Mês: dezembro 2008

Merriweather Post Pavilion | Animal Collective

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animalPára tudo. Sério isso? Verdade? O melhor álbum de 2009? Mas jáááááááááá?

Não estou exagerando (se bem que, ok!, esse tipo de entusiasmo é sempre um perigo). Panda Bear, o mais paparicado do trio, já afirmou que trata-se de “álbum mais bem gravado” da banda. É pouco.

Se os discos anteriores eram maravilhas psicodélicas (continuo ouvindo Feels três vezes ao dia), o novo tem o peso e a relevância de uma tardia carta de intenções, de um resumo de carreira e, simultaneamente, de um largo (e, ao mesmo tempo, coerente) passo a frente. O Animal Collective fecha o foco para enxergar longe. E isso é ouro, meus amigos.

Mesmo quem tem asco do trio (conheço uns três) deveria pensar três vezes diante de um disco com… uma capa que deixa a gente zonzo, meu deus!

Sem gozações ou complicações: é, por qualquer ângulo, de qualquer perspectiva, da cabeça aos pés, o maior álbum da banda. E tenho dito. Se eu fosse você, o aceitaria como um estranho (e duradouro) presente de Natal.  

Sei que este cedezinho não deveria ter me surpreendido desta forma. Disco após disco, o Animal Collective estilhaça a própria cartilha. Contra o rótulo de “freak folk”, trocaram os violões por um trator de ruídos duros (tente ouvir Strawberry jam em volume máximo sem dar entrada na ala de emergência do hospital). Contra a simplificação de quem os associam apenas ao espírito criativo das crianças, espelharam as responsabilidades da vida adulta em versos cada vez menos inocentes. Nesse caminho torto, Merriweather deveria parecer uma outra curva acentuada. Deveria.

Mas o que espanta aqui é o rigor como eles conseguem agregar, dentro de uma mesma atmosfera, muitas das experiências que apareceram nos discos anteriores – e ainda assim soar renovados, já que acentuam as estruturas de dance music como forte sustentação para o álbum.

Desde os primeiros discos (e com mais clareza em Person pitch, de Panda Bear), o Animal Collective está mais próximo da eletrônica que do rock. Mesmo quando picotava e colava acordes de violão. Em Merriweather, esse estilo chega a um estado de graça. 

Está tudo aqui, em versões que parecem até definitivas. Na primeira faixa, In the flowers, Avey Tare identifica nos movimentos de um dançarino uma experiência mística (“Se eu pudesse abandonar meu corpo por apenas uma noite”, deseja o narrador). A melodia, lentamente, vai do ambient ao caos. Eis que papai Panda Bear, mais caseiro que nunca, irrompe na linda My girls, com uma síntese para os mantras domésticos de Person pitch:  “Não me preocupo com bens materiais. Tudo o que quero é um lar para minhas meninas”, repete, repete, e repete.

Tão cedo, o principal tema do álbum está na mesa: contra a rotina mecânica de um mundo sem alma, a banda encontra refúgio no transe espiritual (ou lisérgico), no conforto do lar e na formação de uma comunidade de amigos. De certa forma, eles continuam a atualizar uma antiga filosofia hippie. Mas o interessante no Animal Collective (e neste disco em especial) é como, nessa fuga, ele constrói e habita um novo espaço musical.

Daí em diante, o álbum segue numa espiral de êxtase e desconforto. “Você também está assustado?”, eles desafiam, no corinho de Also frightened. Em Daily routine, Panda Bear lista atividades do cotidiano. E a delicada No more running parece um aceno distante para No surprises, do Radiohead: e um bilhete de despedida para um planeta sem eixo.

Tão agoniado e às vezes tão suave, como eles conseguem?

E esqueci de Bluish, a canção mais acessível que eles já gravaram? E Brothersport, a canção-testamento, e com ecos de tropicália? De tão rico em camadas e intenções, Merriweather Post Pavilion (o título vem de um tradicional palco ao ar livre em Columbia onde, nos anos 70, imperava o clima de jams comunitárias) exige diferentes interpretações – e aposto que haverá muita gente disposta ao desafio. Por aqui, e por enquanto, soa como uma verdadeira, sincera adaptação da psicodelia dos anos 60 aos ares confusos do século 21.

Nada pouco para um simples álbum de rock. 2009, desculpa aí, acabou de acabar.

Oitavo álbum do Animal Collective. 11 faixas, com produção de Ben Allen. Domino Records. 9/10

PS: Amanhã viajo para passar o ano novo no Rio de Janeiro. Enquanto dou uns mergulhos, o blog fica parado até semana que vem. Vocês nem vão sentir falta que eu sei. Desejo pra vocês, e pra mim também, um 2009 de boas vibrações. E que (façam figa!) eu consiga comprar uma estante pra sala ainda no primeiro semestre. Até!

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Get guilty | A.C. Newman

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newmanImagino que, nesta altura, Carl Newman não queira mais nada da vida. Comandar uma superbanda elogiadíssima como o New Pornographers, trocar idéias com a Neko Case, ser eleito o novo rei do power pop, casar-se com a diretora de marketing da Matador Records… O que está faltando? Plantar uma árvore?

Ok, brincadeirinha. O dia-a-dia de um homem bem-sucedido de 40 anos deve reservar (ou pelo menos deveria) angústias mais complexas que a decisão de vender o carro para financiar um apartamento.

Ainda assim, o novo álbum solo de Newman não deixa transparecer esse suposto dark side of the living-room. Se compararmos ao anterior, o entristecido The slow wonder, este sugere serenidade, paz de espírito, um tantinho de saudade dos bons tempos (quem não sente?) e o clima de um passeio no parque com o labrador.

Ou, para os mais cruéis, trata-se de um daqueles álbuns adoráveis-porém-desimportantes que chamam de ‘exercício de estilo’. Mas seria muita maldade com um dos tiozinhos mais simpáticos do indie rock.

Cada vez mais, Newman encurta as distâncias entre a carreira solo e o repertório do New Pornographers. Se o tom introspectivo de Challengers, do Pornographers, parecia uma seqüência do primeiro disco solo de Newman, Get guilty é, pelo menos em grande parte, um retorno ao power pop soltinho de Twin cinema. Cada faixa ganha um refrão gordo, um coro alegre e os versos absurdos (e abstratos) que o compositor escreve até dormindo. Tudo extremamente agradável.

E, quando faz o que sabe, Newman até aperfeiçoa a própria técnica, como na genial Submarines of Stockholm.   

A diferença está nas (poucas) faixas que tentam um tipo de sentimentalismo confessional, meio sem jeito (mas convincente), um auto-retrato que rende declarações de amor como All of my days and all of my days off, composta para a digníssima esposa. Que é uma canção bonita, da forma como as baladas mais aguadas de Paul McCartney são bonitas. 

“Agora te entrego todos os meus dias, e todos os meus dias de folga”, o gentleman promete, como uma espécie de compromisso apaixonado de casamento. É uma canção infinitamente fofa. E, mesmo que Newman não queira, também um tanto assustadora.   

Uma vida mais ou menos ordinária, enfim.     

Segundo álbum de A.C. Newman. 12 faixas, com produção de Phil Palazzolo. Matador Records. 6.5/10

Put the lights on the tree | Sufjan Stevens

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Religiosamente, Sufjan Stevens mima os fãs com um mini-álbum de Natal. São disquinhos brincalhões, despretensiosos e, às vezes, tão indigestos quanto rabanada congelada. Não é o caso de Songs for Christmas vol. 8, que traz surpresas como a excelente Christmas in the room, um enfeite frágil e luminoso que merecia ter entrado num álbum “de verdade” do rapaz.

Infelizmente não existe ainda um videoclipe da música (a minha preferida deste fim de ano). No lugar dele, taí então Put the lights on the tree, de 2006 . Tudo como desculpa para que eu deseje um (er, que vergonha) Natal muito feliz a vocês quatro. Vocês merecem. Vocês são o máximo. E mandem um beijo pra vó. Por mim, ok?

Noble beast | Andrew Bird

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andrewAntes de se transformar num artesão do indie rock, o violinista Andrew Bird gravou três álbuns de influência jazzística, inspirados na sonoridade das big bands. Nós conhecemos os artistas que caminham do popular em direção ao erudito. Andrew fez o percurso contrário.

Ele se apaixonou pelo pop (por Radiohead e Jeff Buckley, num primeiro momento) e, em seguida, o pesquisou com a dedicação de um aluno aplicado. Os álbuns gravados a partir de The swimming hour (2001) registram essa descoberta, essa labuta, e soam um pouco como objetos de estudo.

The mysterious production of eggs (2005) e Armchair apocrypha (2007) tratam (com distanciamento) do rock barroco. Noble beast analisa o folk – e, às vezes na mesma faixa, encontra as conexões prováveis e improváveis entre Nick Drake, Radiohead e o Beck de Mutations

Andrew não define uma hierarquia clara entre referências do passado e do presente, o que faz deste álbum uma delícia para o obcecado por música pop: Masterswarm, por exemplo, evoca tanto as melodias escorregadias de In rainbows quanto as orquestrações tristes de Five leaves left. A abertura, Oh no, começa toda pomposa, à Van Dyke Parks – mas acaba soando como uma homenagem aos arranjos econômicos do Shins.

E não dá para subestimar as letras rebuscadíssimas, que mesclam poesia hippie, expressões esnobes (que caíram em desuso) e delírios de ficção-científica. Em Not a robot, but a ghost, os versos de Andrew parecem brincar com os acordes. Uma ingênua zoeira eletrônica faz pano de fundo para a confissão de um robô (ou seria um fantasma?) que conhece decifra o código para terminar a guerra.

Andrew demorou mais de sete meses para lançar Noble beast. É mesmo um álbum de detalhes, de notas delicadas e etéreas, de letras precisas (provavelmente reescritas à exaustão), e que dedica atenção absoluta à atmosfera que costura as canções bucólicas, dedilhadas ao violão. 

Se existe um grande problema é que, com 14 faixas, o modelo acaba se repetindo cedo demais. Mas, se existe uma grande qualidade, e que faz deste o melhor disco do compositor, ela está no modo como Andrew passou a se sentir confortável dentro desse pop cerebral, esse pop-maquete, esse pop de recortar e colar e estudar e recriar. 

Ele constrói lindas canções a partir da criação dos outros. E, se você decidir enxergar beleza nessa brincadeira, Noble beast deixará de soar óbvio e começará a parecer um tantinho sublime. 

Oitavo álbum de Andrew Bird. 14 faixas, com produção de Andrew Bird. Lançamento Fat Possum. 7/10

Crepúsculo

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Twilight, 2008. De Catherine Hardwicke. Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke e Ashley Greene. 122min. 4/10

Britney Spears, emocore, Lindsay Lohan, porntape, twitter, Gossip Girl: deve ser muito, muito complicado ter 15 anos de idade em 2008.

Daí que entendo perfeitamente por que tanta menininha está caída por Crepúsculo – o livro, o filme, a trilha sonora (tem Paramore!) e a marca de perfume. A protagonista, Bella, também se sente deslocada neste mundo cruel que a subestima, emburrece e, mais importante, não a compreende.

E válvulas de escape para a frustração adolescente sempre adotaram táticas mais ou menos sujas, né? Álbuns de heavy metal, livros de Stephen King, super-heróis atormentados e vampiros, sempre, muitos, sedentos, irresistíveis, os outsiders por excelência.

Três marcos da minha estranha juventude: Cláudia Ohana com dentes afiados e olheiras profundas, Winona Ryder toda lânguida em Drácula de Bram Stoker e Garotos perdidos.

Por isso sei do apelo de Crepúsculo. Já estive lá. Que garotinha inocente nunca desejou se apaixonar terrivelmente por um vampiro topetudo, obviamente metrossexual, empapado em pó-de-arroz e com aquela aparência blasé de me-sinto-bem-mais-velho-que-vocês? Que garotinho inocente nunca torceu para acordar com o visual de um integrante de banda de rock gótico?

É tudo tão simples! Perdoo o descontrole da menina da poltrona ao lado, que, durante a sessão do filme, não parava de elogiar para as amigas a suposta beleza incomparável e hipnótica de um ator que parece atado a uma máscara de pierrot. 

A tendência é que, em dez anos, Crepúsculo seja encarado por esse público como uma lembrança tola. Já que, como filme de horror ou como filme de amor (e quase toda história de vampiros tem um pouco dos dois elementos), trata-se de um brinquedinho medíocre. Desculpa aí, meninada, mas o negócio aqui é de arrepiar o cérebro.

Até tentei encontrar alguma graça neste Romeu e Julieta from hell, mas essa tal de Catherine Hardwicke é osso duríssimo de roer. Se Aos treze era uma estocada de grosseria, aqui ela consegue conceber as cenas de suspense mais desengonçadas e toscas da temporada, sempre recorrendo a um fumacê medonho para evocar tensão. E há as florestas sombrias. Sempre as florestas, sempre sombrias.

Isto aqui pode ser encarado como tipo bastante inofensivo de filme B. Mas o complicado mesmo, pelo menos para mim, foi suportar a companhia da personagem principal, uma heroína entediada e aborrecida, encantada por um morto-vivo tão expressivo quanto uma lápide. Eles se merecem.

Mas ok, tá certo, esta nunca foi uma fase fácil da vida.

20 melhores filmes de 2008 (Parte II)

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Antes de encerrar de vez esta saga (como se alguém estivesse muito preocupado com isso, tsc), aí vai uma rápida lista de filmes que viraram meu 2008 do avesso mas que, por não terem sido lançados no circuito de exibição, foram excluídos do top 20. São eles, os cinco (ou seis) outsiders:

1. Sonata de Tóquio – Kiyoshi Kurosawa
2. Aquele querido mês de agosto – Miguel Gomes
3. Diário dos mortos – George A. Romero
4. Boarding gate e Horas de verão – Olivier Assayas
5. Deixe ela entrar – Tomas Alfredson

Talvez vocês sintam falta de um filme chamado A espiã nesta lista de 20 favoritos. Ele entraria muito facilmente neste top caso não tivesse sido incluído, por descuido meu (e propaganda enganosa dos distribuidores), na seleção do ano passado. Espero que algo parecido não aconteça com o sexto colocado da nova lista. Se acontecer, minhas desculpas antecipadas.

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10. A fronteira da alvorada – Philippe Garrel

O cinema de Garrel não é narrado no pretérito perfeito: são poemas sobre a forma como ele, o passado, atormenta o tempo presente. Daí que, apesar das diferenças superficiais, A fronteira da alvorada conversa de igual para igual com Amantes constantes – dois filmes que borram fronteiras entre o antigo e o novo, o sonho e a realidade. Juntos, são um mundo de ilusões em preto-e-branco.

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9. Wall-E – Andrew Stanton

Na primeira metade, um filme mudo da era digital. Na segunda, uma ficção-científica apocalíptica com verve crítica herdada de um Stanley Kubrick (talvez filtrado pelo sentimentalismo de Spielberg, mas nada preocupante). Entre um pólo e outro, um herói solitário que talvez não encontraremos nos filmes mais recentes de Hayao Miyazaki. O último romântico. Em uma animação que guardarei para mostrar aos meus netos.

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8. Leonera – Pablo Trapero

O novo de Pablo Trapero talvez não provoque reações tão imediatas quanto os primeiros colocados desta lista, mas é um filme tão maleável às incertezas e aos mistérios da vida que talvez seria melhor admirá-lo por uma luz diferente. Neste pequeno filme, Trapero retrata uma situação pouco conhecida (a vida das presidiárias grávidas) sem esconder todas as questões morais envolvidas num certo ambiente. Há os que cineastas que preferem defender uma posição: Trapero filma a dúvida, o dilema incontornável, a contradição. 

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7. Paranoid Park – Gus Van Sant  

Antes de voar alto na bolsa de apostas de Hollywood para o Oscar 2009, Van Sant filmou um conto de juventude que não teria chance alguma de disputar estatuetas. Azar da Academia. Paranoid Park talvez o filme mais positivamente juvenil do cineasta, já que aberto para a descoberta de experiências audiovisuais (o clipe, a videoarte, o cine-poema, o thriller) e para o imprevisível – aliás, onde mais encontraríamos um bate-papo imaginário entre Elliott Smith e Dostoiévski?

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6. A bela Junie – Christophe Honoré

O lado B de Canções de amor também é uma ciranda amorosa, mas narrada como uma canção de Nick Drake. Em tons de azul, tomado por sentimentos barrocos, inspirado numa antiga história de amores cruzados (transposta para os corredores de um colégio francês do século 21), feito para a televisão, é o filme em que Honoré finalmente nos convence de que prestar reverências explícitas a François Truffaut nem sempre pode ser considerado um pecado – neste caso, o próprio Truffaut teria se orgulhado de provocar esse tipo de frio na espinha.

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5. A questão humana – Nicolas Klotz

Muito mais que um ensaio provocativo sobre as relações entre os métodos nazistas e os padrões de relacionamento numa grande corporação (ainda que elas existam, argumenta o filme), é uma reflexão tão corajosa sobre as tragédias e traumas do século 21 – e, como em Garrel, sobre um passado que não nos abandona, não nos deixa em paz – que o tamanho das intenções de Klotz superam as eventuais quedas de ritmo da narrativa. E existe ator mais completo que Mathieu Amalric? Um passo para trás, Paul Thomas Anderson.

Sweeney Todd

4. Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet – Tim Burton

Ou: um filme de Tim Burton e Stephen Sondheim, tamanha a qualidade da colaboração entre cineasta e compositor. Burton não se contenta com uma adaptação – ele praticamente se deixa engolir pelo anti-herói da Broadway, e o que nasce desse estranho cruzamento é um filme tão auto-referencial (há cicatrizes de Batman e Ed Wood) quanto estranho, talvez até por soar excessivamente agressivo, dentro do repertório do diretor. A seqüência final é a mais cruel do ano – e trata-se de uma superprodução.  

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3. Antes que o diabo saiba que você está morto – Sidney Lumet

Falando em crueldade… O retorno de Lumet ao mundo dos cineastas vivos é uma tragédia levada às últimas, terríveis conseqüências. Uma trama que poderia ter rendido um thriller esquemático (mais um filme sobre assalto frustrado?) é tratada pelo cineasta como uma questão de vida ou morte. Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke, excepcionais, entram no jogo com a entrega que o projeto exige. O resultado não poupa ninguém – e, se alguém procurava algo do gênero, taí um filme que machuca de verdade.

nocountry

2. Onde os fracos não têm vez – Ethan e Joel Coen

Talvez um ano seja muito pouco para convencer os detratores dos irmãos Coen de que Onde os fracos não têm vez é, além de um belíssimo faroeste moderno, uma senhora encenação da cultura da violência nos Estados Unidos (e aí, meu irmão, favoritismo no Oscar e Queime depois de ler não facilitam a vida de ninguém). O que talvez decepcione quem abriu uma exceção para este filme é que ele não nega (pelo contrário, confirma) uma série de temas e obsessões que podem ser encontrados em longas como Fargo e Barton Fink. Mas, ao adaptar rigorosamente o livro de Cormac McCarthy, os Coen se viram obrigados a limar os tiques de um estilo que já começava a dar pinta de cansaço. Nunca soaram tão econômicos, concisos. Um detalhe. Mas obras-primas são feitas de detalhes.

I'm Not There

1. Não estou lá – Todd Haynes

De tanto escrever sobre I’m not there, acho que lembro mais dos textos estabanados que escrevi (e das minhas defesas em voz altíssima) que do filme em si. Outro dia peguei um trecho na tevê, e percebi que talvez – talvez – eu não teria passado por uma sessão de hipnose. É o grande filme de Todd Haynes (e, quando falamos no diretor de A salvo, não estamos falando de qualquer um), e – mais impressionante que isso – um que consegue vencer o desafio quase impossível de travar um diálogo com a obra de Bob Dylan e deixar que o espírito dessa obra contamine a narrativa. Veja só: ainda há muito o que escrever sobre I’m not there

*

Agora é a hora em que vocês comentam sobre seus filmes favoritos do ano e ficamos quites. Ok?

20 melhores filmes de 2008 (Parte I)

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…E eu reclamando da dificuldade de montar uma lista de melhores álbuns do ano.

No fim de uma escalação complicadíssima, nada menos que 15 ótimos concorrentes ficaram no banco, a ver navios, excluídos (infelizmente) desta lista de melhores filmes de 2008. Não me peçam para fazer isso de novo (pelo menos não até o fim do ano que vem, por favor).

Primeiro, as regras da partida: só entram no top aqueles que estrearam no circuito de exibição brasileiro durante o ano. Isso significa que muitos dos meus favoritos da Mostra de São Paulo e do Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) ficaram de fora. Os outsiders ganham uma listinha à parte, que vocês lêem amanhã (não se pode ter tudo de uma vez só, ok?).

Antes dos melhores (e antes que eu finalmente concorde com a idéia de que esse tipo de balaio de gatos é mesmo uma sandice), fiquemos com a raspa da panela. Os cinco piores de 2008:

1. Um crime americano – Tommy O’Haver
2. Max Payne – John Moore
3. Antes de partir – Rob Reiner
4. Noites de tormenta – George C. Wolfe
5. A guerra dos Rocha – Jorge Fernando

(Se bem que Espartalhões consegue ser mais insuportável que todos esses, mas prefiro não lembrar). Sem mais:

ultimaamante

20. A última amante – Catherine Breillat

Catherine Breillat e Asia Argento numa bela lição sobre como sabotar as convenções de um romance de época. Pena que muitos críticos tenham preferido discutir a ausência de cenas de sexo explícito numa fase supostamente recatada da cineasta. É um filme ousado, que olha para a frente – mas não da forma escandalosa como esperávamos.

nomeproprio

19. Nome próprio – Murilo Salles

Talvez com mais erros que acertos, Murilo Salles abre o diário desesperado (e desengonçado) de Clarah Averbuck como quem salta do precipício: a disposição de explorar um ambiente que desconhece faz do longa uma rara  investigação sobre os mistérios da juventude. Como Averbuck, é um filme-impasse, à procura de uma identidade. 

shortbus

18. Shortbus – John Cameron Mitchell

Com esta comédia romântica de sexo explícito, Mitchell criou um Annie Hall para os inferninhos. A provocação pode parecer superficial, mas o que se esconde sob o choque é uma galeria de personagens que lidam com a paixão de forma mais calorosa, alegre e plausível que todas as castas encarnações de Meg Ryan.

hell

17. Hellboy II: O exército dourado – Guillermo del Toro

Funciona menos como uma seqüência de Hellboy e mais como uma continuação para as obsessões de Guillermo del Toro, o cineasta que amava os monstros. Uma doce história de amor, uma coleção de brinquedos coloridos, um épico para fãs de RPG – e, por fim, o melhor filme de super-herói do ano.

chanson

16. Canções de amor – Christophe Honoré  

Como uma canção pop que não se entrega de imediato, o musical de Honoré só me conquistou numa segunda audição. Aí me rendi à beleza escondida numa peça aparentemente trivial – algo exatamente igual às minhas primeiras experiências com Belle and Sebastian. E tem a leveza de um assobio.

blood

15. Sangue negro – Paul Thomas Anderson

Ainda que eu não seja o maior defensor do épico de Anderson (ops: prefiro as questões existenciais do protagonista de Embriagado de amor), também fui soterrado pela impressionante ambição de um filme que encena  Os Conflitos da América com a crueza e a clareza de um diagnóstico médico. Eu não veria novamente. Não é que acabei vendo?

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14. Senhores do crime – David Cronenberg

De um filme de Cronenberg, melhor não esperar por um relato realista das tramóias da máfia russa. Sem estribeiras, o cineasta toma o factóide para compor um conto de fadas em torno de loucas disputas de poder. Brinde: uma inacreditável, hilariante seqüência de pancadaria num banheiro público. 

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13. 4 meses, 3 semanas e 2 dias – Cristian Mungiu    

A história recente da Romênia pela janela lateral: a partir de um drama universal, e sempre grudado nas personagens, o cineasta permite que o espectador identifique uma atmosfera de constante opressão. Um ensaio até bem simples sobre o pânico, mas intenso e assustador.

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12. Encarnação do demônio – José Mojica Marins 

Solto novamente nas ruas, Zé do Caixão encontra um país estranho, brutalizado, sob o domínio do mal. Importante notar que o cinema de Mojica também mudou: auto-referencial e com um sorriso de gozação, ele só ganha ao tratar o personagem como um símbolo, uma grife da cultura pop brasileira. O clímax não poderia ter sido filmado em outro lugar que não num parque de diversão. 

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11. O nevoeiro – Frank Darabont

M. Night Shyamalan viu o fim dos tempos, mas Frank Darabont notou o apocalipse da civilização por uma lente ainda mais cruel. Um pequeno filme B com os ruídos e a fúria de uma tragédia grega. E, claro, um desfecho que ainda tenho medo de enfrentar no meu pior pesadelo. O horror.