Mês: maio 2008

Longe dela ***

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Entrei no cinema cheio de preconceitos e saí tomado por uma sensação de tristeza fora do comum. O longa-metragem de estréia da atriz Sarah Polley não passa sem problemas, mas não há como desprezar a forma intensa como cria uma atmosfera de melancolia ao redor de protagonistas – a mulher com Alzheimer e o marido, atordoado pela perspectiva de ter que se afastar da esposa, com quem vive por 44 anos. Ao final da sessão, demorei ainda algumas horas para conseguir me distanciar um pouco do drama desses personagens e lidar com o filme de uma forma menos passional (e sei que a culpa é mais do tema, o processo degenerativo da velhice, que do longa em si).

O mérito das interpretações é até óbvio. Tanto Julie Christie (já muito elogiada, e com justiça) quanto Gordon Pinsent encarnam o casal de apaixonados com tanta expressividade que por vezes me peguei lembrando de Erland Josephson e Liv Ullmann em Saraband, do Bergman. Os momentos mais fortes de Longe dela são aqueles que, com muita simplicidade, acompanham a rotina daquele homem com aquela mulher. Aí quase não se percebe, mas trata-se de um primeiro filme.

A estrutura fragmentada da narrativa quebra a história em saltos no tempo que lembram a estética de Atom Egoyan (produtor do filme) – mas às vezes parecem assumir função quase decorativa. O roteiro, escrito pela própria diretora, se revela um tanto imaturo na tentativa de dar verniz poético aos diálogos (algumas cenas, com lições do tamanho de um “nunca é tarde para amar”, são flores de plástico), mas ganha estatura quando traduzido em imagens. Polley é uma cineasta que dá espaço aos atores e tempo para que os personagens, fortes, sobrevivam às artimanhas do roteiro. Sem esse grau de sensibilidade – respaldado pelo elenco – este seria um mero telefilme, chantagem sentimental. Por enquanto, me parece algo mais consistente e duradouro que isso. Para este coração de manteiga aqui, um poeminha perturbador.

‘Velocifero’ Ladytron **

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O quarto álbum do Ladytron abre com uma faixa cantada em búlgaro, é co-produzido pelo tecladista dos shows do Nine Inch Nails (Alessandro Cortini) e por um novo queridinho da eletrônica francesa (Vicarious Bliss, da Ed Banger Records, casa do Justice), tem influências de Mutantes e Ennio Morricone. Como esses elementos transformam a estética do quarteto? Incrivelmente, em quase nada. Velocifero não faz muito além de sublinhar a guinada de Witching hour (2005), um trabalho mais próximo do shoegaze e do rock industrial, um pouco mais afastado do electroclash – rótulo que a banda faz questão de negar radicalmente.

Agora dá para dividir a discografia do grupo em dois momentos. O primeiro, mais sacana e doce, de 604 (de 2001) e Light and magic (2002). O segundo, a partir de Witching hour (o meu preferido), com influências mais claras de My Bloody Valentine e Stereolab, mas ainda assim sem abandonar a pista de dança. Em comparação ao anterior, Velocifero é um set mais caótico, mais aventureiro, ainda que essa falta de direção não conte muito a favor da banda (o que os Mutantes faziam com leveza e naturalidade, para eles soa como um parto). Dá para notar alguns ótimos momentos, principalmente quando eles se dedicam a mantras de rock (I’m not scared, Tomorrow e Versus são ótimas). Mas, entre um e outro, acabamos topando em faixas de impacto nulo como Deep blue (que parece Madonna de caso com Depeche Mode) e uma outra canção em búlgaro que não diverte, não perturba, e parece não fazer muito sentido.

Ainda Hold Steady

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Eu não havia pescado a referência, mas Slapped actress, a maravilhosa faixa que encerra o álbum novo do Hold Steady, parece ter sido inspirada em Opening night, do John Cassavetes. O que só faz complicar ainda mais a história toda.

Na Uncut, saiu um belo texto sobre o disco.

‘Lie down in the light’ Bonnie ‘Prince’ Billy ***

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Dizem que este é o melhor de Will Oldham desde o excelente I see a darkness (1999), e ainda não sei se concordo ou discordo. Seria bonito concordar, já que isso renderia um parágrafo bem chamativo, que provavelmente atiçaria a curiosidade de três ou quatro visitantes deste blog. Mas a discografia deste homem da caverna é tão consistente que ainda me parece absurdo subestimar álbuns emocionantes como Ease down the road (2001) ou até o ártico The letting go (2006), que muitos fãs se apressaram a dispensar.

O disco novo de Oldham me deixa bobo, antes e acima de tudo, por prolongar tão dignamente uma bela trajetória. Difícil identificar um auge na carreira de Oldham – parece até que, o tempo todo, ele consegue se manter lá em cima.

Sabe disso quem o acompanha. Não são muitos, admito. A melhor forma de se aproximar do personagem Bonnie “Prince” Billy é o filme Antiga alegria, de Kelly Reichardt. Ele ainda é o homem calvo da barba loura e espessa, que caminha sozinho no calçamento de cidadezinhas tão limpas quanto entediantes. Mas, em Lie down in the light, ele não se incomoda tanto quanto antes com dilemas existenciais, com o vazio do mundo. Ainda sofre com amores fracassados (repare a briga de casal de You want that picture, narrada com ranço amargo à Dylan), mas tenta encontrar consolo na companhia de amigos (A letra de Easy does it é quase ensolarada), da família (You remind me of something é uma das canções mais simples e bonitas que já escreveu).

Há quem identifique nesse discurso menos sombrio uma nova fase para Oldham, mas não vejo exatamente isso. Seria simplificar a história toda. O álbum está longe da leveza e a serenidade de um Nashville skyline (de Dylan), e não quer soar definitivo como um After the gold rush (de Young). Não provoca o susto nem desperta as revelações de I see a darkness, apesar do esmero da produção de Mark Nevers, do Lambchop. Em comparação a The letting go, pode soar até como um retrocesso, já que o compositor deixa a aventura européia para retornar a um playground bem particular, interiorano, tingido de country e folk. Há duas, três obras-primas que nos levam às lágrimas logo nos primeiros acordes – mas é o que costumamos encontrar em discos de Bonnie “Prince” Billy, não é?

Eis um anti-ídolo que nos mimou e continua nos mimando demais.

Ranking anos 2000

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Em breve, a Liga dos blogues cinematográficos vai divulgar o ranking dos melhores filmes produzidos desde o ano 2000. Eu, que participo da confraria e tenho compulsão por listas (apesar das tentativas de não me deixar dominar pelo vício), estou na brincadeira. O ansioso aqui formatou o top 20 de uma tacada só, sem esquentar muito a cabeça para detalhes e pronto para lamentar as ausências mais sentidas (os Tenenbauns e o melhor filme de Steven Spielberg são apenas dois exemplos). Sem mais, aí vai o resultado desse balanço sentimental.

1. Elefante (2003), Gus Van Sant
2. Cidade dos sonhos (2001), David Lynch
3. As coisas simples da vida (2000), Edward Yang
4. Kill Bill, vol. 1 (2003), Quentin Tarantino
5. Plataforma (2000), Jia Zhang-ke
6. A última noite (2002), Spike Lee
7. Um filme falado (2003), Manoel de Oliveira
8. Antes do pôr-do-sol (2004), Richard Linklater
9. Não estou lá (2007), Todd Haynes
10. Amantes constantes (2005), Philippe Garrel
11. Império dos sonhos (2006), David Lynch
12. O quarto do filho (2001), Nanni Moretti
13. Amor à flor da pele (2000), Wong Kar-wai
14. A viagem de Chihiro (2001), Hayao Miyazaki
15. Sobre meninos e lobos (2003), Clint Eastwood
16. A esquiva (2003), Abdellatif Kechiche
17. Marcas da violência (2005), David Cronenberg
18. Dez (2002), Abbas Kiarostami
19. Onde os fracos não têm vez (2007), Joel e Ethan Coen
20. Lady Chatterley (2006), Pascale Ferran

Conceição – Autor bom é autor morto **

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Demorou uma eternidade e alguns dias, mas o filme nacional querido por nove entre dez blogs de cinema do Brasil finalmente estréia esta semana em Brasília. Para mim, fica a sensação de ter chegado por último na festa (o bolo foi cortado e os papéis vagabundos de docinhos estão espalhados por todo canto). O que posso dizer sobre Conceição?

Não vou ficar rasgando elogios, já que outros fizeram esse trabalho com muita elegância. Nem vou pegar no pé, já que os bonequinhos implacáveis estão aí para isso. Na verdade, tudo o que tenho a oferecer a esse debate (que já esfriou faz tempo, parece) é a impressão torta e sincera. Um textinho despretensioso e boboca, daqueles que você encontra em caixas de comentários de blog.

O problema todo, admito, é que eu já gostava muito do filme antes de tê-lo visto pela primeira vez. Isso acontece. Adoro o novo da Lucrécia Martel, por exemplo. O do Pablo Trapero acho muito bom, com algumas pequenas ressalvas. Só que o excesso de expectativa, nesse caso, me atrapalhou bastante. Meu caso com Conceição não é como antes. Não tem como ser. Na tela, este filme é só um filme. Não é a reencarnação universitária e hilariante do cinema de Rogério Sganzerla (mas está longe, muito longe das provocações autoritárias de um Sérgio Bianchi). É um primeiro filme. Uma experiência. Um surto criativo. Um pandemônio. Um ovo fritando. Quase (no bom sentido) uma gag. É esse transe de infinitas intenções, aliás, o que mais me agrada aqui. O filme se deixa levar pelo furacão que ele próprio desperta.

Mas sabe aqueles amores à distância, difíceis, tortuosos? Sabe quando você começa a escrever longas cartas para a pessoa que ama e, no primeiro encontro, se decepciona com a risada desengonçada, o tique inconveniente, a dificuldade de iniciar um diálogo banal? Conceição me deixou um pouco tímido, sem muita reação.

Não me deixou perturbado nem chocado nem nada. Me incomodou, já que os cinco cineastas parecem ter respostas enfáticas para todas as minhas irritações em relação ao filme. As sequências de inspiração trash são às vezes tão óbvias que nem chegam a provocar sorrisos? Era essa a idéia! As brincadeiras com citações cinematográficas são um tanto quanto exibicionistas? Era essa a idéia! Os diversos segmentos espalhados pela narrativa parecem um amontoado de curtas-metragens que não deram certo? Era essa a idéia!

Então tá. Não estou mais apaixonado por Conceição. Mas gosto muito dela. Gosto dela. Da idéia.

Na Paisá

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Esses dois sujeitos enfezados só vão ficar felizes se vocês lerem a atualização de música da Paisá, com comentários do Tiagão aqui para os álbuns do Gnarls Barkley (saiu um texto grandinho e bobinho, com um parágrafo dedicado ao disco anterior deles, St. Elsewhere) e da Santogold (quando escrevi esse, eu estava com sono e febre – suponho que não tenha saído algo muito decente). Recomendo a resenha do Filipe Furtado para The Virginia EP, do The National, que ainda não ganhou alguns parágrafos neste blog fantasmagórico por pura falta de tempo.