Mês: dezembro 2011

mixtape | Dezembro, verão cinzento

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A mixtape de dezembro é diferente das coletâneas mais recentes que você encontrou neste blog. As outras vinham em, digamos, technicolor. Esta foi filmada em p&b. Branco e preto. Branco + preto. Um pouco cinzenta, e emocionante all the way.

A mixtape tá tão boa que faz por merecer um adjetivo afrescalhado: é linda, linda, linda demais (pronto, parei com os adjetivos afrescalhados).

Sinceramente, é uma pena que muitos dos três leitores deste blog estejam, neste momento, na praia, torrando ao sol, entornando hidratante nas costas das respectivas namoradas. É uma pena porque esta aqui não é tão-somente a melhor mixtape do ano – estamos falando na melhor mixtape da história deste blog. Sério, gente. Sério de verdade.

Também: é uma das mixtapes mais simples, combinando canções folksy com eletrônica, num tom constante de fragilidade, delicadeza. Melodias por um fio, com estouros ocasionais de entusiasmo. As músicas são todas excelentes, e seria lamentável se você esperasse 2012 começar para conferir essas joias. Faça um favor a si mesmo e ouça esta mixtape antes do ano-novo.

Aqui dentro desta coleção de arquivos em MP3 você encontra Field Music (foto acima), Megafaun, Radiohead (sim!), Run DMT, Julia Holter (voltaremos a ela), Kendrick Lamar, James Blake (sim!), Bill Callahan, Oneohtrix Point Never e The Weeknd (sorry, haters!). Muita melancolia (pra quem é de melancolia), muita sutileza (pra quem é de sutileza). Mas sem cair em chororô, porque isso não é coisa que você encontra neste blog.

Antes que eu esqueça: voltamos a ter a incrível opção tecnológica de ouvir a mixtape aqui mesmo, enquanto você lê o blog! (A lista de faixas está ali na caixa de comentários)

No mais, desejo a você um bom 2012. Até logo (comentários na velha e boa caixa serão recebidos com muito apreço, como de hábito).

Faça o download da mixtape de dezembro (o link já tá funcionando novamente).

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Mixtape, posted with vodpod
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cine | Compramos um zoológico

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Alguns meses depois da morte da esposa, Benjamin Mee resolveu mudar de rotina: o americano abandonou a carreira de repórter e comprou um zoológico, onde passou a viver com os dois filhos. O lar da bicharada de forma foi reativado de forma tão admirável que o pai viúvo se tornou um herói local. Quando perguntavam a ele sobre a razão de ter se metido num ramo profissional tão exótico, o homem respondia sempre do mesmo jeito: “Por que não?”.

Talvez as pessoas tenham feito essa pergunta tantas vezes que Benjamin decidiu escrever um livro sobre a experiência. A autobiografia inspira este Compramos um Zoológico.

Admiro a bravura do jornalista. Mas desconfio que o livro me irritaria. Se o filme de Cameron Crowe foi minimamente fiel às intenções de Benjamin, aquelas páginas podem ser usadas como slides em palestras de motivação para funcionários em crise. “Seja como Benjamin: proativo, corajoso, gente que faz”.

Não sei se o livro é uma obra de autoajuda (não li, não quero ler). O filme o é. E sem culpa, sem vergonha, com uma vibe tão alegremente cafona quanto a de Comer Rezar Amar. A diferença é que Cameron Crowe sempre foi um sujeito alegremente cafona. Também sinceramente alegre, otimista e jovial – qualidades que o apartam dos muitos ghostwriters que produzem livros sobre como se tornar um bom gerente ou como agir quando alguém mexe no nosso queijo.

Reconheço com facilidade Cameron Crowe nos filmes que ele dirige. As trilhas musicais sugerem um fã quarentão de música pop tentando forçar amizade com os mais novinhos (reúne canções dos anos setenta combinadas a uma ou duas novidades elogiadas pela revista Rolling Stone), as tramas são sentimentais e afetuosas (mas nunca impessoais, já que Crowe parece ser, de verdade, um cara sentimental e afetuoso), os personagens nos lembram pessoas que conhecemos (são tipos sentimentais e afetuosos, mais ou menos como Crowe deve ser) e, nessas narrativas de bom coração, cinismo é palavra feia, vetada.

Qualquer um dos filmes de Crowe (talvez à exceção de Vanilla Sky, que era um remake) cabe nesse padrão de dramaturgia/temperamento, que Compramos um zoológico segue com muita naturalidade. Mas me pergunto se, a esta altura, e talvez por ter visto todos os longas do diretor, Crowe não estaria simplesmente procurando desculpas para fazer os filmes que sempre fez.

Talvez sim. Compramos um Zoológico é, simultaneamente, um filme-de-Crowe e um filme-autoajuda – e me impressiona como podemos dividi-lo em duas partes, que podem ser analisadas separadamente. O filme-de-Crowe se mostra gentil, sempre digno e correto; já o filme-autoajuda é chantagista e manjado, um veículo pobretão para astros que não querem se esforçar muito (Matt Damon e Scarlett Johansson). O filme-de-Crowe é o tiozinho que se emociona com Bon Iver e Neil Young, que preza (honestamente) os valores familiares e que acredita num amor ingênuo, primaveril. O filme-autoajuda, em contrapartida, é uma armação de marketing programada para nos ensinar o que já sabemos – e patrocinada pela Apple.

Acontece que, se Crowe está em Compramos um Zoológico (e são muitos os pontos de contato entre este filme e Jerry Maguire e Quase Famosos), Compramos um Zoológico mostra que a sensibilidade do diretor, quando associada a tramas aborrecidas como esta, serve de papel-de-presente fino para embrulhar objetos banais. Deixei a sessão de Compramos um Zoológico certo de que reencontrei o sujeito boa-praça de sempre; mas o homem, dessa vez, não tinha quase nada de inteligente a dizer.

(We Bought a Zoo, EUA, 2001) De Cameron Crowe. Com Matt Damon, Scarlett Johansson e Thomas Haden Church. 124min. C+

cine | Gato de Botas

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O primeiro Shrek é o melhor da série. Estou quase certo, vejam só, de que ele mereceria uma boa cotação neste blog (B+, digamos). Mas recomendo que, nesse caso, você não confie muito em mim: sempre fui uma mãe para as comédias que satirizam filmes conhecidos e, quando vi aquele desenho, eu tinha 21 anos. Em 2001, este blogueiro dizia/escrevia coisas que hoje me envergonham.

As três sequências de Shrek são bobagens bobíssimas, certo? A segunda era um pouquinho engraçada. As outras duas, nem isso. Não lembro delas, e duvido que muita gente lembre. Mas tenho vagas lembranças sobre aquele primeiro Shrek. Na época, num texto que escrevi (um post cheio de adjetivos, como quase tudo o que eu escrevia naquela época), o qualifiquei como “empolgante”, “vívido”, “alegre” etc. O que ficou na minha memória foi mais ou menos isso: uma animação rancorosa/recalcada, sim (é um fuck-off pra Disney, resumindo), porém cheia de joie de vivre; graça, entusiasmo.

É tudo o que (também resumindo) este Gato de Botas não tem. Possivelmente o filme será acolhido com carinho por críticos que rejeitam o humor despeitado de Shrek. Gato de Botas passa, nesse aspecto, à margem da franquia onde nasceu. Em parte, o faz por razões comerciais: existe toda uma impressão de desgaste associada à série. Mas a alternativa dos produtores (entre eles, Guillermo del Toro) me parece inócua: criar uma fita de aventura levemente cômica e com algo surreal (um dos personagens é um ovo falante!), com sotaque espanhol, que poderia ser descrita como, ai-ai, uma versão animada e em 3D para, sono, A Lenda do Zorro. Um cineasta mais sacana, um Robert Rodriguez, teria tratado os personagens e as situações de uma forma mais apaixonada. Mas Guillermo del Toro não é Robert Rodriguez. E Robert Rodriguez não está aqui.

(Puss in Boots, EUA, 2011) De Chris Miller. Com vozes de Antonio Banderas, Salma Hayek e Zach Galifianakis. 90min. C

[michel laub]

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1.
O diagnóstico do Alzheimer é feito em várias etapas. Primeiro é uma consulta simples, o médico pergunta sobre os lapsos de memória do paciente, se ele fuma e bebe, se toma remédios, se teve alguma doença grave e fez algum tratamento ou cirurgia nos últimos anos. O médico ouve os batimentos cardíacos, mede a pressão, pede exames clínicos de orientação e linguagem, e em seguida uma tomografia, e também uma ressonância magnética, e também uma dosagem de hormônios da tireoide, e também de cálcio e fósforo e vitamina B, e também recomenda o PET Scan e o SPECT, uma série de procedimentos para excluir outras causas para os lapsos, como o estresse, a demência, a arteriosclerose, a depressão e o tumor.

24.
Primeiro o meu pai deixou o assunto o mais próximo possível de uma rotina doméstica, e tenho até a impressão de que ele se empenhou para que a minha mãe continuasse lidando com isso como se nada houvesse acontecido, um esforço para continuar reproduzindo diante dela as manias costumeiras, e cada vez que eu telefonava ela dizia que ele continuava do mesmo jeito, os resmungos, a louça e as calças, o programa de rádio de manhã. Era como se ela e eu nos convencêssemos de que meu pai ainda era o mesmo, uma espécie de licença renovada a cada telefonema. Passou a ser comum ele repetir a pergunta que fez dois minutos antes, e dar dinheiro em excesso à faxineira ou ao porteiro, e mudar de humor no meio de uma conversa, mas parecia ainda estar longe a tarde de inverno em que ele surpreenderia a minha mãe, um gesto nunca antes visto, uma palavra que em quarenta anos de casamento ela nunca tinha ouvido da boca dele, uma novidade que anuncia uma sequência ainda mais acelerada de mudanças, meu pai perdendo um pouco do que qualquer um de nós reconheceria como algo único dele, e uma manhã ele acorda sem saber o nome de uma cidade, e na outra se um animal voa ou nada ou se arrasta, e numa terceira a marca do próprio carro e como se usa o acelerador e o freio, e de repente ele não sabe há quantos anos está casado com a minha mãe, e nessa tarde de inverno tomando chá e distraída com o relógio de parede que marca cinco horas ela percebe que ele não faz ideia de quem é e do que está fazendo ali.

[trechos do livro Diário da Queda, de Michel Laub]

cine | O palhaço

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Na revisão deste O Palhaço, finalmente entendi por que o filme me desagradou tanto: o terceiro ato, quando o personagem de Selton deixa o circo e sai pro mundo real, é de uma preguiça lamentável. Filmado sem muita imaginação, com uma pressa danada (e me parece uma das partes mais importantes da trama), esse trecho me incomoda mais que: 1. a overdose sentimental das últimas três ou quatro sequências; 2. a trilha sonora geleia-geral, cheia de firulas transnacionais pra impressionar fã de Gogol Bordello e Kusturica e 3. o spray sanitizante que o cineasta usa pra validar/filtrar aquilo que entende por “cinema popular”, com uma encenação aconchegante, bonita, inofensiva, afetuosa, lírica, sempre confirmando o nosso sagrado bom gosto audiovisual – um filme-irmão de 2 Filhos de Francisco, O Auto da Compadecida e de Segue o Seco, da Marisa Monte, portanto, pra ser exibido no Circo Voador depois de um show do Los Hermanos. Durante a projeção, acabei me identificando com o herói de Selton (que está muito bem no papel, aliás; acho até que dá pra escrever um belo texto relacionando a trajetória do ator com a composição deste personagem): um tipo sempre muito melancólico, desconfortável, querendo sair de cena e ir pra outro lugar.

(Brasil, 2011). De Selton Mello. Com Selton Mello, Paulo José, Giselle Motta e Teuda Bara. 109min. C

top 10 | Os livros de 2011

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Depois dos rankings de Melhores Filmes, Piores Filmes e Melhores Discos de 2011, encerro a minha retrospectiva com uma lista de 10 bons livros que li durante o ano.

Para não bagunçar os critérios, só entram no top aqueles que foram publicados pela primeira vez no Brasil em 2011. Essa regra exclui, por exemplo, um punhado de romances antigos do Philip Roth, seminários de Freud e Moby Dick.

Mas ele, o manual do jogo, não torna inelegíveis os livros novos do Roth (Nêmesis), do DeLillo (Ponto Ômega) e do Piglia (Alvo Noturno), além de um punhado de outros (Um Dia, argh) que não entram no ranking porque não entram. Paciência.

Por coincidência, quase todos os que estão nesta saíram pela Companhia das Letras. Não foi de propósito, gente: nada tenho contra as outras editoras; e, no mais, não estou ganhando cachê pra publicar este post.

10 Ilustrado | Miguel Syjuco

Este thriller sobre um misterioso assassinato em Manhattan (a vítima: um escritor filipino de sucesso internacional, mas rejeitado pelos próprios compatriotas) pode ser lido como uma sátira cruel sobre um país caótico, onde a criação artística se tornou uma aventura. Felizmente, soa menos como world music, mais como rock psicodélico.

9 Escuta Só | Listen to This | Alex Ross

Este livro de ensaios seria apenas uma espécie de coletânea de sobras do monumental O Resto é Ruído, publicado aqui em 2009. Surpreendente é notar que, com a gravata afrouxada, Ross escreve ainda melhor: rigor histórico à parte, o que ele compõe são belas crônicas de fé no poder de sobrevivência da música – erudita ou não.

8 Silenciosa Algazarra | Ana Maria Machado

Uma coleção de pensatas ainda mais despretensiosa que o greatest hits de Alex Ross, mas que pode comover quem, como eu, não vê sentido algum nas políticas públicas de incentivo à leitura. Um livro simples, inconformado e potente, escrito numa prosa direta, que não quer nunca nos iludir.

7 O Romancista Ingênuo e o Sentimental | The Naive and the Sentimental Novelist | Orhan Pamuk

Este ano, chegou ao país um bom livro do Nobel turco, O Museu da Inocência. Mas ainda prefiro esta coletânea de palestras sobre romances literários. O poder de deslumbramento dessas “aulas” pouco ortodoxas – lições sobre o mistério das grandes obras – equivale ao dos melhores romances que Pamuk criou.

6 Cinefilia | Antoine de Baecque

Havia o perigo de que Cinefilia se saísse uma espécie de livro didático sobre a cinefilia francesa moderna – nascida ainda na pré-história da nouvelle vague -, mas não há nada singelo na ambição de Beacque: o francês quer aproximar o leitor de uma história ainda cercada mais por mitos que por homens. Daria um ótimo filme.

5 Zeitoun | Dave Eggers

O melhor livro de Eggers é, quem diria, uma reportagem literária sobre um sobrevivente do furacão Katrina. A secura como descreve sofrimento do personagem evita, a todo custo, o sentimentalismo oportunista que geralmente acompanha a reconstituição jornalística de atos heroicos. O escritor cresceu.

4 Os Filhos da Viúva | The Widow’s Children | Paula Fox

Escrito em 1976, esta é uma das obras-primas de Paula Fox que foram descobertas talvez tarde demais (nos Estados Unidos, os livros adultos da escritora saíram de catálogo em 1992), mas que não perderam o viço. A habilidade como alterna os pontos de vista dos personagens – abomináveis, adoráveis – nos deixa sem ar.

3 Diário da Queda | Michel Laub

Para quem não conhecia os anteriores de Laub (meu caso), este Diário da Queda chegou como uma senhora surpresa: o escritor tem a coragem de enfrentar grandes temas – o holocausto e Alzheimer, para ficarmos nos maiores deles – com o tom catártico de quem divide segredos muito pessoais com o leitor.

2 Liberdade | Freedom | Jonathan Franzen

Não sei se Franzen encontrou tudo o que procurava neste “grande romance americano” – um Tolstói para os subúrbios da era Bush! Uma Paula Fox em cinemascope! Um Paul Thomas Anderson das letras! -, mas é emocionante assistir às peripécias de um autor que usa o talento (não é pouco) à serviço de ambições tão amplas.

1 Meus Prêmios | Meine Preise | Thomas Bernhard

Por falar em ambições épicas… Meus Prêmios, este livrinho póstumo de Bernhard (que o austríaco escrevia pouco antes de morrer, em 1989), tem apenas 112 páginas, com nove artigos sobre (vocês adivinharam) os prêmios recebidos pelo escritor. E é isso. Só isso. Mas o que parece uma curiosidade tolinha na biografia do autor logo se impõe como uma obra atualíssima: isso porque as pessoas seguem premiando e as premiações literárias são, e sempre serão, jogos patéticos de vaidade – que, ao fim e ao cabo, nos ensinam um tanto sobre o comportamento humano. Bernhard é dos poucos escritores que conseguem me fazer rir de raiva. Meus Prêmios é, dito isso, um livro muito engraçado – e, ao mesmo tempo, revoltante.

top 100 | Os filmes da minha vida (12)

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Neste episódio natalino, o ranking dos 100 filmes que iluminaram minha vidinha apresenta dois longas-metragens apetitosos, para nutrir a sua ceia.

Feliz Natal e até logo mais.

078 | Fargo | Joel e Ethan Coen | 1996

Vi este Coen no cinema, numa época em que eu queria escrever como Rubem Fonseca e dirigir filmes tão geniais quanto Pulp Fiction. Desde então, mudei muito (não sei se pra melhor), mas o desfecho de Fargo ainda segue em alta no meu ranking secreto das cenas mais bonitas do mundo. Eu teria que revê-lo para saber se ainda se sustenta como o meu favorito entre os filmes dos cineastas, mas isso é desimportante: hoje, lembro muito dos personagens e pouco das reviravoltas da trama (o que talvez explique sobre a força do filme).

077 | Feitiço do Tempo | Groundhog Day | Harold Ramis | 1993

Revi esta comédia tantas vezes que, ironicamente, às vezes a impressão era de que eu estava preso num Dia da Marmota cinematográfico (“vivi” o filme repetidamente, ainda que, a cada revisão, sempre descobrindo alguma novidade nele). Por um longo período da minha vida, a identificação com o herói de Bill Murray era total: eu me sentia um sujeito incapaz de crescer e aprender, mesmo quando cometia os mesmos erros duas, três, cinco vezes. Depois, quando parei de me incomodar com esse espelho, consegui notar o que existe de engenhoso no filme – não o truque de roteiro, mas a transformação sutil de um personagem.