Mês: abril 2009

2 ou 3 parágrafos | Fork in the road

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Ok, tio Neil, o que temos para 2009? Um álbum conceitual inspirado num carro ecologicamente correto, movido a biodiesel e eletricidade? Não brinca. Infelizmente, Fork in the road (5/10) não é pegadinha de primeiro de abril — e, convenhamos, nesse caso não soaria mais divertido que o álbum fake do Nine Inch Nails produzido pelo Timbaland. Até tentei me convencer do contrário: abandonei o disquinho no porão do meu iPod até o dia em que ele me atropelou de uma vez só. Difícil desviar de um acidente desses.

Aos que enxergam irregularidade na trajetória de Bob Dylan, bem-vindo ao estranho mundo de Neil Young. Recomendo começar a viagem pela fase oitentista, a começar pelo cintilante Trans, de 1982, e depois saltar para o “espiritual” Chrome dreams II, de 2007. É um processo doloroso, mas necessário para quem tenta entender como mesmo traço instintivo que gerou obras-primas como After the gold rush (1970) e On the beach (1974) pode ser usado para o mal. Fork in the road é um dos álbuns mais espontâneos de Neil: uma road trip por uma América despedaçada, regada a petróleo, a bordo de um carro/musa/sonho, um Lincoln Continental 1959 adaptado para o futuro. E um dos mais descartáveis.

A sonoridade é reminescente de Living with war: riffs secos de garage rock (às vezes hard rock, como na faixa de abertura, When worlds collide, ou blues-rock, na canção-título) que provavelmente foram gravados em duas horas. Apressadamente. Qualquer-nota. Mas inconveniente é como, em vez de destrinchar o tema, o compositor estaciona no acostamento. Prefere remoer uma ladainha repetida em quase todas as faixas. Lamenta o fim da era do rádio, ataca a web e os blogueiros, etc. O disco melhora quando mansinho e introspectivo (casos únicos: Off the road e a otimista Light a candle), mas preconiza perigosamente o rock brando da era Obama: a rebeldia reduzida a uma espécie de fetiche.

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Young adult friction | The Pains of Being Pure at Heart

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No novo clipe do The Pains of Being Pure at Heart, a banda novaiorquina mais escocesa de todos os tempos abre o diário e revela que… são exatamente como nós! Leem livros, esparramam-se no sofá, leem livros, brincam com um esqueleto falso (ok, não costumo fazer isso), leem livros, tocam instrumentos acabadinhos, leem livros e fazem piadas idiotas que só eles entendem. Ah, os anos 90! Dirigido por Art Boonparn, eis o revival do lo-fi.  E em que sebo encontro uma cópia de Suicide, de Émile Durkheim? Hum, parece adorável.

Together through life | Bob Dylan

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bobTogether through life conta como o 33º álbum de Bob Dylan. Tudo bem. Um longo, longo caminho. Muita história para contar. Um mundo. Uma vida. Uma saga. Mas alguém precisa saber disso? Melhor seria tomá-lo como parte de um entardecer iniciado em Time out of mind, de 1997. Um quarto disco. E, por um momento, esquecer o resto.

É que nada será como antes, sabe? Depois de gravar dois álbuns revisionistas, com interpretações para antiguidades do folk (os incompreendidos Gone as I been to you, de 1992, e World gone wrong, de 1993), Dylan criaria ele próprio uma sonoridade descolada no tempo, de costas para o pop contemporâneo — a simulação de um passado musical muito distante, anterior ao período em que um jovem Robert Allen Zimmerman traçou as coordenadas de uma das maiores revoluções do rock.

Em algum momento, alguém perderia a vergonha e lançaria a pergunta: é um jogo interessante, mas que sentido isso faz? Há uma hora em que a brincadeira termina?

Existe um clima de frustração em muitas das resenhas de Together through life (aqui não falo das revistas que automaticamente aprovam todas as criações do cantor, mas de uma NME da vida, de uma Spin), e acredito que ele se explique pelo fato de que eu, você e todos nós esperamos incansavelmente pelo retorno de um Bob Dylan que pertence ao nosso passado. Queremos indícios do ídolo rebelde, quase inconsequente, iconoclasta e insolente, que implode festivais de folk com guitarras elétricas e resgata o country em meio ao frenesi psicodélico do final dos anos 60. Mesmo que inconscientemente, temos a esperança que a agonia que ainda existe nos versos do compositor termine por contaminar a música, exploda em acordes transgressores e novamente maltrate nossas expectativas. Mas, ao mesmo tempo, amamos o Dylan que não respeita nossos desejos, não anda nos trilhos, não se adapta em antologias musicais — o poeta ao sabor do vento.

Como conviver com um ídolo que insiste em nos apontar as direções que não queremos seguir? Talvez seja mesmo impossível agarrá-lo. Daí as biografias incompletas, as lendas urbanas, as declarações falsas em entrevistas, as anedotas, as múltiplas personalidades, I’m not there e todas as reentrâncias do mito Dylan, ainda nebuloso, imprevisível até quando parece repetir-se.

Aos 67 anos, Dylan busca um som. Talvez não mais que isso. Por coincidência, dia desses assisti a um documentário sobre o processo de gravação de um disco de Brian Wilson. O maestro tortura os músicos e repete takes obsessivamente até extrair os acordes e o clima já perfeitamente construídos em sua cabeça. É por aí.

Principalmente a partir de Love and theft, Dylan (ou Jack Frost, pseudônimo usado para a produção do álbum), encontraria satisfação na ideia de usar a tecnologia de estúdios para registrar um sentimento sonoro. O tema dos álbuns passaria a ser a própria descoberta de uma sonoridade. Se temos a impressão de ouvir um antigo disco de blues da Chess Records ou da Sun Records, então Dylan cumpriu o objetivo. A produção é parte importante da mensagem.

Together through life leva essas experiências ao limite. A seu modo, é um disquinho impertinente. Ao aceitar o convite do diretor francês Olivier Dahan para compor uma canção a ser incluída no filme My own love song, Dylan inspirou-se para um álbum inteiro. Com domínio da técnica de produção, gravou rapidamente acompanhado da própria banda e com participações de David Hidalgo, do Los Lobos, e Mike Campbell, do Tom Petty and the Heartbreakers. Diretor do próprio filme, Dylan sabe exatamente o álbum que quer: cru como um bootleg, fluente e despretensioso como Nashville skyline, calcado em blues e acordeão: uma coleção de canções de amor que poderiam ter sido gravadas nos anos 50. Ou nos 80. Ou em 2020 (acelere o andamento, inclua distorção e Beyond here lies nothing renderia o primeiro hit digno do Kings of Leon).

Imagino que, com o passar dos anos, a velhice de Dylan será compreendida como o período em que o artista finalmente conseguiu assumir controle integral da própria arte. Em entrevistas, ele confessa a insatisfação com o resultado de gravações que transformaria em clássicos. Não mais. Together through life é um filme de estrada. A dois. E a fotografia granulada não está lá por acaso.

Se os versos parecem ir sempre direto ao assunto (e a parceria com Robert Hunter, do Grateful Dead, já é histórica), eles criam conexões com os três álbuns anteriores ao levar a sério aquilo que o crítico Allan Jones define como um mandamento do blues (que não funciona muito bem quando traduzido para o português): “you might get better, but you will never get well”. São narrativas que não escondem a desilusão (Life is well é uma patada) e a falta que sentem de uma época irrecuperável (O personagem de Life is hard lamenta a solidão, o protagonista de If you ever go to Houston quer de volta as memórias dos antigos bares onde se perdeu, e talvez seja a mesma pessoa que canta Forgetful heart) e a proximidade da morte. “Sinto uma mudança se aproximando. E a quarta parte do dia está quase no fim”, admite, na a obra-prima I feel a change comin’ on.

Que sentido isso faz? Talvez nenhum. Os novos discos de Bob Dylan possivelmente querem nos lembrar que a vida é dura e às vezes segue caminhos incompreensíveis. Os amores passam. A dor não diminui. A saudade arde. E o rock ainda nem nasceu.

Trigésimo terceiro álbum de Bob Dylan. 11 faixas, com produção de Jack Frost. Lançamento Columbia Records. 8.5/10

X-Men origens: Wolverine

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X-Men origins: Wolverine, 2009. De Gavin Hood. Com Hugh Jackman. Liev Schreiber e Ryan Reynolds. 110min. 5/10

Se geralmente não me interesso por filmes de super-heróis, por que insisto tanto neles? Seria uma forma de masoquismo?

Existe uma etapa da vida em que simplesmente abandonamos tudo aquilo que não nos agrada? Que aprendemos a passar à margem do que nos deixa insatisfeitos? Que desistimos em definitivo das segundas chances?

Quando esse meu dia chegar, temo pelos filmes de super-heróis.

Por enquanto, eles resistem. É que sou um sujeito curioso. E teimoso. Por isso volto regularmente a procurar um grande filme do gênero como aqueles surfistas que buscam a onda perfeita. Admito (sem achar graça nisso): ainda não o encontrei.

Os que mais me impressionam são aqueles que integram trajetórias de cineastas que me interessariam até se filmassem adaptações de Jane Austen. Tim Burton, por exemplo. Bryan Singer, apesar das pisadas na bola. Guillermo del Toro, e provavelmente vocês já entenderam onde quero chegar.

Sem um bom cineasta disposto a transfigurá-lo, o gênero me aborrece. Nada posso fazer contra isso. Provoca um efeito entediante que é superior à média de fitas de ação e comédias românticas que assisto a cada seis meses (e são muitas). Acompanhar as “histórias de formação” de super-heróis – aquelas narrativas que nos explicam detalhadamente como o sujeito aprendeu a voar, ficar invisível e quebrar vidros com o poder do pensamento – equivale a assistir a uma longa maratona de Gossip girl e Grey’s anatomy. Um inferno, acreditem.

Sei que estou na contramão do mercado, das bilheterias, dos lucros astronômicos de estúdios poderosos e tudo o mais. Posso viver com isso. Hoje em dia, vender um filmeco qualquer como uma “história de formação de super-herói” é meio caminho andado para faturar horrores. Sei. Entendo. Estou por dentro. Não penalizo o público por cair nesse conto vagabundo. Eu, que não sou ingênuo nem nada, estarei sempre na fila para assistir a qualquer ficção-científica sobre a destruição do planeta Terra. Somos todos culpados. E estamos quites nisso, ok?

Eis que…

Qual não foi minha alegria ao descobrir que a Fox Film inaugurou uma nova franquia de “filmes sobre heróis em formação”, e ela começa com Wolverine? Se cair no gosto do público (já estou fazendo figa para que todos se entediem profundamente e se sintam miseráveis, engasguem com pipoca e drops de menta etc), seremos atacados por outros contos sobre as primeiras experiências de tipinhos extraordinários.

Eu sei. Eu deveria desistir deles. Vocês têm razão. Vocês sabem. Mas insisto. E vejam bem: com o mesmo distanciamento que aplico a filmes de Ron Howard e Michael Bay, consigo analisá-los até objetivamente, sem paixão, sem ódio, sem nada. Vejo qualidades. Coço o queixo, pensativo. Desenvolvo hipóteses, desenho diagramas. Analiso. Como quem abre um hamster. Tanto que, em vários momentos, compreendo que tenho direito a desenvolver alergia a filmes eficientes e bem-intencionados, com boas idéias e cineastas esforçados. Consigo. Respeito. Mas não é o caso de Wolverine.

O processo de filmagem do longa de Gavin Hood foi tão acidentado (DVD pirata sem efeitos especiais? E demitiram o jornalista por causa de uma resenhazinha? Pff) que provavelmente tudo o que a Fox quer neste exato momento é que a crítica trate o filme como um produto correto, simpático, que cumpre requisitos e sai-se bem no teste do olhômetro. Um legítimo nota 6. Para mim, é apenas um longa que exibe em cada cena o quão dolorosamente matemático pode ser o processo de confecção de um blockbuster.

Vamos lá, sem inocência: isto aqui é um baita de um mutante gerado em dezenas de reuniões de executivos de estúdio. Hood já declarou que não se interessa nem nunca se interessou por revistas em quadrinhos (isso significa que até eu, antigo leitor de Batman e Chico Bento, poderia ter dirigido o filme!), e a falta de paixão fica bastante clara na tela. O cineasta não leva muito a sério o que está filmando – e, se despretensão conta a favor de fitas autoirônicas do gênero (como Hancock, taí uma de que gostei), parece deslocada num action movie que parece querer ser Batman begins quando crescer. Falta pompa, carece de ambições trágicas, no mínimo.

O próprio Hugh Jackman, também produtor, interferiu no roteiro. Dizem que o filme custou algo em torno de US$ 100 milhões. Imagino que 90% disso tenha sido investido nas cenas de ação, tão mirabolantes e radicalmente tolas quanto as de Velozes e furiosos 4. O restante da produção parece ter sido penalizado por um acabamento de quinta categoria. Os cenários são galpões amarelados, laboratórios subterrâneos, castelos medievais de parque de diversão, objetos gerados em computação gráfica e uma ou outra casinha isolada numa montanha canadense. Movimentar meus olhos diante da tela exigiu esforço.

Encarado como o piloto de um episódio de tevê, o filme parece até (aí vai, Fox!) correto e eficiente. Eu o exibiria no AXN por volta das 20h, antes de uma reprise de Lost. A vantagem, no caso, é que Hood e Jackman fazem o possível para não lambuzar o belo trabalho de Singer no primeiro X-Men. A proposta de ambientar a trama 20 anos antes dos eventos do longa original é boa, já que evita comparações desnecessárias. Toda a narrativa se desenrola antes do dia em que as memórias de Wolverine perdeu a memória. Pode ter sido apenas um sonho ruim, vá saber.

Pelo que lembro, o filme de Singer resumia com bastante precisão a origem de Wolverine. Ou pelo menos o que precisávamos saber sobre ela. Aqui, boa parte das informações parecem subaproveitadas. Por exemplo: quando criança, Wolverine matou acidentalmente o próprio pai. Mais crescido, se viu obrigado a lutar violentamente contra o meio-irmão. Quando encontrou a mulher dos sonhos, ela revelou perigosas segundas intenções. É uma vida de cão ou não é? É Shakespeare, é Bíblia Sagrada ou não é? Hood toma esses traumas e faz deles uma fita de aventura para adolescentes – inofensiva, dente-de-leite.

Outro exemplo: os mutantes que cercam Wolverine (sim, já que este suposto voo solo acaba se revelando mais um filme de mutantes). Quem são eles? O que eles contam? No final da projeção, fiquei perdido entre tantos coadjuvantes que parecem existir apenas para preencher sequências de ação. Mas aí vem a necessidade de apresentar uma galeria de personagens para satisfazer os fãs que, quando não lêem gibis, assistem a episódios de Heroes e reruns de Caminhos do coração. Essa gente.

Aliás, tai outra coisa que me irrita em filmes de super-heróis. Quase todos os argumentos levam em conta os fãs, essa entidade misteriosa. Quem são eles? Não faço idéia. Ao final da sessão, hoje pela manhã, um jornalista usou essa velha cartada para defender o filme:

– Os fãs vão gostar.

– Os fãs dos quadrinhos?, perguntei, intrigado.

– Não. Os fãs dos outros três filmes.

– E os fãs dos quadrinhos?

– Esses talvez não gostem.

– E as fãs do Hugh Jackman?

– Essas vão gostar.

– E os fãs do Gavin Hood?

– Não existe.

Deixei assim. Sempre deixo. É normal. Nunca encontro respostas para esse tipo de pergunta. Repito: quem são os fãs? Como eles decidem se gostam ou não gostam de uma adaptação cinematográfica? Eles se reúnem em congressos ultrasecretos, onde assinam conclusões definitivas? Escrevem declarações e fazem cópias em três vias? Debatem via MSN e Twitter? Onde eles estão? Onde moram? São norte-americanos, na certa, mas de que estado? São sócios de algum clube? Jogam golfe? Falam três idiomas? Formam uma espécie de seita? Sinceramente, ainda não sei. Sempre que alguém justifica o apelo de um filme pelo gosto dos “fãs”, me sinto enganado. Estou certo de que alguns fãs gostarão de Wolverine. E estou certo de que outros sairão do cinema decepcionados. Mas por que deveríamos levar isso em conta quando discutimos um filme?

Wolverine me pareceu um filme capenga e desastrado. Como tantos outros. Há bons atores, Hugh Jackman é um chapa carismático (talvez demais, já que o papel exige uma angústia que ele não sabe de onde tirar) e a trama é curta o suficiente para não cansar. Nada memorável. E sim, claro, nosso angustiado Wolverine passa por uma série de testes para descobrir que a vida é feita de escolhas e que às vezes Freud não explica e que grandes poderes trazem grandes responsabilidades e que…

Os fãs entenderão.

Superoito não mora mais aqui

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270420091011

(O horizonte na janela do meu apartamento: things they are a-changing)

Sair da casa dos pais, dizem, é um rito de passagem. Um daqueles episódios que modelam o futuro. O primeiro capítulo do resto de nossas vidas. Não? Quase seis meses transcorreram desde o dia em que levei meu colchão, minhas roupas e a tevê para o pequeno apartamento onde durmo quase todas as noites. Seis meses – e, apesar de saber perfeitamente que passei por uma espécie de teste importantíssimo, ainda não consigo avaliar minha performance. A estranha impressão é de que tudo, de alguma forma, mudou. Só não entendo exatamente como.

Há algumas perguntas recorrentes, que interrompem meus pesadelos e martelam alfinetes na minha consciência: como me saí nessa prova? Qual foi o resultado? Fui aprovado? Está tudo ok? Mais importante: se me transformei numa pessoa diferente, quem é ela?

Aparentemente (e surpreendentemente), deu certo. Com o devido distanciamento, sou capaz de reconhecer que cumpri algumas etapas corretamente e que, num período reduzido de tempo e aos olhos invisíveis do mundo, eu tenha finalmente me transformado num cidadão adulto e independente. É esta a versão oficial dos fatos: pago todas as minha contas, compro alimentos e produtos de higiene, lido com impostos e taxas, organizo compromissos, cultivo minha vida social e (um pequeno passo para o homem) estou a alguns minutos de virar sócio na videolocadora da quadra.

Falta plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Mas são detalhes. E quem lê livros, afinal?

Para mim, ainda parece incrível imaginar que, há um ano, nada disso parecia plausível. Durante minha adolescência, rejeitei conscientemente as expectativas e os hábitos do cidadão comum. Revoltei-me contra adultos metódicos, conformam com rotinas medíocres. Contra indivíduos sorridentes que, felizes com pouco, contentam-se com empregos maçantes. Deixam-se massacrar pela burocraria. E ainda assim casam-se, têm meninos fedorentos e com eles visitam o zoológico. Eu não os compreendia. Eu não me enxergava neles. A idade adulta parecia apenas entediante e aborrecida: uma infinidade de obrigações que não dão em nada. Muito trabalho, nenhuma diversão.

Talvez por isso eu tenha imaginado que viveria até os 25 anos de idade. Seria o suficiente. Aos 26, me vi sem um plano B. Aos 29, olhei no espelho e notei um adolescente desbotado. Era hora de mudar.

Conheço algumas pessoas que também nasceram no final dos anos 70 e, como eu, viveram sem a necessidade ou a angústia de pensar no futuro – até o momento em que o futuro bateu à porta. Possivelmente faça parte de uma doença geracional: uma resistência quase irracional à idéia de abandonar o ninho. Sabemos que algo está errado, mas não queremos saber. Entendemos a necessidade de seguirmos em frente, mas não entendemos por que. E assim vamos: presos à barra da saia de mães superprotetoras, no aparente conforto de um lar que nos oferece segurança e, como contrapartida, poda nossa liberdade e nos cobra obediência a regras infanto-juvenis. Queremos sair de casa. Mas não queremos.

Desde quando me mudei, virei uma espécie de guru para esse tipo de incerteza. Eu, que pensava ter sido o último solteiro da cidade a alugar uma quitinete, me vi cercado por pessoas em crise, cheias de dúvidas. Pessoas que trabalham, recebem salários razoáveis, freqüentam restaurantes bacanas, gastam uma fortuna com o combo do Cinemark mas, ainda assim, não sabem direito se estão aptas ao Grande Passo. Qual o momento certo?

A elas, só tenho a minha versão da experiência – ainda nebulosa. Não sei muito bem o que aconselhar (e, no mais, este não é um blog de autoajuda), mas compreendo esse tipo de cobrança. Para quem está longe do furacão, o drama pode parecer ridículo, insignificante. Tai você, zombando: “eu me mudei aos 12 anos para um cortiço, quando aprendi a conviver com estivadores e estelionatários: quem quer papo com essa gente imatura?” Para quem está metido lá dentro, é como desbravar uma selva sob ameaça de mães inconsoláveis, chantagens sentimentais, insegurança financeira, aluguéis caríssimos, filas de supermercado, IPTU, vizinhos rabugentos e medo de ter abandonado cedo demais os sonhos de juventude.

Eu, que não sou o superman, também sofri essa trama diabólica. Mas saí vivo e forte. Pergunto-me como.

Para variar, não vou me fazer de vítima: foi até fácil, sabe? Como arrancar um dente de leite. Não há entretenimento no processo de lidar com a papelada do aluguel do apartamento, e organizar as contas com alguma eficiência também leva um certo tempo. Mas, com dois ou três meses, nada disso passa a irritar. Quer dizer: a menos que a operadora de tevê a cabo vá à falência e o obrigue a comprar o pacote de uma concorrente acostumada a preços abusivos. Acontece. Mas é uma questão de saber definir uma margem de risco para absolutamente todas as situações do dia-a-dia. E lidar com autocontrole. Troquei os DVDs pelos livros. Cortei viagens. Não fui ao Coachella (ok, não iria mesmo). Há noites em que passo fome. Perdi cinco quilos. E não consigo reclamar de nada disso.

O que mais mudou na minha rotina não tem a ver com dinheiro, mas com relações familiares. Foi o grande baque. A maior ruptura. Talvez a aventura definitiva. Nesse ponto, tudo está diferente, e não tenho condições de prever o desenrolar da história. Quando me perguntam sobre o impacto da mudança, respondo de imediato: ganhei uma outra família. Note a confusão: eu, uma outra pessoa, ganhei uma outra família. Devo marcar terapia?

Se bem que, descubro lentamente, a boa nova tem um quê de maldição. Não é simples acostumar-se a um núcleo familiar renovado, e a primeira sensação é de que aquelas pessoas que você conhece intimamente não vivem mais com você (reparem que é uma sensação ao mesmo tempo óbvia e profunda). Você é uma visita querida, recebida com sorrisos e regalias. Ao mesmo tempo, você não está lá.

Desde que minha mãe passou a me receber com um generoso tapete vermelho (e toneladas de chocolate), não consigo encarar esse cenário sem dar algumas risadas. Parece que trocaram a aquela mulher por um robô adorável, programado para me agradar. E que, reparem a sofisticação da tecnologia, me telefona algumas vezes por semana para massagear meu ego e me perguntar se está tudo bem. O único defeito de fabricação é que, depois de duas ou três horas de visita, a andróide passa a lamentar a ausência do filho. Às vezes se tranca no quarto. Chora silenciosamente enquanto prepara o pudim.

Passei pela fase em que a distância da família parecia o paraíso. Ok, eu sei, tudo mundo vive esse tipo de coisa e eu devia estar escrevendo sobre o novo álbum do Bob Dylan. Mas veja: até meu padrasto, que não é de muita conversa, me recebia com análises demoradas sobre as principais notícias da semana. Minha irmã, que quase me trucidou com uma faca de cozinha quando eu tinha 14 anos de idade, faz convites graciosos para tocarmos violão e cantarmos canções bobinhas que escrevemos juntos quando éramos pequenos. Até meus cachorros parecem especialmente gentis. Eles sentem minha falta e, mais importante, querem demonstrar isso.

Levou quatro, quase cinco meses para que eu sentisse o empurrão. O susto. Depois de um período de intensa felicidade, me descobri afastado da minha família de uma forma que talvez nunca conseguirei entender. O que aconteceu? Quem deu permissão para que cortassem as cordas que me prendiam ao teto do teatro? Cumpro com afinco a rotina de visitas nos fins de semana, telefono e pergunto por novidades. Ainda assim, é como se eu não participasse ativamente de nada. No tempo em que levei para me acostumar com a ausência da minha família, eles se acostumaram com meu desaparecimento. E decidiram continuar vivendo, corajosamente.

É, veja bem, quase uma idéia de morte. Mais ou menos quando encerramos um longo caso amoroso.

Às pessoas perturbadas pela idéia de mudar-se de casa, evito comentar que existe sim uma conseqüência desagradável para essa saga: mesmo quando não se quer notar, você assina um contrato com a solidão. Ela estará lá, de qualquer jeito. Não haverá como evitar. De madrugada, quando todos os ruídos parecem bombas nucleares. Na estrada que nos leva de volta à casa, depois de um domingo em família. Principalmente quando nosso cérebro começar a tecer prognósticos de um futuro que parece assustadoramente indefinido, incompleto. Diante dele, estamos sós. Com os ruídos. Um apartamento vazio. E ninguém mais para nos guiar pela mão.

Pode ser que aí esteja a resposta para a pergunta que nos atormenta: o que vamos ser quando finalmente crescermos? Um pouco mais solitários, possivelmente. Mas com a esperança tranquila de que, um dia, já perfeitamente curados, conseguiremos lidar com esse e outros tipos de aflição. De uma forma adulta. E sem drama.

2 ou 3 (longos) parágrafos | Eu te amo, cara

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Encontrar um grande amigo pode ser mais difícil que arrumar uma namorada que não o trate como uma criança irresponsável e desequilibrada de seis anos de idade, não pode? Talvez não (esse tipo de namorada só existe no mundo mágico dos contos de fadas, meu chapa), mas ainda assim imagino os pesadelos de quem sai à procura de um cúmplice para a vida toda. Como não? Ao contrário dos relacionamentos amorosos, o universo das amizades é guiado por gestos confusos e um manual de conduta que parece escrito num idioma incompreensível. Pode ser um pântano. Um campo minado. Ou pior que isso. Os conflitos não acabam nunca: com um melhor amigo, podemos discutir a relação? Fazer juras de confiança eterna? Devemos estipular limites? Vale chantagem emocional? E dar um tempo, para experimentarmos novas experiências de coleguismo, é tolerável? Mais tortuoso é saber quando exatamente a relação deve acabar. No momento em que a química desaparece e ele passa a nos tratar como um… estranho? Teremos permissão para visitar os pais dele quando a amizade azedar?

Taí, então, um filme que lida com nossas ó-tão-sérias dúvidas sobre a existência, os laços de companheirismo, as tensões pré-matrimoniais e tudo mais. Ironias à parte (e minha maior curiosidade é saber como os dois leitores portugueses deste blog interpretam meu humor ginasiano; vergonha alheia, na certa), Eu te amo, cara (7/10) é daquelas comédias sabidas, na esteira de Judd Apatow, perfeitas para o público que prefere ser surpreendido por um Presságio a bater ponto burocraticamente nas sessões de Che e W. Vamos lá, gente, o que é mais importante neste mundo? A saga de um bobalhão transformado em presidente da República ou uma crônica sobre o quão desengonçados podemos nos revelar diante de situações triviais como convidar um candidato a confidente para…hum… comer filés de peixe num restaurante bacana mais tarde?

Nesse ponto sou bastante inocente e pretendo continuar desse jeito: não menosprezo o prazer de assistir a um filme singelo e fluente (mas nada desleixado, já que decididamente descomplicado) como este. Nada extraordinário, mas o cinema “respeitável” dos Estados Unidos ganharia um tanto mais de vivacidade se compusesse cenas dessa forma relaxada, com lacunas de desconforto entre gags e alegre humor autoreferencial (há timing nas piadas com Chocolate a O diabo veste Prada, por exemplo). Impossível desconsiderar a reverência excessiva à cartilha de Apatow – e há o perigo de que esse modelo se transforme em fórmula. Outros poréns: a trilha sonora indie soa gratuita e a premissa lembra muito o mediano Meu melhor amigo (com a diferença de que o longa francês não é engraçado, ha-ha). Mas a corja da Dreamworks me ganhou quando decidiu apostar no talento cômico de Paul Rudd para segurar esta love story para fãs do Rush. É o cara. Numa comédia que, vamos lá!, não é só mais uma.

Superoito express (7)

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superfurry

(Paralelamente: American beauty, Grateful Dead, 1970; Scott 2, Scott Walker, 1968; In the wee small hours, Frank Sinatra, 1955; Dusty in Memphis, Dusty Springfield, 1969; Something else, The Kinks, 1967; para todo o sempre, amém)

[E me perdoem, sei que estou metido numa geléia de discos e isso pode parecer enfadonho e redundante, mas prometo compensar assim que possível com transcrições de parágrafos de livros. Multidão que visita este blog movida pelo amor à literatura, stay tuned]

Dark days/Light years | Super Furry Animals | 7.5 | Está para o rock psicodélico do final dos anos 60 assim como Phantom power estava para o country rock do início dos 70. E com essa comparação superficial digo que: ainda que adote um método consagrado, “clássico” (no caso, o álbum de jam), o charme do álbum está no modo anárquico e inconsequente como corrompe a herança pop. São discos que fazem questão de não andar na linha. E se os melhores momentos do Super Furry Animals são os mais caóticos e surpreendentes (Guerrilla e Rings around the world, sejamos específicos), Dark days/Light years se esforça terrivelmente para encontrar um lugar entre os grandes. Não soa tão espontâneo quanto os anteriores, beira o exaustivo, mas preserva uma velha promessa do grupo: seguir em frente, sempre. Aqui, eles soam relaxados e seguros, e até arriscam uma ode aos Rolling Stones antes de se transformarem numa máquina ritmica inclassificável. Para o SFA, o significado da palavra “jam” é mais amplo do que se imagina – e, que bom, eles aprenderam a brincar feito gente grande.

Swoon | Silversun Pickups | 6 | A imprensa norte-americana adora uma banda independente que executa com competência uma tonelada de clichês do rock comercial, não adora? Só isso explica a badalação em torno do quarteto de Los Angeles, que lançou este segundo disco por um selo chamado Dangerbird e, ainda assim, virou destaque na Rolling Stone. A primeira audição é nada menos que chocante para quem viveu os anos 90: quando não soa simplesmente choroso, Brian Aubert canta exaamente como Billy Corgan, sob guitarras pesadas-mas-não-tanto que poderiam ter sido produzidas por Butch Vig. Para quem resiste bravamente à sensação de que o passado era mais divertido, o álbum até se sustenta pelo entusiasmo e uso consciente de fórmulas do rock que, na soma dos fatores, produz hits perfeitinhos como Growing old is getting old e It’s nice to know you work alone, que talvez arranquem lágrimas dos fãs do Muse e do Placebo. Talvez. E só deles, ok?

Quicken the heart | Maximo Park | 5.5 | Há bandas que não evoluem nunca, e dessas ficaremos apenas com os primeiros, ótimos álbuns. Quem lembra de Our earthly pleasures, o segundo do Maximo Park? Na minha memória é que não ficou. Mas ainda sentimos saudades de A certain trigger (parecia tão simples!), e por isso retornamos aos britânicos com interesse toda vez que eles lançam uma nova canção que deixa a impressão de que pode ser grande até o momento em que… hum, eles estragaram tudo outra vez. Quicken the heart é quase tão frustrante quanto o anterior, e chega num ponto que parece mais dedicado a reproduzir o catálogo do Futureheads que os clássicos do Gang of Four. Alguns momentos dignos (The kids are sick again, A cloud of mystery e Wraithlike) sentem-se muito sozinhos num conjunto flácido, repetitivo, que parece jogar na minha cara como eu deveria ter sido mais bondoso com o novo do Franz Ferdinand. Mas e então, abandonamos o Maximo Park de vez? Eu não. Ainda acredito que, com o humor fino e a aparente esperteza que eles têm, dia desses podem até nos pegar de surpresa. E repito: é um pouco melhor que o disco anterior. Melhor que o anterior, ouviram?

Primary colours | The Horrors | 5 | Meu caso com o Horrors está envenenado. Acabou. Fechou. Perdeu. Sei que há quem os defenda com dentes, unhas e o diabo a quatro. Entendo que este segundo álbum dos britânicos seria minimamente importante apenas por conter a grife de Geoff Barrow (e foi coproduzido pelo escritor Craig Silvey e pelo diretor de clipes Chris Cunningham, um crossover bizarro que deixaria Andy Warhol muito orgulhoso). Mas tudo o que eu (ainda) consigo ouvir é a décima-nona encarnação de Ian Curtis num moedor de carne à Psychocandy. Conciso – taí um adjetivo que será muito usado para descrever um álbum que compõe atmosferas intensas e sofridas e compactas de ruídos e ecos a serviço… do que mesmo? As trovoadas de Three decades me impressionaram, não há nada tão oco quanto os hits do White Lies, mas o restante do álbum vai agonizando lentamente até desaguar no óbvio ululante: influências de eletrônicas largadas numa jam de oito minutos de duração. Entendo. Mas não me assusta.