Mês: março 2008

Vale a pena ouvir de novo?

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O disco do Portishead tirou férias do meu iPod e não voltou mais. Não sei o que está rolando, mas parece que nossa relação desgastou cedo. Tento até ouvir no carro, mas quando entra aquela voz do Otto rogando praga em mim, troco o CD. Se isso é bom ou ruim, não sei. Mas ontem reli meu texto sobre o álbum e percebi que escrevi duas ou três asneiras inaceitáveis.

Já o do Gnarls Barkley não é aquela atrocidade que meu comentário sugeriu. Fui cruel com o disquinho, até bem simpático. Surprise é ótima, aliás. Mas as duas faixas que vêm logo depois…

O do Raconteurs continua na mesma. Paro sempre lá pela décima faixa e deixo quieto.

O do Breeders parece que nem foi gravado. Não sinto falta.

Me surpreendi com o do Vampire Weekend. Fui a uma festa sexta-feira e tocaram uma música da banda. A DJ jurou que foi sem querer. Não é que as pessoas dançaram? E aí lembrei do álbum, voltei a ouvir e virei fã de novo.

E enjoei do Jamie Lidell. Não agüento mais aquelas palminhas fake e aqueles refrões bobinhos. Tá, esse último parágrafo é mentira. Primeiro de abril antecipado.

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Walk hard: the Dewey Cox story **

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Sim, havia os desenhos animados. Mas lembro bem de quando me apaixonei terrivelmente, incondicionalmente por comédias. Na minha alfabetização, nada de Mel Brooks ou de Buster Keaton ou de Charlie Chaplin – esses viriam bem depois. Culpem o final dos anos 80, mas Corra que a polícia vem aí é meu Diabo a quatro (dos Três Patetas, que fique claro). Um clássico da minha pré-adolescência. Que, obviamente, morro de medo de rever.

Mas reconheço que o gênero defendido pelo trio David Zucker, Jerry Zucker e Jim Abrahams poderia ter sido enterrado em alguma matinê esvaziada de 1994. Banalizaram tanto as paródias de fitas de sucesso que hoje em dia qualquer lagartixa dirige filmes melhores que, para ficarmos no exemplo mais grotesco, Espartalhões.  Daí a surpresa que é esse Walk hard, a melhor aplicação rigorosa da cartilha desde… não lembro quando.

Infelizmente, ainda não é a paródia dos nossos sonhos. Co-escrito por Jude Apatow (de Ligeiramente grávidos), o filme poderia ter rendido muito mais que um simples amontoado de gags. É bem-vinda a ambição de espinafrar as cinebiografias mais automáticas de Hollywood (se bem que, ops, I’m not there também acaba virando alvo). Menos interessante quando as piadas se inspiram basicamente no repertório de dois blockbusters: Ray e Johnny & June.

A narrativa cai naquele vício de parecer uma compilação de esquetes do Saturday Night Live (está mais para Todo mundo em pânico que para Apertem os cintos, o piloto sumiu). Mas esse tipo de produto aborrece tanto que, no caso, dá para ficar muito animado com a qualidade das gags. A colcha de retalhos é alinhavada por um ótimo John C. Reilly, por boas canções e (algumas) sacadas atentas sobre os clichês da música pop. Toda a “fase obscura” de Dewey Cox, com viagens lisérgicas que descambam num álbum psicodélico absolutamente pretensioso e em canções políticas cheias de metáforas incompreensíveis, vale as referências abobadas aos Beatles e, bem, a Ray e Johnny & June.

Pena que Dewey Cox não sobreviva ao filme. Não é como Frank Drebin, um personagem de carne e osso. O herói de Walk hard é a soma de três ou quatro caricaturas. E de, ok, cinco ou seis piadas verdadeiramente hilariantes.

‘The odd couple’ Gnarls Barkley **

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gnarlscapinha.jpgMeu álbum despretensioso fez um baita sucesso, e agora? “Conquiste mais 35 territórios”, aconselha o Raconteurs. “Faça da brincadeira uma fórmula”, ensina o Gnarls Barkley. Até ontem, eu me perguntava por que tenho tanta preguiça de escrever sobre este The odd couple. Ia deixar passar. Mas agora sei: desta vez, também muito preguiçosos, Danger Mouse e Cee-Lo querem apenas manter o time em campo com dignidade.

Uma ambição que faz sentido se você é o U2 ou o Rolling Stones. Mas não quando você vende a idéia de se esforçar ao máximo para soar inventivo a cada novo single, a cada nova foto de divulgação. The odd couple, apesar de competente e etc, decepciona pela falta de ousadia.

A historinha é previsível. Há pelo menos três variações de Hey ya! (a mais interessante é a faixa de abertura, Charity case, mas Run também vai bombar nas pistas) e umas duas tentativas de reescrever Crazy (Who’s gonna save my soul, porém, acaba parecendo coisa do Moby). Blind Mary é (preguiça!) até bem divertida. De qualquer forma, ficam num estranho zero a zero. Vocês querem um antídoto ao marasmo? Então tomem Jamie Lidell, Jamie Lidell, Jamie Lidell.

‘Jim’ Jamie Lidell ****

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jamielidellcapinha.jpgMeus favoritos do ano, até 16h47 (horário de Brasília) do dia 27 de março de 2008: uma monumental revisão da tradição do country rock (Brighter than creation’s dark, do Drive-By Truckers), uma festança de punks adolescentes enloquecidos e ultrapassados (Get awkward, do Be Your Own Pet) e, finalmente, um álbum que presta homenagens apaixonadas, apaixonantes e rigorosas a uma escola de velhos gênios da soul music. Três “discos de gênero”, que devem tanto ao passado da música pop. O que acontece?

Outro dia eu estava espinafrando o novo do Raconteurs, e não peço desculpas. Existe, creio eu, um abismo entre artistas que seguem parâmetros envelhecidos e aqueles que, mesmo sem pretensões (como no caso do Be Your Own Pet), atualizam ou subvertem um conjunto de símbolos culturais. É essa a praia de Jim, o novo de Jamie Lidell.

Acima de qualquer teorização besta, trata-se de um álbum que soa direto, aconchegante e econômico como uma coleção de hits gravada por algum soulman em 1967. A maior ousadia do projeto está nessa aparência bastante acessível. Explico: Lidell construiu toda a reputação como um artista de música eletrônica “de vanguarda” com certa inclinação pelo soul. As influências de canção popular já contaminavam Multiply (2005), mas aquele era um álbum com momentos experimentais que satisfaziam os fãs mais radicais. Essa lógica foi deliciosamente invertida numa guinada que pode irritar quem espera do músico uma colagem sonora à Panda Bear.

Não é meu caso.

Em Jim, Jamie praticamente abandona underground e cobra atenção do público que compra CDs em supermercados e ouve Jamiroquai. Um golpe, se não arruinar a carreira do sujeito, provavelmente o transformará num ícone pop. E daí? Pelo menos para Justin Timberlake e Timbaland, que cairão de quatro por este grande disco.

Seria isso maturidade? Sabe-se lá. Acontece que, hoje em dia, Jamie testa uma nova hierarquização para a própria arte. Em primeiro lugar, as melodias. Em segundo, os vocais calorosos, emotivos. Em terceiro, as letras otimistas, tostadas ao sol. Em quarto, e só em quarto, as experiências com música eletrônica, que enriquecem a sonoridade do disco sem aparecer demais. No processo, ressalta o sublime num gênero maltratado pela constante ameaça de pasteurização. São tocantes as referências a James Brown (Little bit of feel good) e a Marvin Gaye (Rope of sand), e a alegria como Another day abre o disco, ao som de passarinhos e com um refrão que vai fazer você chorar no próximo comercial de margarina.

Espero sinceramente que o álbum não seja interpretado como uma diluição da trajetória de Jamie (mas reconheço que isso deva ocorrer, o mundo é cruel). Gente como Lauryn Hill e até Kanye West veste a soul music com as roupas da estação, e o faz com muita competência. Jamie pertence a outro grupo de artistas. Ele é o alquimista que une elementos conhecidos na tentativa de sintetizar a canção mais viva. Jim é o resultado da experiência: o robô com suíngue e coração.

‘Consolers of the lonely’ The Raconteurs **

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raconteurs.jpgOlhe mais de perto e você perceberá que, deus!, Jack White e Brendan Benson são dois sujeitinhos bem conservadores. Daqueles que estocam discos de vinil em abrigo nuclear com medo do domínio de uma nova onda tecnológica qualquer.

Só essa desvairada nostalgia justifica a estratégia de marketing do segundo álbum do Raconteurs. Um mini-manifesto explicando a razão de um lançamento simultâneo em todos os formatos num mesmo dia – já sei: por amor ao rock ‘n’ roll? – destoa tão completamente do momento em que vivemos que a capa do álbum só poderia mesmo conter referências à América… de uma época distante em que a comunicação se fazia apenas por cartas (daí o título do disco, o velho lema do prédio principal do Correio em Washington).

É aquela lição que nossas vovós nos ensinaram: quem se apega demais ao passado vira Lenny Kravitz (ok, inventei essa agora).  Claro que White e Benson tratam a história do rock com um humor faceiro que Kravitz nunca teria capacidade intelectual para simular. Mas eles se deixam guiar por parâmetros artísticos caducos. Por exemplo: essa pretensão boba de gravar o “grande disco de rock ‘n’ roll”, um rótulo que Consolers of the lonely adoraria ostentar. Já não passou da hora? Isso ainda serve?

E vê como é a vida? Eles planejaram todo um esquema para fazer com que o álbum chegue a todos os seres humanos simultaneamente amanhã, dia 25, e aconteceu o que? Ele escorregou pelo iTunes e, nesta altura, até minha tia caduca já decorou as letras. Tentaram domar a rede mundial de computadores, os tolinhos.

Sabotar o hard rock e o heavy dos anos 70 num formato lo-fi é uma coisa – e essa é uma idéia que o White Stripes já tratou com muito esmero. O Raconteurs, uma “banda de verdade”, não se dispõe a esse tipo de desafio. O que Benson e White fazem na hora do recreio é gravar discos que poderiam ter sido consumidos durante os anos 70. Com muito cuidado. Com algum talento. Com vigor. Com tino pop. Com faro comercial. Eles são bons compositores. Mas os dois álbuns do Raconteurs soam apenas corretos. Perigosamente corretos, alías. Já que, sabemos, rock correto equivale a sexo com boneca inflável (nunca tentei, mas aposto que deve ser pelo menos um pouquinho gostoso, apesar da ressaca moral).

Neste monumental segundo álbum, a banda se revela mais entrosada, mas ainda sem uma estética particular. Na maior parte das faixas, fica a impressão de que Jack White engole o grupo aos poucos, como quem compõe canções anabolizadas do White Stripes – em The switch and the spur, aparecem até os sopros mariachi de Conquest. Os grandes candidatos a hit são como que remixes radiofônicos do WS. E Top yourself, Salute your solution e Five on the five são remixes até bem eficientes. Há trechos em que Benson tenta se libertar das correntes e infiltrar algumas melodias à Paul McCartney no jogo, mas sai perdendo. É inevitável. Jack White tem carisma, e sabe o que faz.

Poder de fogo eles têm. Mas, lá pela décima faixa do disco (são 14!), a pompa começa a pesar. O Raconteurs não era para ser um projeto despretensioso? A partir de agora, ninguém tem o direito de se enganar: dominar o planeta é a idéia deles de diversão.

O sonho de Cassandra **

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cassandra.jpg

São mesmo grandes as semelhanças entre as premissas do novo Woody Allen e do recente (e impecável) Sidney Lumet. Mas acredito que mais interessante do que tomar um dos filmes como exemplo de “bom cinema” é aproveitar as coincidências para entender as especificidades de cada cineasta. O filme de Allen é desconjuntado e bem menos furioso que o de Lumet, mas eu não esperava nada muito diferente. A crítica do Roger Ebert é problemática por conta disso: se Allen tivesse feito um thriller à Lumet, qual teria sido a graça?

Prefiro outro tipo de comparação: frustrante é como este Cassandra’s dream parece minúsculo (em estofo reflexivo, já que estamos na fase inglesa e supostamente sofisticada do cineasta) perto de Match point e talvez até do esquecível Scoop. O cineasta passa tão à margem das pretensões do material, e de uma forma tão desleixada (ele filma uma tragédia grega como quem narra uma crônica londrina) que aposto como este filme será motivo de culto em algumas estranhas comunidades fechadíssimas – aquelas que encontram momentos de brilhantismo em Igual a tudo na vida.

No currículo de Allen, o filme não fará muita falta. Mas me interesso pelo modo como o cineasta obsessivamente repete uma velha ladainha – “a vida é uma tragédia irônica” – e, com um tipo de distanciamento meio blasé, acaba encurralando os personagens numa conclusão esparsa, sombria, que qualquer outro diretor (até mesmo Lumet) encenaria em tom maior. E conseguir esse efeito friorento acompanhado de uma trilha espalhafatosa do Philip Glass não é para qualquer um.