Mês: fevereiro 2008

‘Mountain battles’, The Breeders **

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breeders.jpgSei que só se comenta sobre Big Brother e Fidel Castro, mas querem saber o que eu achei do novo disco do Breeders? Um lixo. Pronto. Falei.

Antes da avacalhação, uma importante verdade absoluta: Kim Deal nunca conseguirá, nunca na vida, gravar um álbum ruim. Nem que decida se juntar ao produtor Rob Cavallo para compor uma ópera punk sobre um adolescente paranóico e idiota. Não. Não conseguirá. Ela concebeu Gigantic, e poderia ter se aposentado depois disso. Ganharia bonificação eterna por serviços prestados ao indie rock. Daí que o novo disco do Breeders é um lixo muito interessante. Mas um lixo.

Quando eu tinha 15 anos de idade, carregava um walkman com uma fitinha cassete onde estava gravado Last splash. Uma obra-prima, antes que me perguntem. Pois bem. Durante uns oito meses, ouvi essa maldita fita repetidamente. Decorei absolutamente cada acorde desse álbum. Se me pegarem de surpresa e começarem a tocar no sistema de som do shopping No aloha ou Invisible man ou Saints, furo meu olho. De emoção. É um dos discos mais importantes para a minha vida, ainda que, num contexto menos umbilical, não tenha taaaaanta importância assim.

Em Last splash, Kim Deal não tinha medo do pop. E aqui estamos falando no pop mais adocicado. O pop papel-de-carta. O pop chiclete-de-morango. O pop namorinho-no-portão. Naquele álbum, a baixista do Pixies abraçava todas as lembranças do pop mais inocente e aprazível e desavergonhado. Claro que, musa do sarcasmo que sempre foi, Deal tratava essas referências com um misto de carinho e distanciamento. Como uma mulher de 40 anos que descobre um antigo urso de pelúcia no baú do quarto e se pega ao mesmo tempo comovida e constrangida com as memórias de infância. Era essa a cereja do sundae.

Não sei o que aconteceu com Deal, mas, depois de uma longa pausa, ela começou a tratar o próprio Last splash como uma lembrança meio vergonhosa. Vá entender. O álbum seguinte, Title Tk, trocou o canhão de luz pela lanterninha de 1,99. Era uma época em que o indie rock parecia cada vez mais acessível e confortável, daí que é possível compreender essa guinada de Deal rumo ao rock tosco, fragmentado, produzido porcamente. Ousado? Provocador? Sim, mas não o gravaria em fitinha cassete para ouvir no meu walkman.

Para azar dos mais saudosos, este Mountain battles é uma continuação de Title Tk. Cada vez mais, Last splash soa como uma exceção na discografia da banda. Chamem de oportunidade desperdiçada ou do que preferirem, mas Kim Deal e a irmã Kelley continuam anti-sociais. O que elas acham? Que gravar um belíssimo hit dá câncer? Não entendo, mas respeito a opção de manter-se na surdina. Talvez elas continuem respondendo uma cena independente que… Hmm, não sei se a desculpa vai colar desta vez.

O que acontece é que o Breeders mudou, e só nos resta aceitar essa realidade. E tentar nos afeiçoarmos ao álbum dentro desses parâmetros. Ok, vamos tentar.

Na primeira faixa, Overglazed, parece até que os bons tempos voltaram. Sob uma melodia bem grudenta, Deal grita: “I can feel it!”. Mas fica nisso. Depois de um minuto de canção, dá vontade de responder com um “But I can’t!”

A segunda, Bang on, é tão minimalista quanto. Mais espirituosa, porém. E aí começamos a perceber que Deal continua a cantar do mesmo jeito de sempre, com aquela voz de menina de cinco anos de idade. “Não amo ninguém, ninguém me ama”, ela revela. “Sinto falta de deus”, continua. É um piscar de olho, e pronto.

Em seguida, o álbum enfileira duas baladas decentes, ainda que nada espetaculares. Prefiro a segunda, We’re gonna rise. Mas sério? Depois de dois golpes curtos, duas baladas rasteiras? Não deixa de ser ousado.

Aí vem uma faixa cantada em alemão. Que, mais adiante, é complementada por uma outra, em espanhol. As duas parecem existir para brincar com a idéia de interpretar canções estrangeiras com pronúncia sofrível. Bem. Ok.

Lá no meio, duas faixas mais experimentais e sombrias. Spark lembra Velvet Underground. Já Istanbul é mais alegre, com um corinho feminino para ensolarar o transe percussivo. Detalhe: uma vem logo atrás da outra. Ousado?

E então, muito discretamente, Deal joga no fim do álbum duas canções que parecem sobras de Last splash. Walk it off e It’s the love são tão superiores a qualquer outra do Mountain battles que chegam a destoar do conjunto. Engraçado é que, se você tirar todas as outras faixas e deixar só essas duas, ainda assim teremos um bom disco!

Mas que eu não rodaria obsessivamente no meu walkman. Não.

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‘Diamond hoo ha’ Supergrass **

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supergrass.jpgConversa imaginária com meu primo imaginário de 15 anos, carioca da gema, fã de Paramore. A partir das 20h35 do dia 27 de fevereiro de 2008, no Soul Seek.

[thundercatsarego] e aí, rapaz? tudo jóia?

[riot!] faaaala escroto

[thundercatsarego] ouvi um troço que vc vai curtir: supergrass

[riot!] que porra é essa?

[thundercatsarego] supergrass. nunca ouviu falar?

[riot!] boiei

[thundercatsarego] vc tem uma banda e nunca ouviu falar de supergrass?

[riot!] nunquinha

[thundercatsarego] nunca? nem alright? we are young, we are free lalala?

[riot!] pfffff

[thundercatsarego] então. procura aí. o disco novo deles, diamond hoo ha

[riot!] merda de título, hem?

[thundercatsarego] vc curte paramore, nem pode falar merda nenhuma

[riot!] riot!!!!!!!

[thundercatsarego] viado

[riot!] bichona

[thundercatsarego] mas escuta: ouvi o disco e lembrei de vc, acho que vc vai gostar. de verdade, sério

[riot!] o que tem de bom? já te disse que não tô pra rock de velho

[thundercatsarego] não é rock de velho. quer dizer. eles pegam o rock de velho e o revitalizam

[riot!] lá vai vc falar difícil, depois reclama que ninguém lê seu blog

[thundercatsarego] foi mal. é tipo white stripes

[riot!] white stripes tá caído

[thundercatsarego] eles são um pouco mais velhos que os white stripes. dos anos 90

[riot!] nussa

[thundercatsarego] eles tocaram num festival junto com os smashing pumpkins

[riot!] daquele véio careca?

[thundercatsarego] isso

[riot!] mas o que eles tocam? o supergrass

[thundercatsarego] eles são beeem despretensiosos, graças a deus. eles entraram numa fase mais ambiciosa, que não deu certo. aí foram voltando aos poucos à fase mais simples, do início da carreira. eles têm um disco muito bom que vc devia ouviu, in it for the money, conhece? é lá dos anos 90. esse novo é o melhor deles desde aquela época. o mais solto. o menos preocupado com opiniões alheias. mas pena que ninguém vai dar a mínima

[riot!] ué, se o disco é bom…

[thundercatsarego] mas eles ficaram um pouco no passado. quer dizer. eles ficam correndo atrás de ondas novas. aí soam como uma banda ultrapassada imitando white stripes. mesmo quando eles imitam muito bem

[riot!] e vc quer que eu ouça?

[thundercatsarego] mas é divertido! vc tá me entendendo errado

[riot!] vc tá confuso, primo

[thundercatsarego] não! quer dizer. sim! ouvi o disco pela primeira vez e achei a coisa mais divertida do planeta, me lembrou da adolescência, quando eu era jovem e eu era livre e tudo estava bem. aí depois eu ouvi de novo e percebi que… não sei… bateu uma sensação estranha

[riot!] de se sentir velho?

[thundercatsarego] também. ainda que eu não me sinta tão velho. mas é estranho. sabe o fã do iron maiden que usa aquelas camisas pretas aos 50 anos de idade?

[riot!] ridículo

[thundercatsarego] e ramones, que tocam i wanna be sedated com 80 anos no meio da fuça?

[riot!] ramones é massa

[thundercatsarego] e vc é incoerente

[riot!] vai se foder

[thundercatsarego] uma banda como o supergrass tem data de validade. dois discos e adeus planeta terra

[riot!] o police tá aí até hoje

[thundercatsarego] …

[riot!] …

[thundercatsarego] mas ok. é um bom disco. provoca o efeito de uma bomba de chocolate. prazer e culpa

[riot!] vc não pode comer bomba de chocolate?

[thundercatsarego] posso, mas

[riot!] q?

[thundercatsarego] vc vai entender quando tiver 28 anos de idade

[riot!] vc tem tudo isso? nem parece

[thundercatsarego] é o aparelho nos dentes. 29 em julho

[riot!] ah. mas acho que não tem problema vc ouvir o supergrass. tipo. vc não tá velho. não tá tão velho

[thundercatsarego] ok

[riot!] se bem que vc ainda ouve rock e anda de bermuda e vê lost e tem um blog e

[thundercatsarego] e tenho um emprego fixo, e um carro. sei lá, também não é assim

[riot!] primo, posso fazer uma pergunta chata?

[thundercatsarego] manda

[riot!] vc leva na boa? é uma curiosidade

[thundercatsarego]manda

[riot!] quando é que a gente sabe que cresceu?

Mulheres sexo verdades mentiras *

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mulheressexo.jpg

Sex and the city encontra Jogo de cena, os dois saem de mãos dadas pelas galerias do Leblon, dão uma esticada no calçadão de Copacabana, torram os neurônios sob sol carioca e terminam o dia num boteco de Ipanema jogando conversa fora sobre putaria.

Parece genial, mas vale apenas como curiosidade mórbida. E é tudo o que eu tenho a dizer sobre o assunto, antes que alguém da equipe técnica comece a tradicional corrente de hate mail.

Control *

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control.jpg

Descobri o Joy Division cedo demais. Talvez por isso, não entendi nada. Eu tinha uns 17 anos quando comprei a caixa Heart and soul, encalhada numa loja de discos, e engoli a banda numa garfada só. Bateu pesado, quase me afoguei no lamaçal sonoro. No belo texto do encarte, se fala de uma Inglaterra sombria, intransitável. Uma imagem precisa para ilustrar aqueles acordes duríssimos.

Mas eu era novo demais. Recomendo o Joy Division para quem tem mais de 25. Para quem já sofreu a primeira grande desilusão amorosa (e conseguiu superá-la), para quem já superou a maior parte dos delírios de adolescência. Já nos primeiros singles, não havia esperanças. O segundo e último álbum, a obra-prima Closer, ainda está trancado em algum porão inacessível. Ainda parece impossível tentar aproximação com o porta-voz dessa triste poesia: Ian Curtis.

Como filmar essa presença fantasmagórica? Para uma cinebiografia de Curtis, eu convidaria o Alexander Sokurov. Ou o Paul Thomas Anderson desalmado de Sangue negro. Daí o estranho choque provocado por Control: trata-se de um longa que, apesar de rodado em branco e preto (uma opção até meio óbvia para um diretor que já rodou zilhões de videoclipes nesse formato), ilumina a vida privada de Curtis com a riqueza de detalhes banais que esperamos de um telefilme sobre Lindsay Lohan.

Confesso que descobrir esse personagem dessa forma tirou um pouco do mistério que sempre pairou sobre aquele outro homem, enclausurado nas canções do Joy Division.

Inspirado em um livro escrito pela mulher de Curtis, que também produz o longa, Control é um perfil quase doméstico, dedicado exageradamente à tensa relação entre o compositor e a esposa. Dentro desse parâmetro limitadíssimo, é uma produção correta. Mas queríamos realmente saber tanto assim sobre o longo caso extraconjugal do músico com uma repórter belga? Estávamos interessados na dificuldade que ele enfrentava para conciliar turnês e afazeres do lar?

Mais frustrante é quando Anton Corbijn (que começou a carreira com fotografias da banda para revistas inglesas) tenta explicar a origem das músicas do Joy Division a partir de situações vividas por Curtis. Exemplo: ele tem uma discussão violenta com a mulher e, em seguida, ouvimos Love will tear us apart. É só isso?

Até o suicídio de Curtis – até então, um grande ponto de interrogação até para quem o acompanhava de perto – é “resolvido” pelo cinema. Tudo, explica o diretor, uma questão de perda de controle, de não saber lidar com uma sucessão de ataques epiléticos, de deixar a vida escorrer entre os dedos – numa referência simplória (mais uma!) à faixa She’s lost control. O ator Sam Riley vive a agonia do ídolo, mas não encontra respaldo numa narrativa cartesiana.

Tento ser otimista, mas não dá: Control é um filme pequeno para Ian Curtis. Faz esforço para tirar o mito do pedestal, mas não sabe muito o que fazer com ele. No fim das contas, o banaliza. E, mais ou menos como a versão do Killers para Shadowplay, se faz de cúmplice – mas soa como espectador desinteressado de uma tragédia desinteressante.

Oscar II

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oscar.jpg 

Somos só eu e o Jon Stewart ou vocês também passam essa cerimônia inteira com aquela cara de quem poderia estar fazendo algo mais produtivo da vida? Dormindo, para ficarmos num exemplo.

Foi um Oscar previsível. Felizmente. O que vocês queriam? Juno melhor filme? Não, né.

Tudo muito correto, aliás. Até a premiação pra direção de arte de Sweeney Todd, justa. Tilda Swinton não tem muito a ver, mas não posso reclamar. Marion Cotillard é mesmo a melhor atriz, e até quem odeia ler legendas sabia disso. O discurso do Javier Bardem foi ótimo, e eu tinha completa certeza de que ele acabaria surtando em espanhol.

As canções, todas tenebrosas. Como de costume. Não me convenci da beleza da musiquinha vencedora, mas ainda tenho que ver o filme. E Rubens Ewald Filho, estranhamente controlado. “O tempo simplifica os homens”, já diziam os Coen.

No mais, até os irmãos pareciam um pouco entediados. E o Ethan realmente é o mais caladão, se é que alguém precisava confirmar isso.

Na natureza selvagem ***

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intowild.jpg

Um filme de aventura. E eu poderia parar o texto aqui (na verdade, eu deveria fazer isso, já que meus textos parecem cada vez mais vagos e inúteis, culpa da idade ou provavelmente do excesso de exercícios físicos).

Mas que filme de aventura bonito! Ele dura quase 2h30, mas eu – que implico adoidado com filmes longos – poderia ter passado mais de cinco horas no encalço de Christopher McCandless, o garotão de classe média que abandona o conforto de uma vida previsível para cair na estrada rumo ao Alasca. Como nos melhores road movies, este depende muito do interesse do cineasta pelas experiências vividas pelo protagonista durante o percurso (é fácil notar os casos em que o diretor só quer saber do ponto de chegada, os mais artificiais e entediantes). E Sean Penn trata essas aventuras com tanta propriedade que, na maior parte do tempo, parece estar fazendo um filme sobre as fantasias juvenis de Sean Penn.

Mas que filme fascinante sobre as fantasias juvenis de Sean Penn! Hoje em dia, admiro mais o cineasta que o ator. A promessa já era ótimo, mas este vai um pouco além quando demonstra entender profundamente sobre os desejos e frustrações de jovens deslocados no próprio mundo. O apanhador no campo de centeio seria a referência óbvia, mas Na natureza selvagem faz o possível (apesar de algumas interferências exageradas na narração em off) para preservar o mistério em torno desse herói bem-nascido. Por que livrar-se dos bens materiais para testar os limites em um ambiente desolado? Qual o sentido da fuga? E depois de cumprido o objetivo, o que fazer?

Até por tratar de um personagem real, o filme não o limita a um estereótipo, nem a um símbolo. Muitos verão em Christopher a encarnação do idealismo. Outros, da dificuldade de adaptação à vida urbana. Um terceiro grupo desconfiará da imaturidade do sujeito. Todos estão certos, mas ainda assim esse mochileiro consegue escapar de definições. Enquanto segue viagem acompanhado de adoráveis desconhecidos – nessa fauna de coadjuvantes, a narrativa apresenta traços de conto de fadas -, Penn se supera: exibe uma leveza e um frescor poético até agora desconhecidos.

Em algum momento da sua adolescência, você perdeu o ônibus de propósito e, talvez tomado por aquele tipo de melancolia que ninguém explica, seguiu caminhando sem destino definido. O filme recupera esse sentimento. De certa forma, é todinho sobre ele.

Eis a grande injustiça do Oscar (ficaria muito bem no lugar de Conduta de risco, que tal?). E terem ignorado Emile Hirsch, um baita pecado da Academia.

Oscar e Alfred

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A estatueta principal só não fica com Onde os fracos não têm vez numa condição: se a Academia se lembrar de que é uma instituição com queda pelos bons costumes, que já premiou amenidades como Uma mente brilhante e Carruagens de fogo. Então vamos torcer para que não lembre, certo?

Estranhíssimo sinal dos tempos, aliás: se o público tivesse a chance de escolher o vencedor, provavelmente a briga seria feia entre Desejo e reparação e Juno. Ou seja: passos para trás. O que mais ouço à saída das salas do filme dos Coen (e do Paul Thomas Anderson, ainda que em menor escala) é “isso que dá confiar na crítica!”. Quem diria: crítica e Oscar, nascidos um para o outro.

Agora, sério, quem precisa de Oscar quando se tem o Alfred? O prêmio da liga de blogues de cinema tem uma lista de indicados que quase me levou aos prantos. O mundo tem solução, meus amigos. Meu voto é para Império dos sonhos, claro, mas eu ficarei muitíssimo feliz com a vitória de qualquer outro concorrente. Mandamos bem.