Mês: agosto 2008

Superoito ainda superexposto

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Hoje, por volta das 14h30, enquanto cortavam meu cabelo.

“Você saiu numa revista, não saiu? Um coquetel, né?”

“Não. Não era eu. E pode tirar o topete, por favor.”

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TROVÃO TROPICAL

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Tropic thunder, 2008. De Ben Stiller. Com Ben Stiller, Robert Downey Jr e Jack Black. 107min. ***

Tiremos logo o rinoceronte da sala: como paródia de superproduções, Trovão tropical está longe de representar alguma grande ousadia. Não é uma comédia tão demolidora quanto O jogador, de Robert Altman (até por optar pela caricatura em absolutamente todos os detalhes). E só deve incomodar àqueles que vêem como material explosivo numa cena que sugere a morte de um urso panda.

Então não dê trela para a equipe de marketing do filme: como brincaderia com os clichês de fitas de guerra, aliás, o longa de Ben Stiller poderia ter se assumido como um filhote tardio de M.A.S.H. Um eco distante. Uma homenagem. Um aceno.

Nos venderam este metablockbuster de uma forma equivocada por que, para o próprio bem, o filme me parece menos mega, menos ambicioso do que dá a entender. Os ataques de Stiller às manias de astros milionários (e aos chiliques de cineastas metidos a deuses) não devem ser levados terrivelmente a sério. Quando muito, a comédia ri da imagem grotesca que fazemos das celebridades – em revistas de fofoca, fotos de tablóides e programas apelativos de tevê.

Dito isso, não seria mais interessante encarar Trovão tropical como uma entre as comédia de turma, um tanto arruaceiras e bagunçadas para padrões de grandes estúdios, na linha de Ligeiramente grávidos e Quem vai ficar com Mary? Foi com esse espírito que entrei no cinema – e saí bastante convencido, muito satisfeito.

Ben Stiller não é um ótimo diretor – e ele tem perfeita noção disso. Logo no início da trama, o cineasta arrogante que comanda o filme-dentro-do-filme (uma espécie de Apocalypse now for dummies) é mandado para os ares. Para que esta comédia funcione, nos avisa Stiller, é preciso explodir o diretor e conceder todo o poder aos atores. Uma decisão que faz toda a diferença quando se tem Robert Downey Jr (que aqui vai muito além do Homem de Ferro) e Jack Black.

Se as gags são inconstantes (e há paródias mais eficientes, vide Chumbo grosso), não encontraremos em nenhuma outra comédia do gênero tiques tão divertidos quanto os dos personagens de Downey Jr (um ator australiano de prestígio que interpreta um oficial negro – e não consegue abandonar o papel) e de Black (o comediante viciado em crise de abstinência). E será difícil encontrar tiradas de Chris Rock tão perfeitas quanto as discussões entre Downey Jr e o rapper Alpa Chino (Brandon T. Jackson, também excelente). Stiller não é autor: é o técnico que valoriza os talentos dos jogadores em campo.

Com a estrutura de teatro de variedades, Trovão tropical metralha piadas na esperança de que alguma nos acerte. É excessivo, acelerado – mas menos caótico do que eu gostaria. A overdose começa logo nos trailers falsos à Grindhouse e atinge o cúmulo do patético nos créditos finais, com um Tom Cruise rebolando num figurino asqueroso. Mas Stiller, depois de empurrar o trem para fora dos trilhos, consegue chegar ao destino sem baixas, e amarrar um roteiro que, de surpresa, se revela circular, até polido.

Esse humor gonzo filtrado para o gosto do espectador de sitcom acaba rendendo a superprodução da Dreamworks mais feliz desde Shrek. E não é que os dois filmes, sátiras hilariantes e inofensivas, têm muito em comum?

MR. VINGANÇA

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Boksuneun Naui Geot/Sympathy for Mr. Vengeance, 2002. De Chan-wook Park. Com Kang-go Song, Ha-kyun Shin e Du-na Bae. 119min. ***

Semana passada me convidaram para participar um debate num cineclube. O filme a ser discutido: Mr. Vingança, a primeira parte da trilogia da vingança de Chan-wook Park (depois dele, vieram Oldboy, que acho uma beleza, e Lady Vingança, que ese engasga com os próprios excessos). “Sei que você acompanha o cinema oriental, filmes inspirados em quadrinhos, todo esse universo mais pop”, e foi assim que me abordaram. Não sou grande fã de quadrinhos. Não tenho esse conhecimento todo de cinema oriental. Odeio falar em público. Mas aceitei o convite – como quem se alista numa espécie de missão humanitária de alto risco.

O detalhe constrangedor é que eu, o expert em cinema oriental, não havia assistido ao filme. Pior: quando finalmente consegui ver o longa, me descobri numa situação delicada – eu não havia me interessado muito por ele. Na verdade, comecei a desconfiar que meu caso com Oldboy teria sido uma exceção dentro da filmografia de Park. Mr. Vingança, numa primeira olhada, me pareceu talentoso mas simplório – um conto de vingança narrado com um estilo espalhafatoso, que chama atenção para si como uma banda de heavy metal mediana que se destaca graças ao figurino extravagante.

Fui ao debate assim, sem chão, sem argumentos, meio sem saber o que debater – para mim, não havia o que tirar daquele filme. Foi aí que me surpreendi com Mr. Vingança e comigo mesmo. No final da exibição, eu estava diante de um outro filme: mais robusto, seguro de si, incômodo e bem diferente de tantos contos de vingança que nos vendem por aí.

É um filme como tantos outros, já que vê na vingança um círculo de agressões sem vencedores. Mas é um filme diferente dos outros, já que essa tese vem acoplada à forma do filme – ao modo como Park filma os violentos atos vingativos. Em Oldboy, ele levaria esse olhar ao extremo na cena em que uma sessão de pancadaria (à videogame) é alongada até provocar nauseas. Em Mr. Vingança, os planos longos e os silêncios pesados corrompem os clichês de fitas policiais, emprestam um sentido diferente a eles. Não há recompensa para a violência. A narrativa às vezes beira o surrealismo, mas a dor é real.

No debate, uma experiência menos sangrenta do que eu esperava, os convidados (todos estudantes universitários) atentaram para outros traços do filme: a brincadeira com gêneros (o filme oscila entre o melodrama e o thriller policial), os homenagens do diretor ao cinema americano (especialmente a Hitchcock, quando o protagonista é praticamente abandonado na metade da trama) e a mania que ele tem de aumentar a potência de cada seqüência até o ponto mais exagerado. Nos créditos finais, um personagem explica a “moral da história” tão didaticamente que quase nos obriga a desprezar qualquer outra forma de entender o filme. É um grande cinema? Não sei, talvez seria melhor enxergar nele um cinema em construção – mas capaz de provocar quase duas horas de boa conversa.

Fiquei com vontade de rever Lady Vingança. De preferência com um debate logo em seguida.

THE HAWK IS HOWLING | Mogwai

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O novo álbum do Mogwai sugere um flashback. Onze anos depois da estréia, Mogwai young team, o escoceses voltam a trabalhar com o produtor Andy Miller. Apesar de recorrer a alguns elementos de música eletrônica, retornam a um formato mais econômico de pós-rock. Escoradas em guitarra, bateria e piano, as faixas são sempre instrumentais (lá se vão os vocais de Rock action, de 2001) e que se espalham em longa duração (lá se vai o esquema compacto de Mr. Beast, de 2006). São orgulhosos passos para trás.

Esse ajuste ao modelo original provavelmente fará com que The hawk is howling atenda às expectativas dos fãs e de parte da crítica. É como se a banda tivesse criado o álbum para responder a resenha da Pitchfork sobre Mr. Beast: “O Mogwai acerta quando deixa a própria música fluir, respirar”, escreveram. Se é assim, então o novo disco é um acerto.

Mas um acerto calculado. Para quem esperava um novo Mogwai young team, o disco faz o possível para provocar lembranças agradáveis. As duas primeiras faixas contêm o álbum inteiro: I’m Jim Morrison, I’m dead é esparso, belo e triste. Já Batcat revida com um rolo compressor de guitarras. Lá no final do disco, I love you, I’m going to blow up your school alia os dois humores e chega perto do clima sombrio de Come on die young (1999), que ainda vejo como o grande momento deles.

Ainda bem que o Mogwai divulgou o nome das músicas com bastante antecedência, ou elas roubariam a cena. Para quem os conhece bem, The hawk is howling sai-se como uma demonstração competente, ainda que previsível (mas não é isso que os fãs querem? Que eles parem logo de tentar novidades?), de que esses radicais também sentem saudade. Play it again, Mogwai.

Sexto álbum do Mogwai. 10 faixas, com produção de Andy Miller. Wall of Sound/Play It Again Sam. **

Casa nova, vida nova

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Ainda não arrumei todos os móveis nos devidos lugares, mas já começo a me adaptar ao layout novo do blog. Essa imensidão branca. Essas fotos com molduras cafonas. Esses textos sem nexo (ok, eles sempre foram assim). Daqui a pouco começo a colar cartazes na parede e adesivos na janela.

OH (OHIO) | Lambchop

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Entre as cinco ou seis pessoas que idolatram o Lambchop, é uma espécie de consenso que Nixon, de 2000, foi a álbum que colocou a banda entre as mais importantes do novo country alternativo dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que desdobrava o som apresentado por Uncle Tupelo no início dos 90, o disco parecia mais amplo até que o próprio gênero, com referências de soul music, rock psicodélico e das confissões sombrias de um Leonard Cohen.

Pois bem. Como uma das cinco ou seis pessoas que idolatram o Lambchop, não tenho como discordar muito disso. Mas o tempo provou que, para o futuro da banda, o álbum seguinte a Nixon seria ainda mais decisivo. Em Is a woman, o crooner Kurt Wagner liderava um time de quase 20 músicos numa espécie de orquestra de silêncios. Ouça o disco com pressa e você pensará que Kurt se faz acompanhar apenas do próprio violão. Aumente o volume a, aos poucos, você reconhecerá os sopros, as cordas, os efeitos eletrônicos, os pianos, os sussurros.

Talvez seja uma aventura tão impresssionante quanto o próprio Nixon, mas, talvez por exigir o cuidado com que se trata uma peça de porcelana, confinou definitivamente o Lambchop num nicho preservado por cinco ou seis fãs muito dedicados. Como aconteceu com o Tindersticks, pagou o preço por burilar um estilo que não parece oferecer atrativos ou facilidades aos não-iniciados. O Lambchop é o que é, goste ou não: a banda de música ambiente mais agoniada que conhecemos.

Os dois álbuns mais recentes – o ótimo Damaged, de 2006, e este Ohio – não fazem absolutamente nada para satisfazer quem procura neles um novo Wilco. Estação errada, amigo. A faixa-título abre o disco mais para os standards interpretados por Frank Sinatra que para Neil Young. “Green doesn’t matter when you’re blue”, cantarola Wagner, satisfeito com o trocadilho. A seguinte, Slipped dissolved and loosed, soa ainda mais bucólica. “Um pássaro canta uma canção para mim”, avisa, numa onda mansa de melodia que parece nunca, nunca, nunca mesmo será capaz de se fazer maremoto.

Se Is a woman é uma obra-prima da tensão represada, e Damaged ainda comovia com o lado cronista de Wagner, Ohio é de um otimismo frágil, desconfiado. “Acredito no amor, acredito em bebês, acredito na mãe e no pai, e acredito em você”, canta, como uma criança, em I believe in you. Antes disso, o cantor afirma ter perdido a fé nas primaveras (enquanto repete frases musicais de Is a woman) e, em Popeye, emenda sha-la-las com a pergunta desesperada da vez: “Você pode me sentir agora?”.

Quem precisa da multidão? Em Ohio, o Lambchop nos avisa que talvez não seja tão trágico assim escrever álbuns que serão idolatrados por cinco ou seis pessoas. Cada vez mais, uma banda satisfeita com o mundinho acinzentado que criou para si.

Nono álbum do Lambchop. 11 faixas, com produção de Mark Nevers e Roger Moutenot. Merge Records. **

LINHA DE PASSE

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Linha de passe, 2008. De Walter Salles e Daniela Thomas. Com Sandra Corveloni, Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, João Geraldo Rodrigues e Kaíque dos Santos. 113min. ***

Acredite nas expectativas criadas por Cannes: este é um dos melhores filmes de Walter Salles.

Talvez o melhor, com Terra estrangeira. Por isso mesmo, impossível menosprezar a presença de Daniela Thomas. Como a diretora afirmou, o longa foi desenvolvido como um processo coletivo, aberto a alterações de última hora – um filme de colaborações. Ao mesmo tempo, uma produção que depende de um roteiro de arquitetura complicada, uma trança de histórias sobre uma família que, quando nada mais dá certo, é capaz de formar uma teia de resistência e fraternidade.

Já adianto uma reclamação que aparecerá nas resenhas de quem vê uma alma postiça no cinema de Salles: as tramas são amarradas umas às outras com tanta precisão e assepsia que esse novelo narrativo chega a parecer incoerente com um projeto tão apegado à origem documetnal. Os atores vivenciaram as experiências dos personagens de tal forma que se perdem neles, mas como aceitar esse “retrato da realidade” sem notar as pressões exercidas pelo deus do roteiro?

Que ninguém confunda essa estrutura, porém, com os mosaicos de Iñárritu & Arriaga. Além de não apelar ao discurso apocalíptico, Linha de passe não condena os personagens à condição de sintomas para uma doença social ou para um mal-estar do mundo contemporâneo ou para qualquer uma dessas bobagens que encontramos em filmes como Babel e 21 gramas. Pelo contrário: cada trama se move numa direção e todas elas são concluídas (ou não) com o mínimo de dignidade. O futuro dessa gente é um mistério que o filme não quer e não pode resolver.

Apesar de aparentemente simples, é um projeto mais ambicoso que Central do Brasil ou até Diários de motocicleta. Salles e Daniela não querem menos que interpetar o Brasil contemporâneo – um desafio nada modesto. Conseguem desenhar esse ensaio sobre a nossa cegueira com muita habilidade, já que, além de desmontar estereótipos (as figuras do evangélico e do motoboy, tão banalizadas em todo canto, ganham em complexidade), se dedicam a uma idéia muito profunda sobre as relações humanas no país: a de uma “vida na horizontal”, em que o auxílio mútuo muitas vezes compensa a ausência do Estado.

A dupla consegue arredondar esse discurso sem pesar a mão numa narrativa que é ágil mesmo quando se esforça para nos mostrar que nada de muito importante acontece (as cenas filmadas no trânsito de São Paulo e em campos de futebol são exemplos dessa falsa simplicidade do longa). Se algumas soluções manjadas do roteiro quase prejudicam essa direção sensível, o trabalho do elenco compensa quase todos os deslizes.

E já que falamos em elenco… Provavelmente não havia outra atriz melhor que Sandra Corveloni na seleção de Cannes – ela interpreta a mãe com tanta convicção que consegue se infiltrar mesmo nas cenas em que não está presente. O clímax do filme, por exemplo, é todo dela – fora do plano, mas no coração de um filme que sobrevive ao próprio esquematismo e, afinado aos melhores momentos do cinema de Salles, vence o obstáculo da polidez com um olhar sentimental e sensato – para os personagens e o país onde eles vivem.