Dia: abril 11, 2008

The office, segunda temporada ***

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Como fã do original britânico, meu primeiro contato com o The office norte-americano foi o pior possível. Nem lembro quantas vezes tentei assistir ao primeiro episódio da primeira temporada. Só na quinta ou na sexta vez comecei a entender que Steve Carell nunca será Ricky Gervais, que John Krasinski nunca será Martin Freeman e que, finalmente, o remake é uma sitcom em muitos aspectos convencional – enquanto que, na BBC, a idéia era experimentar um formato novo para o gênero.

Não sei se vocês sabem, mas o The office inglês foi criado como que uma brincadeira. Gervais sabia fazer uma imitação ótima do chefe turrão, estúpido e sem-noção. Inspirado nesse tipo intragável, o amigo Stephen Merchant teve a idéia de um piloto caseiro, com câmera digital, como um documentário amador. A fita caiu nas graças da emissora, que testou a série (por medida de segurança, já que não sabia se as pessoas se interessariam por algo tão esquisito) na BBC 2. No início, o programa não fez sucesso, mas com o tempo ganhou status de atração cult. Principalmente quando ganhou o merecidíssimo Globo de Ouro de melhor série cômica e saiu em DVD.

Seria impossível, por isso mesmo, traduzir com fidelidade esse humor “anormal” para a tevê norte-americana. O espectador precisaria de uns cinco episódios para se ambientar ao ritmo dos roteiros e começar a soltar as primeiras risadas – o que seria fatal para o programa. Daí que a adaptação da NBC, sob supervisão de Greg Daniels (que já escreveu episódios dos Simpsons), apela para um texto mais leve e ligeiro. Ainda assim, a estética provoca alguma estranheza. A primeira temporada, que tenta encontrar essa nova gramática para a série, é tentativa e erro. Lentamente, os roteiristas abandonam a ironia britânica em prol da gargalhada mais direta, mais universal. É uma transição árida.

A partir da segunda fornada de episódios, a série encontra o rumo. E acredito que principalmente por apostar num perfil menos amargo para o personagem de Steve Carell. O chefe continua odiado, mas agora desperta compaixão e alguma simpatia. Algumas subtramas – como o affair do chefe com a poderosa Jen e os preparativos para o casamento de Pam – tiram o foco da estética pseudo-documental e buscam uma dramaturgia à folhetim, um recurso que funciona nesse formato. Lá pelo décimo episódio da segunda temporada, já estamos diante de um seriado totalmente diferente do britânico, mas que mantém o essencial: a radiografia dessa família desconfortável que se cria no ambiente de trabalho. É um documentário sobre nossas vidas, de certa forma – já que, em horário comercial, elas são sempre meio patéticas assim.

Ontens

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E aí inventei de entrar numa comunidade do Orkut em homenagem ao colégio onde estudei quando eu tinha 12 anos de idade. A escola já foi para os ares (no lugar, construíram uma academia de ginástica, um supermercado ou algo que o valha), mas os alunos, aparentemente, estão todos ainda muito vivos.

Não sei o que aconteceu, mas o baque de reencontrar aquelas pessoas todas – virtualmente, que seja – foi tão grande que desmarquei o cinema, saí dirigindo meio desnorteado no acostamento, quase enfiei o carro num caminhão, dobrei no retorno errado e, quando finalmente cheguei em casa, passei umas duas horas quieto, sentado na cama, olhando para alguns ontens através da porta do meu armário, ensimesmado, bobo da vida, um autista.

Não sei ainda descrever a sensação, se alegria ou tristeza. Provavelmente tristeza – comigo tudo acaba descambando num melodrama do Moretti. Mas pode ter sido alegria. Pode ter sido qualquer emoção. Não me peçam para descrever. Mas agora entendo bem claramente o que leva cineastas a fazer filmes sobre a infância. E os filmes saem umas bostas, mas eles continuam fazendo. É um tema forte demais. É uma pancada. Por um momento fiquei imaginando se tudo o que fiz na vida quando adolescente não teria sido mero epílogo daquele período. Adulto, então, o que faço? As memórias às vezes são boas demais, tão boas que machucam. Eu posso fazer um filme sobre isso. Um filme ruim, mas que soaria tocante para mim.

O que me deixou impressionado, acima de tudo, foi o comentário de uma garota de que mal lembro. Ela fez uma longa lista dos amiguinhos de classe e lá estava eu, o oitavo ou nono. E, entre parênteses, uma anotação: “ele era cinéfilo”. Aquele comentário despretensioso veio em cima de mim feito um vulto do mal. “Ele era cinéfilo”. 12 anos de idade! Me senti tão criança de novo. Estranho.

Desculpem o desabafo, mas acabo sempre concordando com um amigo meu: Orkut é “demônio” em alguma língua esquisita.