Mês: abril 2008

‘Evil urges’ My Morning Jacket **

Postado em Atualizado em

Não sou o responsável pelo diagnóstico, mas me sinto obrigado a concordar com ele: você ouvirá alguns álbuns esquizofrênicos este ano, mas poucos parecerão tão arriscados quanto este Evil urges, o quinto trabalho do My Morning Jacket. A aparência é mesmo essa aí – a de um disco robusto e inventivo, uma jornada sem destino definido. Mas preciso contar um segredo antes de seguirmos adiante: depois de algumas audições, ainda não consigo enxergar o fiapo que une essas 14 canções. E nem estou certo de que exista algum.

Outro dia elogiei o álbum do Dodos por motivo parecido: ele me conquistou por apontar várias direções musicais para um grupo ainda em processo de formação. O caso do My Morning Jacket é um pouco diferente. A banda que consagrou um certo estilo (o alt.country com ecos e delírios psicodélicos) e agora faz um esforço danado para negar essa marca e se firmar como uma gangue de artistas-garimpeiros, inclassificáveis, livres de obrigações estéticas, movidos pela curiosidade.

Esta é a intenção que tentam colocar em prática desde Z, de 2005. Como continuação daquele projeto, Evil urges não frustra em nada: é, por definição, irregular. “Meu objetivo é apresentar às pessoas estilos diferentes de música”, comentou o vocalista Jim James à Rolling Stone. Na entrevista, ele se compara a Wilco, Pearl Jam, Björk e Radiohead. Fiquemos com Pearl Jam e Wilco, bandas que tentaram se reinventar dentro de certos limites, sem abandonar por completo o aconchego do lar. O My Morning Jacket segue essas instruções à risca, o que faz de Evil urges uma intensa (e às vezes exagerada) demonstração de tudo o que a banda pode e quer fazer neste exato momento.

Como o anterior, é um disco que consigo admirar, mas com certo distanciamento (o que não acontece com o caloroso e relativamente simples It still moves). Só existe uma música que me tira do sério, e é uma balada até convencional (Smokin’ from shooting, com uma viradinha genial de bateria). As outras exibem belos conceitos, mas sem a substância que pelo menos eu esperava deles.

Não chega a ser uma decepção, já que as provocações do My Morning Jacket soam mais interessantes que a dúzia de grupos parecidos que eles acabaram apadrinhando. E não dá para negar o impacto de um álbum que começa com climas à Radiohead (a faixa-título), segue rumo aos anos 70 do Fleetwood Mac (Touch me I’m gonna scream), descamba num funk que parece uma mistura de Prince com Talking Heads (Highly suspicious), presta homenagem declarada aos Carpenters (Librarian), passeia pelo Neil Young rural de Comes a time (Sec walking) e ainda arruma espaço para baladonas que caberiam num disco do Lionel Richie (Thank you too) ou do Ryan Adams (Two halves). Uma infinita jukebox.

Não duvide: qualquer texto sobre Evil urges será longo e abarrotado de nomes de outras bandas. Estou impressionado até agora. Mas é essa a missão de um grupo que quer soar diferente de todos os outros?

Anúncios

24 horas

Postado em Atualizado em

Gosto de 24 horas, o seriado, por ser igualzinho à minha vida. Tudo. Tudo igual.

Ok, não sou agente especializado em causas tenebrosas, minha família não é seqüestrada de cinco em cinco minutos e não estou no alvo (até segunda ordem) de nenhum plano terrorista de alcance mundial. Mas, de resto, as semelhanças são inacreditáveis. São tantos eventos, tantas reviravoltas emocionais, tantas surpresas e pentelhações mil que produtores atentos poderiam muito bem escrever uma temporada inteira com os tantos desastres que cabem num dia inteiro vivido por este aqui, euzinho da silva.

Até meu café da manhã daria o trecho de um episódio três-estrelas. De cinco e meia da manhã às cinco e quarenta e cinco, vejam o script: deixo o pão esquentando, pego manteiga na geladeira, abro o suco de laranja, quase derrubo a geléia, desligo o alarme enquanto procuro o presunto, corro para recolher o jornal, tiro o pão do forninho antes que ele queime, engulo o pão em duas mordidas, sinto a pontada no intestino, meu olhar dá um corte rápido para o relógio, estou atrasado, estou atrasado, a cena pula para a porta da geladeira aberta, volto correndo para fechá-la e, lá dentro, surpresa, horror, percebo que há algo podre. Há algo podre. Há algo podre. E agora? É aí que minha vida se divide em três telas pequenas e retangulares, simulatâneas. Bip. Bip. Bip. 5:45.

Precisando, Kiefer Sutherland, estou aí.

P.S.: Mudei o layout ali do alto do blog, não sei se ficou bacana nem estiloso nem rock ‘n’ roll. No meu computador está um pouco pesado para carregar, mas não consigo que fique mais leve (entendo os mecanismos do WordPress só até certo ponto). Se alguém souber como me ajudar, por favor.

Go, Speed Racer

Postado em

O Diego, que não mora na roça, foi ver a pré-estréia do Speed Racer hoje pela manhã. Perguntei por e-mail: ‘E então, o filmezinho presta?’. E ele me respondeu mais ou menos assim (e aqui não entra uma música do Raul Seixas, calma aí):

Puts, gostei!

Bobinho de tudo, mas visualmente espetacular e com um calor humano muitíssimo bem vindo das atuações de Susan Sarandon, John Goodman e Christina Ricci. A trilha do (Michael) Giacchino é ótima e cita a canção-tema original em diversos momentos. Tô com ela na cabeça até agora.

O Emile (Hirsch) tá apagado, visivelmente não aguenta o tranco de segurar um filme desses. Mas os Wachowski conseguiram se livrar do Matrix com facilidade, até. Mandaram bem aproximando filme e desenho animado de uma maneira arriscada, deixando os efeitos com uma cara 2D/psicodélica/colorida feito um episódio do Teletubbies e com transições de cenas que homenageiam diretamente a série.

(Assim: se aquele episódio do Pokemon fez estragos com epiléticos, esse filme vai transformar todo mundo em zumbi, no mínimo).

Sério mesmo? Mesmo-mesmo? Então me animei.

Vida pessoal

Postado em

Está no top 5 das piores sensações do mundo: acordar às cinco da manhã. Por qualquer razão. Dá vontade de enfiar uma bala na cabeça. Explodir junto com uma estação de metrô. Voltar pro útero da mamãe. Pular da janela.

Bom dia pra você também.

Três vezes amor **

Postado em

Comédias românticas também te deprimem?

É que, vejam bem, a vida não funciona assim. Você não se muda para Nova York e, num estalo, ganha dinheiro, faz milhões de amigos, influencia pessoas e vira um bom partido. Você não perde o emprego, cai na pindaíba e curte um longo período de depressão num apartamento bonitão (cujo aluguel, aqui em Brasília, sairia por uns R$ 900). Você não veste o pullover mais estiloso para passear no parque às tardes. Você não corta o cabelo todas as manhãs para mantê-lo aparado e moderno. Você não sabe exatamente como combinar todas essas roupas caríssimas de marca que usa com tanta graça – terno com gravata com calça com camisa e o maldito pullover. Pior: você não tropeça dia-sim-dia-não em mulheres maravilhosas que, quem sabe!?, se transformarão no grande amor da sua vida. Não. E não.

O herói de Três vezes amor se divide entre mulheres maravilhosas. O acaso afastará os pombinhos, mas o importante é que elas, as mulheres maravilhosas, nunca irão virar para ele e cobrar detalhes que todas, todas as mulheres cobram – estabilidade financeira, estofo emocional, unhas religiosamente cortadas, papo interessante, bom humor e o que mais? -, já que o sujeito é simplesmente um bom partido. Elegante e estiloso. Ao sortudo da vez, será garantida toda a estrutura financeira e psicológica que eu e você nunca teremos em nossas vidas. Satisfeitos? Ou já caíram no choro?

Tenho que admitir, porém, que Ryan Reynolds veste com competência esse papel inverossímil (como todos, em comédias românticas). Ele parece boa-praça. E, em comparação a um Keanu Reeves, merece até um Bafta. É fácil ficar do lado de um ator que torrou milhagens em comédias grosseiras e irrelevantes para chegar até aqui. Ao vencedor, os ternos impecáveis.

Reynolds contracena com Abigail Breslin, a pequena miss sunshine. Ela interpreta a criança faladeira e sabichona que sempre existe em comédias românticas (quando não são substituídas pela melhor amiga neurótica). É a filha tão perfeita que, se bobear, não ronca nem faz birra. É sapeca e divertida, nunca inconveniente. O pai retribui o carinho contando histórias emocionantes sobre a própria vida. De quando, por exemplo, trabalhou na campanha presidencial de Bill Clinton servindo café.

Pois é: trata-se de um filme de época, para o desespero de quem viveu os anos 90 e hoje se sente velho (talvez precocemente).

Para fazer justiça ao período histórico retratado, os personagens ouvem Come as you are e usam telefones celulares do tamanho de walkie talkies. Sorte a deles, que são endinheirados e modernos e estilosos. Uma das três mulheres é uma repórter talentosíssima. Outra é uma globetrotter que, mesmo depois de dar a volta ao mundo, aparece sempre muito bem vestida. A terceira não faz nada de muito importante, mas parece saída de um anúncio de colar de diamantes. Se um desses tipos calhasse de se revelar um alienígena, eu não me surpreenderia. Não dá para acreditar em nenhum deles. Mas a gente acredita.

Por exemplo: quando Reynolds dá o último suspiro de desânimo diante das recusas da mulher que ama, a gente sofre junto. É sempre assim. Há o momento em que um personagem corre de encontro a outro, e corre com o entusiasmo de quem se apressa para sacar o prêmio da loteria. E a gente quase se emociona, ou desaba logo, já que esse simples movimento da corrida de um personagem (ao aeroporto, à estação de trem) evoca tantos sentimentos que, raios, tanto faz a falta de lógica da trama ou a cara-de-pau do roteirista. Estamos todos lá, de quatro para a velha fórmula.

Para mim, o resultado da experiência é sempre deprimente. Me sinto um pouco vulnerável todas as vezes. Meu coração é de papelão. Ao final da sessão deste Três vezes amor, a senhora de 70 e poucos anos da poltrona à frente enxugava as lágrimas. Mas por quê? Será que ela sabe o motivo? Será que ela se pergunta sobre isso? Assistimos a filmes assim para quê? Para automaticamente nos emocionarmos? Ou são eles, os filmes, que sempre nos pegam de surpresa ao despertar nossas fantasias mais tolas, mais inocentes, mais improváveis e também mais tristes? Na próxima comédia romântica, tento uma resposta.

‘In ghost colours’ Cut Copy ***

Postado em

Primeira impressão: hmm, é um pastiche do pop dos anos 80. Segunda impressão: ei, é um pastiche do pop dos anos 80. Terceira impressão: é um pastiche do pop dos anos 80! Quarta impressão: é um pastiche do pop dos anos 80, viva!

Mas não, o segundo álbum deste trio australiano – comandado por Dan Whitford, que co-produz o disco um little help do amigo Tim Goldsworthy, da DFA Records – não é mero pastiche do pop dos anos 80. Isso fica bastante claro lá pela quinta audição, quando notamos que a graça do projeto está em dar um Ctrl+C em cacos musicais do passado e adaptá-los, com um clique no Ctrl+V, a contexto bastante atual. O nome da banda é exato, não duvide dele.

Whitford, que saiu em turnê com o Daft Punk, aprendeu com os franceses que existe uma arte de copiar e colar, e que dominar esse processo é mais tortuoso do que parece. O Cut Copy tem sim aparência de New Order, gosto de Duran Duran e o perfume barato de canções que você ouvia, aos cinco anos de idade, em estações de rádio AM. O importante é como o grupo trabalha essas lembranças: com a doçura e o bom humor de álbuns como Darkdancer, do Les Rythmes Digitales, ou D-D-Don’t stop the beat, do Junior Senior.

Mais surpreendente é – lá na décima audição – descobrir que, quando a maquiagem escorre, o Cut Copy deixa à mostra canções nada magrelas. Feel the love, Lights and music e Hearts on fire são hits para um mundo perfeito. Mas o melhor é quando, entre uma e outra tentativa de mirar a perfeição pop, Whitford se diverte. É dessas despretensiosas experimentações que saem os momentos mais memoráveis do disco. Como na ensolarada Unforgettable season, que empapa gel e confete no power pop do Phoenix, na psicodélica So haunted e na tola Far away, que a Madonna venderia a alma para ter incluído em Confessions on a dance floor.

É um discão (até em largura, com 15 faixas e 50 minutos de duração). Mas isso você só vai perceber por volta da vigésima audição.

Peso do mundo

Postado em Atualizado em

Num fim de semana em que nada deu certo, ainda tive que enfrentar o fato de que eu talvez seja uma das cinco pessoas do país que não estão nem aí para quem jogou ou deixou de jogar a menina da janela.

Isso faz de mim um monstro?