Cinema

cine | O porto

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Confesso a vocês, amigos, que não foi pouco o meu desânimo quando li as primeiras notícias sobre este filme de Aki Kaurismaki. Escritas durante a cobertura do Festival de Cannes de 2011, essas reportagens meio genéricas informavam que o finlandês havia dirigido um longa sobre imigração ilegal na Europa, um dos temas preferidos dos cineastas que se escondem atrás de grandes temas.

Talvez as minhas expectativas (muito baixas) tenham contribuído para que eu me surpreendesse com um filme que, além de não se ater à “análise sociológica” de um assunto que está na moda, cria uma gambiarra cinematográfica que me parece instigante: o cineasta está, a todo momento, infiltrando um contexto realista (a truculência que a França impõe aos migrantes e “outsiders” em geral) numa “cidade paralela” que só existe mesmo na Kaurismakiland.

O diretor é finlandês, os personagens vivem na França, mas podemos fizer que Le Havre não se passa exatamente em nenhum desses país, mas flana numa terra cinematográfica que se desdobra como uma espécie de realidade alternativa — um território regulado pelo estilo de um autor. O laconismo dos personagens, o emprego muito específico do tempo (como que entorpecido, numa velocidade um pouco aquém à da vida) e a encenação de cartum (um cartum azulado e zombeteiro, diga-se) — entre outros traços tão próprios à câmera de Kaurismaki — aqui aparecem como uma forma enviesada de ver um tema que volta e meia aparece nos noticiários.

A (boa) diferença é que, enquanto tantos diretores comentam a questão com um realismo chapado, lamentando o destino terrível dos excluídos, o finlandês cria uma fábula otimista — sobre a relação de amizade entre um engraxate e um menino migrante — em que tudo aparentemente indica um final feliz. Mas, sorrateiramente, esse ambiente fantasioso de Kaurismaki aponta para tudo o que existe de cruel e caótico no outro lado do espelho. Isto é: no mundo do espectador.

(Le Havre, Finlândia/França, 2011). De Aki Kaurismaki. Com André Wilms, Blondin Miguel e Jean-Pierre Darroussin. 93min. B+

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cine | Projeto X

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Sempre que topo em algum lançamento da onda “found footage”, lembro logo do meu preferido entre os filmes de Lars von Trier, As Cinco Obstruções. No documentário, o diretor desafiava um ídolo (o cineasta Jorgen Leth) a refazer um curta-metragem obedecendo a uma série de restrições, todas elas determinadas (é claro) pelo próprio Trier. Há quem interprete essa obsessão por definir limites bem específicos para a encenação — que se nota em outros filmes do diretor, como Os Idiotas e Dogville — como um esquema de marketing. É, não é? Mas também podemos tomar essa estratégia como uma reação a uma época em que o digital passou a permitir enorme liberdade a quem faz filmes.

O filão “found footage” (como se mostra hoje) parece todo ele construído em torno dessa provocação de Trier — já que esses filmes baratos (em digital, com aparência tosca de exercício universitário) se submetem, de antemão, a um punhado de “obstruções” formais. A começar pelo ponto de vista do narrador, já que as imagens são captadas ora pelos próprios personagens principais, ora por sistemas de vigilância, ou por coadjuvantes que calham de flagrar as cenas via telefone celular ou câmera portáteis. O combo final nada mais é que a edição — para efeitos “informativos” — de um material bruto que evidencia algum crime ou fenômeno sobrenatural.

A maior parte dos filmes desse subgênero segue rigorosamente esse modelo realista, testando os efeitos que toda essa crueza provoca no espectador (em Cloverfield e Poder sem Limites, por exemplo, a graça é narrar tramas de sci-fi como se fossem flagrantes de reality shows). Projeto X é, ao menos em tese, um filme da lavra “found footage”: após um aviso de que a Warner lamenta por mostrar aquelas gravações (ou algo parecido), o que vemos são as imagens captadas por um grupo de amigos numa “festa de arromba”. São incalculáveis as opções de edição, já que praticamente todos os convidados têm iPhones à mão — e tomaram, desconfio, algumas boas doses de energético.

O “found footage” é um jogo de tabuleiro. É uma lástima (e aqui estou sendo dramático) que Projeto X não queira jogá-lo. Não por falta de ambição — o produtor Todd Phillips (de Se Beber, Não Case) tenta atualizar as chulices de Clube dos Cafajestes para a geração do iPad e de Kanye West. O modelo visual é usado (aí sim) como um aplicativo para tornar o filme mais “urgente” a uma parcela teen do público — e abandonado quando o diretor não precisa dele (principalmente nas cenas em que a narrativa se transforma em clipes de hip-hop). O desfecho, fuzilando cruelmente as minhas pobres expectativas, anula toda a suposta anarquia da trama com um alívio romântico que caberia numa season finale de Gossip Girl.

Superficialmente, é uma comédia anormal (e, por isso, interessante). Mas Lars von Trier pediria para fazer de novo — porque, claramente, alguém não entendeu como a brincadeira funciona.

(Project X, EUA, 2012). De Nima Nourizadeh. Com Thomas Mann, Oliver Cooper e Jonathan Daniel Brown. 88min. C

cine | Poder sem limites

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Numa boa entrevista ao The A.V. Club, Nicolas Winding Refn contou que gosta de filmar a partir de premissas muito acessíveis e simples – exemplo: um personagem correndo contra o relógio, fora da zona de conforto, metido numa situação em que nada funciona conforme o esperado. Quando se define uma estrutura dramática porosa (e genérica) o suficiente, ele explica, o importante passa a ser a forma como o cineasta a preenche. Talvez por isso a trama de Drive – sobre um motorista sem nome, misterioso durante e após a projeção – pareça um tanto oca quando tentamos contá-la a alguém.

Ainda mais tolo é o enredo de Poder sem Limites, um filme que deixa a suspeita de ter sido concebido com método semelhante ao de Refn. Na sinospe, o que encontramos é uma daquelas fitas de fantasia sazonais sobre os wonder years de super-heróis, com os conflitos que a linha de produção da Marvel leva de 15 a 20 minutos para compor. É um ponto de partida absolutamente comum – mas que, por ser trivial, libera o diretor estreante Josh Trank para fazer um filme de heróis que, descontada a trama, tenta ser diferente de todos os outros.

Como acontece em Drive, Trank usa a singeleza do argumento para criar um pacto ultraveloz com uma parcela do público, acostumada às artimanhas do gênero. Esses espectadores talvez aceitem rapidamente jogar o filme, apesar de tudo o que ele tem de anormal (e não é pouca coisa). Porque, ainda que seja mais um filme de super-herói, ele parece ter sido criado após o apocalipse do subgênero, no day after de uma overdose cansativa de blockbusters supercustosos e repetitivos. É como se Trank se empenhasse, a cada cena, para encontrar soluções audiovisuais capazes de reanimar os truques que o público dos multiplexes conhece intimamente.

O efeito de desconstrução/reconstrução mais interessante, aí, se dá com a manipulação das câmeras, que “narram” o filme – sempre de acordo com as convenções de outro subgênero manjado, as fitas de “found footage” (à la A Bruxa de Blair). Trank parece partir do ponto em que Cloverfield e [REC] pararam, contaminando imagens de “reality TV” com temas e efeitos surreais. A diferença (que muito me anima) é que, ao usar o CGI como se não houvesse amanhã, este filme vai muito mais longe, tratando o cinema como um brinquedo nas mãos de uma criança agitada. As cenas aéreas, delirantes, nos mostram como, na média, as fitas de fantasia são medrosas.

Algumas soluções visuais podem emocionar quem tem fé no sci-fi, acima de tudo quando os personagens usam superpoderes para fazer as câmeras flutuarem: é como se o próprio filme levitasse graciosamente, em planos fantasmagóricos, sem limites (eis um belo acerto, aliás, do título em português).

Todo o trecho mais, digamos, lúdico da trama, em que os amigos experimentam os poderes, me interessa mais que os setores inicial e final do filme: aos poucos, o longa se desloca de Cloverfield e X-Men ao território camp de um Carrie, A Estranha, com resultados também curiosos (as cenas da relação entre pai bronco e filho nerd e solitário são de uma crueza que não se vê nem em adaptações de Chris Nolan), mas que parecem-me empurrar o filme aos solavancos a um desfecho trágico.

Por mim, tudo bem. É assim que terminam as fitas de super-heróis. E Poder sem Limites pertence a essa casta, ainda que pouco se identifique verdadeiramente com ela. O que temos é um filmezinho cheio de ansiedade e fúria (bem adolescente, portanto), à imagem do anti-herói autodestrutivo que Trank cria para si. Parecido com muitos outros, mas singular.

(Chronicle, Inglaterra/EUA, 2012) De Josh Trank. Com Dane DeHaan, Alex Russell e Michael B. Jordan. 84min. B+

cine | Shame

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Podemos acusar Steve McQueen de muitos pecados (o mais óbvio: vaidade, já que o homem adora mostrar que sabe filmar com elegância), mas não de se ausentar diante do personagem central de Shame, um homem viciado em sexo. O ponto de vista do cineasta é tão aparente que o filme parece transcorrer em duas linhas simultâneas: numa delas, conhecemos um personagem transtornado, em confronto com os próprios desejos; e, em outra, encontramos a faixa de comentários de McQueen sobre esse tipo transtornado, indicada por uma trilha sonora sempre pesarosa e por uma câmera fria, deadly serious, capaz de transformar cada encontro sexual em sessão de tortura.

O cineasta investe esforço para se colocar sempre ao lado do protagonista, usando uma série de recursos estilísticos (às vezes, com a sutileza de um Gaspar Noé) para tornar palpável, cinematográfica, uma tragédia íntima. A atuação de Michael Fassbender define com tanta precisão a agonia lacônica desse homem-zumbi (uma espécie de Psicopata Americano sem ironias, para a sensibilidade dos fãs de Drive) que resta a McQueen interpretá-lo, via instalações chiques de imagem&som. Provocam incômodo (em mim, é claro) as cenas em que o diretor dilata gratuitamente a ação ou vai pescar referências “cool” de De Olhos Bem Fechados (de Kubrick) e de Irreversível (de Noé). Um cineasta ainda in progress.

O arremate do roteiro também me parece acidentado. As primeiras cenas, que mostram o cotidiano doentio do personagem, são fortes porque prendem Fassbender numa estrutura circular, sem saída tanto pra ele quanto pro espectador. O filme vai titubeando e se despregando do eixo, no entanto, quando se vê obrigado a criar possibilidades de redenção ao anti-herói, seja na relação com a irmã invasora (ainda assim, até o diretor deixa tudo de lado pra ver Carey Mulligan cantando New York, New York), seja num clímax que providencia a fórceps uma inevitável descida ao inferno (lembranças tristes de Réquiem por um Sonho maltrataram minhas retinas). O diretor tenta se impor a todo custo, mas o personagem (ufa) o nocauteia — é mais complexo e singular que o filme em si.

(Inglaterra, 2011). De Steve McQueen. Com Michael Fassbender, Carey Mulligan e James Badge Dale. 101min. B

top 100 | Os filmes da minha vida (18)

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Amigos, esta é uma semana especialmente movimentada, com incríveis novidades na vida deste blogueiro. Espero, por isso, que vocês relevem o chuvisco de posts, que não estão caindo neste website com a regularidade prometida.

Lamento. Mas, para desempenar a barra de rolagem, cá está um novo episódio de uma saga com filmes que, por motivos quase insondáveis, foram importantes para a minha vida.

No capítulo de hoje, dois longas não muito antigos.

066 | Amantes Constantes | Les Amants Réguliers | Philippe Garrel | 2005

Um amigo meu viu o filme acompanhado da ex-namorada, que queria reatar a relação. Ela não aguentou e rapidamente saiu da sala de projeção, mas ele preferiu continuar com o filme e o namoro acabou definitivamente ali. Possivelmente essa também teria sido minha opção diante de imagens que produzem efeito hipnótico em quem se deixa embriagar por elas. Não sei se esse amigo gostou do filme (talvez não), mas é o de menos: ainda que trate de episódios históricos importantes por um viés que vira pelo avesso um punhado de discursos oficiais – é um réquiem endereçado à geração de 68 -, o que me assombrou antes de tudo foi o choque provocado por essas cenas em P&B puído, rugoso, acho até que bruto, expressivas o suficiente para enxotar do cinema certos espectadores e, em outros, inspirar fascínio eterno.

065 | Magnólia | Paul Thomas Anderson | 1999

Nem foi amor fulminante: na primeira sessão, lembro que as firulas do filme mais me incomodaram que entusiasmaram. O que ficou dele – e, mais tarde, acabou me levando de volta a ele – foram as canções de Aimee Mann. Cada vez que eu as ouvia, uma imagem do longa voltava à minha memória, de forma que as imagens de Paul Thomas Anderson rodaram centenas, milhares de vezes na minha cabeça, atuando como o refrão de uma música pop muito eficiente. Depois me rendi e revi o filme, que hoje me parece belo por causa da intensidade até inconsequente (vide Presságio, para mais informações sobre o tema) como se lança às próprias obsessões. Como numa boa faixa de Mann, as fragilidades de melodia/arranjos são compensadas pela emotividade de uma voz vigorosa, a que não falta verdade.

cine | A música segundo Tom Jobim

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Ainda que esta informação não vá interessar a vivalma, devo informar-lhes que foi graças a um programa de televisão que me engracei com a bossa nova: não lembro quando, acho que por volta de 1990, acabei obcecado por um desses especiais comemorativos que reúnem figurões da MPB. Gravei o showzinho numa fita VHS, que rodou no meu videocassete até quase empalidecer. Desafinado se tornou uma das músicas mais importantes da minha pré-adolescência, ombreando com hits do R.E.M. e da Legião Urbana. Era uma canção inquebrantável, capaz de resistir à interpretação mais efêmera, ao maneirismo mais kitsch. Para um menino de 10 anos, era como descobrir um segredo e um tesouro em pleno horário nobre.

As imagens daquela fita VHS voltaram à minha cabeça durante a projeção de A Música Segundo Tom Jobim. Por isso, me perdoem se este post se tornar muito pessoal (no mais, nunca é tarde para lembrar que isto é apenas um blog, um diário). O doc de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim reúne mais de uma dezena de clipes (muitos deles, televisivos) em que cantores brasileiros e estrangeiros interpretam músicas de Tom Jobim. Há clipes de boa e má qualidade, interpretações notáveis e excêntricas, vídeos novos e velhos: a música, no entanto, sobrevive gloriosamente ao tempo, às diferentes vozes e idiomas; a tudo.

O que num primeiro momento pode parecer um formato singelo (e ouvi pessoas inteligentes comentarem que o filme nada mais é que uma colagem de curiosidades do YouTube) logo se mostra um artesanato audiovisual muito bem urdido, com uma montagem que alinha os clipes num desenho melodioso. Sem narração em off ou depoimento de, digamos, Nelson Motta, o filme prefere a sugestão sutil ao didatismo tosco – ainda que o recurso digital usados para animar as fotografias em preto e branco me pareça um tanto trivial. Em algum momento, um cartaz descreve a bossa nova como “a primeira música moderna brasileira”. Nada mais coerente, então, que este belo longa-metragem aqui: um filme moderno brasileiro.

(Brasil, 2012). Documentário de Nelson Pereira dos Santos e Ana Jobim. 88min. B+

top 100 | Os filmes da minha vida (17)

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No episódio pós-carnavalesco da saga mais irrelevante da internet mundial, cês ficam com mais dois filmezinhos que ganharam uma série expressiva de 10, notas 10, na minha apuração particular de votos & quesitos.

Para não burlar o regulamento defendido pela comissão organizadora (isto é: eu), este ranking parmanece totalmente fiel ao compromisso de revelar muito sobre as minhas lembranças cinematográficas e, infelizmente, pouco sobre os filmes em si (até porque não lembro muito bem de vários deles).

Neste capítulo, por exemplo, temos um longa-metragem que geralmente aparece em listas de melhores e outro que, bem, cês entenderam como funciona este jogo.

068 | Conta Comigo | Stand by Me | Rob Reiner | 1986

Não me julguem: aos 10 anos de idade, um dos meus passatempos preferidos era caminhar perigosamente na linha de trem que cortava o município litorâneo onde minha família se instalava nas férias de verão. À noite, o trajeto podia ser medonho: quando a máquina barulhenta se aproximava, e os trilhos começavam a tremer, e estávamos (por azar) papeando entre morros, a única escapatória era atirar o corpo nas pedras que forravam a encosta e esperar o fim do turbilhão. Sobrevivíamos. E, após a passagem do trem, algo ficava mais forte na amizade entre os garotos que participavam da aventura. Um sentimento ilustrado à perfeição por este Conta Comigo, um dos maiores entre todos os filme-de-menino

067 | Tempos Modernos | Modern Times | Charles Chaplin | 1936

Foi deveras incomum meu primeiro contato com os filmes de Chaplin. Lembro que eu era muito novo (nove ou dez anos) e que minha mãe, psicóloga, estudava os filmes do homem para escrever um artigo ou algo que o valha. Passávamos tardes esquadrinhando as fitas de VHS, vendo e revendo cenas num indo-e-vindo caótico. Hoje, não consigo separar um filme do outro, e vejo o cinema do diretor como um aglomerado de imagens que parecem contar uma única história. A exceção é Tempos Modernos, que, pouco tempo depois, resolvi rever inteirinho, sem interrupções. O efeito foi de um deslumbramento tão intenso que, na época, pensei lá comigo: ‘este é o modelo de um grande filme’. Desde então, não o revi para confirmar ou desmentir aquela impressão.