dos roteiristas não anda fácil demais.

Cadê a reviravolta que mudará novamente toda a nossa perspectiva sobre a série, hem? (Tudo bem que ninguém está prometendo algo do gênero, mas fico na expectativa).

É até chato especular sobre o desenrolar da trama, já que (pelo andar da carruagem) muitos mistérios serão explicados no próximo episódio. Gostei da ideia de reconstituir o momento do embarque no Oceanic, mas eu ficaria mais satisfeito (chamem-me de sádico) com uma nova cena de queda de avião. Tudo menos o maldito flash de luz branca.

O número do vôo da Ajira remete a uma passagem bíblica que fala em vida eterna para aqueles que acreditam em Jesus Cristo. No episódio, um bilhete monossilábico de John Locke dá a entender que o salvador da humanidade é careca, rabugento e pode ter se sacrificado para salvar os “escolhidos”. Faz sentido, não faz? Mas como explicar o violão que Hurley leva na bagagem? Teria sido encomendado por um certo roqueiro drogado metido a Noel Gallagher?

Nada, nada, nada desvia a atenção dos fãs do programa. Por isso, o episódio começa pela grande revelação (o retorno de alguns dos sobreviventes à ilha) e é desenvolvido como um longo flashback. Lembra os melhores momentos da série – isso se excluirmos toda aquela explicação furada sobre um certo pêndulo gigante que me fez lembrar de Stargate e outras nerdices afins. Que aí já é abusar da minha paciência.

Happy up here | Röyksopp

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Ontem foi um bom dia para videoclipes. Antídoto perfeito para o climão de Wrong, do Depeche Mode, este Happy up here imagina o mundo como um videogame tomado por outdoors multicoloridos e ameaçado pelas navezinhas do Space invaders.

Parece uma besteira, mas o diretor Reuben Sutherland compõe um universo de plástico que combina perfeitamente com a (ótima) música do duo Röyksopp. É o hit eletrônico angelical que o Air parece ter vergonha de gravar. E o vídeo desce feito iogurte de morango. Uma delícia, experimenta aí.

Wrong | Depeche Mode

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Cruel, sombrio, sádico, chame do que quiser. Eu ainda não sei como encarar esta bad trip conduzida por Patrick Daughters (“um dos grandes auteurs da era do YouTube”, diz a Pitchfork). A influência de Karma police é clara, mas Daughters leva a paranoia do vídeo do Radiohead ao limite da tortura psicológica. A música nem é tãããão assustadora, mas a repetição robótica do refrão contribui para o compor o clima de claustrofobia sobre quatro rodas. Um pesadelo. Dos infernos. Estão avisados.