Mês: fevereiro 2012

mini | 1 post, 16 discos

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Deixe-me livrar destes disquinhos antes que eles desapareçam completamente do meu HD, tudo bem? (Regra do jogo: textos injustamente curtos, porque a vida é assim mesmo).

Go Fly a Kite | Ben Kweller | Noise Co | C+ | Precocemente nostálgico (e talvez por isso um tantinho adorável e triste), como se Kweller tivesse completado 60 anos e não 30. Pode ser “lido” como um disco bem pé-no-chão sobre o fim da adolescência, ainda que o compositor não tenha amadurecido e siga irrelevante.

Hymns | Cardinal | Fire Records | C+ | Após quase 20 anos de hibernação, o duo americano retorna com um disco tão out of time quanto o début de 1994. É verdade que o Clientele fez isso tudo com mais finesse, mas não é desprezível o jeito como eles vão “estragando” canções pop com detalhes psicodélicos (um vocal distorcido, um efeito de teclado etc). Teias de aranha everywhere, mas tem seu encanto.

I Am Gemini | Cursive | Saddle Creek | C | O conceito é juvenil demais para ser levado a sério (vai mais ou menos assim: o bem e o mal num confronto dentro de uma casa), mas dá à banda certo ânimo para seguir compondo. Ainda assim, não me convidem pra jogar esse RPG-indie de novo.

Django Django | Django Django | Because Music | B | Um dos ídolos do quarteto é o Beta Band, e que bom: um disco que dá a sensação de se transformar a cada faixa, em constante movimento de autodestruição/recriação, e, apesar de gordo (até nisso eles imitam o BB), que entretém mesmo quando as mutações soam como esboços que mereciam ser deletados antes de virar MP3.

Have Some Faith in Magic | Errors | Rock Action Records | B | Aquilo que alguns chamariam de pós-rock, só que com mais vivacidade que letargia. Disco a disco, a banda vai encontrando um som pra chamar de seu, e isso é bonito de notar.

The Year of No Returning | Ezra Furman | Independente | C+ | Furman ainda não sabe exatamente o que quer, e se sai melhor como um discípulo de Bruce Springsteen (American Soil é ótima) que de Jeff Tweedy. A acompanhar.

Interstellar | Frankie Rose | Slumberland | B | Musa indie nova-iorquina floating in space, num CD que oscila do synthpop ao shoegazing, e por isso muitíssimo gostável e up-to-date (vide as reações muito positivas na imprensa americana). É mesmo um doce, mas eu prefiro as faixas mais dançantes às mais morosas – e é um tanto breve, não?

MU.ZZ.LE | Gonjasufi | Warp | B | Outro álbum curto, muito curto, que deixa uma série de promessas em stand-by. A faceta hip-hop do compositor não parece ainda bem resolvida, e o que ouço são rascunhos, só que não consigo ignorar um disco que atira tantas boas ideias ao vento.

A Sleep & a Forgetting | Islands | ANTI- | C+ | Ainda me parece pouco convincente (e não muito natural) essa transformação do Islands numa banda menos delirante e mais mundana, e o disco acaba tomando o caminho fácil de optar por um som genérico, superficial, cheio de chavões de country rock. Enfim: mais para Bright Eyes e Girls que para um Lambchop.

Born to Die | Lana Del Rey | Interscope | D+ | Nem princesinha deprê, nem monstrengo pré-fabricado: apenas uma (mais uma) estrela pop desnorteada dentro de um EP grandalhão, feito às pressas, toscamente produzido, e que esvazia terrivelmente após a quinta faixa. Tem Video Games, daí o +.

Kisses on the Bottom | Paul McCartney | Hear Music | C+ | É um disco sincero de crooner, perfeito para animar bailes de terceira idade e (se você tiver ânimo) com algumas pistas que explicam certas referências embrionárias dos Beatles. Mas Paul não precisava disso.

Habits and Contradictions | Schoolboy Q | Top Dawg | B+ | Um tema recorrente (sexo, sexo e sexo), mais de uma dezena de boas ideias sonoras (a faixa com sampler de Portishead, apesar de óbvia, empurra o disco surpreendentemente para o dark side), ainda que repetitivo e dispersivo demais. Um bom editor fez falta. Ouvi muitas vezes e aviso: ele vai melhorando.

Animal Joy | Shearwater | Sub Pop | C+ | Um disco de rock sisudo e monocromático (ainda se faz isso?) como os primeiros do Pearl Jam e do Alice in Chains, que não soaria estranho se tivesse sido lançado no início dos anos 90. Até a capa me deixa com saudades das camisas de flanela, mas péra lá: o álbum acabou cinco vezes e ainda não descobri o que há de particular no Shearwater.

Young and Old | Tennis | Fat Possum | D+ | Com uma palheta de referências parecida, o Hospitality fez um álbum muito agradável este ano. O Tennis parece fadado a ser uma espécie de She & Him de segunda divisão – lamentável e desnecessário, portanto.

This Something Rain | Tindersticks | Lucky Dog | B | Mais um disco muito digno e elegante do Tindersticks (como todos os outros, aliás), ainda que eu acredite que ele vá perdendo a força assim que a primeira faixa (de nove minutos, e excelente) termina.

Sounds From Nowheresville | The Ting Tings | Columbia | D+ | Uma banda pop muito limitada tentando, hum, break on through to the other side: raramente dá certo. Se a ideia era nos deixar com saudades de That’s Not My Name, conseguiram. Parabéns, Columbia, cês tinham razão.

♪ | Break it Yourself | Andrew Bird

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Amplidão, esse susbstantivo tão feioso e maltratado, há de cair bem em qualquer resenha sobre Break it Yourself. O novo de Andrew Bird soa como a trilha para um road movie pastoral, malickiano, de três horas de duração. Com direito ao corte final, o músico criou um álbum de folk-pop em VistaVision, cujas faixas (e são 14!) se movimentam sem sufoco numa paisagem vasta, cheia de terrenos abandonados e roads to nowhere. Não deixa de ser um “statement” valente — estou aqui sentado em minha poltrona, com uma latinha de guaraná, esperando os comentários do primeiro esperto que vai acusar o disco de ser irregular, inflado, desequilibrado, tedioso etc.

Fazer o quê? Talvez ele seja tudo isso (irregular, inflado etc), só que mais complicado é perceber que Bird buscou conscientemente um formato mais arejado e contemplativo para apresentar faixas que poderiam ter sido compactadas num disco de 35 minutos (este tem 60). Tem uma diferença importante aí.

Pode ser que as músicas não sejam tão memoráveis quanto as que apareceram em álbuns como The Mysterious Production of Eggs ou do ótimo The Swimming Hour (que marcou a grande transição da carreira de Bird, antes mais afinado ao jazz e aos modelos de big bands norte-americanas), mas aqui é tudo questão de dimensão, de compor as cenas e esticar o escopo: uma faixa mais convencional e familiar como Near Death Death Experience ou Fatal Shore, por exemplo, ganha uma força tremenda quando despenca dentro de uma narrativa tão plácida, com momentos de quase letargia — é como se o compositor atirasse uma pedrinha num lago completamente silencioso, só pra ver o que acontece.

E apesar de todos aqueles momentos graciosos que conhecemos muito bem (como no refrão de Near Death, em que Bird comenta que vai dançar “como um sobrevivente de câncer”), o disco caminha imperturbável numa toada lenta, quase austera, cheia de momentos de beleza serena (o trecho instrumental de Hole in the Ocean Floor, que vai seguindo vagarosamente sem vontade de acabar, é declaração de independência), sem a ansiedade juvenil que é tão valorizada no “indie rock”. Será subestimado, claro. Recomendo que se ouça logo depois de Mr. M, do Lambchop, numa tarde preguiçosa de folga. E sem pressa, porque o filme é grande.

Nono disco de Andrew Bird. 14 faixas, com produção do próprio músico. Lançamento Mom+Pop. B+

mixtape! | …sides of the moon

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A mixtape de fevereiro chegou mais cedo porque, no fim das contas, não temos tempo a perder. Em resumo: esta coletânea soa um pouco mais aérea, mais cósmica que a anterior. Um cdzinho de space pop, se você preferir.

Mas não só isso. Se este balaio de fevereiro tem algo de flutuante, há momentos em que ele desce ao solo mui modestamente, e nos mostra paisagens terrenas. A minha intenção, desta vez, foi zanzar entre esses extremos sem romper a atmosfera que paira sobre todas as músicas. Não sei se consegui, mas gostei muito do resultado.

Sem mais invencionices (ou licenças poéticas), este mix contém, nesta ordem, faixas de Frankie Rose, Sleigh Bells, Imperial Teen, Hospitality (que ganhou foto lá no topo do post), Air, Yamantaka//Sonic Titan, Islands, Ezra Furman, Cardinal e Chairlift. A lista das músicas está, como de hábito, na caixa de comentários.

Espero que vocês se divirtam. Comentários serão muito bem recebidos. E, para quem quiser baixar o cdzim, recomendo pressa: os arquivos estão desaparecendo rapidamente.

Faça o download da mixtape de fevereiro.

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

cine | A música segundo Tom Jobim

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Ainda que esta informação não vá interessar a vivalma, devo informar-lhes que foi graças a um programa de televisão que me engracei com a bossa nova: não lembro quando, acho que por volta de 1990, acabei obcecado por um desses especiais comemorativos que reúnem figurões da MPB. Gravei o showzinho numa fita VHS, que rodou no meu videocassete até quase empalidecer. Desafinado se tornou uma das músicas mais importantes da minha pré-adolescência, ombreando com hits do R.E.M. e da Legião Urbana. Era uma canção inquebrantável, capaz de resistir à interpretação mais efêmera, ao maneirismo mais kitsch. Para um menino de 10 anos, era como descobrir um segredo e um tesouro em pleno horário nobre.

As imagens daquela fita VHS voltaram à minha cabeça durante a projeção de A Música Segundo Tom Jobim. Por isso, me perdoem se este post se tornar muito pessoal (no mais, nunca é tarde para lembrar que isto é apenas um blog, um diário). O doc de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim reúne mais de uma dezena de clipes (muitos deles, televisivos) em que cantores brasileiros e estrangeiros interpretam músicas de Tom Jobim. Há clipes de boa e má qualidade, interpretações notáveis e excêntricas, vídeos novos e velhos: a música, no entanto, sobrevive gloriosamente ao tempo, às diferentes vozes e idiomas; a tudo.

O que num primeiro momento pode parecer um formato singelo (e ouvi pessoas inteligentes comentarem que o filme nada mais é que uma colagem de curiosidades do YouTube) logo se mostra um artesanato audiovisual muito bem urdido, com uma montagem que alinha os clipes num desenho melodioso. Sem narração em off ou depoimento de, digamos, Nelson Motta, o filme prefere a sugestão sutil ao didatismo tosco – ainda que o recurso digital usados para animar as fotografias em preto e branco me pareça um tanto trivial. Em algum momento, um cartaz descreve a bossa nova como “a primeira música moderna brasileira”. Nada mais coerente, então, que este belo longa-metragem aqui: um filme moderno brasileiro.

(Brasil, 2012). Documentário de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim. 88min. B+

top 100 | Os filmes da minha vida (17)

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No episódio pós-carnavalesco da saga mais irrelevante da internet mundial, cês ficam com mais dois filmezinhos que ganharam uma série expressiva de 10, notas 10, na minha apuração particular de votos & quesitos.

Para não burlar o regulamento defendido pela comissão organizadora (isto é: eu), este ranking parmanece totalmente fiel ao compromisso de revelar muito sobre as minhas lembranças cinematográficas e, infelizmente, pouco sobre os filmes em si (até porque não lembro muito bem de vários deles).

Neste capítulo, por exemplo, temos um longa-metragem que geralmente aparece em listas de melhores e outro que, bem, cês entenderam como funciona este jogo.

068 | Conta Comigo | Stand by Me | Rob Reiner | 1986

Não me julguem: aos 10 anos de idade, um dos meus passatempos preferidos era caminhar perigosamente na linha de trem que cortava o município litorâneo onde minha família se instalava nas férias de verão. À noite, o trajeto podia ser medonho: quando a máquina barulhenta se aproximava, e os trilhos começavam a tremer, e estávamos (por azar) papeando entre morros, a única escapatória era atirar o corpo nas pedras que forravam a encosta e esperar o fim do turbilhão. Sobrevivíamos. E, após a passagem do trem, algo ficava mais forte na amizade entre os garotos que participavam da aventura. Um sentimento ilustrado à perfeição por este Conta Comigo, um dos maiores entre todos os filme-de-menino

067 | Tempos Modernos | Modern Times | Charles Chaplin | 1936

Foi deveras incomum meu primeiro contato com os filmes de Chaplin. Lembro que eu era muito novo (nove ou dez anos) e que minha mãe, psicóloga, estudava os filmes do homem para escrever um artigo ou algo que o valha. Passávamos tardes esquadrinhando as fitas de VHS, vendo e revendo cenas num indo-e-vindo caótico. Hoje, não consigo separar um filme do outro, e vejo o cinema do diretor como um aglomerado de imagens que parecem contar uma única história. A exceção é Tempos Modernos, que, pouco tempo depois, resolvi rever inteirinho, sem interrupções. O efeito foi de um deslumbramento tão intenso que, na época, pensei lá comigo: ‘este é o modelo de um grande filme’. Desde então, não o revi para confirmar ou desmentir aquela impressão.

♪ | Hospitality | Hospitality

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O primeiro disco do trio nova-iorquino Hospitality é uma crônica sobre os ups and downs da vida aos 20 anos de idade. Um álbum que pode ser tratado como um afresco desimportante porque, bem, não é de hoje que se subestima o valor de uma boa crônica.

Quem narra esta história é Amber Papini — multiinstrumentista, cantora, compositora e ex-aluna da Universidade de Yale. Ainda que já tenha passado dos 30 anos, ela canta com a falsa inocência juvenil de quem entende verdadeiramente os discos do Camera Obscura, e organiza as harmonias & melodias com a clareza (e a concisão!) que se cobra de uma redação de vestibular.

Ouvindo o disco, posso imaginar Amber (ou, digamos, a personagem que ela interpreta) vagando eufórica (e um pouco triste, porque sempre se é um pouco triste nessa idade) pelos corredores do alojamento universitário de mentirinha onde vive Rory, heroína da série Gilmore Girls e também ex-estudante de Yale. Este é o álbum que uma das amigas espertas-e-um-tantinho-pedantes de Rory teria gravado, se preferissem Vampire Weekend a Sonic Youth.

Como nos projetos-de-conclusão-de-curso do Vampire Weekend, a estreia do Hospitality seleciona timbres e versos com o rigor de quem passa horas no hortifruti avaliando a qualidade dos produtos. É um álbum curto (dura 32 minutos), mas cada detalhe conta e poucos se repetem. As tão comentadas referências de “afropop”, por exemplo, grudam nas canções de maneira tão despretensiosa — são adesivos coloridos, fofos e pequeninos — que é impossível acusar Amber de, vish, ousadia. Não. Não é por aí.

Não é muito seguro supor, aliás, que Amber conheça muitos discos psicodélicos dos anos 1960. Ainda que as melodias sensuais e um tanto angulosas de, notem, Betty Wang possam apontar para um Love ou de um Zombies, talvez ela tenha ouvido, na verdade, os três álbuns do Shins — um atrás do outro, e intinterruptamente.

Polir as gravações de forma a produzir uma sonoridade aconchegante (o nome da banda não nos engana em absolutamente nada) parece-me o objetivo principal. Outra meta é literária, e nisso Amber também nos ganha sutilmente: “Vamos fazer de conta que é verão. Vamos fazer de conta que somos casados”, ela provoca, em Sleepover. Liberal Arts, sobre o quão frustrante é se formar em cursos pouco práticos (imagine escolher letras em vez de direito), é puro charme nerd, irresistível para quem já virou noites traduzindo ensaios de Fredric Jameson.

O que parece uma tolice, né? Amber pode não ter nada especialmente complexo a comentar sobre o cotidiano de meninas instruídas de 20 anos, mas o faz com graciosidade. E um tino notável para escolher as cenas que merecem ser enquadradas nas páginas dessas canções-Moleskines. “Cinema é uma questão do que está dentro no plano e o que não está”, já dizia Martin Scorsese. Pois bem: nada polui os planos deste pequeno indie movie.

Primeiro disco do Hospitality. 10 faixas, com produção de Nathan Michel e Shane Stoneback. Lançamento Merge Records. B

cine | A Dama de Ferro

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No contrafluxo de um J. Edgar ou de um Não Estou Lá, serve de exemplo para o que há de mais antiquado no filão das cinebiografias. De tão didaticamente ruim, de tão míope, poderia ser usado até como material educativo para alertar alunos de jornalismo: o retrato da primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher não só ameniza fatos que são de amplo conhecimento (a Guerra das Malvinas, por exemplo) como está sempre desviando a câmera para não encarar os aspectos mais complicados, e controversos, da personagem que decide perfilar. Thatcher, recriada por uma Meryl Streep emperequetada num cosplay im-pe-cá-vel, aparece na tela como uma senhora solitária, saudosista, às voltas com as dificuldades de se livar do fantasma (metafórico) do marido morto. Talvez por não ter encontrado muitos ganchos sentimentais na trajetória da poderosa, a diretora Phyllida Lloyd (de Mamma Mia, estão avisados) usa a personagem como motivo para um draminha manso, pra toda a família. Evite.

(The Iron Lady, Inglaterra, 2011) De Phyllida Lloyd. Com Meryl Streep, Jim Broadbent e Richard E. Grant. 105min. D

♪ | Reign of Terror | Sleigh Bells

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Podemos concluir, sem sarcasmo, que o segundo disco do Sleigh Bells contém no máximo duas ideias: por um lado (1), o duo se assume de vez como uma “guitar band”, espanando a zoeira de samplers do disco anterior para criar uma sonoridade menos marrenta e mais irônica, com algo de Daft Punk (fase-Human After All) e de Def Leppard e Poison (salve-se quem puder); por outro (2), tenta compor canções de estrutura convencional, e eu não ficaria surpreso se duas delas (as baladas à la American Idol End of the Line e You Lost Me) aparecessem no próximo álbum da Gwen Stefani. É essa a vibe, amigos.

Derek Miller e Alexis Krauss colidem essas duas ideias em acidentões espetaculares, sob jatos de gelo seco e chuva de gel. Quase todas as músicas contêm riffs bombásticos de hard rock, zunidos de bateria eletrônica a 50.000/hora, efeitos sonoros que simulam explosões/decolagem/cheerleaders-em-fúria/rojões-de-festa-junina e uma vocalista desolada, cantando coisas tristes sobre amores perdidos, fracassos, ressacas e afins. Me lembra muito, e muito perigosamente, outro disco de banda indie tentando negociar com certos parâmetros do pop: It’s Blitz!, do Yeah Yeah Yeahs.

Não me parece, no entanto, um disquinho assim tão cínico, nem tão loucamente apelativo, nem digno de muitas audições: se falta sal na farofada do Sleigh Bells, seria má vontade não notar que a banda sabe onde quer chegar — e eles chegam, com precisão, a um disco mais melodioso e dócil, até mais sério (bottom line: cabou a festa, molecada), mas ainda in our faces, que talvez tenha sido criado para contradizer os comentários maldosos de quem identificava no álbum anterior uma, e apenas uma, ideia. A revanche, pois: DUAS ideias até razoavelmente interessantes, que juntas às vezes fazem um barulhão gracioso (Comeback Kid, D.O.A., Born to Lose), às vezes não.

Segundo disco do Sleigh Bells. 11 faixas, com produção de Derek Miller. Lançamento Mom+Pop. C+

♪ | Old Ideas | Leonard Cohen

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Nos primeiros versos da música Going home, que abre o disco Old Ideas, Deus admite: “Eu amo conversar com Leonard. Ele é um atleta e um pastor. Um depravado preguiçoso vestido em terno”. Em seguida, o (eu suponho) todo-poderoso trata de explicar a admiração por nosso mais querido outsider: “Mas ele sempre fala tudo o que eu mando, mesmo quando as notícias não são boas. Ele nunca vai ter a liberdade para recusar.” Eis o pacto sinistro.

A voz divina (e divinamente rouca, as always) descreve Leonard Cohen — que, na capa de seu 12º álbum de estúdio, aparece num jardim, pernas cruzadas, lendo um livro, de chapéu preto e gravata. É, perceba, uma maneira inusitada de abrir um disco. Mas o monólogo celestial mostra que, aos 77 anos, o autor de tantas canções de love and hate se sente confortável para brincar com a imagem que a cultura pop — e ele próprio — criaram para representá-lo.

É essa persona soturna, mas também autoirônica (mais esperta, portanto, que o resenhista que trata este disco como uma obra solene, blindada, perfeita), que “atua” nessas 10 canções. O título alerta: são ideias antigas, sem novidades, ali mofando décadas a fio. Tudo igualzinho: Deus tá lá no céu, observando e nos julgando/condenando e usando Leonard para enviar mensagens sonoras aos homens imperfeitos na Terra. Ao mesmo tempo, algo muda: esse som divinal, desta vez, me parece um tanto mais mundano e gracioso, ainda que quase banal (um sonho: um disco de Leonard Cohen com acompanhamento/composições do Lambchop). Piano, violão, guitarra, percussão discretíssima e vocais femininos enevoam sutilmente as melodias, sem saudade (aleluia!) dos sintetizadores kitsch de Ten New Songs (2001) ou da frouxidão harmônica de Dear Heather (2004).

Milagroso é como Cohen ainda encontra mistérios em uma paisagem tão antiga, inventada por ele próprio há quatro décadas. Ainda é amável, sim, a conversa de Leonard.

Décimo segundo disco de Leonard Cohen. 10 faixas, com produção de Ed Sanders. Lançamento Columbia. B

livro | Festa no covil

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O que você faria se o seu filho (ou o irmão pequeno, ou o sobrinho) pedisse um hipopótamo anão da Libéria? O pai de Totchli, narrador-mirim do livro Festa no covil, decide fazer valer o desejo do menino. Não só esse, mas todos – porque, claro, ele é um homem muito rico. E também por acreditar (e isto ele vive dizendo) que, quando não se pode ir à montanha, é possível fazer a montanha andar.

Como encontrar e capturar o bicho? A pergunta intriga Totchli. O garoto só pensa nela. Quem lê o romance, no entanto, tem outras dúvidas. Por exemplo: por que essa criança não tem amigos? O que explica o fato de ela estudar em casa, e não numa escola? Ela mora num palácio de verdade, cercado por leões e tigres, ou inventa uma realidade à semelhança dos desenhos animados?

As respostas acabam aparecendo — nas entrelinhas, vazando nas frestas da fala de Totchli. É um tema delicado. Página a página (e são poucas: 88), descobrimos estupefatos que o herói do livro é filho de um traficante poderoso, que o mantém preso numa mansão kitsch e o ensina — entre outras lições — a odiar os gringos americanos, a valorizar a lealdade e a matar gente. Enquanto isso, o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, estreante em ficção, usa um ponto de vista infantil para observar (de solsaio) a crise de um país.

Mas e o hipopótamo anão da Libéria? Ele está em todo canto, no começo, no meio e no fim da história – porque, vale repetir, Totchli só quer saber dele. A sanguinolência do cotidiano, que machuca a sensibilidade do leitor, se tornou tão comum para o menino que ele mal se deixa afetar por ela. Dezenas de pessoas perambulam nos cômodos do casarão: seu professor particular, empregados, prostitutas, políticos. Enquanto a tevê exibe notícias policiais, ele joga Playstation, coleciona chapéus e pesquisa palavras no dicionário. Gosta das mais difíceis, como sórdido, patético ou nefasto.

No posfácio do livro, o escritor inglês Adam Thirlwell elogia a gana experimental do texto de Villalobos. A micronarrativa do mexicano, segundo Adam, se apropria de um gênero pulp (a narcoliteratura) de uma forma absolutamente original — já que este estupendo Festa no covil, indicado ao First Book Award do jornal The Guardian, é também um conto familiar, que o escritor concebeu para alertar o filho recém-nascido sobre a perda da inocência, a sedução do poder, a solidão e as contradições sociais de um país tão ferido quanto ameaçador.

A linguagem do livro, segundo Thirlwell, se mostra “uma coisa precária, insensível, inocente, perturbada, opaca, devastada”. Totchli, apesar de precoce, ainda é uma criança. Ao transferir esse olhar enclausurado como que diretamente para o papel, sem anestesia, Villalobos sugere um contexto tão repugnante que, nos momentos mais tétricos, obriga o leitor a desviar o olhar. O menino, no entanto, assiste à selvageria dos adultos como quem passa os olhos em mais um filme de samurai. Não é nada, não é nada. Principalmente quando se tem hipopótamos anões na Libéria.

(Fiesta en la Madriguera/Down the Rabbit Hole, 2010). De Juan Pablo Villalobos. Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras. A

cine | 50/50

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Quanto mais penso no filme choroso que 50/50 poderia ter sido (se dirigido por, digamos, Lasse Hallström), mais me simpatizo por ele. Aliás, a afeição se torna fácil quando percebemos que o roteiro (de Will Reiser, um iniciante) e a direção (de Jonathan Levine, que fez o igualmente arejado The Wackness, que vi numa edição do FicBrasília) estão sempre atuando de forma a descontrair uma premissa que é, por natureza, trágica (resumindo o script: rapaz atlético, boa-praça, genro-do-ano, saúde de ferro, descobre que tem 50% de chances de sobreviver a um câncer).

Quem espera o martírio de um drama hospitalar acaba encontrando, por isso, um longa sereno e relaxado (quase sempre no bom sentido), curioso por temas que tangenciam a trama principal: as relações que se estreitam ou se rompem numa situação-limite, os compromissos familiares,os momentos de espera e preparação para as piores etapas do tratamento médico… Parece simples (e cá está um filme que quer parecer simples), mas quantos outros cancer movies ignoram a obrigação de ir construindo o enredo que nos torture gloriosamente num clímax catártico banal?

Outra particularidade é o olhar de jovem-macho que o filme banca com muita clareza, idealizando toscamente a figura feminina (Anna Kendrick é a musa dócil, em oposição à imagem da namorada traiçoeira e insensível) e tratando a amizade mano-a-mano quase como um bromance de adolescência (e Seth Rogen, como sempre, se presta bem ao papel do amigo bronco-porém-fiel). Existe espontaneidade nessa atmosfera juvenil, como se o filme tivesse sido escrito em cômodos de alojamento universitário. Tem uma qualidade que se tornou rara na indielândia: é fluente, e parece (mesmo quando imaturo) de uma franqueza inatacável.

(50/50, EUA, 2011) De Jonathan Levine. Com Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen e Anna Kendrick. 100min. B

top 100 | Os filmes da minha vida (16)

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Ei, amigos: aqui seguimos com o ranking mais inútil da internet brasileira, que reúne 100 filmes que foram extremamente importantes para a, err, minha vidinha. Infelizmente, estamos falando de uma lista muito pessoal, cujo critério principal não é a qualidade ou a importância ou a belezura ou o poder de influência ou o status dos filmes, mas o impacto que essas obras incríveis provocaram na, err, minha vidinha.

Bem, vocês entenderam. Nesta edição, aliens e nudez frontal.

070 | Eles Vivem | They Live | John Carpenter | 1988

Vou tentar não ficar muito emotivo neste parágrafo aqui, mas entendam que é muito difícil manter a compostura diante de uma comédia de horror sobre alienígenas, consumo desvairado, capitalismo, óculos mágicos, o APOCALIPSE e o hábito saudável de mascar chicletes e chutar bundas. O meu preferido de John Carpenter é o ultimate Filme B — hilariante como as piadas que contávamos durante a aula de História, mas com ideias perigosas que podem mudar a vida de um garoto de 16 anos. No mais, como faço pra curar a saudade daquele tempo bom em que os filmes de Carpenter eram discutidos na web como obras de intenso caráter subversivo?

069 | Instinto Selvagem | Basic Instinct | Paul Verhoeven | 1992

Fun fact: fui barrado na sessão de Instinto selvagem. Que coisa, não? Eu, um moleque ousado de 12 anos, até tentei convencer o moço da bilheteria de que fecharia os olhos nas cenas MAIS FORTES, mas tive que lidar com um decepcionante “se manda, garoto”. Tímido e humilado, engoli meu orgulho e aceitei a ideia de ver o filme em VHS (onde os sonhos aconteciam). O que rolou na primeira sessão é impublicável e vocês não gostariam de saber; mas, agora falando sério, vale ser registrado que não me recuperei do golpe desferido por aquela cena lá que todos vocês conhecem muito bem. Também me pareceu uma fita de suspense até bem arranjada, ainda que na época eu não tenha prestado muita atenção a esse detalhe, sinceramente.

cine | A invenção de Hugo Cabret

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Até agora, parecia possível organizar os filmes recentes de Martin Scorsese em dois compartimentos: um deles era reservado às criações do ficcionista intenso, exuberante; o outro, às sóbrias master classes de um documentarista que usava formatos convencionais para descrever a trajetória de tipos ilustres (Bob Dylan, George Harrison) e ensinar sobre a história do cinema. Eis que, como num número de ilusionismo, A Invenção de Hugo Cabret chega para sobrepor essa faceta àquela: é, como um amigo resumiu, A Personal Journey with Martin Scorsese Through Early Movies, FOR KIDS.

O que seria apenas um filme “família” em 3D (e é mais ou menos assim que o diretor descreve o longa) se transforma, assim, num projeto mais complexo e importante – que periga ser tratado, pelos fãs do cineasta, como uma obra autorreferencial, um espelho mágico para o próprio Scorsese, haja vista a quantidade de vezes que o diretor acena para a própria trajetória e para temas que aparecem tanto em seus longas de ficção quanto nos documentários. O que temos aqui, num sinopse até meio grosseira, é a aventura de um menino órfão, um “outcast” como tantos que o diretor filmou, que encontra no cinema um elo entre o passado (é nos filmes antigos, perdidos, que ele procura sinais do pai morto) e o futuro (são esses mesmos filmes que ajudam a formar a personalidade do garoto). Difícil não identificar o nome SCORSESE brilhando nas entrelinhas da trama.

A primeira parte da narrativa, quando esse menino tenta descobrir um enigma deixado pelo pai, tem menos força que a segunda, quando o tema passa a ser o início do cinema, com um tributo ao poder encantatório dos filmes de Georges Méliès e dos irmãos Lumière, produzidos numa época em que cinema ainda era visto inocentemente, como um brinquedo de parte de diversão. Um desequilíbrio até previsível, já que fica fácil identificar por qual dos trechos Scorsese mais se interessa.

O legado de Méliès e Lumière, aliás, orienta as escolhas técnicas do filme. O diretor usa o 3D digital com um propósito muito específico: o de criar conexões entre o deslumbramento tecnológico do século 21 e a própria invenção do cinema, uma “máquina de sonho” (como um dos personagens define, a certa altura). Mais do que qualquer outro filme pós-Avatar (mais até do que o próprio Avatar), neste aqui o 3D ganha um aspecto metalinguístico, artístico – e, como se não bastasse, Scorsese parece se divertir criando cenas que testam as possibilidades do recurso visual, alternando o estica-e-puxa da profundidade de campo com elementos de cena que “flutuam” diante dos olhos do público. A sequência de abertura, um “tour” na locação principal do filme (uma estação de trem), sintetiza a intenção número 1 do cineasta: nos deslumbrar enquanto teoriza sobre as “técnicas de deslumbramento” do cinema.

Impressiona. Mas é na segunda metade (quando já conhecemos o espaço onde os personagens vivem e o filme decola, enfim) que o diretor tira o coelho da cartola: vai perfurando a trama com minidocumentários sobre a história dos primeiros filmes silenciosos (especialmente os de Méliès, um dos personagens da trama) e com lições sobre preservação de películas (numa das cenas, um personagem olha para a câmera e ensina a molecada a cuidar bem de filmes velhos). Eu poderia escrever um texto longo comparando o didatismo sólido de Scorsese (que não se deixa levar por generalizações) com o discurso tatibitate de O Artista – mas fica para a próxima. O que embasbaca neste filme é o domínio técnico e estilístico de Scorsese, capaz de compor uma fábula cheia de fofurices infantojuvenis para filhos, pais & vovós (com a finesse visual de um, digamos, Harry Potter & as Relíquias do Cinema Mudo) e, ao mesmo tempo, criar um ensaio sobre cinema que só ele poderia ter feito – já que, repito, parece prolongar as experiências do diretor com documentários sobre o tema.

Quem acusa Scorsese de ter se convertido, desde os anos 90, num cineasta profissional “a todo custo”, negociando confortavelmente com os padrões dos grandes estúdios, vai encontrar nesta superprodução Oscar-friendly um inimigo perfeito. Cá pra mim, A Invenção de Hugo Cabret representa o reflexo mais preciso de uma fase serena, tecnicamente inatacável, porém sinuosa e cheia de armadilhas – em que um filme industrial não é somente aquilo que parece ser (e aquilo que o estúdio quer nos vender, ainda que seja também isso), exigindo do espectador a disposição de procurar na imagem sentidos mais profundos. No caso, os óculos 3D ajudam.

(Hugo, 2011) De Martin Scorsese. Com Asa Butterfield, Chloe Grace Moretz, Ben Kingsley e Sacha Baron Cohen. 126min. A

[mário de andrade]

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“Quando me iniciei fazendo versos, reuni meus melhores sonetos, o que eu supunha fosse o melhor, e mandei-os em carta a Vicente de Carvalho, pedindo-lhe opinião. Ainda não publicara coisa nenhuma, a não ser alguns sonetos em revistecos sem importância. Vicente nunca me respondeu. Cheguei a ir à casa dele para retirar a limpo se morava mesmo lá, ou se estava em São Paulo. Estava. Deve ter recebido a carta registrada e… sei que não respondeu. Como gosto muito da poesia dele, até agora sofro disso”

“Quando releio coisas passadistas minhas tenho a impressão do Mário de Andrade que fui na casa dos vinte. Um sujeito grandão, feio como o diabo, almofadinha usando com exagero as modas do dia, desengraçado de corpo, com olhar apagado, no princípio uma cabelama enorme que não havia meios de ficar quieta, um tipo antipático porém que tinha um certo sal, dava vontade da gente saber mesmo o que ele é”

[Mário de Andrade, em entrevista e carta, no livro 1922 – A Semana que Não Terminou, de Marcos Augusto Gonçalves]

♪ | Le Voyage Dans La Lune | Air

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Depois de três álbuns que tentavam reencenar a atmosfera de Moon Safari (o melhor deles, Talkie Walkie, até que tinha algum charme), só faltava ao Air retornar didaticamente também ao NOME daquele disco de estreia. Não falta mais: em Le Voyage Dans La Lune, eles ampliam a trilha sonora que compuseram para a versão restaurada do filme de Georges Méliès, de 1902, usando um formato que, para quem acompanha a dupla, já pode ser tomado como um tique: faixas instrumentais etéreas e “requintadas” de, afe, space-lounge intercaladas a dóceis chansons. Uma viagem não exatamente fantástica.

As boas lembranças daquela outra trilha sonora escrita por Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel tornam a aventura ainda mais frustrante. Em The Virgin Suicides, o Air criava um tema central forte e ia desenhando variações delicadas — e inesperadas, mas sempre sutilmente — em torno dele. As faixas remetiam ao ar róseo-cinzento do filme, ao mesmo tempo em que sugeriam novas imagens. Existia ali um jogo bem estimulante entre música e cinema, entre compositores e cineasta, que não consigo notar neste disco novo.

A soundtrack que prepararam para Méliès talvez faça sentido quando sobreposta às sequências do curta-metragem (que dura 16 minutos), mas, como obra independente, parece-me vaga, incompleta, com músicas que justificam a birra (injusta, é claro) de quem vê no Air uma banda blasé e superficial. O pior é que, aqui, eles não mostram nem mesmo a curiosidade (que existia nos primeiros discos) de pesquisar gêneros pop: Seven Stars, uma das poucas faixas memoráveis, trata o próprio Air como a única referência, saturando a combinação piano/efeitos especiais/vocal entorpecido. Não irrita, não machuca, mas o velho desejo exploratório foi pros ares.

As participações de Victoria Legrand (do Beach House) e do Au Revoir Simone são dispostas neste disco-simulador-de-voo como objetos decorativos de cena. Embelezam as imagens, e cumprem a função de compor um espetáculo “sofisticado” para sessões de gala de festivais. Pobre Méliès.

Sétimo disco do Air. 11 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Astralwerks Records. D+