Mês: agosto 2011

Mixtape! | Agosto, die young

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A mixtape de agosto, que agora vocês têm em mãos, me tomou de surpresa. Primeiro porque ela soa mais coesa (e intrigante!) do que eu previa. E, em segundo lugar, por um motivo que só descobri depois de ter ouvido o CDzinho pela terceira vez: ele se tornou muito mais cinzento do que a coletânea que eu planejei.

Acidentes acontecem, pois bem. E esta mixtape, oh sim, aqui me parece um belo acidente.

Logo depois que gravei o CD, me decepcionei um pouco com o resultado: parecia disforme, desajeitado. Depois percebi que ele fazia todo sentido. E exclamei, aqui comigo: “Uau! Ficou incrível!”. Hoje, neste último dia de agosto, estou certo de que é a melhor mixtape que apresentei neste nobre espaço on-line.

Mas essa é apenas a minha opinião, ok? Vocês têm todo o direito de xingar muito na caixa de comentários, é claro.

Deixe-me explicar o processo: esta mixtape começou como uma coletânea de hip-hop/R&B, e foi se transformando em algo totalmente diferente. Noto que existe uma camada de tristeza, talvez mal estar, ao redor destas canções. Não é uma mixtape eufórica como a de julho, e não funciona muito bem em academias de ginástica.

Acho até que, se vocês prestarem atenção, o disquinho contará a historinha de um amor violento que deu terrivelmente errado. E tem outra coisa: durante o mês, me peguei conversando muito (com minha família, amigos) sobre o medo que as pessoas têm de envelhecer, e sobre como às vezes se tenta prolongar a juventude (sem sucesso, obviamente). Talvez o disco seja um pouco sobre isso (e, por coincidência, tem uma música chamada Die young).

Sem mais divagações, então: este CD contém faixas de Richmond Fontaine, The Weeknd, Girls, Stephen Malkmus & Jicks, Kanye West & Jay-Z, Cities Aviv, Ford and Lopatin, EMA e Gillian Welch (para o Guilherme Semionato, que às vezes visita este blog). O melhor está no fim: a foto acima, portanto, é do Moonface.

A lista de músicas está na caixa de comentários.

Há duas formas de ouvir o CD: aqui no blog e fazendo o download. Eu sugiro a primeira opção (com músicas editadas e lustradinhas), mas a segunda é sempre muito válida (eu mesmo prefiro ouvir essas mixtapes enquanto caminho por aí). Espero que vocês gostem, e, se possível, deixem comentários.

Faça o download da mixtape de agosto

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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An empty bliss beyond this world | The Caretaker

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Na época em que eu, minha mãe e minha irmã começamos a perceber que meu padrasto estava doente, conversar sobre o assunto era abrir a porta para uma sala assombrada. Não nos parecia agradável entrar naquele ambiente — por isso, às vezes ficávamos em silêncio, escondidos num canto do corredor.

Hoje, três anos depois, já conseguimos falar na doença sem evitar as partes difíceis. Aprendemos (ainda não sei como) a lidar com a ideia de que nossos dias seriam os frames de uma cena (talvez longa) de despedida. O importante é que essa não nos parece uma história tão dramática.

Talvez porque doenças degenerativas — como é o caso do Alzheimer — nos obriguem a enfrentar a vida no que ela tem de inevitável. Lá em casa ficou mais claro, ficou ainda mais óbvio, que vamos todos morrer. E possivelmente com sofrimento.

Acontece que, agora, já pergunto ao meu padrasto sobre a sensação de perder o controle sobre a memória e notar que ela se desintegra. Então ele explica que setores do cérebro implodem como que aleatoriamente, e não em definitivo. Às vezes ele dá conta de preservar imagens da infância, mas às vezes não. Há dias em que, na hora do almoço, já esqueceu de todas as atividades da manhã — mas segue recordando o nome de colegas de trabalhos que não o veem desde 1991.

Nas primeiras fases, a doença tem um aspecto inusitado (e terrível): ela ataca a vítima, mas permite que ela — a vítima — perceba com muita clareza que o ataque está em curso. Ela — a presa — nota que está perdendo a memória, e que o próximo lapso pode ocorrer a qualquer instante. Quando tenta buscar uma determinada lembrança, meu padrasto às vezes vai de encontro a uma muralha branca. Depois tenta se convencer de que não existe nada atrás dela.

Neste oitavo disco do Caretaker, o inglês James Leyland Kirby tenta representar as sensações de uma pessoa que se esforça para lembrar de imagens do passado. A perda da memória é um dos temas recorrentes no projeto do músico, iniciado como uma espécie de reflexo desfocado para a cena do baile de O iluminado (o colapso de Jack Torrance é a referência que Kirby sempre tira da manga).

A pergunta do Caretaker vem e volta no looping eterno, já que não encontra nunca uma resposta a direta, que pode ser aplicada a todas as situações. Como o nosso cérebro captura e reconstrói as lembranças? Enquanto ouço o disco, me vejo fazendo essa pergunta ao meu padrasto (e ele responderia com um grunhido; ainda não aceita a doença).

Como num álbum de pós-rock, os títulos das músicas de An empty bliss beyond this world parecem complementar o sentido das canções: “Momentos de suficiente lucidez”, “O grande mar escondido do insconsciente”, “Um relacionamento com o sublime”, “Eu sinto como se estivesse desaparecendo” e, meu preferido, “Cavernas mentais sem luz do sol”.

Mas este não é um álbum de pós-rock. Em tese, é um disco de laboratório: Kirby fragmenta os samplers de velhas canções de jazz dos anos 1930 e 1940 para simular o que há de desordenado (e assustador, estranho, às vezes sublime) na atividade do cérebro. Na prática, no entanto, esse delírio não soa como uma experiência desapaixonada: o disco pode ser ouvido como uma coleção de velhos discos de vinil, arranhados e tortos, com melodias de piano e sopros que alegravam os salões num passado que nos parece longínquo, perdido.

É como se esses acordes circulassem entre as paredes do salão de O iluminado — um espaço tão nostálgico quanto assombrado, que pode muito bem representar o cérebro de um homem atormentada.

O som produzido por Kirby soa familiar — na primeira audição, fiquei com a impressão de já ter ouvido todas aquelas harmonias num filme do Woody Allen — e, ao mesmo tempo, insano, “errado” (como num filme de David Lynch), já que o músico polui as gravações originais com quebras de ritmo, pausas abruptas, ruídos de vinil, eco. Algumas músicas terminam na metade da duração da faixa, recomeçam logo em seguida e são encerradas no tranco. Quando estamos finalmente nos apegando a elas, desaparecem.

Há faixas que passariam como música ambiente para restaurantes chiquérrimos e retrô, como All you are going to want to do is get back there. E há faixas fantasmagóricas e hostis, como I feel as if I might be vanishing, que talvez remetam às lembranças inacessíveis, às portas que estão trancadas para sempre.

Outro dia mostrei trechos do disco para o meu padrasto. Ele sorriu quando expliquei as intenções de Kirby. Meu velho, um fã de Pink Floyd, adora álbuns ambiciosos. Ouviu com atenção. Acho que se aborreceu com algumas repetições. Notou um “barulho irritante”. E foi só.

Kirby se inspirou num estudo que mostra que pacientes com Alzheimer têm maior facilidade de lembrar informações quando elas são inseridas num contexto musical. Meu padrasto não lembrou das músicas do Caretaker (cinco minutos depois de ter ouvido o disco, era como se a experiência não tivesse acontecido), mas taí um belo projeto: criar obras de arte que resistam à degeneração do nosso corpo; e que permaneçam por um pouco mais de tempo quando nossas lembranças começarem a desaparecer.

Oitavo disco do The Caretaker. 15 faixas, com produção de James Kirby. Lançamento History Always Favours the Winners. 81

Thursday | The Weeknd

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Thursday, a segunda mixtape do The Weeknd, é uma continuação de House of balloons, lançada há cinco meses. Mas não uma sequência direta, linear. O que o álbum novo faz é cavar um porão que nos leva ao subsolo daquele outro disco — e, principalmente, a uma camada subterrânea onde germinam as sementes sinistras da faixa mais elogiada que eles lançaram até aqui, Wicked games.

Essa não é, se você quer mesmo saber, a minha música preferida naquele álbum. Mas ela passou a representar, para todos os efeitos, a sonoridade que o Weeknd ia tateando ali: uma versão beira-de-abismo, degenerada, para o R&B comercial. Os lugares-comuns do gênero (a sensualidade forçada, o romantismo canalha, a macheza quase grotesca) eram distorcidos até soar, a um só tempo, monstruosos e plausíveis — como num bom thriller psicológico.

No post sobre House of balloons, escrevi sobre o viés do disco que mais me impressiona: ele soa como uma ótima narrativa de ficção. O canadense Abel Tesfaye (com os produtores Doc McKinney e Illangelo) criou um personagem noturno e autodestrutivo que poderia ser encontrado num livro de Bret Easton Ellis, por exemplo, ou de um Chuck Palahniuk.

O tipo era encenado com tanta convicção que, para o bem das licenças poéticas, teve que permanecer oculto: Abel ainda se recusa a dar entrevistas, e faz poucos shows. Talvez por entender que as mentiras do Weeknd nos atraem porque permitem que a nossa imaginação participe da composição da narrativa — mais ou menos como fazemos ao ler um bom romance.

Em Thursday, esse herói dark retorna para uma aventura nova. Mas, ao contrário de House of balloons, que alternava momentos de euforia e de crises quase suicidas (e o melhor exemplo dessa bipolaridade é a faixa de duas faces The party & the after party), desta vez encontramos o personagem num estado de quase paralisia. E numa madrugada ainda mais congelante.

Em Wicked games, que explica quase tudo sobre esta mixtape nova, Abel resumia as noitadas do The Weeknd com um “diga que me ama, mas só por esta noite” (e, antes disso, “traga as drogas, baby, que eu trarei minha dor”). Thursday alarga essa sensação de experiências vazias, relacionamentos apáticos e amores que só têm serventia até o momento em que a dor passa.

O discurso hedonista do The Weeknd pode ser interpretado como o reflexo de uma estética musical publicitária e juvenil (que eles consomem e vomitam em seleções de MP3 for-free) ou como uma reação, um comentário sobre os artifícios do pop. Não se sabe, e Abel não faz questão de explicar. O que ele faz é forçar fissuras do formato de um típico hit de R&B. Não há futuro possível para os personagens de faixas como The birds, pt 1. “Nunca se apaixone por um sujeito como eu”, ele canta. E sem o entusiasmo: a ideia de liberdade, aqui, não resolve muita coisa.

Mas, voltando a Wicked games, Thursday soa como um longo prolongamento daquela música (às vezes longo demais). Cá estão as guitarras de goth rock, os versos depressivos, o fumacê sonoro que nos remete a um disco como Mezzanine, do Massive Attack, e os gemidos cada vez mais agudos, dilacerados mesmo, de Abel. Algumas músicas não terminam nunca — é um disco longo, agonizante, e soa assim porque é a forma como esta história deve ser contada.

Em comparação a House of balloons, no entanto, Thursday soa como um apêndice — uma cena que expande outra cena, uma espécie de extra de DVD. Tudo o que aparece aqui já estava lá, só que é saturado numa textura granulada, desfocada por efeitos de dub e por guitarras que explodem e depois vão apodrecendo lentamente.

Também em comparação ao outro disco, este me parece um tanto mais apressado, como se tivesse sido escrito numa madrugada (enquanto que o outro parece elaborado com mais paciência). Os versos ruminam cenas redundantes e, com um pouco de boa vontade do ouvinte, podem sugerir uma narrativa circular, uma ressaca dentro de uma ressaca dentro de uma ressaca. “Não quero morrer esta noite, baby”, diz Abel, na modorrenta The zone (com participação de Drake).

Se não é dos capítulos mais poderosos, Thursday entrega um personagem agora completo: o herói decadente de House of balloons caminha pela cidade como um pária de graphic novel. Que nos seduz e enoja — e nos obriga a esperar pelos próximos capítulos com curiosidade, mesmo que mórbida.

Segunda mixtape do The Weeknd. Nove faixas, com produção de Doc McKinney e Illangelo. Faça o download aqui. 76

Father, son, holy ghost | Girls

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A adolescência é uma fase tão estranha que você (no caso, eu) consegue gostar de Elliott Smith e de Oasis simultaneamente — e dá conta de ouvi-los numa mesma tarde, um depois do outro, assim, como se nada absurdo estivesse acontecendo.

Com o passar do tempo, fui me aproximando mais de Elliott Smith e me afastando progressivamente do Oasis. Talvez menos porque me tornei um sujeito mais sensato (permaneço um crianção) e mais por uma questão de temperamento.

Quando tento entender o que me conecta aos discos que amo, uma característica sempre se apresenta. Resumindo de um jeito singelo: são álbuns que dão forma musical a sentimentos/ideias/experiências/impressões individuais (e, por isso, únicas).

Parece algo corriqueiro (e seria incrível se fosse), mas o que ouço geralmente é o contrário disso: músicos que usam fórmulas, chavões, “tendências” para lustrar discursos que não têm nada de verdadeiramente pessoal. Há inúmeras canções de amor. Não são todas as que soam singulares.

Daí as diferenças entre um Elliott Smith e um Oasis. Elliott Smith não escrevia “canções de amor”, mas músicas sobre sensações e situações específicas, que diziam respeito ao modo (um tanto romântica, um tanto desencantada) como ele notava as relacionamentos amorosos. Os arranjos, nos melhores casos, se integravam às letras de tal forma que entenderíamos Smith mesmo quando ele apenas gemia algumas harmonias vocais à la Beach Boys.

Já o Oasis escrevia “canções de amor” enormes, para espelhar as experiências de todo um planeta — mas não comunicavam nada de muito específico.

O que Noel Gallagher pensa sobre o amor? Mesmo hoje, depois de ter ouvido todos os discos do Oasis (e, alguns deles, mais de uma vez), sigo me perguntando. Existe algo singular nessas canções? Algo que só pertença ao Noel Gallagher? E nas harmonias, nos arranjos? Noel consegue criar sonoridades que se relacionem minimamente àquilo que ele canta ou compõe? Se fosse um cineasta ou um artista plástico, Noel teria feito bons quadros/filmes?

Acredito que a resposta para todas essas perguntas é não.

O que não desqualifica, de forma alguma, o status de “rockstar” que Noel exibe sempre com muito orgulho. Há tradições no rock que validam uma banda como o Oasis — que quer escrever hinos sobre sentimentos-clichê para multidões anônimas. Quando cria versos como “conte comigo, porque ninguém sabe o que vai acontecer”, a banda simula o efeito de cartões postais ou mensagens de powerpoint: slogans que falam a todos, talvez por não falar pontualmente a ninguém.

É claro que será sempre fracassada a tentativa de dividir a música pop entre os artistas (Elliott Smiths) e os populistas (Oasis), até porque as coisas são um pouco menos catalogáveis – acidentes e bizarrices e erros sublimes acontecem. Mas percebo que muitas bandas às vezes flutuam entre esses extremos — ou, em alguns casos, querem ser uma coisa (artistas, por exemplo) quando acabam resultando em outra (populistas, digamos).

Percebo isso no Girls. E é chato comentar sobre o assunto só agora, depois de ter elogiado os dois discos anteriores do grupo. Mas é neste Father, son, holy ghost que o grupo parece finalmente afirmar uma postura musical. E essa postura me parece uma tese à la Elliott Smith que, na prática, se mostra um conjunto de hinos à la Oasis.

Numa entrevista à Spin, o vocalista (e candidato a Cobain/Elliott/Buckley) Christopher Owens comentou que o título do disco foi escolhido para refletir a “qualidade espiritual” do álbum. Pois bem. É um bom começo de conversa sobre o que acontece aqui.

A intenção de Owens está clara: soar franco, rascante, um homem à flor da pele, um singer/songwriter à beira do precipício (e outros lugares-comuns herdados lá de Nick Drake). Uma das músicas, percebam, atende por Vomit. E as letras são escritas quase sempre com a simplicidade de um primeiro rascunho: “Parece que tudo, tudo, tudo acabou. Sinto que ninguém está feliz agora”, ele lamenta, em Just a song. É um post, um tweet.

Até aí, nada de muito novo para quem conhece o Girls. Mas, se compararmos a sonoridade deste disco à estreia de Owens, de 2009, algo parece diferente. É como se, com a ajuda do produtor Doug Boehm, o compositor tentasse exprimir “maturidade” apertando o spray da polidez sonora. Não vou ficar surpreso se encontrar este disco em muitas das listas de melhores do ano: ele tenta uma espécie de crossover com o público desinteressado (porém cool) que só conheceu Cat Power graças ao soul lavadinho de The greatest.

Ao ordenar e espanar algumas inclinações musicais que já apareciam nos discos anteriores (o gosto pelo pop vocal dos anos 1960, pelo pré-rock de Buddy Holly e um feijão-com-arroz sentimental que inclui algo de McCartney e Donovan), Owens acaba optando por um som anódino, vazio de sentidos, que parece existir só para envolver canções bonitas. Estamos falando de um disco que não soa como um álbum, mas como uma compilação de músicas bacanas que Owen compôs nos últimos meses.

E aí vão dizer que é “desencanado”, que é “despretensioso”, e vão usar os adjetivos que as pessoas usam para valorizar obras que miram pouca coisa e acertam menos ainda. O que me incomoda, no entanto, é outra coisa: as canções de Owens (e, se estamos falando de um “disco de canções”, é hora de irmos a elas) são coleções de frases de efeito, de sentimentos “universais” que encontramos num álbum do Coldplay, do Travis e, claro, do Oasis.

Não vou listar todos os casos de indulgência poética (são muitos), mas aí vão alguns: “Você seguraria a minha mão? Estou mais gelado que a neve. Mas quem se importa sobre o amor? Podemos fugir?” (em Alex), “Eu saí e conheci o mundo moderno, mas sinto falta da vida quando você era minha garota” (em Jamie Marie), “Você espantou meus medos, agora vou ficar com você, ninguém faz com que eu me sinta melhor” (em Magic) e a pior: “Oh, deus, estou cansado e meu coração está partido. É tão difícil se sentir sozinho e tão longe de casa” (My Ma).

Um argumento possível para versos tão humildes é que eles seriam condizentes com muitas das referências musicais de Owens, que parece sentir um tanto de nostalgia por um tempo em que o rock produzia faixas mais imediatas e ingênuas (ou falsamente ingênuas). Mas só de pensar em comparar qualquer uma dessas faixas com, vejamos, All my loving… Dá um pouco de desânimo.

E isso porque estamos falando de um disco de forte “qualidade espiritual”, segundo Owens.

Se o Girls é apenas um jogo cínico de estilo — letras molinhas que acenam para itens vintage de outra época, embaladas em coros soul, solos de guitarra, violões e “sinceridade” –, então não vejo como Owens conseguiria se conectar, ou pelo menos preencher as expectativas, do público de um Elliott Smith: que, mesmo nas gravações mais precárias, encontra uma voz, um discurso muito particular. Este Girls, por mais agradável e doce, me parece dançar no vazio.

Mas taí um candidato sério ao Grammy (se o Grammy se dispuser a ouvi-lo).

Terceiro disco do Girls. 11 faixas, com produção do Girls e de Doug Boehm. Lançamento True Panther Sounds. 52

Os discos da minha vida (top 2)

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Então, enfim, pois bem, the end. Chegamos ao setor de desembarque deste ranking de 100 discos. A partir de agora, vocês podem desfivelar os cintos e ligar os celulares. Tocamos o solo, cabou.

E todas as despedidas devem ser breves, certo? Errado. Hoje, para celebrar com o término desta odisseia inútil (afinal, esses são os discos da minha vida, não da sua), vocês ganham dois textos. Dois discos. Os últimos e, é claro, os primeiros.

Nem preciso dizer que deu um trabalhinho escrever sobre eles. Porque planejei um “grand finale”, um adeus reluzente e tal, mas não consegui colocar nada disso no papel. Acontece.

Antes de partirmos para o clímax (ou anticlímax, a depender das suas expectativas, irmãos), devo confessar uma coisa: mantenho uma relação ambígua, conflitante, com os álbuns mais importantes da minha vida. Muitos deles eu nem ouço mais. A maior parte apareceu durante a minha adolescência, uma época em que eu era mais mais ingênuo e sentimental do que sou hoje (percebam o perigo). Se eu descobrisse esses discos hoje, talvez a história teria ocorrido de uma forma diferente.

Mas acredito que eles, de alguma forma, colaboraram para a formação do meu temperamento — mais ou menos como os amigos que você calha de conhecer durante a vida.

Não posso brigar contra eles — contra o poder esses discos. Eles marcaram a minha vida porque marcaram, simplesmente isso. Talvez não por serem extraordinários (muitos deles o são), mas por terem me encontrado num momento importante ou sensível, quando me assombraram de alguma forma especial.

É isso, não é? Tá, acho que vou sentir saudades de me perder nesses flashbacks.

001 | Pet sounds | The Beach Boys | 1966 | download

002 | Ok computer | Radiohead | 1997 | download

Pet sounds é o meu disco preferido. É o que mais admiro. É o que guardo para mostrar aos filhos dos meus vizinhos (porque não pretendo ter filhos). É o parâmetros que uso para lidar com outros discos. É matéria meio que sagrada, e sinto que tudo o que deveria saber sobre música está dentro dele.

Ok computer é outra coisa. Talvez nem seja um disco-disco (não pra mim). Talvez uma espécie de álbum de retratos, um slide sentimental. Quando o ouço, ele abre tubulações para meu passado. E o efeito não é só musical. Não é algo que aconteça com muitos discos. Mas acontece com esse.

Pet sounds era, pra mim, um disco de solidão. Brian Wilson foi o herói da minha adolescência porque eu via nele a imagem de um homem que confiava na arte, apesar de tudo. E que se comprometia de forma quase demente à música, como se não houvesse outro jeito.

Ok computer me parecia um disco de revelação. Ele me mostrava o futuro. E era uma imagem exagerada, mas que soava muito séria. Existe algo de messiânico e ridículo neste disco, como se cada música carregasse plaquetas de “the end is near”. Era fim de milênio, e o contexto aqui importa.

Mas, ao contrário de White Album (o disco do meu pai) e de Dark side of the moon (o disco do meu padrasto), Pet sounds sempre foi um disco só meu. Eu me identificava com ele, e acho até que foram canções como God only knows e Don’t talk que fizeram de mim um sujeito doce e sentimental.

Ok computer abria uma paisagem mais trágica, e provocou em mim a crise que um disco do Dylan deve ter provocado nos moleques de 1965: “alguma coisa estranha acontece”, Thom Yorke me dizia. Era sinistro. Não sei se as pessoas já entendem tudo sobre aquela época.

O som de Wilson vinha do passado, ainda que flutuasse bem acima do tempo e do espaço: transmitia inocência, mas também dor profunda. Incompreensão. Depois li sobre as dificuldades que o homem enfrentou para gravar o disco, aí entendi tudo. É uma luta, o Pet sounds. E Wilson vence.

O som de Yorke, ao contrário, não era um mito, uma unanimidade. Soava novo, era um código que as pessoas iam tentando entender. Daí diziam nas revistas a bateria de Airbag, toda quebrada, observava alguma coisa sobre o mundo. E depois veio Kid A, que desmontou tudo de uma só vez.

Pet sounds é um disco dentro de um sonho. E há momentos de um sonho (pelo menos acontece nos meus) em que um cenário plácido se transforma numa tela desfocada, desconhecida. Quando ouvi pela primeira vez, lembro que pensei: parece familiar e não é.

Ok computer é um disco dentro de um pesadelo. Exit music e Climbing up the walls pareciam avisar que algo estava prestes a chegar ao fim (se é que não havia já acabado), enquanto que No surprises me fez perceber que eu não estava seguro (nesse ponto, era um veneno terrível).

Em Pet sounds, Wilson dá forma musical a um sentimento de desconexão. É como se ele não pertencesse mais ao mundo (e ao mundo da música), e aí tentasse criar para si um lar imaginário. Me parece um disco muito poderoso de rebeldia, mas que soa agradável e, por isso, singular.

Em Ok computer, Yorke tenta modelar um mundo próprio, mas essa intenção só seria consolidada em Kid A. Em Ok computer, no entanto, ele impõe um olhar, ergue trincheiras, e aí nascem canções de fricção, tensas negociações musicais, como Paranoid android e Airbag. É uma guerra, o Ok computer.

Pet sounds desaguaria num álbum ainda mais sofisticado (e seria Smile o Kid A de Wilson?), mas ele me comove também porque ainda tenta conversar com aquele menino que procura um disco de surf music, um álbum pop. E é a ele que Wilson pede: ‘não fale, deite sua cabeça no meu ombro.’ É bonito.

Ok computer tem algo disso. Um disco que se afasta e se aproxima do público, numa reação de nojo e afeição (quase simultâneos), que quer amor e não quer, que frequenta os radicais mas gosta do conforto dos amigos, que não sabe muito bem se precisa ofender ou se deve ser claro e gentil.

Talvez eu seja um pouco como esses dois discos. Eles querem debandar para longe, mas sem perder o contato, sem desaparecer por completo. E nem por medo, por covardia, mas por opção.

Top 3 (Ok computer): Let down, Paranoid android, Climbing up the walls. Top 3 (Pet sounds): Don’t talk (Put your head on my shoulder), God only knows, Sloop John B.

Após o pulo, veja todos os discos que apareceram neste ranking.

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Organ music not vibraphone like I hoped | Moonface

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É feito de areia o espírito do homem que narra Return to the violence of the ocean floor, a música de abertura deste disco do Moonface. Isso aí: de areia.

Às vezes, esse espírito escorre entre os dedos do sujeito e volta à praia, ansioso para se entregar à violência do oceano. Mas aí o homem se ajoelha para catar todos os grãos e mantê-los em segurança. Parece uma tarefa impossível.

É uma imagem de pesadelo (eu, pelo menos, não conseguiria dormir tranquilamente depois de uma cena dessas). Mas que me explica muito sobre as canções e os álbuns de Spencer Krug, o “chefe de máquinas” do Moonface.

É que eles (as canções e os álbuns) sempre soaram, aqui nos meus ouvidos, como tentativas de capturar um certo sentimento de tensão — como se Krug flagrasse a luta entre aquele narrador racional e as seduções do oceano (ou da loucura, da desordem, como você preferir).

Não foi sempre assim?

Quem digita o nome Spencer Krug no Wikipedia encontra e fotografia de um homem branco com uma bandana amarela e camisa social cinza, cantando. Também descobre que esse canadense de 34 anos está (ou esteve) associado a seis projetos: Fifths of Seven, Frog Eyes, Swan Lake, Sunset Rubdown e, finalmente, o Wolf Parade, que se encontra num “hiato indefinido”.

O temperamento do compositor, afinado quase sempre numa chave obsessiva-compulsiva, “assina” cada um desses projetos (e pode ser reconhecido nos primeiros acordes de cada canção). Contudo, o hobby de Krug é criar bandas, talvez motivado pela mesma angústia que move quem não dá conta de morar numa mesma cidade por muito tempo. “Sempre gostei do estouro de criatividade que surge quando projetos começam”, disse.

Saltar de banda em banda, no entanto, não altera o que há de essencial na alma de Krug. Não é como se ele criasse vários personagens para um elenco imaginário. Não. Não é tão simples. As diferenças entre um Sunset Rubdown e um Wolf Parade, aliás, são sutis. Em cada banda, Krug acentua um ou outro traço de estilo — mas nunca deixa de ser o compositor que conhecíamos.

No caso do Moonface, o que eu ouço é uma versão degenerada do som do Sunset Rubdown (a próxima fase, mais árdua, no jogo de videogame): sintetizadores grosseirões, estridentes (o disco, não à toa, se chama Organ music), em faixas permanecem conosco por tempo demais (durante e depois da audição). Existe algo único, algo bestial e estúpido nessas faixas, mas demoramos para perceber o que ele representa.

Às vezes, Krug deixa a impressão de que responde com deboche à indietrônica supostamente agressiva (mas com intenções cada vez mais comerciais) do Handsome Furs, projeto de Dan Boeckner, colega de Wolf Parade. A música de Dan mostra limites bem definidos (o que, para mim, não é um problema por si só), enquanto que Krug se lança ao mistério, se afoga antes que o afoguem (taí o tal oceano que suga a alma do personagem que abre o disco).

Sozinhos, eles libertam os gostos extremados, pessoais, as idiossincrasias que eram um tanto que amortecidas pelo espírito de “trabalho de grupo” do Wolf Parade.

Hoje admito que sinto até um pouco de alívio com o “recesso” do Wolf Parade. Porque uma banda é apenas uma banda, e tanto Spencer Krug quanto Dan Boeckner não pareciam se sentir confortáveis com expectativas e pressões que, ao fim e ao cabo, nada tinham a ver com arte.

Krug, principalmente ele, parece ver os discos e a condição de músico de uma maneira fluida e intensa. Cada disco é uma aventura que precisa ser seguida por outra. Um disco pode ser que não seja apenas o capítulo de uma obra longa, mas um livro com começo, meio e fim. Ir matando bandas e discos pode ser um esporte saudável, quando se fala num compositor tão inquieto.

Com apenas cinco faixas (mas faixas por vezes intermináveis, exaustivas), Organ music me parece um prólogo. Ou uma nota de rodapé. Há faixas que soam diretas (Ocean floor é das mais pessoais que Krug gravou). Outras remetem a temas que aparecem em discos do Wolf e do Sunset (Fast Peter, sobre um homem que deixa a cidade para viver com a mulher que ama, é mais uma a tratar da angústia por mudança, êxodo). E há as que prolongam os climas prog/psicodélicos de Dragonslayer: Shit-hawk in the snow é The Doors produzido com os equipamentos (e o desencanto) de Unknown pleasures (mas reduzir o som a essas duas referências seria, francamente, simplificar tudo).

O disco fecha com uma maré quase mansa, mas espessa. Krug confessa: “Talking Heads me dá saudade dos meus amigos”. Um coração frouxo faz planos frouxos. E o álbum termina. Talvez programado para a autodestruição. E vai deixando um barulho que nos atrai e repele — tentamos capturar a alma de Krug, mas ela novamente escorre entre nossos dedos.

(Uma conclusão, apenas: talvez seja o disco menos extraordinário de Krug, mas o homem nunca escreveu canções com desfechos tão bonitos, morrendo e brilhando mar adentro. Emociona.)

Primeiro disco do Moonface. Cinco faixas, com produção de Spencer Krug. Lançamento Jagjaguwar Records. 77

2 ou 3 parágrafos | A árvore da vida

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Numa biografia que acaba de ser traduzida no Brasil, o autor, Christopher Sandford, parte do principio de que O pianista (2002) é a obra-prima de Roman Polanski. Para ele, é indiscutível: o cineasta passou 30 anos ensaiando para um drama que, indiretamente, remete a lembranças pessoais sobre o holocausto. Mas seria isso mesmo? Eu diria que O pianista tem um grande tema — ainda que seja inútil medir a importância dos temas –, mas me parece até pequeno perto de O bebê de Rosemary (1968) ou Repulsa ao sexo (1965). Filmes que, apesar de não tratar de assuntos tão enormes, veem o cinema com mais atrevimento, mais alegria. “Gosto de brincar com a câmera. Para mim, filmar é o mesmo que um trem elétrico representa para uma criança”, disse Polanski.

Não vou nem tentar comparar Terrence Malick a Polanski (cada planeta pertence a um sistema solar) — mas, pra mim, A árvore da vida (The tree of life, 58) só pode ser considerada a obra-prima do diretor de Badlands se usarmos o critério que Sandford aplica para supervalorizar O pianista: são filmes sobre temas “grandes”. No caso de Malick, ainda mais: o cineasta narra o cotidiano de uma família americana (e, nesse ponto, também existe algo autobiográfico aqui) numa perspectiva panorâmica, superwidescreen. Num determinado momento, ele interrompe a trama para reconstituir as etapas da criação do mundo, numa digressão que me obriga a escrever neste post (eu fui obrigado!) o seguinte título de filme: 2001 — Uma odisseia no espaço. Está claro, em cada fotograma, que o cineasta tem apetite para o menu-degustação completo.

A intenção de Malick era criar uma obra-prima (nunca foi diferente, em nenhum dos filmes que dirigiu). Mais interessante que isso – e digo isso como um sujeito que se sente um grão de areia diante dessa discussão cósmica – é acompanhar a transformação penosa desse objetivo, esse “maior tema entre os temas”, em cinema. Dá até um pouco de aflição. Um amigo meu diz que muitos dos textos sobre A árvore da vida são mais potentes que o filme, e concordo: talvez a culpa seja minha (todos os espectadores têm limitações), mas notei apenas um catálogo de imagens supostamente bonitas e sentimentais (mas que me parecem superficiais e frias), mergulhadas num clima etéreo new age, escondendo uma parte pequena de cenas que mostram um olhar pessoal para a vida, o universo e tudo mais. É um incrível projeto de obra-prima. Mas e daí? Estamos interessados nos projetos (e nos temas) ou nos filmes em si?