Mês: novembro 2011

Mixtape! | Novembro, noite e dia

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Nem estou acreditando, meus amigos: a mixtape de novembro sobreviveu à temporada silenciosa/sangrenta do blog e está aqui, inteirinha, entre nós. E ela é imprevisível, é incrível, é uma guerreira.

E é (tcharam!) diferente das outras.

Talvez vocês não lembrem, mas a coletânea de outubro era (reparem a ambição do blogueiro) uma trilha sonora pra um filme que não foi feito. A deste mês é mais, digamos, convencional: um apanhado de músicas que alegraram meu curto recesso por tempo determinado. 10 faixas, e só.

Tá, não é só isso: também é mais uma das minhas mixtapes lynchianas. É!

Porque, quando reuni todas as músicas, percebi que elas formariam dois EPs – um mais rebolandinho, puxado pro pop/hip-hop, e outro mais guitarrístico. Decidi, então, unir costurar as duas faces da moeda num CD que começa de um jeito (noturno), termina de outro (diurno) e nos surpreende com um solavanco estranho lá na metade. Vocês viram Estrada perdida? É um pouco assim.

Curto muito essa mixtape, de verdade – e acho que vocês deviam fazer o download das musiquinhas em MP3 para ouvi-las nos headphones enquanto caminham no parque. Por isso, desta vez não existe a opção de ouvir o disco aqui no site, em altíssima tecnologia e baixíssima fidelidade. Back to basics, certo?

Dentro do arquivo compactado vocês encontram, nesta ordem, Katy B, Childish Gambino, Thundercat, Drake (que está na foto do post), Beach Boys, Atlas Sound, Los Campesinos, Dum Dum Girls, Charlotte Gainsbourg e Real Estate. A lista de músicas está na caixa de comentários.

Por falar em comentários, não vou ficar pressionando ninguém a escrever opiniões gentis (ou não) sobre a mixtape. Todos estamos muito ocupados com as nossas vidinhas complicadas, né mesmo?

(Tô brincando: tentem comentar qualquer coisinha, ok? Abraço)

Façam o download da mixtape de novembro.

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cine | Terraferma

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O italiano Emanuele Crialese me surpreendeu com Respiro — que é uma masterclass sobre filmar com leveza —, mas foi descendo a montanha com filmes maiores, mais “importantes”, mas que se curvam aos pés dos Grandes Temas. Nos dois casos, a pauta é o drama da migração na Europa.

O anterior, Novo mundo, nos distraía com firulas fellinianas — quando penso nele, tudo o que lembro é de legumes gigantes e de gente boiando numa enorme piscina de leite. Em Terraferma, que competiu em Veneza, nem isso: o que resta é um cineasta bem intencionado, “engajado”, que apela a um sentimentalismo grosseiro para mostrar o sofrimento de africanos que chegam de barco a uma ilha turística perto da Sicília.

Há cenas de beleza gritante, BONITAS (tudo em maiúsculas), com água e barcos. E há sequências que forçam a barra para nos comover. Numa delas, um homem louro enxota com um remo os negros que tentam se salvar de um afogamento. Imagino os produtores do filme usando essas imagens para convencer a Academia de Hollywood a selecionar o longa, que representa a Itália na disputa do Oscar.

Crialese adota o ponto de vista de um rapaz inocente (talvez ingênuo demais), que vive na região e talvez não tenha ainda refletido sobre a truculência como os imigrantes são tratados ali. No filme, africanos são mostrados por um filtro exótico, quando não simplesmente pueril (são anjos caídos numa terra cruel). Talvez o personagem os veja assim. Ou talvez o filme seja tão infantil quanto esse herói.

Eu queria acreditar que o garoto não é apenas um veículo para os comentários sociais (óbvios, óbvios) do diretor. Será que não? Aos 20 minutos de projeção, minha vontade era de mandar um SMS para o Crialese com o seguinte texto: “sim, eu conheço o problema e sim, concordo que a situação não é fácil; você tem o direito, portanto, a não ser assim tão didático na próxima vez.”

(Itália/França, 2011). De Emanuele Crialese. Com Filippo Pucillo, Donatella Finocchiaro e Beppe Fiorello. 88min. C

cine | Sleeping Beauty

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O filme de estreia da australiana Julia Leigh, que foi selecionado para a competição de Cannes, tem cenas que nos seduzem pela beleza das imagens — os enquadramentos são simétricos, “clean” o bastante para deixar a impressão de que alguém fez uma faxina incrível no set pouco antes do começo das filmagens —, mas nos chocam (ou tentam nos chocar) tão logo percebemos o horror das situações. Num resumo bem superficial, é como se um cineasta iniciante, ainda deslumbrado com os próprios ídolos, convidasse o fotógrafo de Sofia Coppola para filmar um roteiro de Michael Haneke.

Por falar em Sofia, uma das sequências remete quase que literalmente à atmosfera de Encontros e Desencontros: num quarto chique de hotel (e aí, sim, claro, estamos falando num ambiente impessoal e higienizado), a personagem principal aparece deitada na cama, de forma que a silhueta do corpo desenha uma espécie de moldura humana para o cenário urbano que brilha na janela. É um plano bonito, que sugere várias metáforas sobre dezenas de questões, mas cadê Julia Leigh?

Já a primeira cena, em tons de cinza e branco, se adaptaria bem a um dos primeiros filmes de Haneke: a lente não pisca enquanto essa mulher se submete a um exame médico, e tem um tubo transparente enfiado goela abaixo. A câmera não sente nada, talvez por se tornar cúmplice do estado de espírito da protagonista: elas (a câmera e a personagem) suportam desapaixonadamente um martírio non-stop.

Mas, como estamos dentro de um conto de fadas (nenhum cineasta escolhe o título A bela adormecida em vão), o purgatório de Lucy (Emily Browning) vai ganhando tons surreais: da metade da trama em diante, é como se essa princesa linda, branca e oh-tão-inocente tivesse tomado o caminho errado e, em vez de chegar em casa, batesse a porta da mansão de De Olhos Bem Fechados. Quando ela se submete a um serviço bizarro de prostituição para homens idosos — desacordada, ela recebe clientes na cama para encontros “sem penetração” — o delírio parece se sobrepor à realidade.

O inferno é que essa viagem-floresta-adentro, além de nunca se libertar de duas ou três referências de fácil identificação (que se tornam sufocantes, pra dizer o mínimo), tem como destino os lugares-comuns de uma conhecida deprelândia cinematográfica, já desgastada em festivais. Entendo: é mesmo complicado viver num mundo em que as relações humanas se tornaram mecânicas e vazias, mas, dois dias depois de ter visto o filme, ainda me pergunto o que Julia Leigh teria a comentar sobre esse assunto.

(Austrália, 2011, 104min) Escrito e dirigido por Julia Leigh. Com Emily Browning, Rachael Blake e Ewen Leslie. C

♪ | Noel Gallagher’s High Flying Birds

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Please Please Please
(Fiona Apple)

Please please please
No more melodies
They lack impact, they’re petty
They’ve been made up already

Please please please
No more maladies
I’m so tired of crying
You’d think I was a siren

But me and everybody’s on the sad same team
And you can hear our sad brain screaming

Give us something familiar
Something similar
To what we know already
That will keep us steady
Steady
Steady going nowhere

Please please please
No apologies
At best they buy you time
Until you next step out of line

Please please please
No more remedies
My method is uncertain
It’s a mess but it’s working

And maybe if you tried it out
You won’t like it when you’re crying out

Give us something familiar
Something similar
To what we know already
That will keep us steady
Steady, steady
Steady going nowhere

Please please please
No more melodies
They lack impact, they’re petty
They’ve been made up already

Please please please
No more maladies
I’m so tired of crying
You’d think I was a siren

But me and everybody’s on the sad same team and
You can hear our sad brain screaming

Give us something familiar
Something similar
To what we know already
That will keep us steady
Steady, steady, steady, steady
Steady going nowhere

Please please please
No apologies
At best they buy you time
Until you next step out of line

Please please please
No more remedies
My method is uncertain
It’s a mess but it’s working

And maybe if you want to try it out
You won’t like it when you’re crying out

Give me something familiar
Somethin’ similar
To what we know already
That will keep us steady
Steady, steady
Steady going nowhere

Primeiro disco solo de Noel Gallagher. 10 faixas, com produção de Noel Gallagher e David Sardy. Sour Mash Records. 56

♪ | On a Mission | Katy B

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Eis um disco que sabe ativar aquela propriedade alucinógena da música pop: o poder de provocar o entusiasmo infantil que sentíamos ao ganhar um brinquedo novo. Porque é assim que Kathleen Brien (a inglesinha Katy B, 22 anos) se movimenta nesta lojinha colorida: abrindo e fechando embalagens, trocando acessórios sonoros como quem experimenta marcas de perfumes num free shop. A futilidade pode parecer gritante (e já vejo gente lavando a mão com álcool gel para digitar pedradas contra o CDzinho). É e não é: em novembro de 2012, On a Mission possivelmente terá sido superado por meia dúzia de outros discos pop tão eficientes, reluzentes, divertidos e bem produzidos quanto. Só que existe algo libertário na alegria como Katy vai flanando por subgêneros que geralmente são tratados com pedantismo por uma elite de entendidos (e dá pra listar um punhado deles, do dubstep ao drum ‘n’ bass e o diabo a quatro). Nesse vale-tudo, o disco me lembra as farras do Basement Jaxx, que davam a volta ao mundo da dance music sem a intenção de chegar a um lugar específico. Katy não é tão arrojada (no mais, esse é um disco de estreia que soa como tal). Mas tampouco dá sinal de burrice (exemplo: a letra de Easy Please Me, um bom argumento para mulheres que curtem bad boys, mas não querem namorar presidiários). No mais, ela está numa missão. Acompanhemos.

Primeiro disco de Katy B. 12 faixas, com produção de Benga, Geeneus e Zinc. Lançamento Columbia Records. 78

cine | Pina

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Ah, cá estamos de volta ao incrível mundo dos documentários europeus em 3D! Ou quase isso (calma que explico).

Quando lançou Pina (B), Wim Wenders falou à imprensa que era antigo (muito antigo: duas décadas!) o projeto de filmar as coregrafias de Pina Bausch. Mas que só descobriu como levá-lo a cabo quando a tecnologia 3D digital apareceu no mercado. Este é, portanto, um documentário concebido para ser visto em tela grande, com óculos especiais. Imagino que, se exibido no Cinemark aqui de Brasília, possivelmente faria algum sucesso dividindo sessões com Premonição 5 – outro filme que perderia força se exibido sem efeitos tridimensionais.

Essa breve introdução se faz necessária porque, infelizmente (pois é), não vi Pina em 3D. O que traz (perdoe o trocadilho) uma outra dimensão a este post: sem o bônus visual (ao que parece, perfeitamente adequado ao tema do filme, ressaltando o movimento dos corpos dos bailarinos), o que temos é apenas um doc muito vistoso, mas sem o fator deslumbramento que nos distrairia de algumas escolhas (não tão deslumbrantes) de Wenders.

Outro obstáculo que talvez tenha minado minhas expectativas: assisti a este filme logo depois de George Harrison: Living in the Material World. A comparação entre os dois longas, aliás, se mostrou mais cruel do que eu temia. Porque, enquanto Scorsese se aproxima do personagem-celebridade como quem não quer nada (mas quer tudo), Wenders usa todo tipo de firula cênica para iluminar, maquiar e nutrir o perfil de Bausch – e o faz como que para compensar a ausência de um ponto de vista musculoso para o legado da alemã.

Pode parecer – e parte da crítica europeia repetiu essa ladainha infeliz – que o cineasta se esconde para deixar que Pina apareça. Só que não, não dá para comprar essa ideia, já que as escolhas narrativas do filme (as entrevistas etéreas com os bailarinos, as cenas à la cartão-postal filmadas em paisagens lindíssimas, as ‘licenças poéticas’) são, obviamente, quase todas de Wenders. Será que o 3D salva tudo isso?

Perguntinha retórica, é claro. Se esse é o projeto mais bem sucedido do diretor desde Buena Vista Social Club (e graças a Pina, a autora das coreografias muito inventivas que dominam o longa), não chega a resolver um bloqueio antigo: aquele Wenders dos anos 1970-80, que aparecia com muita propriedade nos filmes que fazia, segue meio sumido.

♪ | Take Care | Drake

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A Rede Social, de David Fincher, é o filme que passa na minha cabeça quando ouço o segundo disco de Aubrey Drake Graham, Take Care.

Eles não tratam, obviamente, do mesmo tema: o canadense, pra nossa infelicidade, não escreve músicas sobre cutucadas&retuitadas. Mas acredito que ele poderia estar (numa outra dimensão?) ali perdido entre os geeks extraordinários de Harvard: vestido num moletom surrado, crescendo e enriquecendo solitariamente diante de um Macbook Air.

Por mais que se queira tratar Drake como apenas mais uma celebridade do R&B, existe algo incomum (e novo) nesse cantor de 25 anos – traços de temperamento que talvez não serão percebidos de imediato por quem trata a música pop comercial americana como um conjunto de fórmulas necessariamente burras e datadas. É que, como os personagens de A Rede Social, Drake não se surpreende com nada: e até o dinheiro (e estamos falando de muito dinheiro) se tornou um valor subjetivo demais para livrá-lo do desencanto. É como se ele tivesse nascido exatamente após o fim de uma festa.

Take Care segue, sim, uma série de convenções do gênero. Não é um disco arredio, de forma alguma. Tem um punhado de convidados especiais, que possivelmente trocaram arquivos de mp3 via e-mail, e recorre a um repertório de tramas (sobre fama, mulheres, telefonemas constrangedores e a amizade dos bróder) que já nos parece corriqueiro. Mas, análise superficial por análise superficial, A Rede Social também pode ser visto como um filme de gênero: um teen movie universitário dos anos 80 com, digamos, diálogos mais velozes e uma subtrama à la fita de tribunal. Ou não?

Quando convidou Trent Reznor (do Nine Inch Nails) para compor a trilha de A Rede Social, David Fincher avisou a ele que a música teria um papel essencial no projeto: ela apontaria para uma camada discreta de sentidos que não estava tão visível no roteiro. No que Reznor, atento à conotação soturna do texto, escreveu as harmonias cinzentas que não encontramos numa comédia de John Hughes. Pois a qualidade dessa colaboração é semelhante à que se nota entre Drake e os produtores/compositores Noah “40” Shebib e The Weeknd.

Enquanto Shebib alarga os espaços vazios das faixas (Over my dead body, que abre o disco, até assusta pela falta de ornamentos: parece uma versão demo), o The Weeknd (o apadrinhado mais famoso do cantor) divide com Drake a mise-en-scene noturna das mixtapes House of Balloons e Thursday. Essas plataformas sonoras acaba por reforçar, mesmo indiretamente, o que existe de mais instável nos versos de Drake. E, apesar de o cantor insistir que está tudo bem, este não é um disco tranquilo.

A sensação de que o melhor sempre já passou (e já havia passado antes mesmo do disco de estreia, Thank me later, cuja faixa principal atendia por Over), e de que não há mais sonho possível (who will survive in América?, perguntaria Kanye West), vaza sem que ele perceba. Num álbum supostamente confessional (o espírito de blogueiro pós-chute-na-bunda afasta o Drake das ‘mentiras sinceras’ do The Weeknd), há muito a ser lido nas entrelinhas. “No fim das contas, somos só eu, eu mesmo e meus milhões”, ele diz, em Headlines. Uma conclusão que Mark Zuckerberg possivelmente curtiria.

É nesses momentos de tensão forma/conteúdo que Take Care nos lembra como a música pop (a melhor música pop) pode soar, ao mesmo tempo, oportunista e oportuna, superficial e profundamente contemporânea. A colaboração entre Rihanna, Jamie xx e Gil Scott-Heron (na faixa-título) talvez resuma todos os belos curtos-circuitos do disco: um hit cheio de ranhuras, um dubstep farofento que parece oscilar entre o conforto absoluto e uma leve sensação de que alguém entrou no estúdio e, aos 45 do segundo tempo, subverteu o mix. “Vou tomar conta de você”, diz o refrão. Soa um pouquinho irônico.

Entre R. Kelly e James Blake (e mais para a egotrip de My Beautiful Dark Twisted Fantasy que para as dores de cotovelo de 808’s and Heartbreak), Drake conseguiu criar um disco megacorporativo e ultracomercial, mais confiante e ainda mais pragmático que o anterior. Não há como abandonar, no entanto, uma persona cheia de conflitos e incertezas, que garante ao álbum uma corzinha triste e bem atual; um blue-metálico, apesar dos holofotes quentes e dos efeitos especiais: “Parece que me importo, mas só diante das câmeras”, Drake confessa. E, na real, alguém se importa?

Segundo disco de Drake. 18 faixas, com produção de Noah “40” Shebib e outros. Lançamento Universal Music. 82