Mês: setembro 2009

2 ou 3 parágrafos | Tá chovendo hambúrguer 3D

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chovendo

Simpático este Tá chovendo hambúrguer (6/10). São muitas as comédias de animação que tentam equlibrar doses de doçura e loucura — e esta aqui me parece até honesta, já que a premissa (sobre o dia em que uma máquina capaz de transformar água em comida perde o controle e faz do mundo num delicioso inferno) parece tirada de um episódio endoidecido de Tiny Toons — e taí uma coisa que me deixa com saudades da infância: Tiny Toons.

Mas, cá com meus miolos… Fico com a impressão de que o deslumbramento provocado pela nova técnica 3D tende a se esgotar, talvez rapidamente. Não quero dar uma de vidente, mas isso tudo cheira ao impacto efêmero provocado por brinquedos de parque de diversão: você paga, se diverte, volta, se diverte, depois se entedia e nunca mais aparece. Será que a novidade tem gás para cumprir, a longo prazo, as altíssimas expectativas dos estúdios? Não sei, possivelmente sim, quem sabe? Só sei que todas as animações lançadas no formato se sairiam bem com o visual “tradicional” (eu mesmo estou ansioso para rever Up em DVD).

Talvez aconteça só comigo, mas, da próxima vez, estou disposto a pagar um pouco menos para assistir a animações legendadas e sem efeito 3D. Se isso é “o futuro”, serei um nostálgico.

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Superoito e o amor

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Minha primeira namorada era branca e magra, tinha cabelos curtos e pretos, sorria de um jeito que me fazia rir, ouvia Janis Joplin, andava com calças de hippies e comia papinha de nenê com o ar provocativo e subversivo de quem estava muito doida para destravar uma granada.

Era 1992 e, naquela época, não havia nada de muito rebelde ou surpreendente a ser feito no mundo. Nada. Estava tudo acabado. The end was near. Mas, claro, havia as papinhas de nenê. As pessoas nos olhavam de uma forma estranha quando comíamos aquelas nojeiras e daí que nos sentíamos vingados, já que éramos jovens e ingênuos e (um pouquinho) estúpidos.

Vocês entenderam.

O namoro durou mais ou menos três meses. Talvez quatro, mas não mais que isso. Eu, que era um tapado, não fazia a menor ideia do que eu deveria fazer com ela, a minha namorada. E era cabeça-dura demais para reconhecer que eu precisava de duas ou três dicas. Meus amigos me encaravam respeitosamente (eu era o menino com namorada!), mas mal sabiam que eu não conseguia ir muito além de uma preliminar vergonhosa: no cinema, eu arrastava timidamente meu braço em direção ao braço dela. Quando os dois finalmente se encontravam, o filme já estava terminando. Já disse que eu era um tapado?

Mais: eu era desengonçado. Só que ela era mais desengonçada que eu e, de tropeço em tropeço,  até que fazíamos um belo par. Algum tempo depois, descobri que eu e ela não aproveitamos absolutamente nada do nosso namoro – que certamente era muito mais excitante dentro das fantasias que nossos amigos criavam sobre nós. Ainda assim, o romance adolescente provocou algum tufão: eu estava completamente apaixonado por ela (e naquela altura já andávamos de mãos dadas) quando recebi um telefonema que durou mais ou menos um minuto:

ELA: Tiago, vou pra São Paulo.

EU: São Paulo?

ELA: Isso. São Paulo.

EU: Mas quando? Daqui a uma semana? Um mês?

ELA: Vou amanhã.

EU (que devia ter ficado quieto, mas já era muito dramático): Que coisa, hem? Amanhã? Já a-manhã? Amanhã? Quinta-feira? Amanhã mesmo? Sério? Isso quer dizer que, depois de ter perdido todos os meus amigos quando me mudei pra essa cidade, depois de ter quase morrido, depois de quase ter pulado da janela do meu quarto, depois de tudo o que aconteceu, então quer dizer que vou perder a pessoa que eu mais…

ELA: E acho bom isso acabar logo aqui. É o que tem que ser.

Eu juro que, naquela despedida surpreendente, senti alguma hesitação na voz da minha namorada. Mas talvez eu tenha criado a ilusão como uma espécie de conforto. Caso contrário, eu passaria os três anos seguintes batendo a cabeça na parede do meu quarto e me perguntando sobre o verdadeiro sentido da vida e do amor. Nada disso aconteceu, felizmente. Entrei para o ensino médio, me diverti com discos e os filmes, fiz novos amigos, namorei outras meninas, estudei como um monge e cresci. Minha vida foi isto aí: uma linha no fim de um parágrafo curto. Mas, em questões do coração, uma linha intensa, sublinhada e em negrito.

É que, para mim, o amor nunca foi simples. Nunca. Talvez o desfecho abrupto daquela minha primeira experiência amorosa tenha me moldado da cabeça aos pés. Formou um adolescente exagerado, excessivamente romântico, um galã kitsch de novela venezuelana, um ser démodé que acreditava na paixão sublime, nas duas metades da laranja, em almas gêmeas e que, por tudo isso, idealizava terrivelmente as mulheres. As melhores eram as impossíveis. E as impossíveis eram as melhores.

Fiquei nesse martírio até o início da idade adulta. Nenhum namoro era totalmente satisfatório, já que os únicos namoros totalmente satisfatórios eram os namoros que não existiam nem nunca existiriam. Eram os impossíveis. Os inviáveis. Os da mitologia grega. As da revista. As donas do meu coração eram as mulheres que me tratavam como, no máximo, um irmão simpático que trazia balas de menta no recreio.

Depois descobri que minha filosofia estava errada. Que não funcionava. Que era furada Que iria fazer de mim um sujeito infeliz e solitário. Mais que isso: descobri que aquele meu amor por amores platônicos era apenas e tão somente o gatilho da minha solidão. Da minha vontade de ser solitário. Do meu medo de arriscar-me. Era um tipo de álibi que eu havia criado para mim mesmo. Era a barreira que eu ergui para impedir que eu me decepcionasse novamente (e cá estamos de volta a meu primeiro namoro).

Foi, acima de tudo, uma opção. Isso aí. Ninguém me obrigou a ser daquele jeito. Aquele sujeito amargo. Mas eu era. Quando resolvi me aventurar na savana do amor real, logo percebi que não entendia nada sobre o assunto. Nada. Passei até a desconfiar que meu primeiro namoro tinha sido uma invenção mental – e que aquela minha namorada, tão distante, pertencia a uma casta de fantasmas que devoravam papinhas de nenê (ou por que então ela seria tão branca?). Minha hipótese foi desmontada quando encontrei com ela, ao vivo, quase dez anos depois, e a mocinha continuava exatamente igual. Branca, cabelos curtos e pretos. A única diferença (importante, pelo menos para mim) era que eu não sentia mais nada por ela.

Fiquei feliz com a minha reação. Orgulhoso de mim mesmo. Imediatamente, acho até que num soluço, minha vida amorosa mudou. Consegui tomar as rédeas do meu romantismo infantil, perdi alguns quilos (pergunte-me como) e, depois de dezenas de encontros e desencontros (alguns deles, especialmente ridículos, renderam conflitos e intrigas para dois ou três blogs), encontrei a namorada que amo e com quem vivo até hoje, sete anos depois.

Conheço gente que rejeita essa história de viver um namoro longo. Para mim, é um tipo de aventura. Um tipo de aventura épica, meio Apocalypse now, sangue e tripas e glória, mas um tipo de aventura. É impossível comentar esse tipo de situação sem cair num discurso derramado de autoajuda ou comentar lembranças que só parecem emocionantes para mim, que as experimentei. Namoros são fofos. São mágicos. E tudo que é fofo e mágico também pode soar irritante. Por isso paro aqui. Digo apenas que uma relação longa pode ser tão interessante quanto um daqueles bons romances de mil páginas, que ainda nos surpreendem e nos fazem chorar lá pelo vigésimo capítulo.

Tai uma lição importante: com minha namorada, aprendi a chorar. De ódio, nos nossos desentendimentos. Mas principalmente de saudade.

Aconteceu quando ela viajou e passou um mês inteiro longe. Aconteceu quando ela decidiu que precisávamos de um tempo. Aconteceu há duas semanas, quando ela trancou as malas e se mudou de vez. Para São Paulo.

É o que se vê em Brasília. As pessoas dizem adeus. As pessoas vão embora. As pessoas desaparecem. E, depois, as pessoas fazem ligação de longa distância. As pessoas mandam longos e-mails. As pessoas partem para novas amizades. As pessoas aprendem a reconstruir as relações. E há, sim, as pessoas que sobrevivem à sensação de que tudo está sempre por um fio. E, sortudas, levam a vida com alegria.

Quando souberam da notícia de que ela iria embora e de que eu ficaria, nossos amigos chegaram à conclusão de que o namoro havia chegado ao fim. De algum modo, todos eles têm certeza de que namoros à distância não funcionam, e talvez aprenderam essa regra em filmes europeus (não nas comédias românticas mais aguadas, por favor) e revistas para mulheres maduras e independentes. Namoro à distância é o túmulo da paixão, dizem. Não os condeno. Eu mesmo, menos romântico do que era aos 16, reconheço que, de um ponto de vista muito otimista, à Gaspar Noé, a distância corrói tudo. O tempo é cruel. Por essas e outras, eu já devia me considerar um viúvo melancólico.

É como me tratam. Olham para mim e abaixam a cabeça. Viram o rosto. Ou fazem comentários tristes do estilo “mas Tiago, então quer dizer que tudo acabou?”. Eu fico sem respostas. “O que vai ser de vocês, Tiago?”, e faço que não estou ouvindo. O clima é de velório por um amor que não acabou. De final de Big Brother. De clímax de Shakespeare. Não é inusitado? Tenho a certeza de que, em duas semanas, vou abrir minha caixa de correio e encontrar flores brancas. E cartas de apoio, compreensivas.Vou me sentir um Elvis. E um Michael Jackson.

Acontece que o amor não acabou. O filme pode ter acabado (e a plateia se despede), mas o amor continua. E duvido que acabe. De forma tão instantânea, não. Não é mais possível. Quando encontro minha namorada, por dois ou três dias (infelizmente, existe um componente dramático que faz parte de qualquer namoro à distância), é como se quase nada tivesse mudado. Eu mesmo fico surpreso. Essa sensação, simplezinha assim, provocou uma verdadeira revolução na ideia que eu fazia de amor. Já que, se amor não é só dependência emocional, se amor não é simplesmente uma forma de matar a solidão, se amor não é mero capricho, se amor não é só posse, se amor não é feito e cultivado exclusivamente na nossa cabeça, então o que mantém tudo isso vivo?

Não sei. Mas é algo mágico e fofo. E irritante. E, mais que tudo, ainda misterioso.

50 discos para uma década (parte final)

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Em Brasília, são 22h. Vamos terminar esta novela?

Primeiro, devo lembrar (até para os que chegarem depois) de mais uma fornada de discos que ficaram de fora da lista. Infelizmente, não tem lugar para todo mundo entre os meus 50 favoritos da década. Mas vejam a situação com otimismo: se muita coisa boa foi limada da lista, isso significa que vivemos uma década (musicalmente, pelo menos) muito inspirada e devemos ficar felizes com isso. Certo?

E, também para a posteridade: os vencedores foram anunciados ao vivo, com o apoio de uma conexão precária e ao som do greatest hits do Blur.

São eles (em ordem alfabética): Boy in da corner, Dizzee Rascal, For Emma, forever ago, Bon Iver, From a basement on the hill, Elliott Smith (hors-concours), The Futureheads, The Futureheads, Good news for people who love bad news, Modest Mouse, Heartbreaker, Ryan Adams, The hour of bewilderbeast, Badly Drawn Boy, In search of…, N.E.R.D., Jim, Jamie Lidell, Microcastle, Deerhunter, Myths of the near future, Klaxons, Parachutes, Coldplay, The runners four, Deerhoof, Since I left you, The Avalanches (heresia ter ficado de fora!), The Carter III, Lil Wayne, Vampire Weekend, Vampire Weekend, XTRMNTR, Primal Scream.

E prometo não demorar muito entre um post e outro (sabe como é: tem muito texto, isto deu um trabalhão e eu gostaria de verdade que vocês lessem pelo menos a primeira frase de cada um dos comentários, por favor).

brianwilson

10. Smile – Brian Wilson (2004)

A história ainda parece inacreditável: quase 40 anos depois, Brian Wilson finalmente concluiu uma das grandes obras fantasmagóricas da música pop. Só por isso – esse esforço obsessivo, heroico – Smile já seria um monumento. Mas não fica nisso. Os fãs dos Beach Boys já conheciam as músicas que estão no disco, mas não faziam ideia de um detalhe fundamental: juntas, as peças do quebra-cabeças finalmente se encaixam numa sinfonia pop que, além de soar deslumbrante do início ao fim, esclarece as ambições do projeto e (ainda que tardiamente) leva adiante as loucuras de Pet sounds. Curiosamente, em tempo de Flaming Lips, Animal Collective e Fiery Furnaces, as experiências de Wilson soaram novas. De novo.

daftpunk

9. Discovery – Daft Punk (2001)

“O disco tem muito a ver com a nossa infância e com as memórias que temos daquela época. É sobre nossa relação pessoal com aquele período. É menos um tributo a uma era musical (de 1975 a 1985) e mais a forma que encontramos de focalizar o tempo em que tínhamos menos de 10 anos de idade. Quando você é criança, você não julga ou analisa música. Você gosta porque gosta. Você não quer saber se é cool ou não é. Este disco encara a música de uma forma brincalhona, divertida e colorida. É sobre a ideia de olhar para algo com a mente aberta, sem fazer muitas perguntas. É sobre a relação verdadeira, simples e profunda que temos com a música”, Thomas Bangalter (e só tenho duas coisas a acrescentar: é o grande momento do Daft Punk e um modelo para quase tudo o que foi feito em electropop na década).

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8. Merriweather Post Pavilion – Animal Collective (2009)

Uma lista séria sobre a década deve conter pelo menos dois álbuns do Animal Collective, uma banda que gravou o primeiro disco exatamente em 2000 e chegou madura a 2009. Além de Merriweather Post Pavilion, que é a obra-prima deles, eu escolheria Feels, o auge da psicodelia folk que eles experimentavam desde o início da carreira (e que deu no também genial Sung tongs). Em Strawberry jam, outra cria excelente, a sonoridade pesou num tom áspero, mecânico e quase sempre perturbador. Difícil escolher um só. Mas Merriweather, dois passos a frente dos outros, consegue sintetizar tudo o que eles fizeram e apontar para o futuro. Um disco que brinca com uma eletrônica feérica, eufórica, e explora o lado mais emotivo dos versos, que, mesmo quando voltam-se às memórias de infância, não deixam de enfrentar as incertezas do mundo. Uma banda em progresso, crescida, segura de si mesma – e ainda sim, ainda estamos assustados.

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7. Funeral – Arcade Fire (2004)

Visto de longe, o primeiro disco do Arcade Fire não parece muito complicado: conhecemos muitos álbuns sobre a morte. Além do mais, os canadenses não foram os primeiros a fazer indie com escopo e vocação para estádios. Ainda assim, Funeral ainda soa como um disco peculiar, inimitável (e não foram poucos os que tentaram imitá-lo). Poucas obras confessionais têm um conceito tão bem definido – e todas as cinco primeiras faixas soam como a trilha de um filme – e um desejo tão intenso de criar melodias inesquecíveis, perfeitas (e aí vale citar Pixies, U2, pop francês, space rock americano e o diabo a quatro). Uma marcha fúnebre que celebra a vida – eis a bela contradição deste belo disco, uma surpresa que a banda não conseguiu superar (no segundo eles seguiriam um caminho mais dark e épico).

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6. Yankee hotel foxtrot – Wilco (2002)

Até o fim dos anos 1990, o Wilco era uma banda de country rock insatisfeita com a camisa-de-força do gênero. Em Summerteeth, eles brincaram com a psicodelia sessentista, mas o resultado ainda soava polido, como se faltasse coragem para dar o grande salto. Ele viria com Yankee hotel foxtrot, um disco de certa forma maldito, já que rejeitado pela gravadora (dizem até que os executivos ouviram e acharam uma porcaria), e que mostra uma banda em transe. Foi lançado só depois de ter virado objeto de culto na internet, e ainda soa como uma espécie de milagre. Cada vez mais interessado no art rock dos anos 1970 (um estilo, nos discos seguintes, seria lentamente diluído em soft rock), Jeff Tweedy aproveitou-se da produção de Jim O’Rourke para criar uma obra instável, tortuosa, imprevisível e desiludida – um instantâneo da América do início do século. Ainda parece frustrante que a banda tenha optado por, depois disso, seguir um caminho confortável (ainda que o seguinte, A ghost is born, seja todo espinhoso e também belíssimo). Houve um momento, no entanto, em que eles encontraram a sintonia perfeita com o tempo em que vivem.

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5. The grey album – Danger Mouse (2004)

Por que não? Essa perguntinha meio banal deve ter motivado o DJ Brian Burton (Danger Mouse) a cometer a heresia mais brilhante da década: arrombar o cofre dos Beatles, pilhar o tesouro mais sagrado da música pop e combinar os clássicos do Álbum Branco com os hits do Black album, recém-lançado por Jay-Z. Dois discos separados por algumas décadas, mas que, um menos explicitamente que o outro, sugerem uma mesma atmosfera de despedida. A mutação genética não é perfeita (e há faixas truncadas, tortas), mas tem um valor histórico que ainda não conseguimos medir. O disco que esfregou a era da internet na fuça das gravadoras? Um ato de vandalismo artístico? Uma amostra de que nada mais é sagrado? Sinal dos tempos (e apenas isso)? Quem não se importa com esse tipo de análise ainda leva de brinde algumas das canções mais divertidas de todos os tempos. É aquela coisa: proibido é mais gostoso, né não?

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4. White blood cells – The White Stripes (2001)

O White Stripes é a melhor gag da década: um homem e uma mulher que se vestem de vermelho e branco e soam como se uma banda de garage rock tivesse resolvido fazer versões toscas para o repertório do Led Zeppelin. A fórmula de Jack e Meg White ilustrou perfeitamente uma época que elegeu o minimalismo ruidoso como sabor da estação e contraponto aos excessos do rock do final dos anos 1990 (de certa forma, essa foi a nossa interpretação para o punk dos 70 e o grunge dos 90). E, para nosso espanto, White blood cells trazia algo além de contenção e explosão: revelava uma banda de rock com tutano e ambição – e capaz de citar Cidadão Kane em meio a um esporro pós-punk (cinco pontos só por isso!). Os dois discos seguintes são tão bons e relevantes quanto, mas esta aqui é a cápsula que contém todos os segredos e manias do casal 2000. E nem preciso comentar Fell in love with a girl. Preciso?

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3. Stankonia – Outkast (2000)

Olhe para a década: os grandes discos de hip hop lançados nos últimos 10 anos são os musicalmente irrequietos, que forçam os limites do gênero e saem furiosamente para a aventura. Jay-Z, Kanye West , à frente deles, o Outkast. Depois de ter implodido dentro de um maravilhoso e louco álbum duplo (Speakerboxxx/The love below), o duo acabou perdendo parte do poder de influência que tinha no início da década. Mas não custa lembrar: até 2003, eles ditaram quase todas as regras, até dominar o pop por completo (com o hit Hey ya!) e deixar a cena sorrateiramente.

Há quem prefira os primeiros álbuns, também alienígenas, mas Stankonia hoje soa como o auge criativo de Big Boi e André 3000 — numa comparação ridícula, é o Sgt. Pepper’s deles (e, naquela época, não conseguimos antever o Álbum Branco). E um período de colheita generosa, com 24 faixas, 74 minutos e clássicos absolutos como Mrs. Jackson e B.O.B. Já estavam claras as diferenças entre André (o soulman insano) e Big Boi (o mano apegado a boas tradições) — mas, ali, elas se uniam numa química imbatível. Um daqueles discos imensos que nos deixam muito pequenos.

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2. Is this it – The Strokes (2001)

Lembro a primeira vez em que ouvi um single do Strokes (acho que The modern age): apaguei o arquivo de MP3 e fui procurar outro. A qualidade de som parecia terrível. Depois, envergonhado comigo mesmo, notei que o jogo era aquele: a atmosfera ruidosa das gravações (que pareciam saído de uma fita demo largada num estúdio abandonado de Nova York por volta de 1967) contava tanto, talvez mais, que as melodias e as letras. De qualquer forma, todos os elementos se complementavam. Sabemos tudo sobre o hype criado em torno deles — e provocado por uma imprensa inglesa que ainda era poderosa nesse ramo —, mas (ao contrário de queridinhos como The Vines e Kings of Leon) eles sobreviveram heroicamente a tudo.

Hoje, fica claro por que: Julian Casablancas honra a tradição dos grandes band leaders, sempre prontos a se rasgar de angústia diante do público (e o disco posterior, o ótimo Room on fire, aprofunda o tom desesperado e pessoal das composições) e Albert Hammond Jr entende tudo sobre o poder hipnótico de um riff palatável (o projeto solo do sujeito não nos deixa mentir). Uma banda simplesmente real. E oportunista, no bom sentido. Nenhum outro grupo soube aproveitar com tanta gana o revival do rock de garagem e do pós-punk: endividados tanto com o Velvet Underground quanto com o Ramones, eles restauraram Nova York como um fervilhante laboratório de rock. Taí, então: um dos poucos discos da década que merecem entrar numa lista não tão longa de grandes álbuns de todos os tempos.

radiohead

1. Kid A – Radiohead (2000)

Não importa se você ouviu ou não ouviu Kid A (ou se você prefere Hail to the thief – ninguém é perfeito): nenhuma discussão sobre o rock do início do século se sustenta sem alguma referência a este disco. É grande assim. Produzido num período de transição para a indústria musical, foi um dos primeiros a se integrar intensamente à onda da troca de arquivos via internet (na lista de melhores discos de 2000, a revista Spin deu o primeiro lugar apropriadamente para o hard drive dos computadores dos leitores, e em segundo ficou Kid A) — e, para muitos fãs, o “último suspiro” da era do álbum. De qualquer uma das formas, é um triunfo do timing. O disco certo para um mundo errado.

Se Ok computer se deixa afinar por tradições do rock — o progressivo, o pós-punk, o goth rock dos anos 80 —, Kid A derruba os dogmas e barras de segurança em busca de uma sonoridade nova, radicalmente atual (e, com o excelente In rainbows, a banda novamente confrontou ideias dadas como intocáveis). Com o esforço de se reinventar, o Radiohead renasceu como um projeto de eletrônica e jazz-rock capaz de compor canções fragmentadas, tortas, que transportam para o processo de composição toda a confusão que Thom Yorke sempre imprimiu às letras de canções. Antes, ele comentava a paranoia urbana, a opressão tecnológica. Com Kid A, converteu todas essas angústias em pura música. Dos sintetizadores sufocantes de Everyting in its right place à metralhadora eletrônica de Idioteque, tudo é agonia. E o mundo (da música, pelo menos) acordaria perturbado desse pesadelo.

2 ou 3 parágrafos | Che 2: a guerrilha

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cheg

É o terceiro Soderbergh que vejo este ano e estou quase desistindo do próximo. Encheu meu saquinho.

Entendo esse cinema, sei onde ele quer chegar, mas descobri que nunca vou conseguir admirá-lo. E não adianta ficar tentando. É que o cineasta olha o mundo de uma distância tão segura, tão confortável, que é como se usasse luvas de plástico para lidar com os personagens e os assuntos dos próprios filmes. Aposto que se envolve com eles (caso contrário, não teria se metido no mato para filmar este Che, e aposto que foi uma experiência difícil e dolorida), mas não deixa que esse encontro apareça na tela. E, se o diretor parece não se importar profundamente com nada do que vê, por que eu deveria me importar?

E Che 2 (4.5/10), talvez o auge desse cinema sem sangue, merece um só parágrafo: juntando as duas partes, é impressionante como Soderbergh, em quatro horas!, não se arrisca a interpretar o personagem que dá nome ao filme. Che não tem direito a uma dimensão psicológica — é uma estampa de camiseta ambulante. Começa o filme como um herói íntegro e idealista — e termina exatamente do mesmo jeito. Pior: termina como uma espécie de Jesus Cristo latino, barbudo e sábio. Aposto que o filme segue à risca o relato dos fatos, o diário de Che, os livros de história etc: mas esse tipo de fidelidade não é o que mais me interessa no cinema. Na verdade, me interessa muito pouco. Quando revestida com esse tipo de frieza supostamente jornalística, apenas me entedia. Soderbergh: eu passo.

50 discos para uma década (parte 4)

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tvradio

20. Dear science – TV on the Radio (2008)

No início da carreira, o TV on the Radio lançou um álbum-demo chamado Ok calculator. Mas é em Dear science que eles revelam um senso de aventura que lembram o terceiro disco do Radiohead. A combinação de glam, pós-punk e percussão-em-brasas já estava devidamente formatada no disco anterior, o excelente Return to Cookie Mountain (2006). Mas o esforço de imprimir uma atmosfera urbana (um raio de neon, digamos) nesse estilo ganha sentido em Dear science, um álbum que soa como uma fotografia granulada e fosforescente do estado de coisas no indie rock americano.

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19. The blueprint – Jay-Z (2001)

O álbum definitivo de Jay-Z vale por um Scorsese safra 70: é um filme moderno de gânsgster narrado como um desabafo, um fluxo de consciência (e sempre que ouço o disco imagino o rapper recitando os versos num confessionário). As rimas são perfeitas, mas a surpresa é que, aqui, a música é tão cortante quanto as palavras — com samplers de Jackson 5, The Doors, David Bowie, Natalie Cole e Al Green, Jay-Z cria um clássico a partir de cacos de outros clássicos. E é preciso ser gênio para transformar esse tipo de picaretagem em grande arte.

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18. Ys – Joanna Newsom (2006)

Joanna Newsom é uma menina de traços angelicais que toca harpa e, por tudo isso, não deveria assustar ninguém. Mas, surpreendentemente, virou uma das figuras mais controversas da década, provocando discussões quase violentas entre defensores e detratores  (e ainda conheço gente que a considera uma grande farsa). Ys não é disco para quem tem pressa: com sete faixas e 55 minutos de duração, narra uma fábula folk que soa como um delírio barroco. Ou tudo ou nada. Os arranjos de cordas deslumbrantes de Van Dyke Parks e a produção crua de Steve Albini criam um universo. E não tente encontrar outro igual.

lcd

17. Sound of silver – LCD Soundsystem (2007)

Em termos objetivos, é muito fácil explicar a importância do disco: ele consolidou e popularizou o crossover de rock e eletrônica na cena de Nova York (com uma leve vantagem para o rock) e fez de James Murphy um ídolo de carne e osso (o disco de estreia, ainda que brilhante, não arriscava canções tão pessoais). Isso tudo é notável, mas o que me atrai no álbum é o modo franco como Murphy, quase quarentão, trata de um tema pouco comum tanto no rock quanto na eletrônica: a idade adulta. Os amigos não estão lá (All my friends), a morte assusta (Someone great), Nova York pode ser um lugar terrível (New York, I love you’re bringing me down) e a pista de dança não cura mais. Ainda assim, talvez ironicamente, um dos grandes discos de festa da década.

mia

16. Kala – M.I.A. (2007)

Toda essa história de pop global, na prática, soa terrível. Durante a década, muito se falou sobre encontros sonoros improváveis (facilitados pela web, blablabla), mas pouco se ouviu de verdadeiramente interessante. M.I.A. é uma exceção — talvez por conseguir transitar naturalmente entre diferentes culturas (e ela própria parece não pertencer a lugar algum). Arular era um grande disco, mas Kala é uma provocação ainda mais saborosa. De Bollywood (Jimmy) a Gwen Stefani (Boyz), é talvez o único disco da década que encarna verdadeiramente o transe mundial sem soar melancólico. M.I.A. é mais sofisticada que isso. E Paper planes nem precisava ter virado um hit planetário…

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15. Late registration – Kanye West (2005)

Na maior parte das vezes, o ego de Kanye West é maior que sua música. Mas, em Late registration, ele nos deixou sem argumentos. O blockbuster, que vendeu 4 milhões de cópias nos Estados Unidos, é a maior demonstração que o hip hop roubou do rock o poder de redefinir o mainstream. Com ótimos convidados suspeitos (Maroon 5? Jamie Foxx?) e coração geek (ele é um fã de cultura pop, e isso ficou mais claro que nunca), West fez um legítimo candy shop, viciante e impecável. E que ninguém esqueça de Jon Brion, envenenando os doces.

queens

14. Rated R – Queens of the Stone Age (2000)

Por um momento, em 2000, o Queens of the Stone Age nos fez acreditar na possibilidade de um revival grunge. Durou pouco (e a própria banda resolveu seguir caminhos mais sombrios), mas o efeito entorpecente de Rated R continua zunindo no meu ouvido. Uma espécie de continuação sacana e perversa para Nevermind, do Nirvana, o álbum lustra o stoner rock do disco anterior em formato mais direto e melodioso. Há hits que nunca fizeram o merecido sucesso (Feel good hit of the summer e The lost art of keeping a secret) e as loucuras de Nick Oliveri ainda soam hilariantes.

apologies

13. Apologies to the queen Mary – Wolf Parade (2005)

Pode não ser o grande disco da década, mas soa como o melhor do mundo. A estreia do Wolf Parade vale por duas: é um disco de Spencer Krug (Sunset Rubdown) e de Dan Boeckner (Handsome Furs), dois compositores à flor da pele. Produzida por Isaac Brock (Modest Mouse), a estreia da banda é como um resumo prematuro de carreira. Tomado por fantasmas, oscila entre duas personalidades (Boeckner é quase gentil, já as faixas de Krug são pura agonia) e soa urgente, como se o mundo estivesse sempre prestes a explodir.

spoon

12. Kill the moonlight – Spoon (2002)

A mente matemática de Britt Daniel encontrou a equação da perfeição pop. Kill the moonlight apareceu do nada e ainda impressiona como um disco conciso, sem uma única nota em falso. Com um estilo rigorosamente econômico (um contraponto suingado para o Shins, a banda cria verdadeiros hinos que cabem em 2 minutos de duração, como The way we get by e Something to look forward to. Nos discos seguintes, a banda habitaria um casulo maior e mais confortável. Mas nunca soariam desse jeito: maravilhosamente pequena.

bob

11. “Love and theft” – Bob Dylan (2001)

Bob Dylan pode não ter se dado conta disso, mas os discos gravados desde Time out of mind casam perfeitamente com uma época em que o rock voltou-se ao passado para, na combinação de formas antigas, criar novos ambientes musicais. O Dylan de “Love and theft” não é simplesmente retrô — é como se o homem tivesse finalmente conseguido encontrar uma sonoridade que procurava desde os anos 1960. Tanto quanto as canções (que são excelentes), o que importa é a atmosfera das gravações — filmes em branco e preto. E não é isso que fazem Strokes e White Stripes?

***

A parte final da lista eu posto quinta-feira às 22h. Se vocês quiserem acompanhar, será bacana. Vou atualizar aos poucos pra aumentar o suspense, ok?

50 discos para uma década (parte 3)

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Meio caminho andado, vamos à longa, tortuosa lista dos meus favoritos da década. Lembrando que é uma lista que não tem o objetivo (pelo menos não totalmente) de mapear o que de mais relevante e interessante foi lançado no período – no fim das contas, é apenas a relação dos discos que amo e guardo comigo.

grizzly

30. Yellow house – Grizzly Bear (2006)

Depois da estranheza inicial, já podemos tratar o Grizzly Bear como uma banda de indie rock não tão alienígena. O terceiro disco deles, Veckatimest (2009), afirma uma marca que hoje começa a soar talvez excessivamente familiar (melodias sideradas à Brian Wilson, coros texturas de acordes que sugerem paisagens exóticas e, acima de tudo, um desejo tocante pela canção mais sublime). Mas ainda é impossível esquecer o impacto de Yellow house, um transe folk que de vez em quando até produz  uma ou outra obra-prima pop. E tem Knife, uma das melhores canções da década. 

poses

29. Poses – Rufus Wainwright (2001)

Depois de uma estreia com queda pelo pop barroco, o segundo disco de Rufus Wainwright chegou cercado de expectativas. E ainda soa assim: como um testamento, um ato ambicioso de autoafirmação. Sem esconder-se em nichos, Wainwright adapta as próprias manias a um contexto pop. Com versos que beiram o rococó (um disco com imagens de príncipes e anjos malvados, enfim) e empostação às vezes quase operística, o cantor busca um lugar no mundo (e encontra) enquanto narra os pesadelos de celebridades amaldiçoadas pela própria beleza. No projeto seguinte, o duplo Want, essas e outras obsessões seriam amplificadas em formato widescreen. Mas o nascimento de um autor já havia sido registrado – aqui, em Poses.

superfurry

28. Rings around the world – Super Furry Animais (2001)

O álbum mais polêmico dos galeses (à época do lançamento, muitos trataram como uma jogada comercial que não deu tão certo), a estreia da banda numa grande gravadora é um blockbuster multicolorido que pareceria simplesmente ridículo se não soasse bem humorado, irônico e absolutamente criativo. Eles gravaram discos tão tresloucados quanto (Guerrilla, por exemplo), mas nenhum tão seguro das próprias sandices. Depois dele, a banda entraria numa fase de maturidade quase serena (e previsível). Mas o “álbum pop” do Super Furry Animals é o tipo de megalomania que compensa. The Who e Queen aprovariam (e eu lembro de ter passado três ou quatro meses ouvindo sem parar).

holdsteady

27. Boys and girls in America – The Hold Steady (2006)

A crônica dos meninos e meninas da América encontrou um narrador: no rock americano, é Craig Finn quem mais entende as oscilações da juventude – os dramas, do tédio, do inferno e do paraíso. Ainda assim, poucos esperavam por um disco tão perfeito quanto Boys and girls in America. Depois de ter criado a trilha para as vidinhas triviais de uma turma de personagens mais-ou-menos desajustados (e também adoráveis, estúpidos, inseguros), o Hold Steady escreve os hinos de uma geração perdida. Os versos valem por si só (e Stuck between stations é emocionante do início ao fim), mas a banda envolve as narrativas com melodias que poderiam estar num dos grandes discos de Bruce Springsteen.

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26. Illinois – Sufjan Stevens (2005)

O grande disco de Sufjan Stevens é um estado inteiro: excessivo, caótico, contraditório e muito mais ambicioso do que teria o direito de ser. O impressionante é como o compositor consegue se colocar à altura de tanta ambição (e quem não abandonou o disco de primeira sabe que não há uma única faixa sobrando) e cria um álbum tão cuidadoso quanto emotivo e pessoal – um mapa sentimental para uma Illinois de monumentos imponentes, serial killers melancólicos e de lembranças que definem a aparência das paisagens. Provavelmente Sufjan não vai conseguir fazer nada igual. Mas tudo bem: já fez, e ainda soa inacreditável. 

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25. Franz Ferdinand – Franz Ferdinand (2004)

Entra na lista como um dos discos britânicos fundamentais da década (um sucesso comercial que influenciou meio mundo), mas não só por isso. Se todo o revival do pós-punk teve um quê patético, Alex Kapranos soube perfeitamente como tratar a febre indie com um sorrisinho ácido – e, no som do Franz Ferdinand, há tanto de Talking Heads e Gang of Four quanto de Damon Albarn e Jarvis Cocker. A estreia da banda pode não ter provocado a surpresa de Strokes e White Stripes, mas acabou produzindo alguns dos hits mais duradouros da década: a começar por Take me out, que ainda toca nas festas como se tivesse sido lançado há um mês. Os dois álbuns seguintes repetem o truque.

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24. Sea change – Beck (2002)

O Blood on the tracks de Beck Hansen é uma obra-prima do amor perdido. A história é velha: depois de sofrer uma crise sentimental, compositor grava um álbum de baladas confessionais e tristes. Quem tratou Sea change como uma dor de cotovelo passageira perdeu a melhor parte do drama: acostumado a calcular os próprios projetos como quem desenha maquetes para uma obra, Beck se arriscou a expor os próprios fantasmas sem abandonar a obsessão por álbuns de pop art, conceituais. Com influências de folk britânico e pop francês, o disco convoca Nick Drake, Air e Dylan para uma viagem ao fundo da noite. Nigel Godrich produz como quem escreve uma carta de amor – gentilmente. Depois disso, Beck voltaria aos bons tempos e (santa ironia!) gravaria os discos mais confusos e desconjuntados da carreira.

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23. Oh, inverted world – The Shins (2001)

O fenômeno mais surpreendente da década atendeu por The Shins, uma banda de New Mexico que, sem guitarras ruidosas ou hits do tamanho do mundo, se transformou no maior sucesso da Sub Pop desde o Nirvana. Quem explica? Ainda que alguém tente, é melhor lembrar que a “bandinha” ensinou algumas lições aos candidatos a Axl Rose: com 30 minutos de melodias delicadas, é possível ganhar o mundo. A aparência de total despretensão, no entanto, é enganosa: com o tempo, o indie rock econômico da banda revela uma precisão quase microscópica (e qualquer um dos discos da banda acaba soando atemporal) e apaixonante, atualização generosa do pop psicodélico dos anos 1960. Não é por pouco que Natalie Portman não desgruda dos headphones…  

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22. Blueberry boat – The Fiery Furnaces (2004)

O Fiery Furnaces começou a década como uma banda incompreendida e termina exatamente do mesmo jeito. Taí o preço que se paga por querer fazer as coisas da forma mais complicada. No primeiro disco, Eleanor e Matthew Friedberger viraram alvo de uma imprensa musical à procura de um novo White Stripes. Azar o dela. Blueberry boat coloca os pingos nos is. Uma ópera-indie em três dimensões, soa como o oposto perfeito de qualquer projeto de Jack White – e cria uma ponte inusitada entre The Who e Captain Beefheart. É um dos discos mais originais da década – mas quem tem paciência para canções de oito minutos que se desdobram em vinte outras melodias que se multiplicam em cinco refrãos inesquecíveis e descambam em três faixas que não deram certo? Não me pergunte.

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21. Antics – Interpol (2004)

Antes de assinar com uma gravadora grande e diluir os próprios métodos, o Interpol era uma banda que interpretava o rock sombrio dos anos 1980 com o olhar de quem cresceu assistindo a Kurt Cobain na MTV. Turn on the bright lights provocou susto, mas foi com Antics que a banda se sentiu confortável para abrir uma fresta e escrever alguns dos novos clássicos de uma onda que recebeu o apelido genérico, e enganoso, de “novo rock”: Evil, NARC, Slow hands e uma abertura (Next exit) que soaria como um anticlímax se não fosse interpretada com tanta convicção. E isso, apesar de tudo, Paul Banks tem de sobra: ele canta como se estivesse na beira do precipício, e a gente acredita.

Remind me | Röyksopp

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Já que o momento é de flashback da década (e volto com a lista dos melhores discos no início da semana que vem, prometo), aí vai um clipe que descobri recentemente e entraria seguramente num top 20 meu. Criado pelo estúdio francês de animação H5, o vídeo de 2007 explica o mundo, a vida e tudo o mais num punhado de infográficos.