Mês: setembro 2011

Os filmes da minha vida (2)

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A saga dos 100 filmes mais cultuados cá na Tiagolândia chega ao segundo episódio com mais dois títulos que cuspiram lava no meu infinito particular. Vocês entendem a dimensão desta série de posts, entendem?

Mas, sem querer ficar marisamonteando, serei sucinto: já que este ranking só vai terminar após a Copa de 2022, sugiro que os cinco frequentadores deste blog relaxem e, sem fazer julgamentos cruéis, aproveitem o passeio ao pântano das minhas lembranças & sentimentos imperfeitos. Ainda estamos nos trêilers, ok? E a sessão é tripla, tá certo? Então sit tight que…

098 | A esquiva | L’esquive | Abdellatif Kechiche | 2003

Quando penso em muitos dos meus filmes preferidos, geralmente lembro de características que nada têm a ver com a trama, com os conflitos que eles narram. Tomei um susto, por exemplo, ao ler hoje que as crianças de A esquiva ensaiam uma peça de Marivaux. É uma informação importante dentro do filme, mas que havia desaparecido dentro das minhas memórias. O que ficou foi uma impressão até infantil de coração partido: o desejo de ter permanecido verdadeiramente mais algumas horas, dias, dentro daquele mundo onde vivem os personagens. A encenação me convidou a entrar, digamos assim, e de repente eu me tornei um dos meninos da trama. Não foram poucas as vezes em que eu saí da sala de cinema como quem acorda de um daqueles sonhos que parecem muito vívidos: mas eu tinha uns 28 anos quando vi este filme. Não era mais inocente. Não era criança. Mas foi nisso que me transformei, naquela sessão (na embaixada da França), para meu espanto. Quando acenderam as luzes, me senti desamparado.

097 | Império do sol | Empire of the sun | Steven Spielberg | 1987

A história da minha minha relação com este longa de Spielberg está cheia de incompreensão e repulsa. Detestei o filme. Mas detestei, antes de tudo, porque não o compreendi, não entendi absolutamente nada da trama. Minha mãe cometeu um erro (uma ousadia?) ao me levar para o cinema numa época em que eu ainda não sabia ler legendas: o que ficou daquela sessão foi uma coleção de imagens desconexas. Também restou: um menino (mais ou menos da minha idade) perdido dentro de uma guerra e dentro de uma tela, tudo destroçado dentro da minha imaginação. Foi um embate difícil, sangrento, entre o espectador de oito anos e o pequeno J.G. Ballard (que se tornaria um dos meus escritores preferidos; mas muito mais tarde). Lembro que, nos créditos finais, me senti ainda mais pequeno, burro: enquanto o público aplaudia e chorava, eu só queria que alguém me explicasse aquela história, os diálogos, qualquer coisa. Mas eu me recusava a pedir orientações – e, depois que aprendi a ler legendas, me recusei a rever o filme. É um porre, eu dizia aos meus amigos. Menino orgulhoso, como vocês podem perceber.

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Mixtape! | Setembro, teen spirit

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A incrível, contagiante (e um tantinho neurótica) mixtape de setembro chegou cedo (surpresa!) para iluminar setembro.

“Por que a pressa?”, vocês me perguntam, intrigados. É que, na próxima semana, o Tiaguinho aqui não terá tempo para nada: não vai ouvir música, blogar bobagens, bolar mixtapes, muito menos respirar. Estarei no Festival de Brasília: trampo day&night, portanto (vou tentar postar alguns textinhos sobre os filmes da competição, mas não garanto nada).

Mas isso aí é assunto pra outra hora.

Cá está ela, então. Prematura porém bonitona, cheia de charme, com um desejo enorme de te emocionar. Irresistível. Sério. Eu já ouvi tanto que decorei e aprendi as cifras de todas as músicas (!).

Em resposta à mixtape de agosto, que veio sequelada por uns tons de cinza-deprê, esta aqui irrompe iluminando a paisagem. É uma coletânea para os dias muito amarelados da estiagem brasiliense. E uma coletânea que, além de sugerir alguma coisa de juvenil (daí o título), está povoada de moças e rapazes eufóricos/confusos.

Aqui você encontra (nesta ordem) Neon Indian, The-Dream, CSS, St. Vincent (que está na foto lá no topo do post), Laura Marling, Cymbals Eat Guitars, Wild Flag, Wilco e Male Bonding. O lance é dinâmico, e flui que é uma beleza (a lista de músicas está na caixa de comentários).

Minha sugestão: faça o download (desta vez, todas as canções se encaixam direitinho). Mas você também pode ouvir a coletânea aqui no site, clicando na jukebox que se encontra no fundo deste post.

Seria bacana se, além de ouvir, você escrevesse um comentário avaliando a seleção musical deste mês. Mas não vou cobrar nada. Eu não tenho tempo, você não tem tempo e isto aqui, no mais, é só um blog. Relaxe.

E faça o download da mixtape de setembro.

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

[chuck palahniuk]

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“Nos anos 1960 e 1970, os programas de culinária na televisão estimulavam uma categoria crescente de gente a gastar seu tempo vago e dinheiro com comida e vinhos. De comer, eles passaram a cozinhar. Guiados por especialistas em como fazer, como Julia Child e Graham Kerr, explodimos o mercado dos fogões Viking e das panelas de cobre. Na década de 1980, com a liberdade dos vídeos e CD players, o entretenimento passou a ser nossa nova obsessão.

Os filmes se tornaram um território em que as pessoas podiam se encontrar e debater, como fizeram sobre suflês e vinho na década anterior. Como havia feito Julia Child, Gene Siskel e Roger Ebert apareciam na televisão e nos ensinavam a ser óbvios. O entretenimento passou a ser o próximo ponto para investir nosso tempo e dinheiro.

Em vez do buquê, da safra e da lágrima do vinho, falávamos sobre o uso mais eficiente da voz em off, de uma história de fundo e do desenvolvimento do personagem.

Nos anos 1990, nos viramos para os livros. E, no lugar de Roger Ebert, entrou Oprah Winfrey.

Mesmo assim, a real e grande diferença era que podíamos cozinhar em casa. Não podíamos fazer um filme, não em casa. Mas podíamos escrever um livro. Ou um roteiro de cinema. E esses se transformam em filmes.”

Trecho do ensaio Você está aqui, de Chuck Palahniuk, no livro Mais estranho que a ficção.

express | 44

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Wild Flag | Wild Flag | 78 | O último disco do Sleater-Kinney (The woods, um dos meus favoritos dos anos 00) era um prédio implodindo, e soava mesmo como a desintegração sofrida de uma longa história. A estreia do Wild Flag (quarteto com Carrie Brownstein e Janet Weiss, ambas ex-Sleater) bate como uma espécie de renascimento: um bebezinho eufórico e hiperativo, sorrindo, batendo palminhas, cuspindo purê e descobrindo a beleza que existe nos discos do papai punk. As roqueiras-on-board não são mães de primeira viagem, e poderiam muito bem ter criado um disco calculadamente animadíssimo. Mas não. O Wild Flag passa uma impressão muito firme de que elas reaprenderam a se divertir, e o que se ouve é um recomeço a sério. “O som é o sangue entre nós dois”, elas cantam, logo na primeira faixa. E são as canções mais simplezinhas (como Boom, digamos) que se alastram com mais força – e o que seria apenas um disco back-to-basics, com os limites estreitos de uma garagem de quitinete, se torna um álbum que tenta (e consegue) recuperar um sentimento de estreia, de debutar graciosamente. Bonito.

Era extraña | Neon Indian | 71 | É aquela história que vocês conhecem: há os discos sobre a adolescência (Boys and girls in America, por exemplo) e os discos adolescentes (que se comportam inconscientemente como meninos de 15 anos). Este do Neon Indian me parece pertencer ao segundo grupo, e me transporta a um período da vida cheio de contradições, em que eu me sentia simultaneamente horrendo e especial, inadequado no mundo e entusiasmado com o desejo de descobrir esse mesmo mundo. E não faltam bipolaridades teenager a este disco: apesar de atender por Era extraña, ter sido gravado na solidão de um inverno congelante (na Finlândia) e soar dodói, ferido pela contemporaneidade (Future sick é a faixa-tema), também é um álbum empolgadíssimo com tudo o que está up-to-date na indielândia: cada música dá lambidinhas numa referência cool, do synthpop ao shoegazing, tudo amplificado e colorido pela mixagem de Dave Fridmann (aqui, mais para MGMT que para Flaming Lips). Tudo muito pulsante, às vezes cansativo de tão pulsante, às vezes genuinamente juvenil (Alan Palomo tem só 23 anos), às vezes viciante mesmo (Suns irrupt, grude bonito), com repulsa/ tesão por tudo o que brilha nos trending topics. Um disco que será acusado de tudo (novidadeiro e superficial), e talvez seja todo tolo mesmo. Mas se mantém vivo graças a uma energia meio pueril, adolescente (de usar o pop como balão de oxigênio), e dentro dessa fiação elétrica corre sangue – sangue purinho, inocente, mas sangue.

Lenses alien | Cymbals Eat Guitars | 71 | Um daqueles discos que não entrará em quase nenhuma lista de melhor do ano, mas que periga ser reavaliado lentamente. É que as ambições desta banda (pelo menos as ambições que aparecem aqui) têm menos a ver com provocar um efeito acachapante (um “uaaau” de primeira audição) e mais de ir acumulando pequenos efeitos e detalhes, que podem ir nos conquistando sem que percebamos. Parece até um disquinho perverso, que nos tenta a tirar conclusões apressadas (“todas as faixas se repetem numa eterna monotonia, que chato!”), mas depois se mostra muito seguro daquilo que quer – que é criar uma espécie de manto sonoro, que encobre e conecta todas as faixas. Para mim, é uma surpresa: a banda que eu conheci no disco anterior parecia mais disposta a sair se aventurando por aí do que a criar um itinerário circular, simétrico, meio matemático. Pois bem: disco impressiona quando nos familiarizamos a ele, ainda que eu não me sinta atraído a ouvi-lo com frequência, talvez porque a banda ainda me pareça um holograma de bandas mais interessantes dos anos 90. E é um álbum que admiro a certa distância – belo até pode ser, mas tocante (pelo menos para mim) não é.

The High Country | Richmond Fontaine | 59 | Os discos anteriores do Richmond Fontaine (pelo menos a parte que conheço, como Post to wire e o ótimo The Fitzgerald) podem ser lidos como livros de contos, com canções independentes (tramas) que comunicavam sutilmente entre elas. O novo arrisca com um projeto diferente: o que era coletânea de contos agora vira uma espécie de romance beat, com personagens que aparecem e desaparecem entre uma faixa e outra, melodias que alinham cenas, numa estrutura com algo de cinematográfica (tem cena pré-créditos, sequência de ação, momento intimista, clímax…). O repertório de temas daria uma fita indie americana bem previsível: violência doméstica, dramas de “gente comum” em paisagens interioranas e um script com tragédias waiting-to-happen, bem à moda da Fox Searchlight. Como acontece com esse tipo de disco-filme-novelão, a trama às vezes se impõe sobre as canções, a música (mesmo nos belos lamentos country que eles escrevem até dormindo) vai a reboque da ficção. É quando dá a vontade de desligar o disco e ver o filme (ou ler o livro, ou ouvir Johnny Cash).

[philip roth]

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“O sr. Cantor quebrou por fim o longo silêncio: “Algum de vocês tem amigos que ficaram doentes?”, perguntou.

Alguns confirmaram com um gesto de cabeça, outros disseram que sim.

“Isso é duro pra vocês, eu sei. Muito duro. Nós todos precisamos esperar que eles se recuperem e estejam logo de volta ao pátio.”

“A gente pode acabar num pulmão de aço para sempre”, disse Bobby Finkelstein, um garoto tímido que estava entre os mais tranquilos e que ele vira usando um terno nos degraus da sinagoga após o serviço fúnebre de Alan Michaels.

“É verdade”, disse o sr. Cantor. “Mas isso é quando ocorre uma paralisia respiratória, coisa muito rara. É muito mais provável que a pessoa se recupere. É uma doença grave, pode causar muito estrago, porém há exemplos de recuperação. Às vezes, ela é parcial, mas também pode ser fatal. A maior parte dos casos é relativamente branda.” Ele falou com autoridade, pois a fonte de seu conhecimento era o dr. Steinberg.

“A gente pode morrer”, disse Bobby, insistindo no assunto como raramente fazia. Em geral, parecia preferir que os extrovertidos tomassem a palavra, porém não era capaz de se calar sobre o que aconteceu com seus amigos. “O Alan e o Herbie morreram.”

“É, pode-se morrer”, o sr. Cantor concedeu, “mas as chances são poucas.”

“Não foram poucas para o Alan e para o Herbie”, Bobby retrucou.

“Estou dizendo que as chances são poucas em toda a comunidade, na cidade.”

“Isso não ajudou o Alan e o Herbie”, Bobby insistiu com voz trêmula.

“Você tem razão, Bobby. Tem razão. Não ajudou. O que aconteceu com eles foi terrível. O que aconteceu com todos os meninos é terrível.””

Trecho de Nêmesis, de Philip Roth.

Os filmes da minha vida (1)

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A ideia de criar uma lista com os 100 filmes da minha vida pode parecer uma grande bobagem. E, pensando bem, é mesmo.

Refleti bastante, ó meus amigos, antes de sair por esta estrada perdida. Bastante. Mas cheguei à seguinte conclusão: se eu não começasse esta jornada, envelheceria para sempre frustrado. E não estou sendo dramático em relação a tudo isso, acreditem.

O objetivo aqui é, acima de tudo, não repetir os erros que cometi na neverending saga dos 100 Discos da Minha Vida. O maior deles: em alguns momentos, olhando agora no retrovisor, percebo que aquela lista ficou um pouquinho impessoal, como se eu quisesse listar os discos que admiro – e não muito aqueles que acabaram marcando a minha vida, talvez por motivos que escaparam do meu controle.

Pois bem: nesta lista de filmes, o critério definitivamente não é o de um ranking de melhores, de mais influentes, de mais mágicos ou perfeitos (ou algo do gênero). O que vocês vão encontrar é uma listinha muito particular, uma espécie de diário-a-lápis que conta histórias sobre a minha relação com o cinema.

Em muitos casos, nem lembro muito sobre o conteúdo dos filmes. Por isso, este guia será totalmente inútil a quem procura indicações para alugar DVDs ou programar opções na tevê por assinatura. Tentarei escrever textos também rasteiros, inúteis, como que flashes de lembranças. Não vão servir para muita coisa, garanto.

Minto. Talvez eles sirvam para que vocês entendam um pouco mais sobre a pessoa que escreve neste blog. Estes filmes, de uma forma ou de outra, me entregam. O blogueiro está nu. Eles foram afinando meu olhar, mesmo sem o meu consentimento.

Ao contrário da lista de discos, esta aqui não tem links para downloads. Infelizmente. Se vocês quiserem se aventurar nesses filmezinhos, terão que ir à luta por conta própria (mas sei que os cinco leitores deste blog são todos grandinhos e, portanto, tudo vai dar certo).

A lista segue numa ordem que não é linear. Começa na minha infância, com o primeiro filme que vi no cinema, e termina na minha adolescência. Tem filmes que vi este ano e alguns que vi em 1991, 1995. Filmes em película, em DVD, em VHS. Filmes medíocres e obras-primas. Filmes que não consigo rever (porque desatam memórias difíceis) e filmes que revi vinte vezes. Filmes que me ensinaram e que me deseducaram, filmes cujo impacto ainda não sei explicar.

Tal como o ranking dos discos, este aqui vai irritar profundamente àqueles que lutam contra o “umbiguismo” na escrita sobre obras de arte. A esses supostos leitores, peço paciência: estes pequenos textos tratam apenas dos encontros entre um sujeito irrelevante (eu) e imagens que talvez vivam centenas, milhares de anos.

Uma grande bobagem, portanto (que vou tentar atualizar às segundas-feiras, toda semana; stay tuned).

100 | Os Trapalhões no Auto da Compadecida | Roberto Farias | 1987

O primeiro filme que vi no cinema estremeceu a minha rua. Eu, oito anos de idade, estava tão perplexo quanto os vizinhos, os meus primos, os meus amigos. “Vi com meus próprios olhos: o Didi morre“, eles diziam. E aquela ideia me dava arrepios. Porque os filmes dos Trapalhões, que eu via em VHS e na tevê, eram espetáculos de circo: comédias que deveriam nos alienar da ideia de morte. Daí que a sessão de O Auto da Compadecida, com Renato Aragão no papel de João Grilo, contaminou o cinema (e era um cinemão, desses que não existem mais) com um ar de desemparo. Lembro bem. Era como se alguém tivesse lançado fogo na lona, maltratado os bichos, assediado a bailarina. O fim do filme resolve essa impressão de desencanto (Didi vive!), mas, quando penso naquela sessão, tudo o que aparece nas memórias é a derrota do herói. A morte. E o cinema, para mim, começou estranhamente assim: como um espaço de melancolia, um templo de verdades difíceis, de descobertas às vezes desagradáveis.

099 | Confiança | Trust | Hal Hartley | 1990

É um dos filmes da minha pré-adolescência, e tenho quase certeza de que o encontrei na hora certa. Lembro muito pouco sobre ele, mas o que lembro me parece imaturo, um tanto pueril. Não sei se, numa revisão, ele ainda me diria alguma coisa. De qualquer forma, na época era um dos filmes que eu mais admirava, e eu até achava que o compreendia totalmente. Eu queria ser um daqueles personagens, vagando vagabundamente por Long Island, conversando sobre Sentimentos Densos de um jeito descompromissado, como quem discute o capítulo da novela. Uma ceninha ficou: aquela em que Adrienne Shelly de repente despenca do muro, só para ver se o Martin Donovan vai impedir que ela caia. Ele impede: e aquilo ali me tocava, quando eu tinha 11 anos de idade e não sabia quase nada sobre cinema independente americano, Hal Hartley, juventude, amizade e confiança.

A creature I don’t know | Laura Marling

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Quando ouço Laura Marling, lembro imediatamente das meninas que sentavam nas primeiras fileiras da classe, tão perto dos professores e do quadro-negro (e tão longe dos alunos mais bagunceiros: aqueles que, nos casos mais trágicos, seriam reprovados).

E essas lembranças são de um tempo que eu tinha 10, 11 anos de idade. Era um moleque. Laura canta às vezes como uma senhora de 52 anos (a inglesa tem 21), mas sempre que ela começa eu acabo voltando àquelas meninas. E aí penso na dedicação que demonstravam naturalmente, todos os dias. Dedicação como que infinita. É uma lembrança inevitável.

Eu admirava essas meninas (mas não as amava, e nem havia como, porque elas eram como estátuas de bronze em exposição; e, no mais, não tinham tempo para ficar amando à toa). Sempre tão atentas, prematuras, pareciam ter nascido com todas as respostas. Estavam verdadeiramente, e há muitos-muitos anos, à frente dos outros, os menos aplicados (eu, por exemplo, era um aluno nota 7).

Elas tiravam nota máxima nas provas e, como se não bastasse, respondiam as questões com a mais arredondada das caligrafias. Preenchiam cada lacuna com uma cor (do rosa ao preto) de forma que o exame alegrassem os olhos dos mestres. E outros agrados que, de tão bem bolados, provocava na classe um tipo de inveja muda, reprimida (de tão forte), que nem percebíamos sentir. Na maioria do tempo, fazíamos de conta que elas não existiam, essas meninas nota 10.

E algumas permaneciam para sempre invisíveis. Visíveis para os professores, mas não para os alunos (que tinham mais o que fazer).

Davam a impressão, elas, de que não estavam nunca, jamais para joguinhos tolos, para brincadeiras: quando o professor pedia o trabalho para ser feito em casa, criavam capas em plástico vermelho, com adesivos. Quando tinham que apresentar palestras para a turma, exibiam trechos de filmes legendados. E traziam cartolinas, usavam roupas típicas (quando o tema era, digamos, cultura italiana).

Não sei o que elas fazem hoje, essas meninas (aposto que se tornaram médicas ou advogadas ou talvez dentistas, mas é impossível cravar; talvez tenham perdido tudo, até a inteligência, não dá para saber). Na época, me pareciam irreais, seres em holograma (ou, pensando hoje, ilusões de um tempo em que eu inventava coisas demais). Talvez tenham se transformado em cantoras extremamente eficientes e detalhistas. Será? Deve ser por isso que penso nelas quando ouço Laura Marling.

E talvez por isso eu consiga admirar a música de Laura Marling – sem conseguir amá-la, no entanto. As meninas nota 10 me ensinaram algo sobre empenho, sobre dedicação, mas quando penso nas garotas que eu amava naquele tempo… Nenhuma delas era perfeita. Na verdade, todas eram até muito erradas, cheias de defeitos que me deixavam caído, fraco.

Já no terceiro disco da carreira, Laura (e nem sei se posso chamá-la apenas assim; essa mulher me intimida) me parece conquistar tudo o que perseguia. Absolutamente tudo. É um disco accomplished, como se diz. A cantora/compositora escolhe uma quantidade não muito exagerada de cores (uma aquarela conservadora, mas estamos falando de uma artista à procura de simetria, de uma beleza clássica), desenha um mundo, o habita, e nos transporta para lá.

É um CD de estatura média (tem 10 faixas), conciso, que demarca uma trajetória cristalina (ele começa convidativo, vai se tornando tenso e feroz, encontra um ponto de ebulição, e depois vai relaxando os músculos até encontrar um certo tipo de happy end). Os versos são tão harmônicos que deixam a sensação de que foram escritos num período de dez anos, uma palavra por dia. Não foram, o que as torna ainda mais espantosas.

Ao contrário de uma St. Vincent, de uma Fiona Apple, Laura parece ter nascido sem paciência para qualquer um dos clichês das mulheronas-superpoderosas, e por isso vai pegar indicações nas fabulações de uma Joan Baez, de uma Joanna Newsom, de um Robert Plant, narrando casos, criando personagens, indo e voltando a temas recorrentes (relações familiares, arrependimentos, culpa, as criaturas estranhas da intimidade e da idade adulta) para se afirmar dentro de um sistema de referências/sonoridades que não é muito particular, mas de que ela se apropria música a música, como quem customiza um sofá antigo.

Ao contrário de St. Vincent, que tenta criar uma espécie de assinatura sonora, Laura prefere decorar o próprio quarto (ou, digamos, o próprio repertório) com uma série de objetos vintage, organizando-os de tal forma a compor um arranjo delicado, agradável, “sofisticado”, que não nos parece bagunçado ou dissonante nem nos momentos supostamente enfezados do disco (em The beast, por exemplo, quando as guitarras tentam fazer chover pedra na cidadezinha aprazível da cantora).

É por excesso de zelo, por causa um perfeccionismo ideia-fixa, que Laura às vezes tangencia a assepsia técnica – como em I was just a card, que parece implorar por uma versão by Dave Matthews Band. Mesmo nesses momentos, a voz da cantora se impõe com tanta segurança que cobra nossa atenção. A insegurança nunca se mostra na música, ainda que às vezes apareça nas letras. “Pode não ser o certo, mas é real”, ela canta.

Sim, soa real. Mas também soa sempre muito certo. Corretíssimo. Ou (sei que é uma crueldade dizer isso; pobres das meninas dedicadas, elas não merecem tanta relativização) certo em demasia, como se Laura tentasse criar uma arte totalmente sob controle, uma fera domesticada, um animal de dentes pontiagudos, mas que nunca ameaça a saúde do tratador. A creature I don’t know me parece um disco que se adequa a certos limites riscados por sua “dona” – e que, por isso, nunca dá chance para o erro (muito menos para o acaso, mas aí estaríamos cobrando outro disco, de outra cantora).

Com este álbum, Laura chega ao ápice da carreira, e não duvido disso. Talvez muito cedo. É o disco perfeito que ela procurava; um álbum inatacável, a menos que você cobre dele aquilo que ele próprio não pretende oferecer. Como acontecia com as meninas nota 10 lá do colégio, Laura acerta todas as questões – e faz as palestras mais complicadas sem desarrumar o penteado.

Não dá para dizer que este disco me aborreça. Não. Nem me mata de tédio. Há momentos até que me emocionam (Night after night, e o trecho de Salinas em que ela se teletransporta para a fase 68 de Bob Dylan). Mas, acima de tudo, ele me deixa curioso em relação às próximas criações de Laura. Existe arte após a perfeição?, eis a questão. No mais, o que acontece com as alunas dedicadas do primário quando entram na faculdade?

Desconfio que, aí sim, vamos conhecer uma história fascinante: uma criatura talvez irreconhecível.

Terceiro disco de Laura Marling. 10 faixas, com produção de Ethan Johns. Lançamento Virgin Records. 72