Mês: setembro 2008

Busca implacável

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Taken, 2008. De Pierre Morel. Com Liam Neeson, Maggie Grace e Leland Orser. 93min. *

Busca implacável é como um episódio rejeitado de 24 horas produzido por Luc Besson. Liam Neeson interpreta um experiente agente secreto que – nas palavras dele! – destruiria até a Torre Eiffel para salvar a filha adolescente das garras de traficantes albaneses.

A guria, talvez não por coincidência, se chama Kim.

É o tipo de filme a que assisto por obrigação e que recebe comentários maldosos até das assessoras de imprensa da Fox. “Achei o Jack Bauer um pouquinho caído”, comentaram ao fim da sessão.

Mas vamos supor que Besson tenha produzido (e co-escrito) uma espécie de paródia à européia da série de tevê. Nem assim ficará mais fácil digerir esse thriller de segunda mão que, nos melhores momentos, parece ter algo a dizer sobre a vida de celebridades da música pop. “Depois que acaba o glamour, é só aeroporto e quarto de hotel”, confessa a cantora superfamosa protegida por Neeson. Depois disso, ela é abduzida da trama.

Na longa seqüência de tortura (à Jack Bauer, claro), comecei a desconfiar das intenções do filme. Mas aí inventam de encenar o clímax num iate com decoração à Mil e uma noites com um sultão safado à espera de virgens norte-americanas vestidas de branco e… tá, não é engraçada, mas saquei a piada.

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We are beautiful, we are doomed | Los Campesinos!

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Gravado em onze dias, lançado apenas oito meses depois do álbum de estréia e empacotado em 32 minutos de duração: We are beautiful, we are doomed é polaróide fresca. Fica parecendo até um experimento – concebido a partir da hipótese de que, para o Los Campesions, a espontaneidade vale mais que mil firulas de estúdio.

Mas vale?

Obra sem acabamento, tosca for fashion, o álbum nos transporta ao lo-fi do início dos anos 1990. Miserabilia cita diretamente os riffs de Weezer de Undone (The Sweater song). E há as canções com pontas soltas e dissonâncias que lembram o Pavement de Slanted and enchanted (All your Kayfabe friends, que fecha o disco). A diferença é que o Los Campesinos trabalha com uma estética de acúmulo de efeitos – de excessos e detalhes que não combinam com um formato à punk rock. De propósito, a banda faz rock superextravagante transmitido por um radinho de pilha.

Talvez seja por isso que tanta gente os abandone na primeira audição. Ouvir um álbum do Los Campesinos exige predisposição a uma sonoridade sempre over, sempre estridente. Mas garanto que, depois de um tempo, quando a estranheza desce pelo cano, os galeses se destacam por algo bem mais simples: o entusiasmo com que vomitam refrãos fáceis, versos irônicos e referências pop.

O primeiro disco, Hold on now, youngster, levava essa urgência ao pé da letra – a banda passava pelas próprias canções como um trator descontrolado. Agora (e depois de receber críticas por um disco “disforme”), a hora é de aceitar algumas convenções, esculpir o pedregulho na medida do possível. We are beautiful é mais redondo que o anterior, com faixas que oscilam entre a empolgação da estréia (Ways to make it through the wall e a faixa-título são tão poderosas quanto qualquer coisa que já gravaram) e momentos até introspectivos, com vinhetas ruidosas que amarram uma canção a outra.

Para quem se acostumou a esta bagunça organizada, soa como um álbum mais palatável, domesticado e – apesar do processo acelerado de gravação – menos arriscado. Como eles próprios avisam num dos versos, uma “versão soft porn do fim do mundo”. Está feito – agora vamos à carnificina?

Segundo álbum do Los Campesinos! Dez faixas, com produção de John Goodmanson. Wichita/Arts & Crafts. **

Êxodo

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Alguém aí não foi pro Festival do Rio?

(Boas coberturas da mostra na Paisá, na Cinética e no blog do Filipe. Até o Guilherme Alves parece ter abandonado o estilo telegráfico por um tempinho, então é bom que aproveitemos. E, claro, tem um certo quadro de cotações que nos ensina anualmente que a vida é dura e nem tudo é festa)

Gênero (He’s leaving home)

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No meu caso, é drama. Sempre um drama.

Foi assim que aconteceu quando, como quem desembrulha um presente de alguns bons metros quadrados, minha família apresentou a casa. Ontem pela manhã. ‘Só temos um mês, vamos correr com a mudança. Vida nova, vida nova’. E eu, dramático que só eu, perdido, tonto, elétrico naquele fim de mundo. Tanta terra. Uma casa à margem da civilização.

O que seguiu o espanto foi um diálogo patético (é o que acontece por aqui):

– A gente vai poder criar galinha.

– Galinha?

– É. Galinha.

– Galinha, mãe?

– É, Tiago. Galinha. E plantar umas árvores. Naquele terreno ali.

– Mas galinha?

A pergunta que cacarejava na minha cabeça: como foi que não percebi, durante invisíveis cinco meses, as movimentações da minha família para amarrar as trouxas e se mudar para um cantinho aprazível no fundo do nada? Em que universo eu estava durante esse tempo todo?

Primeiro fiz gênero (como eles tiveram a coragem de não me avisar sobre uma mudança esdrúxula para uma casa tão distante de tudo, quase no entorno do Distrito Federal, quase no interior do Amapá?), depois caí na real (eles não têm a obrigação de me avisar, a vida é deles, eles são adultos, crescidos etc), em seguida percebi que aquele era o momento: vou morar sozinho, pensei. Depois avisei: ‘vou morar sozinho’.

E foi um drama. Não sei se é o que acontece com todo mundo. Talvez não. Minha tão adiada decisão de sair de casa foi finalmente definida graças à imagem de umas trezentas galinhas esfomeadas, trancadas num cercadinho insalubre. Depois imaginei os mosquitos. E, finalmente, o silêncio. O silêncio mata.

Engraçado que ninguém aceitou bem o meu surto à J.D. Salinger. De sair de casa assim, num susto. Nem eu aceitei – meia hora depois, comecei a calcular o quanto seria penoso pagar mais de duas contas por mês. Minha família não aceitou – mas fez que aceitou, com aquele discurso dúbio no esquema “esta é a oportunidade perfeita pra você batalhar pela liberdade que você sempre desejou, filhão, mas vamos esquecer esse assunto por um minuto e conversar sobre os móveis do seu quarto novo?” Ficou um impasse, estranho impasse.

E, como prova definitiva de que há pelo menos outros três reis do drama na minha casa, passamos o sábado sob o domínio de uma pesada lei do silêncio. Ninguém falou. Nada. Nem na hora do almoço, anunciado com uma série de sinais familiares, grunhidos e barulhos. Nem na hora em que minha mãe pede religiosamente para que fechemos as janelas e, em seguida, dispara o apito do alarme. Ela fechou as janelas por conta própria.

No dia seguinte, de manhã cedo, meus pais já estavam de volta à rotina – catavam caju, brincavam com os cachorros, comiam mamão. Mas minha rotina já estava em outro canto, boiando nas palavras minúsculas dos classificados. No início da tarde estávamos todos conversados. ‘Você vai morar sozinho mesmo? Está decidido?’, ainda perguntaram, à espera de uma resposta terrivelmente agradável, do estilo ‘não, não vou, nós vamos viver juntos num cubículo sem ventilação até o fim do mundo’.

Mas aí respondi que sim. Em um mês. Trinta dias e estou fora. Até porque não existe outra possibilidade. Há os motivos práticos incontestáveis (custo com gasolina, engarrafamentos quilométricos para chegar ao trabalho, incompatibilidade com a vida tranqüila na floresta, fugir das galinhas), mas há o argumento que todos entendem mesmo quando não é pronunciado. A hora é essa. Já vou tarde. Meu tempo era ontem. Entre os filhos que deixam a casa dos pais, sou um retardatário. Estou na contramão do curso da vida.

Agora à noite, me pediram para fechar as janelas, ligar o alarme, apagar as luzes da sala, lavar os copos sujos e recolher os jornais de ontem, amontoados na mesinha da sala. Por antecipação, senti saudades. E, dois minutos depois, alguma vergonha do drama que ainda virá.

Aquela velha canção

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Estou convencido: nenhum texto, nenhum comentário, nada consegue me preparar para a experiência de assistir a um filme de Alain Resnais.

É um cinema que não se descreve, se vê.

Ontem assisti a Amores parisienses. Estou maravilhado até agora. É que eu esperava encontrar esse ou aquele filme, e o cineasta – que já se definiu como o mau aluno da classe, que nunca cumpre os deveres da forma como queremos que cumpra – me entregou outra coisa. 

E, teoricamente, eu estava preparado para o filme. Li a sinopse, as críticas. Sabia que o diretor tomava emprestado um recurso do inglês Dennis Potter, em que atores dublam canções populares. Ouvi falar que era um dos “mais leves” (e, para alguns, “mais tolos”) do cineasta. O que encontrei foi, simultaneamente, um dos filmes mais experimentais e mais afetuosos de Resnais.

Não me pergunte como isso acontece. No caso, só vendo. Há textos excelentes sobre ele, mas nenhum dá conta do choque provocado por uma narrativa que alterna freneticamente momentos em que nos distanciamos e nos aproximamos dos personagens. Talvez essa não seja a função da crítica, a de transcrever sensações. Como isto aqui não é uma crítica nem nunca vai ser, me sinto bem livre para perguntar: como explicar os momentos em que os personagens fazem karaokê com melodias alheias como quem sintoniza uma estação ultrapassada de rádio? E o modo abrupto com que essas canções são interrompidas, às vezes com dez ou quinze segundos de interpretação? Não dá. Fica parecendo mais um musical. Pior: fica parecendo muito banal, descartável.

Resnais fez um filme sobre a forma muito particular como canções pop às vezes traduzem nossos sentimentos. A música, no filme, é a voz do inconsciente, da alma dos personagens. Talvez por isso o longa seja tão desdenhado pelos fãs do cineasta, que preferem um Resnais ou francamente emotivo (Medos privados em lugares públicos) ou explicitamente provocador (Na boca, não). Amores parisienses é o encontro desses dois mundos. A fusão dos elementos. Com faíscas e tudo.

Loyalty to loyalty | Cold War Kids

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Um bom vocalista às vezes faz toda a diferença. No caso do Cold War Kids, ele se chama Nathan Willet.

Sem Nathan, esta seria apenas mais uma banda que recicla um certo rock setentista (de Led Zeppelin, Rolling Stones) em arranjos crus, esvaziados por lacunas e silêncios. Resumindo: mais um candidato ao trono de Jack White.

Com Nathan, a banda encontra um tronco, uma personalidade. Quando o vocalista assume a dianteira – e isso acontece quase sempre -, é como se ele transformasse canções mais derivativas em confissões descontroladas, altamente expressivas. Não consigo imaginar os refrãos de Welcome to the occupation e Against privacy interpretados de uma forma menos atormentada. Eles simplesmente não fariam sentido.

Os agudos rasgados de Nathan, com um quê de Jeff Buckley e de Robert Plant, às vezes ofuscam o principal problema do álbum: a polidez da produção. As melodias são aparadas com tanto esmero que o resultam em números quase radiofônicos, quase sem cheiro e angústia, como se um DJ intrometido tivesse decidido limpar todos os ruídos do álbum mais recente do Walkmen.

É um band leader à procura de uma banda – que surpreende muito pouco, e só chega a entusiasmar no single Something is not right with me, igualzinho ao Spoon. Não ouvi o álbum anterior deles (dizem que é muito bom, e não duvido disso), mas já passou a hora de Nathan encontrar músicos que acompanhem o grau de intensidade dessas interpretações. Trata-se de um cantor que agarra cada oportunidade com os dentes, que parece disposto a tudo.

Escuto este Loyalty to loyalty um pouco insatisfeito, incomodado, mas certo de que não deixarei de acompanhar esta banda. Um bom vocalista às vezes move montanhas.

Segundo álbum do Cold War Kids. 13 faixas, com produção da própria banda. Downtown/Mercury/V2. **

Controle absoluto

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Eagle eye, 2008. De DJ Caruso. Com Shia LaBeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson e Billy Bob Thornton. 118min. *

Falando em mediocridade, nada como uma manhã de quarta-feira na companhia de DJ Caruso.

DJ Caruso. Vejam isso. Um nome, mil piadas prontas.

Então olha lá: depois de samplear Hitchcock em Paranóia, agora o sujeito faz um remix poperô farofa-fa esquema Ibiza de uma infinita lista de genéricos do cinema de ação. De Inimigo de estado a Duro de matar 4.0, o espectador mais desocupado pescará uma série de semelhanças entre Controle absoluto e filmes que nunca fizeram tanta diferença assim.

A primeira hora, por exemplo, é quase idêntica à de O procurado. O típico caso do zé-ninguém que se descobre no meio de uma conspiração internacional, extraordinária, perigosa, excitante e apocalíptica. E a segunda metade… Bem, aí o filme vira meio que uma auto-paródia, quase uma versão de 2001 – Uma odisséia no espaço dirigida por David Zucker.

E lá no material de divulgação vem escrito que Steven Spielberg tenta emplacar essa premissa há nada menos que uma década. Duvido. Deve ser intriga da equipe de marketing.

Em Controle absoluto, os personagens vivem as mais incríveis perseguições quando se descobrem alvo de uma voz feminina que tudo pode, tudo faz e tudo quer. Me pergunto: se ela pode absolutamente tudo, não haveria como capturar o Shia LaBeouf sem provocar quase que uma guerra civil em pleno perímetro urbano?

Tem mais. Num certo momento da trama, um personagem diz a seguinte frase: “Algumas medidas usadas pelo governo para garantir a liberdade do povo acabam ferindo essa mesma liberdade.” Ok, acho que até o George W. Bush captou a mensagem.

Eu gosto de nonsense, e sei que você gosta de nonsense. Mas como é que DJ Caruso dirige esse filme B? Com a atmosfera impessoal e descolorida de um episódio de seriado policial. Com um olhar robótico que acaba combinando com os vilões da trama. Com a eficiência de quem vai lá e faz o trabalho. Com alguma frieza, apatia, distanciamento – duvido que intencional. Controle absoluto é um hit que já nasce requentado, cambaleando na pista vazia.