Mês: julho 2009

La Roux | La Roux

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rouxDizem que não devemos avaliar discos quando estamos nos sentindo miseráveis e agoniados. Pois bem: estou triste (muito triste) e irritado (mais ou menos irritado, dependendo do momento do dia), mas algo acontece quando ouço os discos do La Roux e do Little Boots. Se entendo o meu corpo direito, eles provocam reações físicas: apertam minha barriga até quase me levar às lágrimas e depois me confortam com teclados iluminados, melodias antidepressivas e refrãos com sabor de xarope de morango. É como se nada, absolutamente nada estivesse por um fio. Ainda que esteja.

São tempos difíceis, meus amigos.

Mas vamos aos discos, que eles curam: o primeiro, aviso logo, é superior ao segundo. La Roux é uma dupla de electropop da Inglaterra com uma fixação por hits dos anos 1980 – de Yazoo a The Human League (passando por figurões como Prince e Depeche Mode), eles devoram tudo o que era lixo e hoje é um luxo. Num sistema solar habitado por Phoenix e Cut Copy, não é um flashback exatamente inusitado (e este não é um grande álbum). Mas limitar a banda a essa referência é muito pouco, é uma besteirada, já que existe um mulherão deitado nessa cama sonora. E ela se chama Elly Jackson.

Bem Langmaid, o produtor e compositor do La Roux, é o principal responsável pelo som retrô-chic, bem-humorado da dupla (que, nos trechos mais inspirados, lembra os hits mais irônicos do Daft Punk e alguma coisa de Air, Miss Kittin e Annie). Mas é Elly Jackson, a fã de Carole King e Nick Drake, quem tira esse estilo do quarto de brinquedos e infla os acordes de angústia – e aí é sangue mesmo, não é mertiolate (e Karen O tem muito a invejar, no caso). É ela, e só ela, quem faz desse o disco de dance music uma pilha de nervos – e um dos lançamentos mais interessantes do ano com o selo de uma grande gravadora (se bem que há pouquíssimos concorrentes nesse nicho).

O álbum narra uma saga extremamente banal (por isso real) de inseguranças, neuras, algumas alegrias e pequenos desastres amorosos – daqueles que vivemos de vez em quando, mas machucam feito gastrite. “Pontos finais e pontos de exclamação. Minhas palavras derrapam antes que eu tente começar”, ela avisa logo na primeira faixa, In for the kill (e, mais adiante, diz que está nessa “só pelo frio na barriga”). Em Colourless colour, a melhor do álbum, ela lembra dos anos 1990 como um deserto existencial. “Queríamos nos divertir, mas não havia nada mais para brincar”, lembra. E continua: “Quero fugir para sentir o sol na minha pele”. Uma canção tão descartável deveria soar tão verdadeira?

E Cover my eyes é diário de adolescente, tolinho que só: “Quando eu te vejo andando com ela tenho que cobrir meus olhos. Toda vez que você sai com ela, algo dentro de mim morre”, Elly canta. E, entre teclados à Strangelove, é logo acompanhada por um coro de crianças que encontraríamos numa baladona do Michael Jackson à época de Dangerous. Só ouvindo.

Little Boots não soa tão excitante, ainda que também provoque o efeito de um analgésico. O projeto de Victoria Hesketh (outra britânica, outra mulher à beira de um colapso) peca pela afobação: o álbum de estréia, Hands, é desnecessariamente superproduzido (faz a estréia do La Roux parecer um ensaio sobre o minimalismo). São nove produtores (!) – mãos para todo lado. Fica até difícil enxergar uma linha narrativa no álbum, que oscila do electro ao hip hop norte-americano de FM, já que cada canção parece esgotar totalmente suas possibilidades, deixando o espaço aberto para a próxima aventura. Ainda assim, não entendo o disco como um desastre (se isso é um desastre, o que é Lady Gaga?), mas sim como um esforço descontrolado de provocar uma boa impressão.

Uma bobagem. Mas não qualquer bobagem. E vá por mim: experimente nos piores dias.

Créditos
La Roux | La Roux (Polydor, 2009) 7.5
Hands | Little Boots (Atlantic, 2009) 6

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Harry Potter e o enigma do Príncipe

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harrypotter

Harry Potter and the half-blood prince, 2009. De David Yates. Com Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Jim Broadbent, Rupert Grint e Emma Watson. 153min.

Hoje, um domingo morto, publicaram a última crônica de uma série que escrevi para o jornal. No total, ficamos em três textos. Três, e só três. Parece pouco, eu sei. Mas, para mim, foi mais ou menos como escrever um romance. Daqueles que duram mais de 800 páginas e nascem fadados a juntar poeira em estantes de bibliotecas (se você não sabe absolutamente nada sobre essa minha aventura absolutamente insignificante, recomendo a leitura deste post e deste outro).

Talvez, naqueles posts, eu tenha sugerido que a experiência teve um quê de tortura medieval – mas peço para que desconsiderem os eventuais exageros. Por natureza, sou um sujeito dramático. Meu mundo está sempre por um fio, vocês sabem. Para ficarmos num exemplo, quando descobri o sentido de “inferno astral”, pensei assim: certo, taí uma boa, justa definição para a minha existência.

Pois bem. O processo me ensinou algumas lições. Uma delas: meus textos são longos, prolixos; preciso enxugá-los (e imaginem o que significa continuar escrevendo um blog como este depois de chegar a essa conclusão – sou um herói). Outra: quando um prazo se impõe e o tempo é curto, você encontrará ideias de crônicas em cada diálogo, em cada cruzamento, em cada cena de novela, em todos os lugares. Pensei em escrever sobre meus vizinhos, que não conheço (e talvez isso aconteça em muitos lugares, mas aqui em Brasília é normal desconhecer os vizinhos). E sobre os diálogos absurdos que ouço quando paro o carro no semáforo. E sobre a história de um menino que vi na fila de Harry Potter e o enigma do Príncipe.

Até para não perder o timing do mundo, preferi me concentrar naquele caso pueril que narrei por aqui, sobre o casal de adolescentes que se encontra no aeroporto, etc. Essa crônica sobreviveu. As outras deveriam ter morrido. Mas não. Tai outra lição, anotem: mesmo as crônicas descartadas continuarão vivas, sabe-se lá como, sabe-se lá onde, até o momento em que finalmente serão ejetadas para o planeta. E, ao chegar nessa conclusão, não tento ser poético nem nada: é apenas um fato.

O menino da sessão de Harry Potter, coitado, viveu como rascunho por dois ou três dias, até ser massacrado e abandonado no fundo da lixeira do meu laptop. Cheguei a escrever as primeiras frases de uma biografia improvisada e rasteira, mas as desprezei quando minha namorada telefonou me chamando para um jantar. Ou seja: escrever ou não escrever uma determinada crônica pode ser um golpe do acaso. Uma decisão do destino. De deus, se é que ele tem tempo para se meter nessas tramas do cotidiano. Da minha namorada, que também manda e desmanda. Um esbarrão. Uma ação involuntária. Vá saber.

Resumindo a ópera: tenho a impressão de que o menino da crônica abandonada renderia um texto mais interessante que todos os três publicados. O leite está derramado, mas creio que fiz a opção errada em privilegiar o casalzinho sem-sal do aeroporto e menosprezar a saga de um garoto que, na fila da pré-estreia de Harry Potter, vestia uma capa de cetim preta e verde costurada pela avó.

Eis a história do rapazinho, então. Ele passou uma semana insistindo para que a avó costurasse a maldita capa do Harry Potter (planejada como um uniforme de Hogwarts, uma espécie de robe elegante e démodé). A avó fez o serviço e, na pré-estréia, o menino (que tinha uns 13, 14 anos), vestiu a fantasia orgulhosamente. Isso até o momento em que ele se aproximou da fila (uma fila enorme, que ia até a praça de alimentação) e percebeu que ninguém, nenhuma criança estava fantasiada. Ninguém usava robes ou capas ou carregava varinhas de condão. Ele sentiu-se instantaneamente envergonhado, como se tivesse feito algo muito errado. “Onde eu estava com a cabeça quando pensei nessa capa?”, perguntou-se. Mas ele gostava da capa, apesar de tudo. Era uma capa até apresentável, pensava.

Discretamente, ele tirou a capa e a pendurou no braço direito. Mas aí uma repórter viu a capa e pediu para o menino posar para o fotógrafo do jornal. “Vista a capa, por favor”, ela pediu. E o garoto, envergonhadíssimo: “Não é minha”. A repórter insistiu. Os outros espectadores perceberam a situação e começaram a rir do pobre menino, naquela altura já vermelho de constrangimento. Ele acabou cedendo. Fez a foto e, logo depois, arrancou a capa violentamente. “Não era minha”, ainda disse.

Eu estava ali e procurava uma crônica. Quem mandou? Vi naquela situação um cartoon vivo para as indefinições da adolescência. Existe um período da vida em que você não sabe o que deve fazer. Não sabe o que é permitido. Não entende a linha que separa a infância da idade adulta. Há ritos de passagem que chegam num empurrão, como aquele, numa fila de cinema, provocado por uma capa de cetim. Tai uma cena (melhor: uma sensação) que não encontrei em nenhuma das aventuras de Harry Potter. A fila é melhor que o filme!

No dia seguinte, tentei assistir ao filme para criar uma crônica que criasse um paralelo imaginário entre aquele menino de Brasília e o herói da ficção. Poderia ter rendido algo engraçadinho, mas a crônica foi sepultada por um jantar e pelas filas enormes que me impediram de assistir à sessão. Escrevi outra crônica e me dei por satisfeito com ela. Não é boa, mas é o melhor que consigo neste momento. Daí decidi assistir ao filme ontem à tarde, numa sessão menos concorrida, e percebi que desperdicei uma boa ideia. Azar o meu.

O que me interessa na série Harry Potter é notar como ela acompanha o crescimento de um grupo de personagens. No primeiro episódio, Potter tem 11 anos de idade. Neste novo, deve ter uns 16, 17. Os seis filmes, por isso, retratam a puberdade do herói, seus melhores amigos e os atores que os interpretam. Admito que as tramas nunca me fisgaram (é a clássica batalha de tipos superpoderosos contra as forças do mal, plana e tola), mas entendo que o público volte à série regularmente para reencontrar personagens e atores que, com o tempo, passaram a provocar a sensação de familiaridade típica de um amigo que, apesar de não muito presente, nos visita nas férias.

Apesar disso, são filmes que subestimam aquele que talvez seja o grande tema da série: a adolescência. Cada episódio sugere uma certa angústia, uma certa falta-de-jeito, que espiamos na dificuldade como Potter assume responsabilidades de adulto, mas saio das sessões com a impressão de que a experiência daqueles atores nos bastidores foi infinitamente mais interessante que tudo o que se vê no corte final. Como os dois próximos episódios não serão dirigidos por Gus Van Sant ou pelo Richard Linklater, temo que essa oportunidade será desperdiçada novamente.

O pior é que David Yates, o diretor, sabe o que está perdendo. Tenta valorizar os trechos em que Harry e os amigos se envolvem em casinhos apaixonados, flertes desajeitados. Cirandas quase drummondianas. Nesses momentos, o filme sugere uma versão “família” de A bela Junie. Ah, teria sido bom. Mas, nas 2h30 de duração, o cineasta precisa desenvolver aquela velha trama de fantasia que se arrasta por tantos episódios, uma saga frouxa que parece não terminar nunca. Aí nos lembramos que às vezes devemos encarar a série Harry Potter da forma despreocupada como vemos aqueles seriados de tevê à antiga, que se repetem a cada capítulo. Ainda que, claro, com uma produção mais elegante e cuidadosa que a de 90% dos blockbusters (o tom sombrio é acentuado sutilmente a cada episódio, por exemplo).

Procurei em Harry Potter os traços imprevisíveis de humanidade que encontrei no menino da capa de cetim. O fã do bruxinho. O garoto morto de vergonha. O espectador anônimo. Procurei e quebrei a cara. Quase pedi meu dinheiro de volta, juro. “A fila é mais divertida, moço”. Outra lição, pois: a frustração aguarda aqueles que andam pelo mundo com uma crônica atrás da orelha.

PS: A partir de hoje, as cotações dos filmes, discos e séries deixam de vez o blog e ficam no meu log, tiagos8.sites.uol.com.br. Obrigado.

Superoito e os primeiros parágrafos

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Imaginei que seria uma boa idéia escrever sobre o medo de voar. Outro dia, não lembro quando, eu estava esperando por alguém no saguão do aeroporto. Não sei quem estava para chegar, se minha namorada ou minha mãe ou a mãe da minha namorada, mas o fato é que alguém estava para chegar e eu estava esperando . Havia muita gente no saguão e todos pareciam ansiosos. Eles roíam unhas numa espécie de coreografia. No mais, torciam para que nenhum Boeing despencasse em mil pedaços, pelo menos não nos próximos 60, 80 minutos.

Adianto que nenhum Boeing caiu. O importante foi que, no meio daquele mundaréu à beira de um ataque de nervos, vi um rapazinho de uns 14, 15 anos, que parecia tenso, mas por um motivo mais nobre. Ele estava de cabelo muito bem lambuzado de gel, o cheiro de perfume estava nos matando e, para deixar a situação toda mais surreal, o moleque andava de um lado para o outro do setor de desembarque com um ursinho de pelúcia pendurado pela pata. Que cena!, pensei. E fiquei esperando o desenrolar da história – já que, como vocês sabem desde criancinhas, sou um dedicado espectador da vida alheia.

Ouvi um diálogo rápido entre o menino e o pai do menino. O garoto queria ficar sozinho. Logo entendi o drama na íntegra: o guri estava prestes a se encontrar pela primeira vez com uma menina linda e irreal que ele (muito possivelmente) conhecia apenas pela internet. Pensei: será isso? Era. Depois de 20 minutos de suor escorrendo no rosto e o maldito ursinho balançando repetidamente no ar, indefeso (coitado), a guria desembarcou e criou-se uma atmosfera de suspense no saguão: será que sim? Será que não? Paramos todos de pensar nos aviões despedaçados e nos concentramos naquela história de amor meio bamba, meio boba, mas muito verdadeira, do tipo que os filmes não nos entregam mais.

O que aconteceu, em resumo, foi isto: o menino escreveu o nome num pedaço de cartolina, que a menina leu do outro lado do vidro. Ela acenou, ele acenou. Eles se examinaram à distância, já que as malas demoravam para chegar e era uma agonia. Já com a mochila cor de rosa e a maleta preta, ela olhou o garoto bem de perto, trocaram algumas palavras que ninguém mais ouviu, ele encostou a mão no ombro da musa (e não é que era uma musa bastante típica, beleza grega etc?) e enfim se beijaram. Tudo ok. Céu de brigadeiro. Expectativas correspondidas. O saguão do aeroporto soltou em uníssono um sonoro suspiro de alívio. Nossos corações tremeram. E, naquela tarde, nenhum Boeing caiu.

Não é bonito? Essa história aconteceu de verdade, exatamente desse jeito como a conto, e ainda me impressiono com a forma como ela guarda tantos sentidos ocultos. Por exemplo: é possível traçar um paralelo entre o medo de voar, que contaminava o saguão do aeroporto, e o medo de um não – o risco e a recompensa pelo risco. O alívio que sentimos quando o voo finalmente chega seria semelhante à forma como nosso peito se enche de ar quando somos correspondidos? Vá saber. Só sei que estou pensando nessa história desde que comecei a escrever crônicas para o jornal onde trabalho. Isto é: há três semanas.

Vocês querem saber como estou me saindo nessa tarefa? Terrivelmente mal, amiguinhos. Terrivelmente mal. Se eu soubesse que as coisas seriam assim, eu nunca, nunca teria dito sim para esse oh tão inglório desafio que tira o meu sono, polui minha mente, corrompe a minha inocência literária e impede até que eu escreva para este blog que tanto amo. Culpem as assustadoras crônicas pelo bloqueio criativo que me atazana há três semanas. É tudo por causa delas. Absolutamente tudo. Eu queria escrever três, cinco posts por noite, mas elas não deixam e eu sou fraco, não consigo lutar.

Verdade. Desde que comecei a escrever crônicas, meu mundinho tomou um choque elétrico. Até agora, escrevi duas. A primeira, um desastre atômico. A segunda, um desastre. A sorte é que quase nenhuma pessoa conhecida leu os textos (e aí descobri que os repórteres nem passam o olho no jornal que escrevem, já que, notando minha crônica lá na página, certamente alguém me provocaria por puro sadismo e nada além de puro sadismo). Fiz questão de não anunciar nada. Entrei e saí da redação morrendo de vergonha e pânico, mas me portei como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Uma forma muito elegante de fracassar.

A primeira crônica, muito oportunista, foi sobre o dia em que Michael Jackson passou por Brasília, em 1974, num show do Jackson 5. Tentei reconstruir a cena e inventar algumas coisas, num mix de jornalismo gonzo com devaneios de um blogueiro estúpido. Não deu em nada. Não gostei do resultado. Li depois e quase tive um troço: um textinho sem paixão, sem ritmo, sem humor, todo travado diante da multidão, uma crônica com dor de barriga e mãos suadas.

Depois escrevi aquele texto que anunciei aqui no blog, sobre o menininho encabulado que desenhava na rodoviária. Ficou um pouco melhor. O título me agradou bastante (“O menino invisível”, e com duas ou três possibilidades de leitura, vejam só a evolução). Consegui me colocar no texto com um pouco mais de desenvoltura, criei umas brincadeiras metalinguísticas com o “eu lírico” (eu quando estagiário), a história do menino era a história de quando eu tinha 12 anos, mas detestei o desfecho derramado e desamarrado, com uma construção de frases chorosas e apelativas. Não entendo por que, em todos os meus textos, me obrigo a escrever frases como “não sei”, “não me pergunte”, “não há como saber”. Qual a função disso? Criar uma pose de coitado? Cobrar do leitor piedade, leitor, piedade? As pessoas devem ler e suspeitar que sou simplesmente um ignorante.

O engraçado foi que, nesse último caso, eu esperava alguma resposta dos meus colegas. Nem que algo do estilo “boa tentativa, Tiagão, mas você é uma bichinha chorona”. Mas o que aconteceu foi… nada. O silêncio. Novamente, ninguém leu. Dos leitores do jornal, então, nem um único e-mail de repúdio. Minto. Leram sim. Uma pessoa. Que me deixou muito feliz com um elogio sincero, e é aí que você descobre quem são seus amigos. Mas passei o dia meio decepcionado com aquela não-reação. Então é isso? Você dá o sangue para escrever 37 linhas (e um título de duas palavras!) para, no fim das contas, receber a total indiferença? Mamãe, não quero ser cronista quando eu crescer.

O que, moral da história, só ressalta todo o desastre. Minhas crônicas são tão atraentes e inspiradoras que as pessoas nem começam. Ainda que, nesses casos, eu realmente preferiria que ninguém lesse. Que se concentrassem nos obituários ou num outro tipo de prosa agradável. Os furtos de carros. O trânsito caótico. As reformas no viaduto. Os ipês que florescem na seca. Ninguém quer saber sobre o menininho ridículo que vende balas na rodoviária e ninguém certamente quer saber sobre o modo como eu conto a história do menininho infeliz – e ficamos assim, distantes; eu aqui, o leitor lá.

O problema (para mim) é que é tudo muito difícil. Tudo dolorido de tão difícil. Escrever uma crônica de exatas 37 linhas para pessoas que desconheço completamente… Por onde começar? O primeiro parágrafo é sempre o mais complicado. Não sei o tom a ser adotado. Devo ser mais informal? Devo chegar chutante a porta e forçando amizade? Devo contextualizar de uma forma, er, poética? Devo fazer referências vazias de cultura pop (talvez esperem isso de um repórter de cultura pop)? Posso citar Salinger? E Paul Auster? E a Bíblia? E o Corão? E os provérbios chineses, que sempre salvam o dia? Quanto mais escrevo, mais percebo que deveria permanecer calado.

Antes de rabiscar essas crônicas, dei uma olhada na obra dos cronistas que me antecederam. Tentei copiar o estilo de cada um deles até compor um texto cheio de piscadelas de olho e referências safadinhas a textos publicados anteriormente. Aí percebi que essa era uma forma covarde de me esconder da plateia – e isso me lembrou do dia em que minha irmã, mais tímida que eu, convidou a família para assistir a uma peça de teatro em que atuaria. Quando vimos, o papel da garota era uma árvore. Eu sorri. Minha irmã, quando se esforça e quando quer, é brilhante.

Escolher os temas é árduo, vou te contar. Falar sobre o quê? Dá branco. Tenho medo de mostrar ao mundo que só consigo imaginar histórias meio tolas sobre meu passado, meus cachorros e meu umbigo. Sou uma fraude. O rei está nu. As crônicas me obrigaram a pensar no meu futuro como escritor de romances (e, agora vocês sabem, é assim que me vejo daqui a dez anos), e tudo o que vi foi breu.

Pensei tanto (e este parágrafo é importante, atenção!) que cheguei à conclusão de que meu tema será a adolescência e que, talvez por isso, escrevi uma crônica sobre o pequeno Michael Jackson, uma outra sobre um pequeno vendedor de doces com talento para a pintura e planejo uma terceira sobre um pequeno moleque apaixonado no saguão de aeroporto barulhento.

Talvez o tema tenha me encontrado antes do dia em que percebi que ele estava logo aqui. Não sei (e nisso sou sinceramente ignorante). Mas decidi que preciso iluminar esses personagens. Essa turma. Essas criaturas imaturas e indecisas que não conseguem mirar o espelho e que têm medo e que não sabem exatamente o que são ou o que deveria ser. Essa gangue. Essa faixa etária. Esse universo. É sobre eles que devo escrever e, quando a ficha caiu, me senti um tanto mais tranquilo. As crônicas são a versão imperfeita, tosca e envergonhada – a versão adolescente! – de quem eu quero ser, como escritor, em dez ou quinze anos. E todo começo é um começo.

Eu estava pensando nisso e em outras questões essenciais quando soube que um sujeito de vinte e poucos anos bateu o carro numa mureta e morreu. Era sete da noite. Eu não o conhecia direito, mas conhecia suficientemente para sentir por alguns minutos o que invade nosso corpo quando alguém morre: aquele vazio gelado, o salto no precipício gelado, e depois todas as perguntas que ficam guardadas à espera de um clique gelado. Qual o sentido disso tudo? Para que fazemos o que fazemos? Por que levamos a vida deste jeito? O que queremos de nós mesmos?

Pensei em escrever uma crônica sobre isso. Mas só tenho mais uma esperando na fila. E depois serei um homem livre.

Superoito express (10)

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jonas

Ou: por que a crise da indústria musical é um tédio.

Lines, vines and trying times | Jonas Brothers | 4 | E a triste história vai assim: Nick, Joe e Kevin eram três adolescentes ingênuos e serelepes que, apesar de bastante satisfeitos com o confinamento numa interminável sitcom do Disney Channel, ouviram os conselhos dos executivos errados e resolveram… bem, resolveram crescer. O resultado dessa jogada comercial meio apressada é um disco que soa como um longo, aborrecido especial da VH1. Eu, que gosto do power pop abertamente juvenil de A little bit longer, não passei da terceira audição. O excesso de sopros e teclados nos leva a um canto dos anos 1980 que deveria permanecer (para sempre) pouco iluminado. E não sei ainda o que o rap Don’t charge me for the crime embaça mais: a carreira dos Brothers, a reputação de Common ou todo o staff incompetente da Hollywood Records (um galho da Universal, vale lembrar)? Meu conselho: continuem imaturos.   

Music for men | Gossip | 5.5 | Não vou negar o carisma de Beth Ditto, uma band leader que me parece imensa em absolutamente todos os sentidos. Mas, por aqui, o Gossip continua soando como aquela banda do single espetacular (quando decidirem que você deve pagar mico como DJ, vá por mim e não esqueça de Standing in the way of control) e de álbuns inconsistentes. Este é o mais frágil de todos, e uma típica estréia em grande gravadora: a produção de Rick Rubin lima o descontrole que coloria o som do trio, agora sem as arestas punk e atado a um formato glam dançante e “sensual”  (entre aspas mesmo, já que a coisa toda soa mais fria que a morte). O primeiro single, Heavy cross, é uma diluição de Standing in the way of control — uma estratégia bem comum entre novatos amedrontados com a indústria. Nossa sorte é que a Columbia ainda não conseguiu submeter Ditto a uma dieta radical de carboidratos — ela (e pelo menos ela!) segue em forma.

Love vs. money | The-Dream | 6 | O melhor álbum desta listinha deprimente (e o único que recomendo a vocês, ainda que sem muito entusiasmo) é o novo projeto conceitual do produtor de Umbrella, também conhecido como Terius Hagert Youngdell Nash. Ao lado de convidados como Kanye West e Mariah Carey, The-Dream narra um palpitante melodrama pop sobre as tantas e doloridas maneiras como o dinheiro mata o amor e o amor é maior que o dinheiro e o dinheiro não compra o amor e o amor sem dinheiro vale mais que dinheiro sem amor. Etc. Um tanto monotemático, certo? Mas a crítica mainstream adora (e dá até pena ver revistas que já foram consideradas relevantes transformando o Jonas Brothers ou a Lady Gaga em artistas respeitáveis, mas este é o nosso mundo) e eu entendo o porquê do falatório: se o pop anda em busca de um salvador da pátria (e vamos lembrar que Michael Jackson já havia nos deixado há uns bons 30 anos, ok?), The-Dream parece uma opção até razoável. Ele tem tino para a melodia (Right side of my brain é um baita algodão-doce) e é um romântico incurável. Tem muito dinheiro, certo. Mas canta o amor com certa franqueza (na medida do possível — este é um disco da Def Jam). Meu voto é dele.

The fame | Lady Gaga | 4.5 | Ah, sério?  Quando descobri que a Nova Musa do Pop era aquela que cantava praticamente todos os cinco hits vagabundos que rodam incessantamente nas academias de ginástica e estações FM (e descobri tarde, mas não perdi quase nada), fiquei com saudades dos momentos mais açucarados da Kylie Minogue. Há quem encontre influências de David Bowie e Queen, mas suspeito que elas tenham contribuído mais para a performance da moça e menos para a sonoridade de um disco que dilui a cartilha do electropop (letras sacanas e engraçadinhas sobre celebridades lindas, sujas e ricas) num modelito pop “para pistas” que não machuca ninguém. Provavelmente eu deveria ouvir mais vezes, mas prefiro acreditar que o delírio coletivo vai acabar passando e, em dois anos, todo mundo estará novamente mais interessado no novo da Madonna.

Wait for me | Moby | 5 | Por último, um disco que soa como uma coletânea de bonus tracks. Pobre Moby: hoje em dia, a grande ambição do sujeito é fazer um álbum mais ou menos parecido com Play. Engraçado ler a chamada da Folha de S. Paulo: “no novo disco, Moby mistura eletrônica com soul music”. E não é o que ele sempre fez? Um editor mais honesto pouparia o eufemismo e lascaria logo: “no novo disco, Moby mistura seus discos mais recentes com os discos que gravou há algum tempo”. É mais ou menos por aí: um projeto mais introspectivo e caseiro que os anteriores (ok, melhor que os anteriores), mas tão óbvio e aguado quanto tudo o que ele lançou desde Play. Uma pena, já que o primeiro single (a instrumental e sombria Shot in the back of the head) sugeria um desvio de rota. Não é bem isso. Na verdade, é quase nada.

Superoito dentro do papel

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Ainda fico espantado quando encontro repórteres recém-formados que procuram algum tipo de glamour numa redação de jornal. A eles, sou direto: no jornalismo cultural, não existe calçada da fama. Quem busca conforto e brisa nessa profissão provavelmente levará uma vida de duras frustrações – toda uma existência pontuada por dias tensos e noites em claro.

Mas entendo: os leitores, esses não têm a obrigação de saber disso. Por essas e outras, não me incomodo tanto com as pessoas que me tratam como se eu fosse o homem mais sortudo do universo – e isso pelo simples fato de que, às vezes, entrevisto pessoas famosas. Mas nada é tão fantástico quanto parece. Eva Mendes é mesmo maravilhosamente linda, mas lembro que, quando entrevistei a atriz, ela disse no máximo três frases curtas que não preencheriam meia página de um moleskine.

Prefiro as entrevistas mais informais e surpreendentes. Muita gente dá uma de Marisa Monte e ataca jornalistas que repetem as mesmas perguntas óbvias, mas garanto que os entrevistados são, na maioria das vezes, tão previsíveis quanto. Raro é encontrar quem tenha algo a dizer. Ontem mesmo, conversei rapidamente com um vocalista/guitarrista de uma banda de rock da cidade (ainda pouco conhecida) e aqueles 20 minutos valeram por um semestre inteiro de respostas burocráticas.

Roqueiros às vezes soam tão imaginativos quanto jogadores de futebol, também mestres em frases de efeito curtas e sem gosto, mas não foi o caso. Lá pelas tantas, o vocalista/guitarrista admitiu que ainda se sentia inseguro no palco. Ele não sabia se tinha jeito para a coisa ou se estaria condenado a doloridas sessões públicas de constrangimento. “E o pior é que, quando gravamos músicas, consigo notar a minha insegurança dentro das canções”, ele disse.

Entendi o drama. Perfeitamente, aliás. Sei que nasci para trabalhar com o que trabalho (caso contrário, eu já teria enlouquecido), mas lidar com a insegurança ainda é meu maior pesadelo. Não superei o medo de ser desmascarado em praça pública – de subir no palco e esquecer minhas falas. Tento calcular meus passos para não tropeçar, mas há momentos em que sou obrigado a dar saltos que, pelo menos no meu entendimento, parecem largos demais. É aí, meus amigos, que eu me estrepo, me machuco e, em alguns casos, aprendo e amadureço.

A última semana foi quase toda assim – uma maratona de responsabilidades impossíveis. A pior delas, um artigo longo e difícil, escrito a fórceps. O mais difícil, sempre, é lidar com as expectativas que crio para mim mesmo. Quase sempre, elas são inatingíveis. Quero escrever como o romancista que admiro, o jornalista que morreu há duas décadas ou o blogueiro maldito que ninguém entende. Esse crítico ranzinza que mora no meu cérebro me atormenta – é a ele que devo satisfações (seria esse crítico imaginário a imagem que faço de Deus, como a mulher gorda e invisível que vigia os passos dos personagens de Salinger?).

Esta semana, me pediram uma crônica. Num espaço nobre do jornal. Inseguro, quase paralisei de pânico.

Mas aceitei o desafio (já que saltar no vazio virou para mim uma espécie de meta masoquista). Passei os últimos dias pensando num tema e nada me pareceu atraente ou novo ou curioso. Pensei em fazer um breve perfil sobre uma velha cinéfila. Mas era um material muito sentimental. Depois tentei narrar uma noite num cinema tradicional da cidade, mas me vi aprisionado nos limites de uma idéia bem intencionada, politicamente correta. O plano de refletir sobre os silêncios da cidade foi descartado: abstrato demais.

Então apareceu uma lembrança que me persegue há uns bons oito anos, desde que eu era um estagiário. É uma sina do repórter, esta: ele se envolver intensamente com as pessoas, delas arranca histórias extraordinárias e, depois, as abandona (as pessoas e as histórias) para sempre. Resolvi fazer o caminho contrário: correr atrás de uma história que eu havia contado e abandonado. Eu queria saber o que havia restado dela, se é que havia restado algo.

Foi uma história que, talvez mais que qualquer outra, me fez entender e gostar da profissão, apesar de todos os sacrifícios que vêm na encomenda.

Era sobre um menino pobre chamado Rony, que tinha uns 8 anos e trabalhava vendendo doces na rodoviária. Ele estudava pela manhã e passava as tardes mergulhado em fumaça de ônibus, diante de uma banca de madeira. Era um garoto que não sorria muito, era extremamente tímido e, acredito que por causa disso, logo me identifiquei com ele. O fato curioso (e daí a matéria de jornal) era que ele matava o tempo desenhando a cidade em pedaços de papelão. E desenhava tão bem, com tanta concentração, que as pessoas juntavam caixas velhas para que o menino pudesse se divertir.

Foi muito difícil entrevistá-lo, já que ele mal conseguia articular algumas frases. Mas a situação toda me deixou estarrecido. Para quem aquele menino desenhava? Por que ele se concentrava tanto? Qual era a razão de tanto esforço? Ele não parecia interessado em algum tipo de reconhecimento (era arredio, introspectivo), nem fazia questão de se exibir. Apenas ficava lá, desenhando. A matéria foi publicada e, no dia seguinte, muitas pessoas presentearam o garoto com tinta e papel. Fiquei sabendo que ele ganhou aulas gratuitas de pintura. E aquilo me deixou muito satisfeito. Foi como se eu, no papel de repórter, tivesse cumprido uma função importante. Mais que isso: aquele menino me ensinou tanto sobre o desejo de criação artística que não consegui esquecer dele.

Instigado pela intenção de escrever uma crônica sobre o assunto, voltei a procurá-lo. Fui à rodoviária, mas a banca de doces não estava mais lá. Telefonei para um número que encontrei num bloco amarelado, mas a ligação foi interrompida por uma mensagem automática. Perguntei a alguns vendedores da rodoviária, mas ninguém conhecia o menino. O que teria acontecido com ele? Pessimista que sou, imaginei os cenários mais sombrios. Mas, quando sintonizei meus sentimentos numa estação realista, cheguei à conclusão de que talvez ele tenha simplesmente largado o desenho para se transformar num adolescente anônimo, daqueles que não despertam emoções fortes em reuniões de pauta. Teria ele conseguido vencer as expectativas da família e apostar no desenho como um talento incontrolável, uma vocação?

A crônica ainda não existe, e não sei se ela vai sobreviver ao crítico ranzinza e invisível que controla minhas decisões. O que fica, por enquanto, é essa experiência inexplicável de tentar capturar uma história que não é mais minha. Ela não ocupa mais no meu campo de visão. Nada posso fazer para salvá-la. O menino está solto no mundo – talvez perdido (espero que não), talvez feliz, talvez novamente disposto a ensinar a outros repórteres iniciantes algumas lições sobre a misteriosa ânsia de criar. Para mim, parece que morreu.

Talvez sobreviva numa crônica, não sei. Só torço para que o leitor não note a minha insegurança dentro do papel.