Mês: janeiro 2008

‘Odelay: deluxe edition’ Beck ****

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odelay.jpg…E aí passo a notar que estou ficando velho. Edição de luxo para Odelay? Começo a entender o que meu padrasto sente toda vez que decidem comemorar algum aniversário de Dark side of the moon.

Dizem que definimos inclinações musicais até os 20 anos de idade. Ouvi este álbum pela primeira vez quando eu tinha uns 15. É um daqueles discos que nunca conseguirei escutar de uma forma distanciada, como quem analisa os movimentos de um hamster. O mesmo acontece com Nevermind, Siamese dream e Achtung baby!, para ficarmos nos casos mais sintomáticos.

Este pacote deluxe inclui Deadweight (da trilha de Por uma vida menos ordinária) logo no primeiro CD, no finalzinho da versão remasterizada do álbum original. Uma opção polêmica, já que a faixa diz mais sobre os climas tropicais de Mutations que sobre a colagem frenética (e genial) de Odelay. Tudo bem. Depois dela, incluíram uma bagunça chamada Inferno, que se junta a outra faixa meio desconhecida e ótima: Gold chains.

O segundo CD, com sobras e curiosidades, é balaio de gatos. Mostra, acima de tudo, como Beck esgotava as possibilidades de cada canção em diferentes formatos, do punk ao funk. Tal como as edições mais recentes da discografia do Pavement, o curioso aqui é tomar o disco como uma espécie de caderno de rascunhos para uma obra-prima. Eu me emocionei. Mas esse, meus caros, sou eu.

Onde os fracos não têm vez ****

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O Oeste está tomado por traficantes de drogas e assassinos implacáveis. O velho xerife olha para esse nosso mundo caótico e não encontra solução. “Os crimes que vemos hoje são difíceis de compreender”, conclui.

Mais tarde, ele avisa: “A idade simplifica os homens”. O filme é prova de que sim, simplifica, mas às vezes para o bem. Este é o melhor trabalho dos irmãos Coen, e quem diz isso é uma putinha de Fargo e Barton Fink.

Como eles conseguiram? Difícil explicar, mas vou tentar (e tentar sob o impacto provocado pelo filme é, no mínimo, um malabarismo à Cirque du Soleil). Quando optaram por uma adaptação ao pé da letra do romance de Cormac McCarthy, os Coen fizeram uma opção corajosa. Tal como o filme, o livro começa como uma peça de gênero e aos poucos abandona todas as convenções para se perder com os personagens. Seguida à risca, a proposta do livro praticamente obriga os cineastas a explorar em profundidade o humanismo sombrio de Fargo. O que é bom para todo mundo.

O filme, um western moderno, lamenta o ocaso do Oeste. O narrador, deslocado nesse ambiente, poderia ser um colega de Clint Eastwood em Os imperdoáveis. Ele simplesmente desistiu de tentar entender de onde vem essa nova onda violência, que anda em picapes de traficantes de drogas. O mal é personificado no serial killer vivido por Javier Bardem (melhor atuação de 2007, sem concorrentes próximos) – não é à toa que a composição over do personagem (é o demônio com cabelo escovado) destoe da encenação sóbria e silenciosa do filme. Entre o herói e o vilão, existe o espectador, representado pelo “homem comum” vivido Josh Brolin.

De início, os Coen fazem o de sempre: brincam com gêneros, experimentam com humor negro, jogam com uma trama de perseguição. Aos poucos, implodem essas fórmulas e derrubam nossas expectativas. Em um determinado momento, o xerife melancólico se assusta quando o parceiro ri de notícias trágicas. Mais adiante, os Coen suprimem o clímax do filme, transformado em uma elipse construída (como na literatura) apenas na imaginação do espectador. O terço final da narrativa, quando todas as certezas deixam de fazer sentido, é um dos meus momentos favoritos do cinema norte-americano recente.

Lá quase no fim, o assassino joga uma moeda para decidir o destino de uma vítima. A vítima tenta argumentar, e os dois descambam em um debate sobre o acaso e livre-arbítrio. Depois da conversa, o destino entra em ação. Os Coen poderiam ter parado aí, nessa conclusão simétrica, à conto de fadas. A forma como encerram o filme, porém, é bem outra. Daquelas que tiram o sono.

‘Brighter than creation’s dark’, Drive-By Truckers ****

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Durante o segundo semestre de 2007, perdi quase todos os meus amigos. Alguns deles, da forma natural como acontece com todo mundo – o distanciamento lento dos que viajam e se casam, o desinteresse gradual dos que entram em outra sintonia. Outros, de modo um pouco mais abrupto – naqueles instantes em que opções precisam ser feitas, em que situações-limite te obrigam a colocar tudo em uma novas perspectivas. Sofri com as perdas. Mais que isso, porém, experimentei uma sensação ainda mais dolorida: a de me pegar deslocado, excluído do meu próprio mundo, como quem não recebe o convite para ir à festa onde todas as outras pessoas conhecidas estarão.

Um sentimento juvenil, bocó, mas que acabou me sequestrando aos 28 anos de idade. Shit happens, já dizia o sábio.

Nessa fase de extremo desconforto, valeu quase tudo. Me peguei soluçando no primeiro parágrafo de O caçador de pipas, para vocês terem uma idéia. Mas agora, que está quase tudo bem, começo a despertar para aquela impressão de que os trilhos voltaram a amparar as rodas do trem.

Não recomendo a experiência a ninguém, essa estranha puxada de tapete. Mas costuma acontecer – e, quando acontece, você começa a notar que quase todo mundo passa por meses muito ruins. E que, no fim das contas, estamos todos sempre perdidos em nossas próprias vidas sem nos darmos conta disso (por mais simplória e chorosa que esse tipo de conclusão possa soar, me perdoem).

Há muitos discos sobre o breu – e o mais recente do Of Montreal, por exemplo, recomendo com força, ainda que não tenha coragem de voltar a ouvi-lo. Poucos são os que retratam com maturidade o mal-estar vivido por essa cambada de outsiders sentimentais. Fiquei muito surpreso quando descobri que Brighten than creation’s dark é um álbum inteirinho, e brilhante, sobre o tema. E também um raro disco com a disposição (a fome, na verdade) de narrar histórias e compor personagens – algo que caiu de moda, e nos leva a Bruce Springsteen, Tom Petty e a poucos seguidores dessa tradição, como o Hold Steady (e, em escala bem menor, o Against Me!).

É um álbum de alt country e southern rock, o que provavelmente irritará 90% dos leitores deste blog. Mas recomendo que deixem o preconceito de lado. Tal como em Being there, do Wilco, o Drive-By Truckers filtra as referências mais típicas por um viés melancólico, que só fica claro quando se presta atenção às letras. Aí você conhecerá Bob, o homem que abandonou todas as ambições para viver com gosto uma rotina de poucos desafios (na ótima Bob), ou o pai apreensivo com a idéia de morrer e deixar para trás a família (Two daughters and a beautiful wife). Há contos de soldados perdidos em delirantes fluxos de consciência (The man I shot), de corruptos por necessidade (Goode’s field road) e, finalmente, uma ode ao cinema de John Ford (The Monument Valley) que diz muito sobre a filosofia da própria banda. “Quando a poeira baixa, aí percebemos que a História é escrita à margem da estrada”, ressaltam.

Longo, em widescreen – o grupo alterna faixas de dois compositores complementares, Peterson Hood e Mike Cooley -, o álbum apresenta uma sucessão de imagens de desamparo, de impotência diante de um mundo que cobra demais e oferece pouco. É um épico de heróis feridos, como o protagonista de Daddy needs a drink, que pede um trago para “enfrentar toda a beleza”. Ou o narrador de Perfect timing, que, ácido, nota: “Eu costumava odiar o idiota em mim, mas apenas às manhãs. Agora o tolero durante o dia todo.”

Sei como é.

Across the universe *

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Ganha um doce quem adivinhar que música toca quando o herói introspectivo dá um trago no cigarro de maconha e olha para um punhado de morangos. Hem? Hem?

E quando a menina chamada Prudence, meio deprê, se recusa a sair de um quartinho fechado? Ahn? Ahn?

E quando os meninos e meninas de Nova York decidem fazer uma revolução, já que todos nós queremos salvar o mundo?

Extremo oposto de I’m not there, aí está um filme que fará o admirador mais relapso dos Beatles acreditar que sabe absolutamente tudo sobre o quarteto de Liverpool. Não é um musical sobre os Beatles, nem a partir dos Beatles, nem ao redor dos Beatles, nem através dos Beatles. É um musical que ilustra as letras dos Beatles, e parte do princípio de que Lennon & McCartney escreviam canções tão genéricas que podem ser usadas ainda hoje para remeter a cada um dos estereótipos sobre uma certa década de 60 que talvez nunca tenha existido.

Não deixa de ser ambicioso, bem-intencionado. Mas sabemos que reduzir a arte dos Beatles ao conteúdo das letras é mais ou menos como limitar o gênio de Bob Dylan ao talento para a construção de melodias. Os arranjos da trilha sonora às vezes lembram versões de hard rock farofa (à The Darkness) ou prog rock de quinta categoria – o que é, no mínimo, um pecado.

Juno ***

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Na confusão de nichos e clichês musicais, um dia me perguntaram o que significa twee e eu não soube o que responder. Há quem use o termo como sinônimo para indie pop (se você digitar a palavra no Wikipedia, encontrará essa definição). No dicionário, aparece como adjetivo para o que é “excessivamente bonito, agradável”. Seria um estado de espírito? Uma afetação? Um valor positivo? Um xingamento?

Outro dia li um texto sobre Sufjan Stevens (que cabe nos dois conceitos de twee) em que o resenhista, enfurecido, afirmava que o som do compositor não poderia ser catalogado como twee pop. Então tá. Ninguém pode. Mas sejamos simplórios, pelo menos para efeitos de passatempo: twee, tudo indica, é aquele roqueiro sensível que sussurra canções tristes ou exageradamente alegres ao violão. O twee não se assume como twee, da mesma forma como o emo não é nunca emo. Já os punks adoram ser chamados de punks, os straight edge não bebem cerveja e os metaleiros deixam o cabelo crescer.

O twee, dizem, curte grupos suecos que usam cello e bandolim. Bom saber, por que talvez eu (que odeio rótulos) seja um desses. E agora, meu pai? Aplique essa fórmula ao cinema e não haverá filme mais twee que Juno. Acabei me identificando com esses personagens tão espertos, tão descolados, tão carentes, tão desorientados por qualquer coisa. Eles são como a trilha sonora, cheia de melodias que correm risco de cair no chão e quebrar. Para ficar mais twee, só faltava Belle and Sebastian. Ops, mas aquela canção ali não seria Expectations?

Filmes que se apropriam de um fetiche pop não devem ser levados a sério, e Juno é um desses. Parece criado para a mesma geração que aprendeu a ouvir rock independente graças à trilha de The O.C., que acompanhou as temporadas de Gilmore Girls e decorou as canções de Joanna Newsom. Se eu me sensibilizo com tudo isso, é que sou um pateta. O humor auto-depreciativo, aliás, faz parte do imaginário twee.

É assim: Juno é nosso Sid & Nancy, o nosso Senhor dos anéis (metaleiros são mesmo patéticos, não são?). Ellen Page, símbolo sexual de uma nação de rapazes melancólicos, é a versão em carne-e-osso da Daria, aquela personagem de desenho animado que aparecia de vez em quando na MTV. Ela transa com um bobalhão, engravida, decide não abortar, sai à procura de pais adotivos para a criança e, ainda assim, não deixa de disparar frases de efeito simultanemente sarcásticas e sensíveis. Detalhe: ela é fã de punk rock, mas encara o estilo com aquele distanciamento de quem pesquisa uma enciclopéia na biblioteca da universidade. Ai ai.

O filme, aviso, não vale um disco inteiro do Sufjan Stevens. Jason Reitman ainda dirige daquela forma exibida de quem ainda tem muito a provar. Como em Obrigado por fumar, a narrativa vem picotada em um misto de cartoon, clipe e colagem publicitária. Nada muito novo (e Domingos de Oliveira já tirava esses truques da cartola lá em Todas as mulheres do mundo). O roteiro de Diablo Cody tem uma queda irritante pela filosofia de livros de auto-ajuda. Mas nada disso tira o mérito de um filme adorável. Excessivamente bonito e agradável. Talvez a culpa seja dos bons atores, ou de uma composição de personagens à história em quadrinhos, caricaturas cheias de vida.

Para mim, o segredo está no tipo vivido por Michael Cera. O bobalhão. O twee por natureza. O garoto viciado em balinhas Tic Tac. O herói que ama terrivelmente, mas o faz em silêncio, com absoluta discrição. O filme só deixa de soar como um episódio menor de Anos incríveis, por isso, nos momentos finais. Aí descobrimos que trata-se, acima de tudo, da crônica sobre o momento em que as meninas decidem apostar nos caras decentes e legais. Você, que não teve o coração partido em três, vai sair da sala de cinema sem ter entendido nada.

Feist: ‘I feel it all’

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Numa nova tentativa de emplacar videoclipes neste blog desértico, aí vai o incrível passeio da Feist pelo terreno baldio onde testam os fogos de artifício do reveillon de Copacabana. O clipe de Patrick Daughters, todo em um take só, começa bem simples e termina como uma bagunça tão estranha, mas tão estranha, que chega a parecer poética. Tente aí.

O gângster **

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Aos fatos: em uma fase muito complicada da carreira (e isso é o mínimo que temos a dizer de um álbum magrelo como Kingdom come), Jay-Z assistiu ao filme O gângster e se identificou terrivelmente com a saga de Frank Lucas – o traficante negro que, nos anos 70, se transformou em poderoso chefão às custas de heroína importada no embalo das tropas norte-americanas da Guerra do Vietnã. O rapper curtiu tanto o filme que escreveu um disco inteiro com uma mistura das história de Frank com, como de costume, as encrencas Jay-Z.

A apropriação enviesada, vocês sabem, rendeu um dos belos álbuns de 2007: um thriller cantado, uma graphic novel sangrenta sobre a ascensão e a queda de um barão do pó. Para remeter ao auge do sucesso de Lucas, por exemplo, Jay-Z fez Roc boys, uma canção que passa toda a excitação que um sujeito podre de rico e entupido de pó e rodeado de moças generosas (ok, vocês imaginaram o lugar-comum) deve sentir.

Qual não foi minha surpresa quando descobri que… o disco é melhor que o filme!

Claro, são projetos muito diferentes e cá estou eu delirando novamente sobre asneiras (e é nessas horas que fico muito feliz de lembrar que ninguém lê este blog), mas não consigo deixar passar o fato de que o álbum tudo tem, absolutamente tudo o que falta ao filme: pegada, tesão, feeling, punch, alma, culhão ou a palavra que você quiser usar para descrever essa característica abstrata. Muito fácil analisar um filme a partir da combinação de elementos técnicos e supostos conceitos estéticos, mas e quando nada disso dá conta de explicitar o sentimento de insatisfação? Apelemos, então, a comparações esdrúxulas e ao que mais for preciso.

A trama do filme é mais ou menos a mesma do disco. Com uma diferença fundamental: enquanto Jay-Z se concentra exclusivamente em Frank Lucas (é o alter-ego, o homem que sobe ao céu e desce ao inferno e rappers adoram essas metáforas bíblicas), Ridley Scott e o roteirista Steven Zaillian filtram a história real em um embate entre bandido e mocinho – esse último, representado pelo policial Richie Roberts (Russell Crowe), talvez o único tira honesto de Nova York.

Quando um filme gasta quase três horas de duração para empurrar o herói de encontro ao vilão – e aí perceberemos, então, que um depende do outro, que são figuras complementares -, impossível não lembrar de Fogo contra fogo. Mas O gângster me pareceu mesmo um primo de Os infiltrados, com o retrato meio over de uma América corroída pela corrupção.

É possível encontrar alguma profundidade psicológica nesses personagens, mas você terá que se esforçar um pouco. O Frank Lucas de Denzel Washington é a encarnação do individualismo ianque, a face perversa do sonho americano. Já Richie está aí para provar que a honestidade dá pé. Scott filma esse embate de códigos morais com mão pesada, esquematismo que dói de ver (a primeira metade de filme não faz muito além de alternar didaticamente as trajetórias dos personagens). Felizmente, esses podres anos 1970 são fotografados pelo ótimo Harry Savides – e daí as boas lembranças de Zodíaco, que dão rasantes aqui e ali.

Mas filme de gângster com pompa e circunstância? Deixem para Jay-Z.