Mês: maio 2011

Os discos da minha vida (42)

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Este é, senhoras e senhores, o quadragésimo segundo capítulo da saga dos 100 discos que fazem a tracklist da minha vida. Hoje, sem prólogo.

018 | Loveless | My Bloody Valentine | 1991 | download

Antes de ter cravado as garras na história do rock (e ele se transformou num disquinho influente, meus amigos), Loveless era apenas ruído rosa: durante toda a década de 90, um álbum que destoava de tudo o que ouvíamos na MTV e na rádio. Extremamente delicado e às vezes extremamente incômodo (e estamos falando numa obra de extremos), o testamento de Kevin Shields é um daqueles projetos destemidos em que um artista pop decide testar os limites das tecnologias de gravação (e em que, nesse processo exploratório, acaba declarando guerra à gravadora responsável por pagar pela festa). Mas isso tudo é história da música pop, certo? Para mim, o que fica de Loveless é a repetição infinita de Sometimes no porão do meu cérebro, indo e voltando como uma canção de ninar pré-histórica, transmitida por meus antepassados. A impressão é de que esta música sempre esteve aqui, entre nós. Ainda me espanto quando percebo que ela foi composta no período em que eu era um menino de 11 anos de idade. Top 3: Sometimes, Only shallow, To here knows when.   

017 | Grace | Jeff Buckley | 1994 | download

Lembro que eu já conhecia duas ou três músicas de Grace antes de comprar o CD. Jeff Buckley ainda não havia morrido, então estávamos livres da carga mitológica que passou a envolver este álbum. Comprei porque havia algo em Last goodbye que gelava meus nervos (a linha de baixo, acho que era isso), e convidei meu pai para a primeira audição. Ligamos o disco num volume alto talvez demais: foi engraçado notar como o estrondo da faixa título, logo após a introdução meio indiana, deixou o velho surpreso. “Uau”, ele disse (e parecia um menino diante de uma montanha-russa sofisticada), e ali eu consegui me identificar com meu pai como em poucas vezes. Nos anos seguintes, voltei a este disco muitas vezes, sempre com um destino diferente. A fase Lover, you should’ve come over foi a mais duradoura: era uma música romântica demais, que talvez tenha me estragado um pouco. Passei a procurar casos de amor que fizessem justiça à canção, mas eles não existiam. Coisa de adolescente. O disco, apesar disso, seguiu galante, the one and onlyTop 3: Last goodbye, Lover, you should’ve come over, Grace.

Após o pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

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Mixtape! | Maio, primeira luz

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A mixtape do mês passado era sexy e pegajosa. Em comparação, a coletânea de maio soa como uma temporada na clínica de reabilitação. Parece um cdzinho calmo, tranquilo. Mas não é.

Não é mesmo.

Ele ficou do jeito que ficou (mais lânguido, digamos, mais arredio, mais tímido, fechadão) por dois motivos.

O primeiro: a ideia, como sempre, era criar um contraste com a mixtape anterior (que era de soul music, hip-hop); mas eu não queria gravar uma mixtape folk toda animadinha. Essas melodias adoráveis, portanto, estão cheias de lacunas desconfortáveis. Tratam de temas às vezes pesadões: frustração, arrependimento, medo, tensão sexual, hesitações tristes. Ouvindo novamente, acho que é a mixtape mais perturbada que gravei.

E uma das melhores. Vai ficando melhor, certo?

O outro motivo: ela, a mixtape, foi aparecendo numa época em que se falava muito aqui na cidade sobre o show do Jack Johnson. E eu sempre achei (continuo achando) que os fãs do homem só gostam muito dele porque ainda não foram apresentados a um Bon Iver, por exemplo. A um Fleet Foxes. Então este CD é um pouco pra eles, os fãs do Jack Johnson.

Ao contrário da coletânea de abril, esta aqui não conta uma história com começo-meio-fim e tem algo de autobiográfica. Foi um mês complicado.

Lá dentro você vai encontrar Six Organs of Admittance, Wild Beasts, The Antlers, Okkervil River, My Morning Jacket, Tune-Yards, Death Cab For Cutie, Bon Iver, Ron Sexsmith e, claro, Fleet Foxes, que ganhou a foto lá no alto do post.

Tem também faixa nova do Pinback, que é a minha favorita entre todas as que estão aqui. Ela está na primeira parte do CD, que vai criando uma onda que cresce até atingir o ponto máximo (lá no meio do disco). Depois, o aguaceiro vai se desfazendo aos poucos.

Acho que ficou bonito. O desfecho, pra mim, é emocionante.

Eu dedicaria esta mixtape a algumas pessoas, a amigos que não estão mais próximos como eu gostaria que estivessem, mas prefiro não anotar o nome de ninguém. Ouvindo mais uma vez, acho que é um CD com um quê de despedida.

Espero que, depois de ouvi-lo, você escreva duas ou três frases lá na caixa de comentários, onde está a lista de canções. Custa nada, né?

Vá lá, perca o medo, faça o download da mixtape de maio.

E, já que você está de bobeira, ouça também as fantásticas mixtapes de abril (minha favorita), março e fevereiro.

Os discos da minha vida (41)

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A saga dos discos que afligiram a minha vida chega a um episódio febril. No capítulo de hoje, este blogueiro (com a cabeça ardendo de preocupação) dá um pause na rotina tumultuadíssima e cumpre com certo atraso o compromisso amplamente babaca de listar mais dois discos de uma lista que contém 100 álbuns selecionados de acordo com critérios muito pessoais.

Há boatos de que estou perdendo meu tempo: sim, meus chapas, estou mesmo. E essa perda descontrolada de punhados e punhados de tempo me põe numa agonia sem fim. A impressão é de que, quando corro meus dedos neste blog, mexo num cadáver. Meio mórbido, eu sei

Minha vida anda tão complicada que renderia muitos posts sentimentais sobre temas que me deixariam envergonhado no dia seguinte. Prefiro ficar na minha. Meu coração vai bem, batendo e batendo feliz, mas o resto está quebrando. Espero que essa sensação ruim vá embora no fim dessa fábula dark. Por enquanto, o Tiaguinho aqui tá no meio da floresta. E é noite.

No entanto, vocês querem saber dos discos e está de hora de irmos de encontro a eles. Ok? A dupla de hoje é, pra mim, fundamental (obviamente). Abrimos o top 20 (oh! negrito!) com uma obra-prima e uma quase obra-prima. E nem vou perder meu tempo batendo na tecla de que são discos importantíssimos, que moldaram meu temperamento, que me educaram e que me deram de comer. Tudo isso tá se tornando muito repetitivo. Para nossa sorte, a jornada se aproxima do fim.

Nem demorou tanto assim, certo? Certo. 

020 | The queen is dead | The Smiths | 1986 | download

Passei tanto tempo congelado em I know it’s over, uma hit premonitório sobre os meus 15/16 anos, que só focalizei o disco muito depois, quando minha adolescência já havia terminado. E aqui, ainda, muito firme ao lado dos que consideram este álbum uma espécie de resumo da Mitologia do Rock Britânico, em tudo o que essa história tem de irônica, elegante, cruel, autodepreciativa e, se pensarmos em melodia/refrão, adorável. Conheci o disco mais ou menos na época em que eu ouvia Parklife, do Blur, e foi como descobrir Hitchcock em meio a uma paixão por Polanski. Primeiro senti algum receio, acho que assombrado pelo romantismo um tanto sufocante de Morrissey, depois entendi que não há muito como resistir. Encontrei nessas 10 músicas a minha balança para pesar cada um dos lançamentos do britpop: discos muito esforçados, sim, mas nenhum perfeito como este aqui. Top 3: I know it’s over, There is a light that never goes out, Cemetry gates.   

019 | Radio-activity | Kraftwerk | 1975 | download

Meu caso com o Kraftwerk começou muito antes da temporada eletrônica dos anos 1990. Ouvia Radio-activity já aos 10, 11 anos, uma época em que eu tratava a música pop com total despretensão. Nada mais era que um vinil tratado com orgulho por meu padrasto. O velho não sabia explicar absolutamente nada sobre a banda (“uns malucos da Alemanha”, ele dizia), mas considerava a sonoridade “estranha” e ao mesmo tempo “envolvente”. E isso, para mim, naquela época, era o bastante. Lembro de ter passado algumas tardes ouvindo o lado A do álbum, tentando decifrar o que aquilo representava. Muito tempo depois, num show da banda, meus olhos encheram de lágrimas quando eles tocaram Radioactivity. Foi quando eu percebi a importância da música e do disco para a minha vida. Voltei a ele, comprei uma cópia em CD, e sempre que eu ouvia era como assistir a um fantasma pairando. Uma pena: o vinil despareceu, e meu padrasto aparentemente não sente falta alguma dele. Top 3: Radioactivity, Antenna, Ohm sweet ohm.

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Suck it and see | Arctic Monkeys

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Sem tempo para matutar sobre o disco do Arctic Monkeys, vou recorrer ao infame Procedimento do Blogueiro Desesperado e meter o ctrl+c num textinho que escrevi pro jornal. Acho que é o suficiente, no caso. Não é daqueles discos que arrepiam os pelinhos da minha nuca.

Antes, uma intro necessária para que ninguém se perca  nos meus pensamentos tão sucintos (não vou reproduzir aqui matéria de jornal que acompanha a micro-resenha). O quarto disco do Arctic Monkeys dá sequência ao mais aventureiro da banda (Humbug, de 2009), que foi gravado no deserto da Califórnia com Josh Homme, do Queens of the Stone Age.

Eu curto aquele álbum, o considero um daqueles riscos saudáveis que bandas precisam correr de vez em quando. Mas muita gente boa o avalia como um erro e, no mais, a bolachinha vendeu pouco, frustrou a Domino Records, não produziu hits e deu nisto aqui: Suck it and see, também gravado em Los Angeles (mas longe do deserto), é descrito pelo quarteto como um disco mais pop, mais direto, mais “divertido”, gravado em poucos takes. A mim, soa como um detour apressado, uma virada brusca de volante para voltar à estradona da popularidade.

O que me parece um pouco frustrante, pra dizer o mínimo. E hesitante, medroso (o “miolo” do disco, por exemplo, parece ter sobrado de Humbug; como se a banda dissesse: “se nada der certo, pelo menos vamos agradar um pouco a quem gostou daquele outro álbum”).

Alex Turner, o vocalista e letrista, disse que começou a ouvir country rock e que aprecia o lado mais melodioso do Velvet Underground. Essas referências, de uma forma ou de outra, aparecem aqui.

Dito isto, o textinho é este:

Bom dia, melodia (por Tiago Superoito)

Depois da escuridão de Humbug, o “disco psicodélico” do Arctic Monkeys, Suck it and see soa como um banho de luz. A ideia pode parecer singela — afrouxar as ambições, pegar leve, gravar canções pop para o feriado perfeito –, mas combina com o perfil de uma banda que, mesmo ainda muito jovem, já sabe onde deve ou não pisar. Aventuras sonoras não são o forte deste quarteto. Limitações à parte, eles continuam a exercitar um estilo ainda eficiente, que condensa algumas das melhores tradições do rock britânico.

Da ironia doce de Alex Turner (que remete a Smiths, Blur) às guitarras sempre concisas de Jamie Cook (herdeiro de Kinks e Libertines), os Monkeys já encontraram um lugar no mundo. Em Suck it and see, o desafio é reforçar essas marcas e, ao mesmo tempo, amaciar a máquina com melodias afáveis, delicadas, mais para Paul McCartney que para Mick Jagger. Às vezes dá certo (como na ótima faixa de abertura, She’s thunderstorms). No entanto, esses momentos de sentimentalismo polido têm graça passageira, superficial. Hits? Certamente. Mas só até o próximo verão.

Quarto disco do Arctic Monkeys.  12 faixas, com produção de James Ford. Lançamento Domino Records. 6/10

Trecho | Estranho

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“Convencer Patty de que alguém se comportava ‘mal’ era um verdadeiro empreendimento. Quando lhe contaram que Seth e Merrie Paulsen iam dar uma enorme festa de Halloween para os gêmeos e tiveram o cuidado de convidar todas as crianças do quarteirão menos Connie Monaghan, Patty só comentou que era muito ‘estranho’. No seu encontro seguinte com o casal Paulsen na rua, eles explicaram que tinham passado o verão inteiro tentando fazer a mãe de Connie Monaghan, Carol, parar de jogar pontas de cigarro da janela do quarto na piscininha rasa dos gêmeos. ‘É muito estranho mesmo’, concordou Patty, balançando a cabeça, ‘mas, sabe, não é culpa da Connie.’ Mas os Paulsen não ficaram satisfeitos com ‘estranho’. Queriam sociopata, queriam passiva-agressiva, queriam . Precisavam que Patty escolhesse um desses epítetos e concordasse com eles que era aplicável a Carol Monaghan, mas Patty era incapaz de ir além de ‘estranho’, e em resposta os Paulsen se recusaram a acrescentar Connie à sua lista de convidados. Patty ficou tão irritada com essa injustiça que levou seus filhos, mais Connie e uma amiguinha da escola, a uma plantação de abóboras e um passeio de charrete na tarde da festa, mas a pior coisa que ela diria em voz alta sobre o casal Paulsen era que aquela maldade deles com uma menina de sete anos era muito estranha.”

Trecho de Liberdade, de Jonathan Franzen.

Os discos da minha vida (40)

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A saga dos 100 discos que traumatizaram a minha vida apresenta um episódio especialmente freudiano. Não sei exatamente por que, talvez meus sonhos expliquem (talvez seja algo que reprimi na infância), mas sempre tremo nas bases quando ouço os dois álbuns que aparecem neste quadragésimo episódio da saga mais geniosa e sensível do ciberespaço.

Algumas explicações possíveis: o disco de número 22 tem The fool on the hill, que resume o lado carente/autodepreciativo da minha pré-adolescência, e a instrumental Flying, que serviu de trilha sonora para o primeiro filme caseiro que dirigi (uma animação de fantoches inspirada livremente em Caminhos perigosos). 

Mais explicações: o disco de número 21 tem Disarm, que resume o lado psicótico/suicida da minha pré-adolescência (que, como vocês podem notar, foi um tanto contraditória e movimentada), e Soma, que me apresentou ao universo de Aldous Huxley sem que eu desconfiasse disso.

São dois ótimos discos, que eu gostaria muito de ouvir mais vezes, mas não consigo. O efeito de nostalgia e (às vezes) puro desespero que eles provocam é mais forte do que a revisão de fotografias antigas (sabe aquelas fitas empoeiradas de VHS, gravadas no aniversário da vó? pior). Por isso, faço o convite: ouça essas belezinhas, mas não me convide, ok?

E vamos em frente que esta segunda-feira está mais sonolenta que de costume. 

022 | Magical mystery tour | The Beatles | 1967 | download

Na história dos Beatles, está longe de representar um capítulo dos mais especiais. Na verdade, é uma loucura colocá-lo à frente de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado naquele mesmo 1967. Mas taí: esta coleção oportunista de singles (que abre com EP de trilha sonora) ainda me parece o bufê de sobremesas mais apetitoso do rock britânico, irrecusável do início ao fim. Algumas das minhas favoritas do grupo estão aqui (entre elas, a preferida de John Lennon, I am the walrus). No mais, o tempo mostrou que “sobras” de Sgt. Pepper’s como Strawberry fields forever e Penny Lane são mais poderosas, mais perenes que a maior parte das canções incluídas naquele discão. Sem querer forçar comparações absurdas (mas já forçando), é como se os Beatles tivessem decidido gravar uma alternativa pop, despreocupada, ao formato conceitual que estava em voga na época: um Help! com material de Sgt. Pepper’s. É claro que a história não aconteceu assim, mas a sensação de leveza genial é essa aí. Top 3: I am the walrus, Strawberry fields forever, The fool on the hill.

021 | Siamese dream | Smashing Pumpkins | 1993 | download

Você, caro leitor, não era um moleque de 14 anos quando este disco foi lançado? Então entendo por que Siamese dream talvez não tenha despertado empatia imediata. Antes de se tornar uma figura quase cartunesca (em alguns momentos, grotesca), naquela época, no inverno rigoroso de 1993, Billy Corgan era apenas um velho adolescente com muitos esqueletos (e algumas belas canções) dentro do armário. Poucos discos de rock do período (talvez apenas Nevermind) se comunicaram tão diretamente com uma juventude que não conseguia mais se conectar com o colorido eufórico e impessoal da MTV. Today, o single que estourou por aqui, talvez sintetize essa melancolia irônica, essa vontade louca de quebrar os brinquedos de plástico: o clipe se aproveitava de uma palheta agradável de cores, mas havia algo histérico, desesperado na interpretação de Corgan. Ele nos convencia que não, hoje não é o melhor dia de todos – e amanhã as coisas não vão mudar. O sofrimento do vocalista, naquela temporada grunge, soava tão overacted e tão plausível quanto o nosso. Se consumido depois dos 30 anos, este belo disco de teenage angst deve perder quase todo o charme (mas não sei, morro de medo de tentar de novo). Top 3: Disarm, Cherub rock, Today

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Smother | Wild Beasts

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Outro dia escrevi que música pop tem algo da urgência jornalística: discos e canções que flagram um momento e depois vão esmaecendo lentamente.

Mas não é só isso, é claro. As coisas não são fáceis assim.

A arte de um Tyler, the Creator, pra mim, tem algo de crônica, de blog. O sujeito encena uma confissão: e é como se estivesse num divã ou numa mesa de bar, num fórum de discussão. Vai lá e (perdoem a fineza, ok?) vomita o almoço e o jantar.

Conheço gente que menospreza esse pop informal, sem arremate ou ambições literárias/poéticas. Percebo o seguinte: deve dar um trabalho, uma trabalheira às vezes infernal, criar um discurso ao mesmo tempo franco e pungente, que nos emociona sem nos subestimar. Deve ser uma odisseia.

Pois bem. Para cada Tyler existe um Wild Beasts. E com o Wild Beasts, entramos na selva das bandas que rock que tentam rivalizar com romancistas, contistas. Os discos deste quarteto têm a densidade que esperamos encontrar, digamos, na literatura russa contemporânea. Smother (fui procurar no dicionário e signifca “sufocar”), o novo, é mais um tijolinho de ambição nesse casarão.

Nada contra as intenções nobres, os gestos mais pomposos, a procura pelo acorde mais sublime etc. Mas, antes de entrarmos com a faca neste filezão, lembremos de uma obviedade necessária: há obras-primas que soam simples porque querem soar simples (Plastic Ono Band, por exemplo) e há obras-primas que soam grandiosos porque querem soar grandiosos (Ok computer, por exemplo).

No pop, a meu ver, o disco “conceitual”, que se leva muito a sério, não ganha vantagem sobre o disco mais instintivo, espontâneo, que não tem nada a perder. Nesta partida, dá empate.

Dito isto, cá está um disco de rock que vai buscar nos livros de Mary Shelley (Frankenstein) e Clarice Lispector o vocabulário para ir fundo nas neuroses de personagens que sofrem por todo tipo de dependência e chantagem sentimental. “O que eu deveria pensar? Tiro você daí ou deixo você afogar?”, pergunta o narrador da primeira faixa, Lion’s share. Eis a questão mui sufocante.

Não estamos falando de uma narrativa linear, mas de uma espécie de fluxo de consciência que, nos momentos menos abstratos, sugere um passeio ao inferno das aflições sexuais. Há narradores que soam obsessivos, doentios (“Eu deitaria em qualquer lugar com você. Qualquer cama de pregos serviria”, diz o pobre coitado de Bed of nails), e há os que, num relacionamento talvez muito errado, admitem frustrações (“Os segredos que eu deveria ter dividido afogam dentro de mim”, lamenta o personagem de Albatross).

Há as vítimas (Em Albatross, por exemplo) e há os algozes (em Plaything, narrado por um sujeito que literalmente brinca com os desejos do amante). Fato é que, em Smother, os relacionamentos amorosos são florestas escuras de onde às vezes não se consegue sair sem arranhões. “É um medo terrível, mas é por isso que a escuridão está lá. Você não precisa ver o que você não consegue suportar”, aconselha o narrador de Lion’s share.

São versos aflitivos, em muitos casos femininos, que, somados, deixam claro o interesse do Wild Beasts pela literatura de Lispector. Também há um quê de Jane Campion (de In the cut, por exemplo) nesses relatos de brutalidade consentida, tortura entre quatro paredes. Se pensarmos apenas no conceito do disco, ele é o mais forte e bem resolvido de toda a trajetória da banda. Perto desse “script” tão sólido, Two dancers fica parecendo uma coletânea de curtas-metragens.

Mas resumir o disco a esse aspecto mais literário, ao conteúdo das letras, me parece muito pouco. Estamos falando, ao fim e ao cabo, sobre música pop. Ou ainda estamos?

Musicalmente, Two dancers era um disco mais desafiador, e com mais recompensas: não existe uma canção verdadeiramente impactante como Hooting and howling aqui, por exemplo, ou This is our lot e We still got the taste dancin’ on our tongues. Para adensar o conceito do disco novo, o grupo sacrifica as canções: Smother surte melhor efeito quando ouvido de ponta a ponta (e, mesmo com econômicos 42 minutos, pode soar um pouco maçante).

Essa é uma opção (consciente) da banda: nos sufocar com uma atmosfera… ahn… compacta. E parece preciosismo reclamar de um disco com melodias e arranjos tão elegantes, que alternam sintetizadores (sutis) com pianos (ainda mais sutis) e algo de experimentalismo no uso da percussão (quase minimalista, sensual, numa repetição do disco anterior). Hayden Thorpe e Tom Fleming não cantam: eles gemem.

Aqui, Wild Beasts toma uma posição e cobra um lugar entre as bandas importantes. Talvez façam por merecer, ainda que este disco (e os anteriores) me pareçam totalmente irrelevantes quando encaro o pop com um olhar jornalístico. Eles soam como que desconectados do tempo em que vivemos.

E (este mais recente principalmente) podem ser lidos como um drama psicológico de Virginia Woolf, um conto de James Joyce. Comparações que certamente deixariam este quarteto orgulhoso.

Mas Smother, o romance de 150 páginas, não me comove como eu esperava. Na verdade, sinto falta de um clímax, de uma canção que cumpra a promessa de imponência e grandiosidade de um disco que, francamente, é quase todo uma grande promessa.

As turbinas fazem barulho, sim, o corpo treme, a alma congela, às vezes dá arrepios. Mas esta máquina pesada (e muito bonita, repare a engenharia sofisticada, a polidez do acabamento!) insiste em não sair do chão. Um tanto frustrante, mas é algo que acontece com os melhores escritores russos.

Terceiro disco do Wild Beasts. 10 faixas, com produção de Richard Formby e Wild Beasts. Lançamento Domino Records. 7/10