Mês: fevereiro 2012

mini | 1 post, 16 discos

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Deixe-me livrar destes disquinhos antes que eles desapareçam completamente do meu HD, tudo bem? (Regra do jogo: textos injustamente curtos, porque a vida é assim mesmo).

Go Fly a Kite | Ben Kweller | Noise Co | C+ | Precocemente nostálgico (e talvez por isso um tantinho adorável e triste), como se Kweller tivesse completado 60 anos e não 30. Pode ser “lido” como um disco bem pé-no-chão sobre o fim da adolescência, ainda que o compositor não tenha amadurecido e siga irrelevante.

Hymns | Cardinal | Fire Records | C+ | Após quase 20 anos de hibernação, o duo americano retorna com um disco tão out of time quanto o début de 1994. É verdade que o Clientele fez isso tudo com mais finesse, mas não é desprezível o jeito como eles vão “estragando” canções pop com detalhes psicodélicos (um vocal distorcido, um efeito de teclado etc). Teias de aranha everywhere, mas tem seu encanto.

I Am Gemini | Cursive | Saddle Creek | C | O conceito é juvenil demais para ser levado a sério (vai mais ou menos assim: o bem e o mal num confronto dentro de uma casa), mas dá à banda certo ânimo para seguir compondo. Ainda assim, não me convidem pra jogar esse RPG-indie de novo.

Django Django | Django Django | Because Music | B | Um dos ídolos do quarteto é o Beta Band, e que bom: um disco que dá a sensação de se transformar a cada faixa, em constante movimento de autodestruição/recriação, e, apesar de gordo (até nisso eles imitam o BB), que entretém mesmo quando as mutações soam como esboços que mereciam ser deletados antes de virar MP3.

Have Some Faith in Magic | Errors | Rock Action Records | B | Aquilo que alguns chamariam de pós-rock, só que com mais vivacidade que letargia. Disco a disco, a banda vai encontrando um som pra chamar de seu, e isso é bonito de notar.

The Year of No Returning | Ezra Furman | Independente | C+ | Furman ainda não sabe exatamente o que quer, e se sai melhor como um discípulo de Bruce Springsteen (American Soil é ótima) que de Jeff Tweedy. A acompanhar.

Interstellar | Frankie Rose | Slumberland | B | Musa indie nova-iorquina floating in space, num CD que oscila do synthpop ao shoegazing, e por isso muitíssimo gostável e up-to-date (vide as reações muito positivas na imprensa americana). É mesmo um doce, mas eu prefiro as faixas mais dançantes às mais morosas – e é um tanto breve, não?

MU.ZZ.LE | Gonjasufi | Warp | B | Outro álbum curto, muito curto, que deixa uma série de promessas em stand-by. A faceta hip-hop do compositor não parece ainda bem resolvida, e o que ouço são rascunhos, só que não consigo ignorar um disco que atira tantas boas ideias ao vento.

A Sleep & a Forgetting | Islands | ANTI- | C+ | Ainda me parece pouco convincente (e não muito natural) essa transformação do Islands numa banda menos delirante e mais mundana, e o disco acaba tomando o caminho fácil de optar por um som genérico, superficial, cheio de chavões de country rock. Enfim: mais para Bright Eyes e Girls que para um Lambchop.

Born to Die | Lana Del Rey | Interscope | D+ | Nem princesinha deprê, nem monstrengo pré-fabricado: apenas uma (mais uma) estrela pop desnorteada dentro de um EP grandalhão, feito às pressas, toscamente produzido, e que esvazia terrivelmente após a quinta faixa. Tem Video Games, daí o +.

Kisses on the Bottom | Paul McCartney | Hear Music | C+ | É um disco sincero de crooner, perfeito para animar bailes de terceira idade e (se você tiver ânimo) com algumas pistas que explicam certas referências embrionárias dos Beatles. Mas Paul não precisava disso.

Habits and Contradictions | Schoolboy Q | Top Dawg | B+ | Um tema recorrente (sexo, sexo e sexo), mais de uma dezena de boas ideias sonoras (a faixa com sampler de Portishead, apesar de óbvia, empurra o disco surpreendentemente para o dark side), ainda que repetitivo e dispersivo demais. Um bom editor fez falta. Ouvi muitas vezes e aviso: ele vai melhorando.

Animal Joy | Shearwater | Sub Pop | C+ | Um disco de rock sisudo e monocromático (ainda se faz isso?) como os primeiros do Pearl Jam e do Alice in Chains, que não soaria estranho se tivesse sido lançado no início dos anos 90. Até a capa me deixa com saudades das camisas de flanela, mas péra lá: o álbum acabou cinco vezes e ainda não descobri o que há de particular no Shearwater.

Young and Old | Tennis | Fat Possum | D+ | Com uma palheta de referências parecida, o Hospitality fez um álbum muito agradável este ano. O Tennis parece fadado a ser uma espécie de She & Him de segunda divisão – lamentável e desnecessário, portanto.

This Something Rain | Tindersticks | Lucky Dog | B | Mais um disco muito digno e elegante do Tindersticks (como todos os outros, aliás), ainda que eu acredite que ele vá perdendo a força assim que a primeira faixa (de nove minutos, e excelente) termina.

Sounds From Nowheresville | The Ting Tings | Columbia | D+ | Uma banda pop muito limitada tentando, hum, break on through to the other side: raramente dá certo. Se a ideia era nos deixar com saudades de That’s Not My Name, conseguiram. Parabéns, Columbia, cês tinham razão.

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♪ | Break it Yourself | Andrew Bird

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Amplidão, esse susbstantivo tão feioso e maltratado, há de cair bem em qualquer resenha sobre Break it Yourself. O novo de Andrew Bird soa como a trilha para um road movie pastoral, malickiano, de três horas de duração. Com direito ao corte final, o músico criou um álbum de folk-pop em VistaVision, cujas faixas (e são 14!) se movimentam sem sufoco numa paisagem vasta, cheia de terrenos abandonados e roads to nowhere. Não deixa de ser um “statement” valente — estou aqui sentado em minha poltrona, com uma latinha de guaraná, esperando os comentários do primeiro esperto que vai acusar o disco de ser irregular, inflado, desequilibrado, tedioso etc.

Fazer o quê? Talvez ele seja tudo isso (irregular, inflado etc), só que mais complicado é perceber que Bird buscou conscientemente um formato mais arejado e contemplativo para apresentar faixas que poderiam ter sido compactadas num disco de 35 minutos (este tem 60). Tem uma diferença importante aí.

Pode ser que as músicas não sejam tão memoráveis quanto as que apareceram em álbuns como The Mysterious Production of Eggs ou do ótimo The Swimming Hour (que marcou a grande transição da carreira de Bird, antes mais afinado ao jazz e aos modelos de big bands norte-americanas), mas aqui é tudo questão de dimensão, de compor as cenas e esticar o escopo: uma faixa mais convencional e familiar como Near Death Death Experience ou Fatal Shore, por exemplo, ganha uma força tremenda quando despenca dentro de uma narrativa tão plácida, com momentos de quase letargia — é como se o compositor atirasse uma pedrinha num lago completamente silencioso, só pra ver o que acontece.

E apesar de todos aqueles momentos graciosos que conhecemos muito bem (como no refrão de Near Death, em que Bird comenta que vai dançar “como um sobrevivente de câncer”), o disco caminha imperturbável numa toada lenta, quase austera, cheia de momentos de beleza serena (o trecho instrumental de Hole in the Ocean Floor, que vai seguindo vagarosamente sem vontade de acabar, é declaração de independência), sem a ansiedade juvenil que é tão valorizada no “indie rock”. Será subestimado, claro. Recomendo que se ouça logo depois de Mr. M, do Lambchop, numa tarde preguiçosa de folga. E sem pressa, porque o filme é grande.

Nono disco de Andrew Bird. 14 faixas, com produção do próprio músico. Lançamento Mom+Pop. B+

mixtape! | …sides of the moon

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A mixtape de fevereiro chegou mais cedo porque, no fim das contas, não temos tempo a perder. Em resumo: esta coletânea soa um pouco mais aérea, mais cósmica que a anterior. Um cdzinho de space pop, se você preferir.

Mas não só isso. Se este balaio de fevereiro tem algo de flutuante, há momentos em que ele desce ao solo mui modestamente, e nos mostra paisagens terrenas. A minha intenção, desta vez, foi zanzar entre esses extremos sem romper a atmosfera que paira sobre todas as músicas. Não sei se consegui, mas gostei muito do resultado.

Sem mais invencionices (ou licenças poéticas), este mix contém, nesta ordem, faixas de Frankie Rose, Sleigh Bells, Imperial Teen, Hospitality (que ganhou foto lá no topo do post), Air, Yamantaka//Sonic Titan, Islands, Ezra Furman, Cardinal e Chairlift. A lista das músicas está, como de hábito, na caixa de comentários.

Espero que vocês se divirtam. Comentários serão muito bem recebidos. E, para quem quiser baixar o cdzim, recomendo pressa: os arquivos estão desaparecendo rapidamente.

Faça o download da mixtape de fevereiro.

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

cine | A música segundo Tom Jobim

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Ainda que esta informação não vá interessar a vivalma, devo informar-lhes que foi graças a um programa de televisão que me engracei com a bossa nova: não lembro quando, acho que por volta de 1990, acabei obcecado por um desses especiais comemorativos que reúnem figurões da MPB. Gravei o showzinho numa fita VHS, que rodou no meu videocassete até quase empalidecer. Desafinado se tornou uma das músicas mais importantes da minha pré-adolescência, ombreando com hits do R.E.M. e da Legião Urbana. Era uma canção inquebrantável, capaz de resistir à interpretação mais efêmera, ao maneirismo mais kitsch. Para um menino de 10 anos, era como descobrir um segredo e um tesouro em pleno horário nobre.

As imagens daquela fita VHS voltaram à minha cabeça durante a projeção de A Música Segundo Tom Jobim. Por isso, me perdoem se este post se tornar muito pessoal (no mais, nunca é tarde para lembrar que isto é apenas um blog, um diário). O doc de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim reúne mais de uma dezena de clipes (muitos deles, televisivos) em que cantores brasileiros e estrangeiros interpretam músicas de Tom Jobim. Há clipes de boa e má qualidade, interpretações notáveis e excêntricas, vídeos novos e velhos: a música, no entanto, sobrevive gloriosamente ao tempo, às diferentes vozes e idiomas; a tudo.

O que num primeiro momento pode parecer um formato singelo (e ouvi pessoas inteligentes comentarem que o filme nada mais é que uma colagem de curiosidades do YouTube) logo se mostra um artesanato audiovisual muito bem urdido, com uma montagem que alinha os clipes num desenho melodioso. Sem narração em off ou depoimento de, digamos, Nelson Motta, o filme prefere a sugestão sutil ao didatismo tosco – ainda que o recurso digital usados para animar as fotografias em preto e branco me pareça um tanto trivial. Em algum momento, um cartaz descreve a bossa nova como “a primeira música moderna brasileira”. Nada mais coerente, então, que este belo longa-metragem aqui: um filme moderno brasileiro.

(Brasil, 2012). Documentário de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim. 88min. B+

top 100 | Os filmes da minha vida (17)

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No episódio pós-carnavalesco da saga mais irrelevante da internet mundial, cês ficam com mais dois filmezinhos que ganharam uma série expressiva de 10, notas 10, na minha apuração particular de votos & quesitos.

Para não burlar o regulamento defendido pela comissão organizadora (isto é: eu), este ranking parmanece totalmente fiel ao compromisso de revelar muito sobre as minhas lembranças cinematográficas e, infelizmente, pouco sobre os filmes em si (até porque não lembro muito bem de vários deles).

Neste capítulo, por exemplo, temos um longa-metragem que geralmente aparece em listas de melhores e outro que, bem, cês entenderam como funciona este jogo.

068 | Conta Comigo | Stand by Me | Rob Reiner | 1986

Não me julguem: aos 10 anos de idade, um dos meus passatempos preferidos era caminhar perigosamente na linha de trem que cortava o município litorâneo onde minha família se instalava nas férias de verão. À noite, o trajeto podia ser medonho: quando a máquina barulhenta se aproximava, e os trilhos começavam a tremer, e estávamos (por azar) papeando entre morros, a única escapatória era atirar o corpo nas pedras que forravam a encosta e esperar o fim do turbilhão. Sobrevivíamos. E, após a passagem do trem, algo ficava mais forte na amizade entre os garotos que participavam da aventura. Um sentimento ilustrado à perfeição por este Conta Comigo, um dos maiores entre todos os filme-de-menino

067 | Tempos Modernos | Modern Times | Charles Chaplin | 1936

Foi deveras incomum meu primeiro contato com os filmes de Chaplin. Lembro que eu era muito novo (nove ou dez anos) e que minha mãe, psicóloga, estudava os filmes do homem para escrever um artigo ou algo que o valha. Passávamos tardes esquadrinhando as fitas de VHS, vendo e revendo cenas num indo-e-vindo caótico. Hoje, não consigo separar um filme do outro, e vejo o cinema do diretor como um aglomerado de imagens que parecem contar uma única história. A exceção é Tempos Modernos, que, pouco tempo depois, resolvi rever inteirinho, sem interrupções. O efeito foi de um deslumbramento tão intenso que, na época, pensei lá comigo: ‘este é o modelo de um grande filme’. Desde então, não o revi para confirmar ou desmentir aquela impressão.

♪ | Hospitality | Hospitality

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O primeiro disco do trio nova-iorquino Hospitality é uma crônica sobre os ups and downs da vida aos 20 anos de idade. Um álbum que pode ser tratado como um afresco desimportante porque, bem, não é de hoje que se subestima o valor de uma boa crônica.

Quem narra esta história é Amber Papini — multiinstrumentista, cantora, compositora e ex-aluna da Universidade de Yale. Ainda que já tenha passado dos 30 anos, ela canta com a falsa inocência juvenil de quem entende verdadeiramente os discos do Camera Obscura, e organiza as harmonias & melodias com a clareza (e a concisão!) que se cobra de uma redação de vestibular.

Ouvindo o disco, posso imaginar Amber (ou, digamos, a personagem que ela interpreta) vagando eufórica (e um pouco triste, porque sempre se é um pouco triste nessa idade) pelos corredores do alojamento universitário de mentirinha onde vive Rory, heroína da série Gilmore Girls e também ex-estudante de Yale. Este é o álbum que uma das amigas espertas-e-um-tantinho-pedantes de Rory teria gravado, se preferissem Vampire Weekend a Sonic Youth.

Como nos projetos-de-conclusão-de-curso do Vampire Weekend, a estreia do Hospitality seleciona timbres e versos com o rigor de quem passa horas no hortifruti avaliando a qualidade dos produtos. É um álbum curto (dura 32 minutos), mas cada detalhe conta e poucos se repetem. As tão comentadas referências de “afropop”, por exemplo, grudam nas canções de maneira tão despretensiosa — são adesivos coloridos, fofos e pequeninos — que é impossível acusar Amber de, vish, ousadia. Não. Não é por aí.

Não é muito seguro supor, aliás, que Amber conheça muitos discos psicodélicos dos anos 1960. Ainda que as melodias sensuais e um tanto angulosas de, notem, Betty Wang possam apontar para um Love ou de um Zombies, talvez ela tenha ouvido, na verdade, os três álbuns do Shins — um atrás do outro, e intinterruptamente.

Polir as gravações de forma a produzir uma sonoridade aconchegante (o nome da banda não nos engana em absolutamente nada) parece-me o objetivo principal. Outra meta é literária, e nisso Amber também nos ganha sutilmente: “Vamos fazer de conta que é verão. Vamos fazer de conta que somos casados”, ela provoca, em Sleepover. Liberal Arts, sobre o quão frustrante é se formar em cursos pouco práticos (imagine escolher letras em vez de direito), é puro charme nerd, irresistível para quem já virou noites traduzindo ensaios de Fredric Jameson.

O que parece uma tolice, né? Amber pode não ter nada especialmente complexo a comentar sobre o cotidiano de meninas instruídas de 20 anos, mas o faz com graciosidade. E um tino notável para escolher as cenas que merecem ser enquadradas nas páginas dessas canções-Moleskines. “Cinema é uma questão do que está dentro no plano e o que não está”, já dizia Martin Scorsese. Pois bem: nada polui os planos deste pequeno indie movie.

Primeiro disco do Hospitality. 10 faixas, com produção de Nathan Michel e Shane Stoneback. Lançamento Merge Records. B

cine | A Dama de Ferro

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No contrafluxo de um J. Edgar ou de um Não Estou Lá, serve de exemplo para o que há de mais antiquado no filão das cinebiografias. De tão didaticamente ruim, de tão míope, poderia ser usado até como material educativo para alertar alunos de jornalismo: o retrato da primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher não só ameniza fatos que são de amplo conhecimento (a Guerra das Malvinas, por exemplo) como está sempre desviando a câmera para não encarar os aspectos mais complicados, e controversos, da personagem que decide perfilar. Thatcher, recriada por uma Meryl Streep emperequetada num cosplay im-pe-cá-vel, aparece na tela como uma senhora solitária, saudosista, às voltas com as dificuldades de se livar do fantasma (metafórico) do marido morto. Talvez por não ter encontrado muitos ganchos sentimentais na trajetória da poderosa, a diretora Phyllida Lloyd (de Mamma Mia, estão avisados) usa a personagem como motivo para um draminha manso, pra toda a família. Evite.

(The Iron Lady, Inglaterra, 2011) De Phyllida Lloyd. Com Meryl Streep, Jim Broadbent e Richard E. Grant. 105min. D