Mês: março 2010

Congratulations | MGMT

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Você já foi o primeiro da classe? Eu já. E garanto: não é tão divertido quanto parece.

Foi assim: aos 14, eu era um aluno muito tímido e, por isso, discreto – daqueles meninos invisíveis que fazem o possível para não tirar notas inferiores ou superiores a 7. Sempre 7. Naquela época, minha meta era desaparecer na lista de chamada. Eu vivia para não ser notado: preferia as roupas em tons neutros, podava meu cabelo com máquina 3 e lia revistinhas do Batman. Meus amigos me tratavam como um chapa razoavelmente bacana, já que eu era igual a eles. E as garotas, como que por tradição, me confundiam com as pilastras do colégio. Mais tarde descobri que todos – meninos e meninas, sem exceção – éramos simplesmente desinteressantes. Uns comuns.

Mas, naquela época, eu ainda era um rapazinho muito inocente. Tão ingênuo que, num surto de vaidade e fôlego olímpico, resolvi gabaritar uma prova de português. Não que eu precisasse dos pontos no boletim (eu era um estudante nota 7!), mas, na falta de algo melhor a fazer, resolvi me desafiar. Estudei duas horas por dia e, um touro!, tirei 10. O único 10 da classe. Os meus amigos começaram a me evitar na hora do recreio. Quando tirei meu segundo 10, comecei a receber sorrisos orgulhosos da professora. As garotas passaram a me encarar como uma geladeira vazia. No mês seguinte, milagrosamente, eu era o representante da turma numa maratona de gramática.

Aceitei. Eu mal sabia que, meu amigo!, aquela seria uma das experiências mais desagradáveis da minha vida. Passei três horas trancado numa sala gelada, preenchendo lacunas em textos de revistas semanais e respondendo questões enigmáticas que faziam minha cuca ferver. Saí da sala desencantado, insatisfeito com aquela sina solitária. Para meu alívio, fiquei em último lugar na competição. Salvei minha pele. Após cinco ou seis valentes notas 7, recuperei meu lugar entre os medíocres.

Às vezes acho que estou lá até hoje.

Mas chega de devaneios. Fim do flashback. E o que essas lembranças tão tolinhas têm a ver com o disco novo do MGMT?, você me pergunta. Eu respondo: é que eu entendo o que acontece com o MGMT. Sei muito bem que um hit pode representar uma espécie de condenação.

Meus hits (as notas 10 em português) me colocaram numa desconfortável posição de destaque diante dos meus colegas invejosos (mas muito queridos). Transformaram o Tiaguinho Sem Qualidades num cidadão de primeira classe (e tudo o que eu queria era me espreguiçar nas poltronas econômicas!). Os hits do MGMT fizeram estragos mais profundos: converteram Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden em astros pop. Lá no topo da classe. Gabaritaram o teste das rádios. Hoje sabemos que não era bem esse o objetivo deles.

Mas não é mesmo extraordinário ser um astro pop? Fama, moçoilas afoitas, programas bizarríssimos de auditório, clipes com CGI, trilha sonora de comédia retardada, contratos extravagantes, mansões em Miami Beach, champanhe e cerejas. Quem não quer? Mas e se você nunca tivesse desejado sinceramente nada disso?

Não conheço Ben e Andrew (e eles me parecem uns sujeitos bem convencidos), mas a história de Congratulations é essa aí: depois de acertar com três hits grandahões (Time to pretend, Kids e Electric feel), eles resolveram se dedicar ao que importa (a eles): reatar com os antigos amigos da turma do indie rock. Para os fãs, pode parecer uma reviravolta frustrante: aquela bandinha tão simpática, que se deleitava com o algodão-doce radiofônico, decidiu gravar um disco sem singles, sem gosto de milkshake de Ovomaltine, uma trava-língua psicodélico sem um único candidato a chacoalhar o assoalho e sangrar a pista de dança.

Sim, é um mistério. A Sony que se cuide. Enfezado, o MGMT penaliza os fãs que se deixaram enfeitiçar pelos três hits (e só por eles). Aposto que são muitos. Se você ignorar essas três faixas, o disco anterior deles (Oracular spectacular, de 2007, superestimado toda vida) soará até parecido com este novo: uma homenagem singela, mas carinhosa, ao rebanho sagrado do rock lisérgico, de Love a David Bowie, de Roxy Music a Syd Barrett.

Congratulations é a continuação desse álbum “paralelo”, adquirido por um milhão de pessoas, mas incompreendido por quase todas elas. Nos shows, sempre muito confusos, a dupla sofreu com comentários de que só os hits faziam a diferença (sorte a nossa: eram três!). Daí o salto corajoso: Ben e Andrew podiam simplesmente bolar mais um LP irregular porém acessível (e ninguém reclamaria disso: álbuns são tão démodé!). Mas preferiram gravar um disco que finalmente honra as influências setentistas do grupo – um disquinho coeso e esperto que quase mereceria ser chamado de “conceitual”.

Nada de efeitos rasteiros, portanto. Preocupado em criar uma obra respeitável (taí uma ambição saudável e difícil), o MGMT compôs um disco menos para os fãs e mais para os ídolos. Repare que duas músicas são homenagens: uma a Dan Treacy, da inglesa Television Personalities, e outra a Brian Eno (o Eno sapeca do Roxy Music, e não aquele que zanza por aí produzindo o Coldplay). As outras, ainda que não explicitamente, são declarações de amor: a de abertura, It’s working, é o mais próximo que eles chegaram de sintonizar as vibrações de Arthur Lee. E Siberian breaks, com 12 minutos, se desdobra infinitamente num épico esquizo com um quê de Frank Zappa. Parece até a trilha para o funeral da new rave.

Escalar esse arranha-céu sem o escudo dos hits é o desafio imposto pela banda. Com versos sobre a ressaca do sucesso, Congratulations até pode ser considerado a estreia deles no mundo dos álbuns. Como se, no encarte, eles reconhecessem que tomaram o caminho equivocado e, por isso, merecem uma segunda chance. Acontece que, nessa versão mais vulnerável, o MGMT revela fragilidades que já existiam no disco anterior: acima de tudo, a forma superficial como eles tratam referências que, nas mãos de um Beta Band (ou até de um The Coral), rendem experiências menos genéricas.

O importante é que Congratulations promete ao MGMT alguma longevidade. A partir de agora, podemos levá-los um pouco a sério. Talvez, no fim das contas, Ben e Andrew tenham mais admiração pelo Flaming Lips do que pelo Empire of the Sun. Não estão apressados para chegar ao fim desse arco-íris fluorescente. E, enquanto batem perna, estão dispostos a deixar pelo caminho álbuns sinceros, imperfeitos, álbuns quase à moda antiga, como este aqui. Um típico (e valente) nota 7.

Segundo disco do MGMT. Nove faixas, com produção de Pete Kember e do MGMT. Lançamento Sony/Columbia. 7/10

PS: Para quem acompanha este blog (vocês são poucos, mas são vips), informo que vou postar a mixtape de março às 21h de quarta-feira. Estão avisados: não quero ninguém reclamando quando os arquivos evaporarem, ok?

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2 ou 3 parágrafos | Como treinar o seu dragão

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Esta boa animação digital da Dreamkworks (3/5) bem que poderia se chamar Como sobreviver no mundo de Avatar. Os diretores de Lilo e Stitch, mais espertos do que imaginávamos, entenderam a lição de James Cameron: usam o 3D como elemento criativo, essencial à narrativa.

Os personagens do filme são vikings que enfrentam dragões. Os monstrengos voam alto, dão piruetas. E é como se voássemos com eles. Parece um detalhe bobo, mas poucas fitas do gênero se beneficiaram tanto da tecnologia para nos transportar a um ambiente fantasioso. Em alguns trechos, parece até que os diretores se entusiasmam com o truque, curtem a brincadeira. Não vi nada parecido em Up – Altas aventuras, nem em Monstros vs. alienígenas, muito menos em A era do gelo 3. É um avanço.

No mais, Dean DeBlois e Chris Sanders vão ao trabalho (isto é: confrontam a Pixar) com as armas menos vulgares: a exemplo de Wall-E e Up, vão buscar no cinema de Hayao Miyazaki uma pincelada de lirismo que dá uma outra dimensão à amizade entre o menino outsider e o dragão com fama de mau. Nada muito pessoal, é claro (aliás, quando é que vão lançar Ponyo no Brasil?). Estamos falando de uma animação by the numbers (tudo é fórmula: a narração em off, os coadjuvantes engraçadinhos, o motivo romântico etc). Mas é um alívio notar que os estúdios querem bancar a “revolução” de Avatar: não tenho muito a reclamar de filmes que levam a sério tanto o 3D quanto esse tipo honesto de sentimentalismo, à japonesa.

All days are nights | Rufus Wainwright

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Talvez seja leviano julgar um disco pela capa (vide esta coisa medonha). Mas, no caso de Rufus Wainwright, não há erro: sempre existiu um esforço consciente de resumir a atmosfera de cada álbum já no projeto visual do encarte. O pop barroco de Want One e Two (2003/2004) era embalado num colorido kitsch, cafona de propósito. Já em Poses (2001), Rufus interpretava o personagem principal do disco: o popstar melancólico, condenado pela própria beleza. Release the stars (2007), o “álbum de Berlim”, abria com um detalhe do altar do Pergamon, um monumento pomposo reconstruído num dos museus mais visitados da Alemanha.

Existe uma qualidade cinematográfica nos discos do cantor e, até por uma questão de coerência, as capas funcionam como os melhores pôsteres: aqueles que vendem o peixe, mas não traem a obra.

É por isso que, para os fãs de Rufus, a maior surpresa sobre All days are nights: songs for Lulu começou a ser revelada assim que o cantor divulgou o “cartaz”. É, de longe, a imagem mais austera que ele já estampou num disco: um olho feminino, coberto por sombras e tingido em preto, encara a câmera. Apenas isso. E é espantoso como essa imagem contém a obra inteira.

Como suspeitávamos, não há cores extravagantes em All days are nights. Desta vez, o clique é seco. Olhos nos olhos. Fotografia granulada. Quando começou a rascunhar Release the stars, Rufus planejava um disco inteiro de canções interpretadas somente com voz e piano. Na turnê, chegou a apresentar-se sem banda (no show excelente que fez aqui em Brasília, por exemplo). Mas, talvez instigado pelo produtor Neil Tennant (Pet Shop Boys) e pelas boas experiências em Berlim, acabou criando um disco ensolarado, sereno e pop. No novo, ele retoma aquela antiga ideia num momento especialmente difícil: pouco depois da morte da mãe, a cantora Kate McGarrigle, Rufus expurgou um disco que soa como um réquiem respeitoso, contido.

Não é só a pose glam, as afetações calculadas e o teatro de excessos que perdem a vez. Até o humor venenoso e autocrítico, uma das características que contaminam todos os discos de Rufus, se ausenta num álbum que, se fosse um filme, teria sido dirigido com as restrições do movimento Dogma 95. Nada de orquestras, coros, guitarras, teclados, canções alegres ou finais felizes. Os versos dessas canções de despedida, à exceção de três sonetos de Shakespeare (voltaremos a eles), são quase singelos: cartas de família, páginas de diário, conversas ao telefone, confissões rabiscadas às pressas. Essa falta de rebuscamento parece proposital, como se Rufus quisesse compor um disco tão cru e desencantado quanto Pink moon, de Nick Drake, e Tonight’s the night, de Neil Young.

Pelo menos até a quinta faixa, All days are nights filia-se rigorosamente a essa linhagem: é a sequência de canções mais tocante que Rufus já gravou (e não é por capricho que, nos shows, ele toca todas as músicas do disco sem intervalos para aplausos). Para quem está disposto a ouvir estas confissões, a sensação de cumplicidade é inevitável. Em Who are you New York?, a faixa de abertura, Rufus caminha desnorteado pela cidade, que tornou-se irreconhecível. Na segunda faixa, Sad with all I have, admite que é um homem infeliz e, com o discurso romântico que lhe é muito típico, admite que só encontra conforto numa única pessoa.

As melodias, gentis e doloridas (ainda com a empostação teatral que é a marca do cantor), parecem citar Cole Porter, o Frank Sinatra de In the wee small hours, o Elvis Costello mais jazzístico. Na terceira canção, Rufus tira de vez a máscara. O autor está nu. Martha é a reprodução de um diálogo com a irmã, Martha Wainwright. “Está na hora de irmos visitar nossa mãe no Norte. As coisas estão ficando mais difíceis. Não há mais tempo para ficarmos irritados um com o outro”, canta. Num andamento mais acelerado, Give me what I want and give it to me now indica a perda da fé. A seguinte, True loves, celebra os amores verdadeiros com a simplicidade de uma canção teen. “Um coração de pedra nunca vai a lugar algum”, diz, sem cinismo.

Eis que, daí em diante, o disco transforma-se em outro. O conceito musical permanece – voz e piano, sempre -, mas a ideia de musicar três sonetos shakespearianos acaba por provocar um desnível no repertório. Existe uma conexão clara entre os poemas e o disco, e é curiosa a experiência de combinar a escrita floreada dos poemas com o estilo econômico do disco. Mas essas músicas provocam um desvio de rota quase definitivo, e um tanto frustrante para quem acompanhava o disco até ali (as faixas fazem parte de um projeto desenvolvido por Rufus com o diretor de teatro Robert Wilson).

As canções seguintes não provocam os calafrios da primeira parte do disco. Em The dream, Rufus lamenta que todo sonho vem acompanhado de um pesadelo. Nesse ponto, as limitações sonoras começam a incomodar. A última música, no entanto, volta a emocionar: Zebulon lembra do período em que Rufus passou cuidando da mãe, que enfrentava um câncer. “Minha mãe está no hospital, minha irmã está na ópera, eu estou apaixonado, mas não vamos falar sobre isso”, comenta. “Seu nariz sempre pareceu grande demais para o seu rosto. Mas ele faz com que você pareça sexy, mais como uma pessoa que pertence à raça humana.”

E aí o álbum termina. Sem clímax nem nada. Nas condições em que foi escrito e gravado, talvez não haveria outra saída. Rufus sempre escreveu canções que espelham as próprias experiências, e All days are nights não é exceção. Segundo ele, o subtítulo do disco, Songs for Lulu, refere-se a uma personagem (Lulu) que simboliza a escuridão humana. Ainda assim, é um álbum menos sombrio do que parece: aos 36 anos, Rufus entende que, diante da morte, toda revolta é inútil. Prefere refletir serenamente sobre tristezas que são incontornáveis.

Release the stars já indicava a mudança. Mas é em All days are nights que Rufus encara a idade adulta. Para quem o acompanha, será como encontrar o retrato de um outro artista. Eu também senti um certo incômodo. Com alguma paciência (e desprezando a segunda parte do disco, que dilui um início extraordinário), esse performer sem maquiagem parecerá estranhamente comum – um príncipe expulso do reino, perdido num mundo igual ao nosso.

Sexto disco de Rufus Wainwright. 12 faixas, com produção de Rufus Wainwright e Pierre Marchand. Lançamento Decca/Polydor. 7/10

2 ou 3 parágrafos | A caixa

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Notem o quão interessante seria a experiência (e seria bem simples, nem tomaria muito tempo): você vai a uma sala de cinema que exibe A caixa (3/5), espera a sessão terminar e toma anotações sobre as reações dos espectadores. Nem será necessário submetê-los a questionários. Observe-os. Minha hipótese: a maior parte das cobaias mostrará sinais febris de frustração e, nos casos mais extremos, de fúria. Aposto que um engraçadinho vai ameaçar pedir de volta o dinheiro do ingresso.

É que o filme de Richard Kelly (o diretor de Donnie Darko e Southland tales) rejeita a principal regra para um relacionamento saudável com o público menos aventureiro (infelizmente, eles estão em maioria): cria uma trama de mistério que, após os créditos finais, permanece misteriosa. Um turbilhão de perguntas sem respostas. Quando Onde os fracos não têm vez entrou em cartaz, lembro que ouvi um comentário que ia mais ou menos assim: “Paguei para ver um filme que nem os próprios diretores souberam como terminar.” Oh, vida!

Por isso, muita gente vai desdenhar o que este filme tem de melhor. Que não é a trama (um episódio alongado de Além da imaginação, sustentado por um dilema moral que daria arrepios em M. Night Shyamalan), mas a euforia camicase de Kelly, que transforma uma corretinha fita de época num sonho louco, lynchiano. O sujeito é destemido (e narcisista à beça), dirige sem cinto de segurança, e comete a sandice de oscilar entre a ficção científica mais juvenil (portais reluzentes de CGI!), o thriller de teorias conspiratórias (a Nasa tem culpa no cartório!) e a tortura filmada (Jogos mortais!). Sem medo do ridículo (e a coisa fica muito ridícula, prepare-se). O importante é que o espectador não sabe onde está se metendo. E isso é bom, não é? Deveria ser bom? Se você acha que não, recomendo uma maratona de Fringe. Só de castigo.

The afterlife | YACHT

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Neste clipe molhadinho, o YACHT mostra que o ramo dos batizados é um mundo à parte: estou começando a gostar dessa ideia de usar uma pequena piscina de plástico para receber a graça divina. Ok. Ha-ha. Mas, olha só: mesmo se você não achar graça na piada do diretor Judah Sqitzer, vale ouvir a música mais bacana que esta dupla de Portland (apadrinhada pelo LCD Soundsystem) já gravou. Amém.

Superoito express (20)

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Volume 2 | She & Him | 6

O fã-clube de Zooey Deschanel que não me pendure praça pública, mas eu esperava encontrar, neste segundo disco do She & Him, a personagem que ela interpretou com tanta convicção em 500 dias com ela: Summer Finn, a musa imprevisível que atormenta os fãs românticos (e panacas) de indie rock. Mas (que vida!) meus desejos não foram realizados. Neste conto de fadas folky, ela ainda vive a mocinha indefesa, a heroína que caminha melancólica, inconsolável pelos campos ensolarados da Califórnia.

Tudo bem. Nem tudo é perfeito. E talvez a Zooey popstar se aproxime da Zooey real (o que seria uma pena, mas enfim). O problema é que essa (ops) personagem me parece cada vez mais monocórdica. Este Volume 2 é um disco do Camera Obscura, só que sem ironia ou finesse. Parece fácil fazer pop vintage, com aquela sonoridade quente de vitrola velha, mas o risco do diluir efeitos está sempre ali. Daí que o disco, comportadíssimo, só brilha quando o vinil de M. Ward ganha um outro colorido, uma doçura à Jon Brion. São duas músicas: In the sun e Don’t look back. Mas elas mostram que, sim, Zooey é capaz de virar o disco. Ao terceiro volume, então.

Dear God, I hate myself | Xiu Xiu | 7.5

Ao contrário do projeto de Zooey e M. Ward, o estilo de Jamie Stewart é um caso tão particular que parece projetado para provocar estranhamento. As canções, com mudanças abruptas de andamento e efeitos dissonantes, soam às vezes como arquivos corrompidos de MP3. Stewart vai picotando um punhado de referências (synthpop, lo-fi, indie, goth rock) até fazer com que o disco perca completamente o eixo, numa colagem doméstica, frágil, agoniada, que ressalta a franqueza do discurso. Como acontece com os álbuns do Why? e do Eels, este também cria um ambiente de intimidade quase sufocante. Pode soar simplesmente doentio. Mas, se não é tão forte quanto Fabulous muscles (2004), no mínimo serve para comprovar que Stewart ainda não encontra conforto nem no rock, nem em nada. É bonito, garanto. E recomendo que você tente pelo menos três vezes antes de desistir.

Big echo | The Morning Benders | 7

O Morning Benders pode ser considerado uma espécie de primo do Local Natives, outra banda californiana que usa a massa bruta do indie rock americano (no caso, o folk barroco de um Grizzly Bear) para criar uma sonoridade generosa, próxima do pop. Mas, antes que os acusem de oportunismo, aviso que eles se apropriam desses novos chavões sem cinismo. Estão verdadeiramente dispostos a disputar um espaço entre os ídolos. Big echo é, por isso, um álbum muito esforçado. Sei que a palavra é terrível, mas taí um quarteto que faz tudo para agradar a um público muito específico. E consegue, mesmo sem personalidade. Eficiência e bom gosto, no caso. Califórnia é uma grande nação (como diz a música do She & Him) e é interessante acompanhar uma banda tentando encontrar um lugar nesse mundo.

Fang Island | Fang Island | 7

Mas claro: mais interessante do que acompanhar uma banda deslumbrada com as próprias referências é descobrir aquelas que tentam criar todo um vocabulário. O Fang Island, de Rhode Island, é dessas. Eu definiria o som deles como um monstrengo prematuro nascido de uma rapidinha entre o Van Halen (os solos de guitarra a mil por hora, a pompa hard rock) e o Animal Collective (os corinhos infantis, o espírito comunitário). Para o Wikipedia, eles cabem no rótulo “progressive rock”. Talvez seja isso, ainda que tudo acabe soando tão frenético quanto um disco de hardcore. Ainda não sei se amo essa bagunça (e, se é para quebrar tudo, Dan Deacon me parece muito mais radical), mas reconheço que não ouvi nada igual.

Life is sweet! Nice to meet you | Lightspeed Champion | 6

Para quem conhecia e gostava do projeto anterior de Devonté Hynes (a banda de dance-punk Test Icicles, praticamente um tigre), o Lightspeed Champion vai continuar provocando muita frustração. No segundo disco, o texano (criado na Inglaterra desde os dois anos de idade) continua a enquadrar o próprio som de acordo com algumas convenções pop quase caducas: brit pop, easy listening, new wave. Tudo o que ele quer, aparentemente, é mandar um abraço para Jarvis Cocker e Morrissey (e quantos outros não querem?). A boa ideia deste Life is sweet é o olhar positivo para temas que costumam ser cantados com fatalismo (Dead head blues, por exemplo, é uma faixa alegre sobre o fim de um relacionamento). O oposto de A vida é doce, do Lobão. Nas recaídas, no entanto, Hynes escreve obviedades como I don’t want to wake up alone, que só reforça os clichês associados ao tal “som da Inglaterra”. E aí as piores do Morrissey soam pelo menos mais divertidas.

2 ou 3 parágrafos | Franz Ferdinande!

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Depois de ter escrito um caminhão de abobrinhas sobre os shows do Guns N’ Roses e do a-ha, me sinto na obrigação de contar alguma coisa sobre a passagem diabólica (explico: fazia um calor infernal) do Franz Ferdinand por Brasília. Acontece que – a-há! – não tenho muito a dizer sobre a performance dos rapazes. Isso me deixa um pouco incomodado, já que foi um show muito, muito bom.

Não deixa de ser um negócio estranho: por que, no day after, bateu uma certa apatia. Teria sido um show apenas correto? Não pode: o Franz é uma das bandas mais precisas do mundo. Tudo está no lugar certo — o carisma do vocalista (que dá chutes no ar e sorri quando o fã salta do palco num mosh desengonçado, e diz ‘Franz Ferdinande!’ com sotaque carioca), o entusiasmo do baterista, os incríveis macetes do guitarrista (que manda muito bem nos sintetizadores), as jams hipnóticas (se bem que a batucada de Outsiders, marca registrada deles, já está virando um tique), o namorico com a dance music, o baixo pesadão, os hits poderosíssimos, a atitude invariavelmente cool (antes do show, eles aqueceram o público com quatro faixas do disco novo do Caribou!)…

De onde vem meu incômodo, então? Talvez tenha sido culpa do set list meio torto, que queima todos os hits bem antes do bis. Ou do uso desleixado do telão, jogado às traças. Ou nada disso. Talvez minha birra resulte de uma espécie de choque térmico: depois dos excessos (sentimentais, pirotécnicos, patéticos) do Guns N’ Roses e do a-ha, o Franz me pareceu carne crua, hambúrguer sem ketchup, biscoito sem recheio de marshmallow. Mas do que estou reclamando? É o que dá cair de barriga no século 21, sem asa delta. A filosofia da geração desse quarteto (e do Strokes, e do White Stripes) é podar a penugem e ir ao osso da canção, da atitude, da encenação, da pose (e há pose sim, como não?). O show deles deixou essa imagem: é ossudo. Cálcio à beça. Símbolo de uma época. E, possivelmente, um espetáculo que deveria ter feito de mim um sujeito realizado. Mas não foi bem o que aconteceu — e é bizarro, acreditem, não saber por que.