Dia: abril 3, 2008

‘Last night’ Moby *

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lastnightcapa.jpgConfessar este tipo de coisa hoje soa como pecado mortal, mas lá vai: Play entrou na minha lista de cinco discos preferidos de 1999. E calma, não amarelei. Ainda o considero um grande álbum – menos pelo truque de mesclar samplers de velhas canções de blues com eletrônica e mais pelo imenso senso de diversão que dá vida ao experimento. Se agora pega mal assumir a afeição pelo disquinho, a culpa é toda de Moby. Foi ele quem tratou de diluir a força do projeto. Tenho nada com isso.

As continuações 18 e Hotel são álbuns atordoados com o sucesso de Play. Antes deles, Moby era o sujeito que se enjoava com rapidez do próprio figurino. Cada novo disco soava diferente do anterior, e Play alterou essa lógica. Era como se o agora astro pop tivesse encontrado uma fórmula certeira depois de várias tentativas (não sei se alguém lembra do álbum punk Animal rights, mas até ele soava mais interessante que essa nova fase do músico). Last night é o primeiro sinal de que Moby se incomoda com a própria acomodação. Pena que a reação soe tão fria, tão calculada. E, puts, precisava da capinha à Duran Duran?

Álbuns conceituais correm sempre o risco de acorrentar a criatividade de qualquer autor, e é exatamente o que acontece aqui. Disposto a homenagear a vida noturna de Nova York, Moby conta uma longa história pelo caminho mais óbvio. É possível identificar uma gama de subgêneros da dance music nas faixas do disco, mas são referências despejadas com um ranço didático, às vezes aborrecido. A própria decisão de limar os vocais melancólicos de Moby sublinha a idéia de um álbum na defensiva. Parece até um pedido de desculpas pelos dois discos anteriores. Tudo bem, mas não precisava. Beleza fácil, sabemos, não põe mesa.

A culpa é do Fidel *

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Sei que o azar é meu. Eu, que não vivi as grandes revoluções nem tenho o pôster do Che na parede do meu quarto, talvez não esteja pronto para ser tomado por uma avalanche de emoções diante de qualquer drama sobre a luta dos camaradas contra ditaduras truculentas. Não sou insensível à questão (meu padrasto barbudo não me deixaria mentir), mas reconheço que são muitos os filmes que tratam o tema como desculpa furada para metralhar a platéia com todo tipo de lugar-comum.

É o caso de A culpa é do Fidel, o filme fofo e politicamente engajado da temporada.

E não me acusem de má vontade, já que entrei no cinema com as melhores intenções. Gosto tanto de Kamchatka quanto de O ano em que meus pais saíram de férias. Daí que não me agride em nada o recurso de traduzir acontecimentos barra-pesada pelo olhar de pobres criancinhas. O filme de Julie Gavras recorre ao procedimento, só que a patadas.

A cineasta apela a um didatismo que me pareceu até grosseiro, apesar da aparência delicada da narrativa. A protagonista, uma menina invariavelmente enfezada (condição que só muda nos 15 minutos finais, quando ela precisa sofrer algum tipo de transformação para justificar a trama), faz as perguntas certas para que a diretora exiba os conceitos de solidariedade, de coletividade e distribuição de renda. Fica até um certo tom de conto de fadas, já que o maniqueísmo do roteiro permite a existência de uma espécie de bruxa má, que acusa furiosamente os comunistas de planejar a guerra nuclear.

Para localizar o filme em um determinado momento histórico, a cineasta consegue (e até agora não sei como) inserir até um tipo vietnamita na história. E usa imagens das revoltas no Chile como forma de escorar o arco dramático dos pais da menina, que vivem momentos de euforia que descambam na mais completa frustração. É um filme singelo. O que, para mim, nunca quis dizer boa coisa.