Mês: novembro 2008

El Mapa de Todos: duas noches

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baba

Não sei se planejaram as duas primeiras noites do festival El Mapa de Todos para que sentíssemos a contraste entre o lado introspectivo e o extrovertido do rock ibero-americano. Mas foi o que aconteceu. Se a noite de quinta-feira caiu acinzentada de tão melancólica (culpem Marcelo Camelo), a de sexta brilhou no tom amarelo-ovo da calça de Adrián Rodriguez, vocalista do Babasónicos.

Infelizmente não estarei lá hoje para assistir ao Mundo Livre S/A. Só que já dá para cravar que este é um festival merece ser defendido: a curadoria (inteligentíssima) une alhos, bugalhos e uma penca de desconhecidos ilustres para formar o painel de um rock latino que desmonta os preconceitos do público brasileiro. Ainda me parece assustador que a estréia brasileira do Babasónicos, uma banda formada em 1991, tenha rolado apenas agora, e aqui em Brasília. Se o El Mapa de Todos veio para corrigir essas e outras distorções, que não nos abandone.

Quinta-feira: ‘Isso lá é bom, doce solidão?’

A seleção da noite de Marcelo Camelo parece ter sido montada para Marcelo Camelo. Dois outros convidados – o português Azevedo Silva e o brasiliense Beto Só – bateriam na tecla dolorida do rock em tom menor, com violões, murmúrios e versos sobre solidão, amores perdidos, saudade. Até os uruguaios do Danteinferno, que destoaria desse tom deprê, surpreenderam com um set mais calminho que de costume.

E Camelo? O barbudo confirmou o papel de trovador recluso (nosso Bon Iver!) e de ídolo de menininhas de 16 anos (era, e estou falando sério, a maior parte do público que lotou a casa de shows). Como entertainer, sai-se um ótimo professor de História. Camelo não quer entreter ninguém, certo? O que ele compõe é tão caseiro, tão íntimo, tão intransferível, tão essencialmente dele que parece pequeno demais até para um teatro para 800 pessoas. 

Em disco, esse tipo de viagem ao redor do umbigo parece fazer mais sentido. Soa como um sussurro (e no bom sentido). No palco, alguma coisa parece fora da ordem. Antes de assistir ao show me contaram que os músicos do Hurtmold garantiam profundidade à caixinha de música de Camelo. Há alguns barulhinhos sutis e tal. Mas nem isso compensa o clima aborrecido que paira sobre o lual.

Camelo, o anti-astro, faz um anti-show. Conversa pouco com os fãs (histéricos, como de hábito), não esboça sorriso e, num certo momento, toca de costas para a platéia. Como performance calculadamente blasé, não cola. “Ele tá dando uma de João Gilberto”, avaliou um fã. Repito: um fã.

As versões para músicas do Los Hermanos como Pois é e Morena conseguem soar diferentes sem trair o espírito das gravações originais. Mas, amplificadas num palco, diante de várias pessoas, as canções de Sou se revelam inacabadas, quase esquecíveis, e tão antipáticas quanto a pose do cantor (como antídoto, o português Azevedo Silva provou que é possível ser intimista sem fazer marra). Lição quase futebolística da noite: disco é disco, show é show.

Sexta-feira: ‘Algunas noches soy fácil, no acato límites’

Com Camelo jogando na defensiva, o melhor show do festival foi (fácil, fácil) o do Babasónicos. Em clima de ‘tudo ou nada’, os argentinos não se conformam com o fato de – com uma trajetória de nove álbuns! – vender bem em todo canto, menos no Brasil. Deve ter sido uma experiência estranhíssima: na Argentina eles lotam o Luna Park; em Brasília, levam metade do público do Camelo ao Espaço Brasil Telecom.

Mas eles pareciam preparados para lidar com a apatia da platéia – tanto que, no bis, conseguiram fazer com que muita gente se levantasse para dançar em frente ao palco. Não há como ficar emburrado com as acrobacias de Adrián Rodriguez, o baixinho-espoleta que emula James Brown, Mick Jagger e Michael Jackson num mesmo refrão. Ninguém pode pará-lo.

Quem conhece a banda de meados dos anos 90 pode ter reclamado de um set list previsível, armado em torno dos dois discos mais recentes deles (Mucho e Anoche). Ok, não deixa de ser, mas vale lembrar que o show apresentou o perfil de um cartão de visitas – e, para efeito máximo, o grupo lançou mão dos hits mais acessíveis, da fase pop iniciada com o álbum Jessico, de 2001.

Foi esse Babasónicos manso que vimos por aqui. O que não chega a incomodar, já queo grupo sabe (como poucos) aliar os truques comerciais à influência indie, psicodélica. Ainda se vestem como hippies sujos saídos de uma rave que varou a madrugada.

A noite de sexta ainda teve o skabilly do peruano Turbopótamos (uma espécie de Franz Ferdinand latino, bastante eficiente), mais um show hipnótico do Macaco Bong e a revelação Facas Voadoras, do Mato Grosso do Sul (que une Johnny Cash, Pixies, The Cramps e, incrivelmente, não soa como Matanza). 

Será que em 2009 rola Los Tres? Depois de ter visto Babasónicos a cinco palmos de distância, tudo é possível.

Quatro discos estrangeiros

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O que perdi durante o Festival de Brasília: The Killers lançou o melhor álbum da carreira (e nem é um grande álbum), Kanye West gravou uma ópera emo, Britney Spears virou gente e até o Guns n’ Roses aproveitou meus dias de isolamento no fantástico mundo do cinema brasileiro para finalmente concluir a obra mais ridicularizada de todos os tempos. Ainda não ouvi as últimas do Axl e da Britney, e sei que estou bastante atrasado nesta leva dos lançamentos, mas vamos com calma ao leite derramado (e as análises são toscas e apressadas, como de costume).

kanyepeq808s & heartbreak | Kanye West | « «

Eles também são humanos: mais cedo ou mais tarde, todo astro da música pop acaba se identificando terrivelmente com Blood on the tracks. Para os padrões de Kanye West, esta espiada na vitrine das caras desilusões sentimentais (quase todas as canções do álbum sangra sobre os cacos do fim de caso entre o rapper e a noiva Alexis Phifer) soa como suicídio comercial. Mas, comparando a esta terapia para pistas de dança, o que dizer de Sea change (Beck) e Hissing fauna, are you the destroyer (Of Montreal)? São disquinhos revolucionários.

Como acontece na carreira de West, o aparato de marketing ainda supera o produto final. Quem esperava ousadias em Graduation encontrou um bloco de rascunho com anotações sobre o pop eletrônico europeu. Quem mandou? Da mesma forma, 808s & heartbreak promete talvez demais: a catarse emocional nos é vendida em embalagem frágil, limitada – que pode ser resumida na opção de West por alterar grosseiramente a própria voz em todas as faixas (numa overdose de auto-tune que remete mais a Believe, de Cher, que a One more time, de Daft Punk).

As letras não somam tanto sentido à lamentação. Say you will e Love lockdown são lacônicas (o que abre brechas para efeitos ora percussivos, ora glaciais). Já as imaturas Heartless e Robocop provam que, depois de levar um pé na bunda, todo macho retorna aos 12 anos de idade (quer dizer: todos menos Dylan, vide Idiot wind). É um álbum arriscado e sensível (que não será aceito nas prateleiras de hip hop), mas ainda sinto a falta do West verdadeiramente ambicioso de Late registration.

thekillerspeqDay & age | The Killers | « «

Até aqui, o Killers aparentava ser uma banda que – apesar de apoiada num vocalista carismático e em hits acertados – procurava uma identidade. Em Day & age, eles chegam lá: sem macaquear Bruce Springsteen ou diluir acessórios do “novo rock”, se afirmam como discípulos do rock de arena de U2, com um quê de glam rock e raízes profundas no pop oitentista. Las Vegas, servia de tema e cenário para os discos anteriores, agora se converte em estado de espírito. Melhor assim.

Os fãs talvez sintam falta dos refrãos imediatos do primeiro disco, mas Day & age sai na frente como um surpreendente (pelo menos para mim, que não me interesso por nenhum outro disco deles) momento de coesão, uma demonstração de auto-conhecimento. Só uma banda muito segura inclui elementos eletrônicos à beira do kitsch em um single do porte de Human (que faz por merecer uma cover da Cher), ou tenta brincadeiras alegres com ritmos latinos (Joy ride).

A produção de Stuart Price dá ao Killers uma leveza que o grupo nunca tentou – e, apesar de ainda derivativa, a banda pelo menos aprendeu a se divertir com a própria insignificância.

kaiserchiefspeqOff with their heads | Kaiser Chiefs | « «

Depois de um álbum morno (Yours truly, angry mob), o Kaiser Chiefs parece ter levado a sério os comentários de quem vê neles uma encarnação do brit pop do início dos anos 1990. O novo disco defende tanto essa referência que fiquei à espera de uma cover de Parklife, do Blur.

Off with their heads é (calculadamente) é tão acessível quanto diversificado – um álbum de hits que atiram em diferentes direções. A produção de Mark Ronson dá polimento das canções de forma que nenhuma mudança brusca de via assuste o fã. Há os ecos de The Who e The Kinks (e as letras engraçadinhas de sempre), mas fica a impressão de que o Kaiser Chiefs quer dar um passo para frente e provar que pode evitar a cartilha monocromática do rock britânico alinhado ao Arctic Monkeys. Bom para eles.

Ainda assim, falta personalidade a esses refrãos todos. Acaba que nos lembramos do disco por um ótimo single (Never miss a beat) e pouco mais. 

eaglespeqHeart on | Eagles of Death Metal | « «  

 Por essa eu não esperava: enquanto o Queens of the Stone Age dá sinais de estagnação, o projeto paralelo de Josh Homme, Eagles of Death Metal, segue em frente na complicada tarefa de se afirmar como uma banda de verdade. Por enquanto, é divertido acompanhar essa história.

Talvez por se permitir um turbilhão de referências (Led Zeppelin, Rolling Stones e até James Brown), sempre com o bom humor de quem não tem nada a perder, o Eagles of Death Metal dá a Homme uma liberdade que ele não encontra mais no Queens. Pode parecer um contrasenso: Heart on é o mais próximo que ele chega de um álbum de rock convencional. 

E não estou reclamando. É o primeiro disco do grupo que consigo levar a sério.

Festival de Brasília | Vencedores

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fobiavence

Melhor filme (júri oficial): Filmefobia, de Kiko Goifman

Melhor filme (júri popular): À margem do lixo, de Evaldo Mocarzel

Diretor: Geraldo Sarno, Tudo isso me parece um sonho

Ator: Jean-Claude Bernadet, Filmefobia

Atriz e atriz coadjuvante: elenco feminino de Siri-Ará

Prêmio de crítica: Filmefobia

O restante da lista de vencedores está neste link aqui.

Ou seja: os filmes não entusiasmaram, mas os jurados (de longe o destaque da mostra) foram extremamente sensatos ao não se deixar levar pelo oba-oba do público e consagrar os longas mais “difíceis” do festival: Filmefobia, mais odiado que amado, ficou com cinco prêmios (filme, montagem, direção de arte, ator e crítica) e Tudo isso me parece um sonho levou direção e roteiro.

Favoritos da platéia, À margem do lixo e O milagre de Santa Luzia ficaram com, respectivamente, júri popular (e prêmio especial de júri) e trilha sonora.

Foi como se, aos 46 do segundo tempo, o júri tivesse decidido corrigir a rota desenhada pela comissão de seleção dos longas, que privilegiou documentários acadêmicos a criações mais arriscadas. Deram a vitória ao risco, à (tentativa de) invenção.

Para mim, não poderia ter sido melhor. Aliás, até eu, um dos poucos defensores de Filmefobia por aqui, fiquei surpreso com a coragem do júri. Em outras edições do festival, o longa de Goifman talvez teria de se contentar com um prêmio especial. Este ano, a premiação caiu como um manifesto a favor de um cinema que não se deixa amarrar pela função meramente informativa. Por obras um tantinho complexas, enfim.

A equipe do jornal onde trabalho decidiu entregar o Prêmio Saruê (para o melhor momento do festival) a Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte. Também funcionou como uma alfinetada na seleção dos longas: foi a primeira vez que escolhemos premiar um filme ausente da mostra competitiva.

No mais, a insatisfação com o festival é generalizada e até Vladimir Carvalho, que participou do júri, escreveu um artigo sobre a crise do evento. Num trecho, ele protesta: “O Festival de Brasília envelheceu, esclerosou-se e precisa urgentemente de uma reforma ampla, geral e irrestrita”. No texto, o documentarista chega a criticar o excesso de documentários na competição. “O júri enfrentou sérios problemas porque não havia filmes para premiar nas categorias previstas no regulamento”, contou.

“Uma sombra escura desceu sobre este que já foi o maior e mais importante festival de cinema”, ele lamenta. Está coberto de razão.

Festival de Brasília | Encerramento e apostas

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O júri do Festival de Brasília ficou trancado durante toda a madrugada para escolher os vencedores da edição. Fiquei sabendo que o encontro não resultou em bate-boca, mas numa negociação demorada. “E o festival nem estava tão complexo assim”, ouvi de um jurado. Posso imaginar a dificuldade.

Numa mostra em que os integrantes do júri provocaram mais interesse que os cineastas em competição (e aposto que Vladimir Carvalho, Murilo Salles, Sandra Corveloni, Sérgio Machado, Carlos Reichenbach e Maria Flor prefeririam ter passado a semana diante de filmes mais fortes), a vitória de Tudo isso me parece um sonho, de Geraldo Sarno, soa bastante provável. Não que me impressione tanto assim (ainda que deva conquistar o apoio apaixonado de muita gente boa), mas é o único na competição que apresenta a assinatura de um autor.

Os prêmios de atuação devem ir para Siri-Ará (o único longa que se assume totalmente como ficção) e Evaldo Mocarzel deve ficar com um prêmio de júri ou até de direção. O sanfoneiros de O milagre de Santa Luzia devem ter mobilizado o júri popular. Por mim, o Candango de melhor filme ficaria com Tudo isso me parece um sonho, um documentário em crise que desagradou o público (mais da metade do Cine abandonou a sala no decorrer das 2h30 de projeção) e encerrou a mostra num estranho anti-clímax.

Quer dizer: estranho não, já que o desfecho foi até coerente com o clima de desânimo que pairou sobre esta edição.

Tudo isso me parece um sonho | Geraldo Sarno | ««

Antes que o classifiquem como obra-prima, vale lembrar que Geraldo Sarno desenvolve há muito tempo (na surdina) o projeto de fazer documentários que desmontam e discutem o processo de criação artística. Nada mais oportuno que iluminar a obra do diretor num momento em que a metalinguagem contamina profundamente o gênero (vide Santiago e Jogo de cena).

Neste caderno de anotações para um filme sobre o general José Ignácio Abreu e Lima (um herói pernambucano esquecido, que lutou ao lado de Simon Bolívar e participou da Revolução Praieira), Sarno filma um ensaio sobre revoluções e movimentos fracassados. Não é à toa que o próprio filme pareça inacabado, indeciso, errado.

Faz sentido. Sem acesso a imagens do general, Sarno coloca em xeque a existência do próprio filme. Isso nas primeiras cenas. Depois decide encenar os momentos derradeiros do personagem, inverter a narrativa num making of, que logo se transforma num documentário-dentro-do-documentário sobre os canaviais pernambucanos. A colagem de idéias poderia se desdobrar infinitamente.

É uma premissa que qualquer cinéfilo ou crítico de cinema compraria de olhos fechados.  Mas a experiência de assistir ao filme deixa a sensação de um passeio desgovernado por momentos de grande inspiração e declives que exigem paciência e boa vontade. Há seqüências que valem pelo festival inteiro, como aquela em que uma menina analisa em off a performance desastrosa de Sarno como cortador de cana. Só que aí esbarramos em entrevistas didáticas, intermináveis, e a coisa desanda.

O ritmo esparramado de Sarno – que leva os entrevistados para a rua e, nos melhores momentos, prefere filmar o mundo que se movimenta ao redor deles – dificulta o acesso à narrativa. Mas, num diálogo inusitado com Filmefobia, o formato do longa se constrói com o acúmulo de tentativas. Nem sempre faz justiça à ambição, mas é, antes de tudo, um filme de cinema – artigo em falta neste festival.

Festival de Brasília | À margem do lixo

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lixo

À véspera da cerimônia de premiação, o Festival de Brasília criou uma controvérsia dentro da controvérsia. Primeiro, o motivo de preocupação era o predomínio de documentários entre os longas-metragens. Agora, o que se discute é algo mais trivial: a qualidade dos filmes selecionados. Se o festival queria valorizar o bom momento do gênero documental, o tiro parece ter saído pela culatra – a precariedade dos filmes nos faz sentir saudade de uma boa ficção. 

Aliás, tudo o que quero saber neste exato momento é os nomes dos filmes de ficção que ficaram de fora da mostra competitiva. O híbrido Sagrado segredo, excluído da disputa, continua à frente da maior parte das produções exibidas nas sessões noturnas do Cine Brasília. E, por enquanto, o melhor filme do festival é disparado Se nada mais der certo, do José Eduardo Belmonte. 

Entre os curtas-metragens, a situação também não é animadora. Mas a seleção resultou menos desastrosa que a do ano passado. Por enquanto, o documentário Minami em close-up, sobre a Boca do Lixo, é o favorito tanto da crítica quanto do público. É um filme divertido, com a compilação de cenas bizarras que se espera de um projeto com esse perfil, mas que parece o prólogo para um longa-metragem (ironicamente, um curta com personagens mais interessantes que todos os apresentados nos documentários da mostra até aqui).

À margem do lixo | Evaldo Mocarzel | «

Até quem esperava pouco de Mocarzel parece ter se decepcionado com esta terceira parte da tetralogia iniciada com os bons À margem da imagem e À margem do concreto. No primeiro longa da série, Mocarzel discutia o roubo da imagem de moradores de rua. O tema foi desdobrado como um filme-guerrilha no segundo episódio (o clímax era uma invasão de sem-teto, filmada como uma seqüência de fita de ação) e, agora, serve de palanque para as reivindicações dos catadores de lixo de São Paulo.

A proposta inicial do projeto continua intacta: lançar uma luz de dignidade sobre tipos marginalizados. Mas o diretor – que parecia ainda instigado pela reflexão sobre a imagem em Jardim Ângela – dá alguns passos para trás ao fazer política de uma forma automática, como quem sai a campo para apurar mais uma reportagem de jornal diário. A estrutura do longa alterna depoimentos sobre a vida e origem dos catadores com seqüências que, inspiradas em Vertov, dão um quê abstrato ao processo mecânico de reciclagem. Nesses momentos, o diretor se liberta de um formato desgastado e faz cinema. Nos outros, frustra pela forma segura e unidimensional como encara um tema (a indústria da reciclagem) que merecia um debate mais amplo.

Festival de Brasília | Ñande Guarani

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nandeguarani

Se a seleção de longas-metragens do Festival de Brasília já provocava reações de desânimo antes da exibição dos filmes, já podemos afirmar com alguma certeza que os pessimistas não estavam errados. Faltam dois concorrentes na mostra 35mm (um Evaldo Mocarzel e um Geraldo Sarno) e, por enquanto, o clima oscila entre a mais decadente edição de Gramado e uma morna seleção do Festival Internacional de Cinema Ambiental de Goiás Velho.

Isto é: um festival nas últimas (e, para mim, não é nada engraçado ou divertido chegar a essa conclusão). A insatisfação é geral: está nas conversas de jornalistas, no bate-papo da praça de alimentação e até no júri. Aliás, atiraram uma batata quente para os jurados: como eleger a melhor atriz numa seleção que não apresentou nenhum papel feminino de destaque (e nem vai apresentar, já que os próximos filmes são documentários)? Mistério.

Tudo indica que o melhor longa da programação será mesmo Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte, que passa hoje na Mostra Brasília (seleção de filmes da cidade excluídos da competição). O curioso é que, ontem, a sessão paralela exibiu o novo longa de André Luiz Oliveira, Sagrado segredo – que, ainda que irregular, provoca mais interesse que todos os filmes escolhidos como atrações principais (com exceção de Filmefobia).

O que aconteceu com o Festival de Brasília? Provavelmente um curto-circuito entre a organização da mostra, que se recusa a rever as regras do evento, e uma postura conservadora da seleção de comissão de longas, que privilegiou documentários puramente informativos que ficariam escondidos na grade da TV Sesc.

Sagrado segredo | André Luiz Oliveira | «

O projeto mais pessoal do diretor de Meteorango Kid caminha em pelo menos três direções: é um documentário sobre a via sacra da cidade de Planaltina (um espetáculo comunitário que mobiliza uma multidão todos os anos), um ensaio sobre religiosidade e a encenação da crise existencial do cineasta, que não lança um longa desde Louco por cinema (vencedor do Festival de Brasília em 1994).

Com apenas 70 minutos de duração, o filme é (perdoem o trocadilho) uma via crúcis que acumula informações de uma forma errática, mas quase sempre provocativa (é um documentário sobre a encenação da via crúcis ou sobre Jesus Cristo?). Para um longa maldito que demorou nove anos para ser concluído, o resultado não frustra as expectativas de ninguém: é caótico e bastante precário, todo manco (e escorrega na pregação de uma religiosidade introspectiva). Mas trata-se pelo menos de uma experiência cinematográfica arriscada, inclassificável, que por isso não deve ser tratada apenas como a egotrip (ainda que seja um pouco isso) de um cineasta em transe. 

Ñande Guarani (Nós Guarani) | André Luís da Cunha | «

Um documentário que cumpre um papel muito específico (foi encomendado pelo Ministério Público para registrar as condições de vida dos índios Guarani) com função exclusivamente informativa. Segue a cartilha do formato com austeridade, mas sem a fluência que se espera de uma produção que quer apenas transmitir uma série de dados e depoimentos ao espectador. A situação dos índios é mesmo grave – mas não me peçam para explicar por que a comissão de seleção decidiu incluir este relatório maçante na mostra competitiva de um festival de cinema.

Festival de Brasília | Siri-Ará

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siriara

Em 1993, um ano depois da minha chegada à capital, eu já era um freqüentador do Festival de Brasília. Na época, o cinema brasileiro ainda cambaleava das pancadas recebidas pelo governo Collor, que fechou a Embrafilme e a mostra servia de reflexo melancólico para a crise. Não havia muitas filas para as sessões e os filmes selecionados eram verdadeiras peças de resistência: precários, esqueléticos, eles pareciam celebrar a própria sobrevivência.

Foi exatamente naquele ano que assisti ao meu primeiro Rosemberg Cariry: A saga do guerreiro alumioso. Duvido que algum leitor deste blog dê alguma importância ao diretor cearense. No meu caso, um laço afetivo obriga que eu lembre do cineasta sempre que penso naquele cinema em frangalhos do início dos anos 90. Ele retornaria ao festival com Corisco e Dadá e Lua Cambará, mas foi aquela alegre alegoria do Nordeste, colorida e orgulhosamente pobre, que deve ficar na minha memória como uma espécie de marca d’agua borrada para o estilo de Cariry e para minhas primeiras experiências no festival.

Não consigo descrever muito do longa-metragem, mas tenho absoluta certeza de que ele era – apesar dos excessos visuais, e taí um diretor apegado a excessos – uma viagem espontânea, fluente, por símbolos da cultura regional. Se me perguntarem, direi que gosto do filme, mesmo correndo o risco de estar redondamente enganado (e não pensamos poucas bobagens aos 14 anos de idade).

Por que o flashback? É que retornei àquela sessão de 1993 ontem à noite, na sessão do novo filme de Cariry, Siri-Ará. Não por uma boa razão, infelizmente. Logo no início da sessão, abandonei o setor de poltronas reservado à imprensa e decidi assistir ao filme nas últimas fileiras, junto com o público que fez filas e comprou ingressos. A experiência não foi nostálgica nem nada – foi só triste.

Se o público já parecia minguado para uma noite de sexta-feira, a debandada no início da sessão deixou várias poltronas vazias e um clima de abandono que me atirou instantaneamente a 1993. O filme não ajudou: Cariry parece ter perdido o entusiasmo, a vibração desajeitada que ainda vive na minha memória (talvez como uma forma de miragem, não sei). Parecia até o fim da festa.

Otimismo é bom e a gente gosta, mas taí a realidade difícil que corre entre as poltronas: este Festival de Brasília, com exatamente esses mesmos filmes que estão na seleção, poderia ter ocorrido em 1993. Num dos piores momentos do cinema brasileiro. É verdade: estamos sim diante de um dos festivais mais sofríveis de todos os tempos.

Parece até Gramado. Sério.

Ainda faltam três documentários e podemos sim tropeçar numa obra-prima. Mas as uma simples comparação com qualquer outra edição da mostra deixará o ano de 2008 em séria desvantagem. O júri terá um trabalhão para escolher os vencedores, e por enquanto não vimos nenhum filme com perfil de ganhador (e, goste ou não de Baixio das bestas, é um longa que resolve várias questões básicas de conceito ou narrativa que faltam a cada noite da competição).

Sejamos sinceros, pelo menos uma vez (e a tradição que cerca o festival abafa esse tipo de opinião direta): dá até desânimo acompanhar as sessões. Há esperanças de surpresas, mas acompanhar uma mostra à 1993 em pleno 2008 deixa a sensação incontornável de que há algo muito errado em cena. Não com o cinema brasileiro, que vai razoavelmente bem. Mas com a organização do evento cultural mais importante da cidade. Deu tilt?

Siri-Ará | Rosemberg Cariry | «

Em Siri-Ará, Cariry dá continuidade ao resgate histórico e folclórico do sertão nordestino com um delírio que, em muitos momentos, chega a lembrar os momentos mais abstratos de Júlio Bressane. Na trama, um homem velho que retorna da Europa adentra o sertão cearense acompanhado de uma índia – e perseguido por guerreiros do reisado, banda de pífanos e alucinações que remetem a um Nordeste lírico, imaginário. Para tecer essa visagem, o diretor nega o convencional: o filme corre com a liberdade de um fluxo de consciência. 

É uma idéia que poderia ter soado fascinante, mas o que continua a incomodar em Cariry é a forma pouco imaginativa (eis a ironia da coisa), e até tosca, como ele compõe alegorias – e alegoria não é para qualquer um. Apesar da secura da fotografia, é um filme que quase nunca deslumbra (as fotos de divulgação provocam mais impacto que qualquer cena do longa) e se arrasta numa narrativa truncada, que penaliza o espectador com uma lição enfadonha de história popular brasileira desde os créditos iniciais. É superior a Lua Cambará – mas sente o peso de traduzir uma premissa delirante com os recursos limitados de uma produção de baixo orçamento.