Mês: fevereiro 2014

ATLAS, Real Estate

Postado em Atualizado em

Atlas_12Gatefold

“Musically, we are who we are. We’re not going to sit down and decide to make some drastic change in our instrumentation and change our sound, really, because we all see ourselves as the kind of band that just stays with a guitar-heavy, timeless sound. I wouldn’t want to change that. If anything, I personally did not want to fall into a rut. The things that people said about us — “Well, they’re very nostalgic” — that became a cliché with a lot of bands.

I got married right after we finished the Days cycle — living in Brooklyn and not really being happy with living in Brooklyn because it’s, like, I have an urge to live in the suburbs and settle down like an old man or something. That’s kind of who I am deep down” (Martin Courtney à Grantland)

***

A sonoridade do Real Estate muda pouco de um disco para outro e, por isso, será difícil perceber o quanto a banda se tornou mais complicada desde o álbum anterior, Days, lançado há três anos.

Principal transformação: antes, o Real Estate criou um repertório inteiro para dar conta de sensações de nostalgia, da saudade da adolescência. Atlas, em comparação, vai a um tema bem mais escorregadio: o fluxo entre memórias (de um passado recente e outro mais distante) e planos; questões da vida adulta, em resumo.

O disco oscila, em grande parte, entre dois tempos: o período em que o vocalista e letrista Martin Courtney viveu no Brooklyn, em Nova York (detestou cada minuto, diga-se), e a sua adolescência saudosa em uma cidadezinha em que quase nada acontecia. Há momentos em que essas duas linhas temporais se cruzam – em Past Lives, Martin retorna a esse Shangri-La e, desapontado, sente o peso da idade. Estão todos – ele e a cidade – diferentes e não há como recuperar o que perdeu.

Há, por outro lado, as canções que lidam diretamente com o dia a dia numa metrópole hostil: The Bend, a mais potente delas, fala sobre o medo de perder o controle num ambiente que deixa a impressão de estarmos ao volante de um carro cujas rodas não giram. Outra, Talking Backwards, é uma crônica muito breve sobre relacionamentos à distância. “Estou fazendo algum sentido para você?”, ele pergunta. Não faz muito sentido – e, em The Bend, ele explicará que precisa encontrar esse eixo antes que perca mais um ano.

Mais adiante, encontramos as músicas sobre o futuro ideal, que representaria um retorno ao subúrbio: “Não quero morrer sozinho e nervoso”, diz o refrão de Crime, sintetizando a crise com absoluta economia. Em Primitive, essa espécie de conto de fadas se repete, ainda mais pueril. Mas a história não acaba aí: o disco voltará ao passado recente e depois ao passado mais longínquo – às vezes dentro de uma única música. O álbum não encontra conforto nem nas musiquinhas mais adoráveis.

E estou, até aqui, divagando apenas sobre as letras das músicas. Gastei alguns parágrafos as analisando para sublinhar o choque entre esses versos conscientemente confusos e as melodias perfeitinhas – são quase sempre convidativas, fáceis de memorizar, bastante cantaroláveis – é o que o álbum tem de mais sagaz. Sim, já que, enquanto as letras transitam entre linhas de tempo, as melodias estão sempre apontando para uma direção: o futuro idealizado pela banda. É tudo matéria de sonho, o som. A melodia é ela própria a fantasia – o refúgio mágico que se encontra diante de uma realidade que pode ser desesperadora.

Nesse aspecto, pouca coisa mudou: a música do Real Estate ainda soa como uma caverna superagradável e familiar, isolada de interferências externas e com poucos ruídos que desviem a nossa atenção do que lhe é essencial. A estrutura das canções, quase sempre com duas guitarras duelando entre solos delicadíssimos e arranjos quase crus de quatro acordes, se repete quase de forma monótona, como se nos obrigasse a menosprezá-las. O trecho final do disco redunda, soa até um pouco desinteressado, um pouco aguado. Não é um disco perfeito.

Depois da quarta, quinta audição, quando memorizamos todos os refrãos (e é inevitável: eles serão memorizados), essas melodias superficialmente tão modestas passam a revelar uma série de detalhes muito precisos. O desfecho de The Bend é o melhor exemplo desse cuidado como a banda manipula e arredonda as mínimas arestas de suas pequenas canções: ele poderia explodir num grand finale psicodélico, mas não. Existe um esforço de conter excessos porque, no caso, o exagero musical anularia a imagem de paraíso que a banda tanto preza. Um paraíso de subúrbio e não de cidade grande.

Em entrevistas, o grupo faz questão de se mostrar muito satisfeito com um estilo que eles próprios definem como “apenas indie rock” e “boa música ambiente”. Falta de ambição, talvez? Talvez não. Depois de ir à cidade grande (e descobrir que não há nada lá), o Real Estate parece muito certo do sonho que quer para si. É uma questão de escolha: no caso, a opção de viver não da forma como querem (e estamos falando numa banda que nada tem nem terá de cool, que grava com o produtor do Ryan Adams no estúdio do Wilco), mas de um jeito que permita a eles uma certa felicidade.

As letras de Atlas admitem a dificuldade de colocar essa escolha em prática – isto é a vida adulta. Nesse meio-tempo, a banda cria um ambiente sonoro que, ao menos simbolicamente, facilita o happy end.

Anúncios

‘Past Lives’, Real Estate

Postado em Atualizado em

I can not come back to this neighborhood
With out feeling my own age
I walk past these houses where we once stood
I see past lives but somehow you’re still here

Underneath this canopy
All light up above us
Oh but i can see the sky
Is not the only thing that changes rapidly

This is not the same place i used to know
But it still has that same old sound
And even the lights on this yellow road
Are the same as when this was our town

Underneath this canopy
All light up above us
Oh but i can’t see the sky
Is not the only thing that changes rapidly

And even the lights on this yellow road
Are the same as when this was our town

‘Ronnie Drake’, Isaiah Rashad ft. SZA

Postado em Atualizado em

“I got love for my niggas, my killers, my dealers, my trickers, my bros
I got love for my sisters, my women, my bitches, my strippers, my hoes”

PRESENT TENSE, Wild Beasts

Postado em Atualizado em

Wild_Beasts_-_Present_Tense

“It was our mission statement. From the Stone Age to now, we judge our whole past by the culture people have left behind. Wanderlust is almost a kind of war cry, asking, is this the best we’ve got – kids singing in accents that aren’t their own, singing about lives that aren’t theirs, and reaping huge rewards from it? So little is done with so much privilege. Music is really a class thing. It’s only the rich kids who’ll get to art and music school. We’re talking about such a small group of people who are gonna create work that is supposed to define or tell us what out lives are. It’s a very scary prospect” (Hayden Thorpe à NME)

***

Senhores, um alerta: o Wild Beasts é uma banda que se leva a sério.

E, se a frase acima soa como um sinal vermelho (afastem-se, banda chata e blasé adiante!), o problema é seu, nosso. Não dela.

Existe, sempre existiu, um charme meio que maltrapilho em torno de bandas que deixam a impressão de não se levar tão a sério assim – que soam como se tivessem entrado no estúdio para jogar algumas ideias fora, tomar umas, contar historinhas engraçadas e gravar canções que, olha que incrível!, por acaso saíram tão autênticas e divertidas em um disco perfeito que vai marcar época.

Mas isso é uma mentira. Não existe disco, filme, obra de arte que não se leve minimamente a sério. Não há como. Até porque, mundo da fantasia e da imaginação à parte, o processo de produção de um disco ou de um filme envolve dinheiro, esforço, responsabilidade, concessões, gravações que são feitas e refeitas, edição, negociações, escolhas. Dá trabalho fazer um bom disco, seja ele de sonoridade leve, suave, ou ruidosa, com arestas e desequilíbrios. Não é (só) o transe de um gênio num momento de profunda inspiração.

Mas esse charme persiste e, talvez por isso, o Wild Beasts tenha decidido abrir o disco Present Tense com Wanderlust, um manifesto a favor de bandas que assumem se levar a sério, que não se escondem atrás da cortina de fumaça da despretensão e que buscam na música pop uma espécie de aventura. Assim começa o álbum. É, no mínimo, uma forma valente de começar.

A faixa, ela própria, já mostra que a banda não é a mesma do disco anterior, Smother, nem dos dois outros, Two Dancers e Limbo, Panto. É um grupo que reaparece mais preciso e lúcido, tentando expandir possibilidades criativas, mesmo que a partir de uma sonoridade cada vez mais enclausurada, claustrofóbica.

E, se parece um pouco cafona e pedante falar em bandas que “expandem possibilidades criativas”, o problema é novamente seu, nosso.

No rock britânico que está aí, não há muitas as bandas com esse tipo de ambição – de colocar limites à prova, se arriscar, surpreender, essas metas demodé. Consigo pensar no These New Puritans e em mais duas ou três.

Então temos Wanderlust: um hino de guerra, mas um hino de guerra melancólico porque solitário. “Não me confunda com alguém que se importa”, eles repetem, transformando o “fora” de uma namorada numa espécie de resumo para o estado de espírito da geração Arctic Monkeys, meninos que don’t give a fuck.

Por isso é fácil, para quem não quer pouco da música pop, gostar do Wild Beasts. Essa “carta de intenções” que existe em Wanderlust praticamente justifica as resenhas positivas que o álbum receberá. Ok, parabéns para eles (que não se acomodam jamais) e para nós (que curtimos bandas desacomodadas). Mas… e o disco?

O disco me parece um pouco mais complicado que isso.

Como todos os álbuns da banda, este também funciona, em grande parte, apenas na teoria (e digo isso como fã de Two Dancers e, com um pouco menos de entusiasmo, de Smother).

Percebo a intenção de um disco mais compacto, com melodias marcadas por sintetizadores que aparecem feito raios laser, perfurando as canções, e com letras mais claras e pontuais, sobre temas específicos (a morte de um cachorro, a sensualidade de um lutador, luta de classes etc) e a abertura para um sentimentalismo mais direto. Tudo isso está aqui, mas talvez não com a potência que a banda tenha previsto.

Eis a questão do dia: é possível ser uma grande banda sem gravar grandes discos? Acredito que sim. Kanye West, por exemplo, está longe de ser o artista mais coerente e sensato – mas grava grandes discos porque consegue converter quase todas as suas ideias em melodia e letra. Por maior que seja meu entusiasmo por Two Dancers, não é um disco tão original ou provocativo quanto o projeto daquele próprio disco.

Present Tense tem duas músicas muito fortes que ofuscam o restante do conjunto: Wanderlust e, um pouco mais adiante, Sweet Spot (essa última é de uma concisão exemplar; o álbum inteiro está lá). Outras faixas são parecem ter a função de servir de vias de conexão entre as melhores canções. E há um terceiro grupo que me parece fracassar terrivelmente: as músicas mais vulneráveis e facinhas, que diluem todo o lirismo da banda em uma série de versos otimistas que poderiam estar num disco do Travis. A saber, A Simple Beautiful Truth e a faixa de encerramento, Palace, que tem um quê de Brian Eno via Coldplay.

Há outras obviedades: a banda explora à exaustão o trocadilho do título, não só nas letras mas ao criar muita tensão entre as faixas, nos arranjos, entre verso e melodia, entre os vocais (mais contidos que de costume) e os sintetizadores sufocantes de filme de terror.

Noves fora, o que eles conseguiram: uma OBRA que será muito elogiada (porque foi feita com esse objetivo e, no mais, eles são rapazes aplicados), mas que soa, fatalmente, limitada sempre que penso na ambição enorme que eles têm. Podem mais? Talvez não. Querem mais? Sim, muito. Talvez esse disco seja tudo aquilo que, com um enorme esforço, eles conseguiram neste momento.

Estranho caso: amo esta banda muito mais do que amo os (ótimos) álbuns que ela grava.

LOVE LETTERS, Metronomy

Postado em Atualizado em

loveletters

Muita gente já descreve o novo disco do Metronomy de um jeito desinteressado, como se ele fosse apenas um planetinha cor-de-rosa irrelevante girando em torno de certas referências de rock psicodélico dos anos 60. Ok: o próprio Joe Mount, band leader e todo-poderoso do quarteto, deixa essa impressão NA CAPA do álbum, que poderia ter sido usada pelo MGMT ou pelo Youth Lagoon, ou ao tagarelar sobre Beatles e Love nas entrevistas. Dito isso, acredito que esse povo apressado está errado: Love Letters é um disco de britpop – e talvez o álbum de britpop que mais entende o britpop desde, bem, o fim do britpop.

Um disquinho multicor que muito possivelmente será incompreendido nos Estados Unidos, onde o britpop penou para ser levado (um pouco) a sério. Os americanos entendem Arctic Monkeys, que visita chavões do rock de lá como quem se arruma todo para ir a um santuário, mas talvez nunca irão com a cara de um Field Music, nerd e sem-sal pro gosto deles.

O Metronomy de Love Letters é britânico demais.

Joe Mount hoje vive em Paris, o que faz ainda mais sentido no grande esquema torto e irônico das coisas. O pop tridimensional do Daft Punk e do Phoenix – que são ídolos de Mount, diga-se, e curtem o lema “the joke is on you” – sempre compartilhou com o britpop um desejo de jogar/brincar com a música pop, pelo viés da pop art e da new wave,  que era uma dos traços mais interessantes das melhores bandas do britpop (não estou falando em Oasis, notem).

A estrutura de teatro de variedades de um Parklife, por exemplo, é semelhante à daqueles livrinhos infantis que revelam uma surpresa a cada página. E This is Hardcore, do Pulp, mostra uma preocupação muito maior com a atmosfera de noir erótico que com as canções em si – ainda que muitas delas explodissem em refrãos gordões que imploravam para não serem esquecidos jamais (e nunca foram).

Love Letters surpreende porque não apenas tenta reproduzir, mas dá sinais de possuir verdadeiramente esse estado de espírito: o do álbum extremamente pop, quase um cartum, a simulação em desenho animado do que seria Grande Álbum Pop, e, ao mesmo tempo, uma crônica sobre discos pop.

A brincadeira tolinha do Metronomy é cheia de maneirismos, sim, mas nenhum truque é operado em vão.

Em primeiro lugar, minha sugestão é: preste atenção ao som. Faça o seguinte: ouça o álbum, em volume alto, após ter ouvido qualquer outro. A diferença será marcante: não que Love Letters vá parecer mais ou menos forte que o disco anterior, mas você notará que existe uma sonoridade muito específica, um halo no álbum (difícil descrevê-la, mas vou tentar: é um som cristalino, que destaca cada instrumento com absoluto detalhismo, mas ao mesmo tempo dissonante, como se estivesse saindo de uma caixinha de brinquedo em surround) e que essa “moldura sonora” não nos abandonará até a última faixa.

Definidas as bordas e as lentes e as locações, Joe fará em 40 minutos o que bem entender: da faixa-título, que soa como o tema de abertura de um seriado bem ridículo (ou como, digamos, a faixa-título de Parklife) a momentos que, de tão sentimentais, soam quase sarcásticos (como Call Me, que é de uma beleza cafona que só encontramos nas canções de amor do Daft Punk e do Phoenix). Numa das músicas, The Most Immaculate Haircut, Mount alcança o refrão mais perfeito do mundo – e, como quem nada quer, decide reprisá-lo apenas uma vez. E então a faixa acaba.

É um álbum tão alegremente sortido e bonito de ouvir, tão certo do que quer ser e de onde quer chegar, que nos autoriza a tratar o anterior, The English Riviera, como um esboço em preto-e-branco, um teste. Digam o que quiserem (e vão dizer muita coisa, preparem-se). Psicodelia chic? Retrô pra desfiles de moda e comerciais de TV? De ponta a ponta, o que ouço é o coração do britpop batendo: playfulness, como dizem por lá.

‘Sweet Spot’, Wild Beasts

Postado em

“Artists hold a unique place in society in that they are held in high esteem because they are distributors of comfort and joy and relief. The job is really essential, but the role of a musician is changing. It isn’t the glamor draw that it used to be, and if you want to make audacious work, you are risking not being able to pay your rent, and that’s OK. But there are people who don’t have to worry about paying their rent who still make music that sounds like they’re trying to pay the rent rather than taking on the possibilities of what they could achieve” (Hayden Thorpe à Pitchfork)

***

[There is a guardless state/
Where the real and the dream may consummate]