Mês: março 2009

Los Angeles | Flying Lotus

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O novo clipe do Flying Lotus é uma bela colagem (ainda que um tantinho óbvia, vá lá) dos filmes de ficção-científica 2001: uma odisséia no espaço, Blade Runner e O império contra-ataca. Também é uma colcha de retalhos (nada óbvia, ei) das faixas Brainfeeder, Camel, Beginners falafel e Auntie’s lock/Infinitum. Ou seja: o álbum Los Angeles numa cápsula para consumo em viagem espacial. Como é que o diretor Brendan Sinnott consegue dar coerência a esse balaio de gatos? Da forma mais elegante, impressionante possível.

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Che

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cheone

Che: part one, 2008. De Steven Soderbergh. Com Benicio del Toro, Demián Bichir, Santiago Cabrera, Rodrigo Santoro e Catalina Sandino Moreno. 129min. 6/10

Cheguei ao desfecho de Che com a impressão de ter visto uma reconsituição técnica (e nada mais) para uma tema cujo lado subjetivo, emotivo, foi subestimado. É um filme sobre como Che Guevara contribuiu para a Revolução Cubana. E não sobre quem é o homem, ou o guerrilheiro, ou o mito, ou o pop star. Ou a estampa da camiseta.

Eu esperava um pouco por isso, acostumado que estou ao cinema de Steven Soderbergh. Filmes como como Onze homens e um segredo e de Traffic já demonstravam esse fascínio do diretor por reconstituir, etapa por etapa, friamente, mecanicamente, o funcionamento das coisas. Um golpe no cassino, o mercado das drogas (ou do petróleo, em Syriana, que produziu), os procedimentos de uma guerrilha, a forma como a mulher comum confrontou o “sistema”. Ele transforma tudo num esquema, numa maquete, num organograma.

É o cinema-infográfico. 

E daí? Reconheço o esforço de Soderbergh. Ele me parece um cineasta comprometido com um olhar. Che é, para o que propõe, competente. Digno (e não apenas pelos diálogos em espanhol). Um filme de ação, no sentido puro do termo. Que admiro (pela ambição, talvez), ainda que de uma forma estritamente racional. 

O Che de Benicio del Toro diz muito sobre o nosso tempo. É um idealista politicamente incorreto. Entendo o conceito. Até concordo com ele (e é corajosa a forma supostamente ‘jornalística’ como Soderbergh tenta vender o herói anti-imperialista para um público norte-americano esperançoso com a vitória do Obama). Mas está metido num cinema que parece observar seres humanos como pequenas peças de uma engrenagem (política, social, sabe-se lá). Não seria um paradoxo?

É uma forma de olhar o mundo.  Me rendo. Se eu me afastar consideravelmente do que sinto pelo filme, encontrarei muitas qualidades. A forma como Benicio del Toro se deixa perder no personagem (e reparem como não há nenhum momento-Oscar, o ator está integrado ao elenco e ao ambiente). O detalhismo obsessivo da reconstituição de época nas cenas em preto-e-branco (um documentário fake). A secura das cenas de violência, que tentam escapar a todo custo da banalização das situações (este não é um filme de Hollywood, grita o diretor, é um documento histórico).

Bem. Eu não acredito que pessoas entrem em blogs banais feito o meu em busca de bulas de remédio. Por isso, desculpem-me o tom impressionista da coisa: apesar de cumprir perfeitamente uma série de requisitos formais (que às vezes não dão em nada, há!), o Che de Soderbergh está longe, muito longe de chegar à alma do personagem. É, no máximo, pele e suor.

(Aí você argumenta, com toda a razão: talvez o filme não queira chegar à alma do personagem)

O que me desconcerta (para o bem) é como Soderbergh me parece bastante honesto na defesa dessa aparência de precisão. O cinema da exposição de fatos, digamos. Guevara é descrito como um líder virulento, violento, cruel (já que tortura os “traidores”), sedutor e íntegro. O formato da narrativa beneficia a composição de um personagem contraditório. O filme encara este Che-simbólico sem tomar partido. Não interessa julgar o personagem, mas tentar compreender um método, um pensamento.

Dividido entre o corpo de Che e suas ideias, o filme parte-se em dois: as cenas coloridas acompanham o movimento do personagem; os flashes em preto-e-branco parecem listar frases de efeito associadas ao guerrilheiro. “Um verdadeiro revolucionário deve estar onde precisam dele”, “no capitalismo, vivemos numa jaula invisível”, “a qualidade mais importante de um revolucionário é o amor: à humanidade, à justiça e à verdade”, etc.

É um formato que combina com a mania de organização (de imagens, signos) típica de Soderbergh (em Traffic, a trama latina era filmada num amarelo estourado, enquanto a norte-americana vinha por um filtro azulado meio friorento). Mas essa mesma organização excessiva penaliza os personagens (que parecem fantoches; tente descrever em duas linhas algum coadjuvante) e as situações (tudo arrumadinho, clean demais).

Um aluno aplicado, mas mal tenho curiosidade de assistir à segunda parte (dizem que é uma espécie de A paixão de Che, tomara que não).

Então vá ver Che, é um bom filme; mas não me convide para repetir a dose. Ontem estava admirando a estante da sala e percebi que nunca comprei um DVD do cineasta, unzinho sequer. Agora finalmente entendo o porquê.

Simplesmente feliz

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hagolu

Happy-go-lucky, 2008. De Mike Leigh. Com Sally Hawkins, Alexis Zegerman, Eddie Marsan e Samuel Roukin. 118min. 7/10

Se eu trabalhasse numa livraria e fosse surpreendido por uma cliente como Poppy, a serelepe heroína de Simplesmente feliz, provavelmente agiria como o balconista das primeiras cenas do filme: lançaria um olhar entediado e desejaria silenciosamente que ela evaporasse na atmosfera.

Os aspectos irritantes desta professora de primário, vestida como uma Cyndi Lauper britânica em dia de promoção, deveriam soar agradáveis. Não deveriam? O senso de humor, a leveza com que encara a vida, a simpatia à toda prova. O chato (para mim, e para o balconista, talvez para uma grande parte dos espectadores) é que essas são qualidades demonstradas em excesso, exibidas em fast-forward. Poppy é feliz demais

Quando entra na livraria, ela vai logo à seção de livros infantis. Para curar-se de ressacas, cria máscaras de papelão para as criancinhas do colégio. No clima tenso de uma aula de flamenco coordenada por uma professora maníaca, solta risadas. E isso nos incomoda. Nós, os melancólicos de plantão. Nós, os pessimistas. Nós, os que compraram binóculos para assistir ao apocalipse.

Mike Leigh sabe disso. E sabe melhor do que nós. Numa entrevista recente, ele admite a intenção de compor uma personagem que, de tão otimista, provasse estranheza. Numa primeira impressão, Poppy é o arco-íris extravagante de neon que estraga nosso dia. A intenção do cineasta que, lentamente, nos aproximemos dela. E, aos poucos, entendamos a forma como ela vive. E (quem sabe?) elogiar a coragem da atitude.

Comigo funcionou. Depois dos primeiros 40 ou 50 minutos de projeção, os tiques de Poppy passaram a soar – se não apaixonantes – menos ingênuos do que eu imaginava. A graça do filme está aí – e é bastante sutil: a cada sequência, Leigh adiciona elementos ao perfil da protagonista, até torná-la plausível. Até dá-la razão para ser do jeito que é. Sorte que ele dialoga com uma atriz como Sally Hawkins, pronta a encarar a personagem por inteiro. É uma interpretação tão detalhista quanto a direção de Leigh.

Como em Naked e Segredos e mentiras, o diretor vê o ato de desenhar os personagens como a espinha da narrativa. O filme é nada mais que a rotina de Poppy. Por isso a dificuldade de colocá-lo no papel. Quem sairá de casa para assistir a um filme sobre uma mulher tão comum, que trabalha, vai a festas, namora, conversa com a melhor amiga e aprende a dirigir? Ainda assim, seria a forma mais honesta de descrevê-lo.

Não que Leigh defenda radicalmente essa opção. O filme precisa de certas muletas para manter-se de pé, e a mais frágil delas narra o óbvio contraste entre Poppy e um professor de direção severo e paranoico, a um espirro do colapso nervoso. A situação-limite nos ajuda a compreender o esforço exigido pela decisão de encarar o mundo por uma lente rósea. Mas me parece esquemática dentro de uma narrativa tão (cuidadosamente) solta. Eu preferiria simplesmente seguir Poppy enquanto ela dá aulas – e aí o filme sairia uma espécie de de Entre os muros da escola com os tons cômicos de um seriado de 30 minutos produzido pela BBC 2.

Apesar dessas e outras facilidades meio manjadas (Leigh volta e meia imprime um quê melodramático às rotinas de pessoas comuns, vide Agora ou nunca), o cineasta deixa que a narrativa ganhe um tom de “filme de verão” bastante adequado à personagem. Um tom consciente, não tão instintivo quanto daria a entender – mas quem disse que Poppy é feliz por acidente?

Living thing | Peter Bjorn and John

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petercapaO terceiro álbum do trio Peter Bjorn and John, aquele do hit Young folks, chama-se Writer’s block. Mas é o novo, Living thing, que merecia o título.  Um disco de crise. Provavelmente provocado por um bloqueio criativo daqueles que arrancam pedaço.

As angústias de astros pop sempre nos parecerá risível. Deve ser tããããão triste passar madrugadas autografando cadernetas cor-de-rosa de menininhas emocionadas, né mesmo? O que dizer do momento em que uma multidão de fãs canta o refrão que você compôs enquanto cortava as unhas do pé? Um martírio.

Ainda assim, eu não queria estar no lugar de Peter Morén, Björn Yttling e John Eriksson. Não. Uma coisa é fazer sucesso planetário às custas de videclipes grandiloquentes, hits produzidos por Kanye West e poses autoirônicas em revistas de fofocas. Outra é estourar nas paradas com uma canção que destoa de quase tudo o que você já gravou.

Bingo.

Quem ouviu Writer’s block do início ao fim (cerca de 40% dos fãs de Young folks, aposto) entende a situação: é um oceano de melancolia shoegazer com algumas ilhotas pop. A partir daí, a banda tinha a opção de faturar em cima do hit e compor mais 12 canções para levarmos no assobio. Ou de seguir em frente (e é o que fazem).

O álbum seguinte, Seaside rock, era o típico projeto experimental criado para adiar as pressões do fã-clube: influências literárias disparadas num idioma árido, lembranças de infância narradas como sonhos desfocados. Nada fofo. De certa forma, a introdução perfeita para Living thing.

Que é um álbum que manipula elementos do pop e do rock, não duvide. Mas decididamente novo, pelo menos para os padrões do grupo. Se você reparar, Writer’s block já indicava essa inquietação. Cada faixa, apesar da névoa de romantismo demodé, abria uma nova possibilidade sonora (e é possível dizer que, sem essa fome de renovação, eles nunca teriam conseguido criar algo tão familiar e ao mesmo tempo tão alienígena quanto Young folks).

Ao arrancar da banda as próprias barras de sustentação, Living thing vai ainda mais longe: troca a doçura adolescente pelos ritmos duros de base percussiva que passa feito um trator por canções às vezes até rancorosas, mas que não perdem um senso de humor fino, sarcástico e autodepreciativo. “Sou um Picasso do período azul, pendurado na parede, no meio de um hall em Barcelona, tentando imaginar como descer dali. Esta solidão está me deprimindo”, cantam, em Blue period Picasso.

“As coisas não estão funcionando como deveriam, mas pelo menos estão funcionando”, confessam, na honesta-de-doer Stay this way.

É uma mutação que já podia ser identificada no DNA dos primeiros singles do disco, Lay it down e Nothing to worry about. São canções quase mecânicas, dançantes, compactas e poderosas, que aproximam mais de um hit antigo da Björk (Army of me, vai) do que das manhas agradáveis que esperamos de uma típica banda sueca. Tudo mudou, eles avisam.

E avisam didaticamente na faixa-título, The feeling (que abre com o minimalismo à krautrock, com palmas robóticas e ruídos esparsos). “É fácil fazer com que as coisas acabem. Por favor, prepare-se para uma mudança.”

Há algo no ar poluído desse álbum urbano, superpovoado (por referências, traumas, crises sentimentais), ruidoso. A faixa seguinte, It don’t move me, nos leva para o dance rock saltitante do New Order, fase Republic. Mas os versos estão mais para Joy Division: “Os livros e revistas não me emocionam mais. Leve-os para longe.” Já Join the past, logo em seguida, tem um refrão que soa como uma atualização para The river, de Brian Eno. É o início da brincadeira.

Que, mais adiante, passa por uma espécie de afropop (Living thing) e por algumas daquelas canções de amor agoniadíssimas que só eles sabem compôr (I want you!, Stay this way e Last night). Antes, I’m losing my mind soa como uma versão em marcha lenta para She drives me crazy, do Fine Young Cannibals.

É frequente a sensação de que a banda tateia no breu, experimenta referências para descartá-las em seguida. Que não sabe o que fazer com a própria insatisfação. Talvez por isso o disco se aproxime menos da ruptura de um Kid A (consciente, sólida) que da aventura torta de um 13, do Blur (mais escorregadio, ainda fascinante).

Mas o título não nos engana: Peter Bjorn and John deram luz a um organismo vivo. E ele está à solta. 

Quinto álbum de Peter Bjorn and John. 12 faixas. Lançamento Wichita/Almost Gold Recordings. 8/10

2 ou 3 parágrafos | O visitante

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visitor

Eu estava pronto para descartar O visitante (6/10) quando fui contrariado por um elemento-surpresa: raro é o filme capaz de ressaltar com tanta convicção a bondade dos personagens. Thomas McCarthy volta a câmera para a generosidade  – e o faz delicadamente, sobriamente, sem soar como um menino inocente e choroso de dois anos de idade.

É um traço que, para mim, compensa a inconsistência do projeto. Apesar de simpático e tudo, é um filme inconsistente. O cineasta é daqueles que ficam em cima do muro: filma economicamente, mas sem flertar com o minimalismo; controla a dose sentimental da narrativa, mas vive apelando para golpes baratos (há forma mais simples de tratar das tensões pós-11 de setembro que trancar dois estrangeiros e um americano dentro de um apartamento em Nova York?). Na falta de um estilo, McCarthy adota a estratégia-padrão do cinema independente norte-americano: é clean e nada mais.

Mas, acima do diretor, acima do filme que ele dirige, acima das mensagens de solidariedade (batidíssimas), há os personagens e os atores que os interpretam. Daí o mérito de Richard Jenkins, que, se excluirmos dois momentos-Oscar (o clímax e o desfecho), compõe um tipo complexo, já que tão sisudo e introspectivo quanto frágil, íntegro e, por isso, adorável. Não merecia a estatueta (Mickey Rourke, né), mas justifica a existência do filme.

No one does it like you | Department of Eagles

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MTV? Nada. VH1? Pfff. Dirigido por Patrick Daughters e por Marcel Dzama, o novo (e fantástico) clipe do Department of Eagles foi lançado numa programação especial do Museu de Arte Moderna de Nova York. Lugar mais apropriado, impossível. E faz por merecer. Com tons surrealistas, e uma riqueza de detalhes que você não perceberá no YouTube, o vídeo transforma os pesadelos das guerras num musical perverso, à Tim Burton. E a música supera pelo menos umas cinco do álbum novo do Grizzly Bear.

Bromst | Dan Deacon

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deaconcapaQuinze minutos do novo álbum de Dan Deacon e a sensação é dolorida: você acordou com 40 graus de febre, uma enxaqueca que parece perfurar as pupilas, pontadas no peito, dormência na coluna. No espelho do banheiro, descobre novos fios de cabelo branco enquanto repara que a cortina do banheiro não gruda mais na parede e o último tubo de pasta de dente foi adotado como lar pelas formigas. A chuva da madrugada ensopou a sala de estar e o pacote de pão guardado na geladeira, bem, o que você queria?, está mofado. O relógio encontra-se atrasado em trinta minutos. E isso significa o seguinte: você perdeu o compromisso do dia e não há como recuperá-lo. Começamos mal. Terrivelmente mal. E a tendência, meu amigo, é que as coisas piorem.

Mas aí vem uma voz miúda, ingênua de tão otimista, e te conforta. “Calma, tudo vai dar certo.” Você, estúpido, não acredita nela. 

Bromst é um ótimo disco: inventivo, inquieto, cheio de tentáculos, um polvo elétrico. Aviso, porém, que a experiência não é mais tranquilas. Agora mesmo, decidi ouvi-lo em volume altíssimo, no som do carro, no longo caminho que separa a casa da minha mãe do meu apartamento. Tive que tomar dois comprimidos de Tylenol. Não é moleza. Não é exatamente agradável. Entendo perfeitamente aqueles que, na primeira overdose de ruídos, jogam a toalha e vão fazer algo mais saudável da vida.

O mesmo vale para o show do sujeito. É pegar ou largar. Os primeiros minutos são tão agressivos e caóticos, tão what-the-fuck, tão “mas que porra barulhenta é essa?”, que funcionam perfeitamente como um mecanismo de triagem de público. Os que ficam estão preparados para o que der e vier. Serão recompensados com uma performance verdadeiramente espontânea, vibrante, única (top 5 do Tim Festival do ano passado).

No palco (ou melhor: junto ao público, já que Deacon não é de formalidades), o DJ/compositor/provocador de Nova York chuta a fronteira que separa os artistas da plateia. Entenda como uma espécie de cartão de visitas: Deacon se apresenta, na lata, como “um de nós”. É um fã/consumidor/produtor de música adaptado ao ritmo frenético de uma geração que recorta, cola, dobra e recicla, não necessariamente nessa ordem. E que adora aparecer.

Nos discos, Deacon é o anfitrião de uma festa nonstop, mas que nunca existiria de verdade (você imagina passar uma noite inteira ouvindo o noise-furadeira do rapaz? Eu não). O álbum anterior, Spiderman of the rings, foi cultuado por pouca gente até porque, aposto, não foram muitos os que se aventuraram a abraçar um objeto tão pontiagudo. Que machuca. Que arranha os pobrezinhos dos nossos ouvidos sensíveis. Eis a ironia da coisa: Deacon assimila radicalmente a velocidade do nosso mundo; mas, para assimilarmos o som de Deacon, precisamos de algum tempo.

Paciência.

É que Deacon não está aí para padrões, fórmulas de gênero – não dá nem para afirmar que ele mescla isso com aquilo. É um som, em grande parte, aleatório, descontrolado, improvável. Spiderman of the rings parecia uma trilha de videogame e, ao mesmo tempo, uma demo de hardcore. Impossível classificar (é mais fácil, por exemplo, tentar apontar referências de uma banda barulhenta como Crystal Antlers, que pelo menos segue uma lógica interna, leia ali embaixo). Em Bromst, ele tenta um tom mais melodioso e algumas estruturas mais convencionais de canção (o que rende faixas até comoventes como a abertura Build voice), mas ainda não segura as rédeas da música. É a beleza do disco.

Que soa naturalmente atual. Quando Deacon arrisca uma atmosfera psicodélica à Animal Collective (como em Snookered), não temos o direito de imaginar o músico ao redor de uma fogueira, acompanhado dos amigos doidões. Nossa imagem de Deacon é e sempre será a do geek gorducho mixando arquivos de mp3 num quarto bagunçado. Daria para escrever alguns parágrafos sobre a forma como ele nos faz repensar o conceito (tolo) de autenticidade que associamos a certas bandas de rock. Sobre simulacro, pós-modernidade, etc. Mas não gastarei meu tempo: Bromst é um álbum que nos tortura até o momento em tentamos entender um método muito particular de mastigação de elementos do rock e do pop. Leva algumas semanas, mas é um esforço que compensa.  

A dor de cabeça não passa, mas fica até parecendo que o estranho futuro do indie rock é este, o sol raiou, nos cegou e finalmente chegamos lá. Só uma impressão. Que passa. Mas que disco.

Álbum de Dan Deacon. 11 faixas, com produção de Dan Deacon. Carpark Records. 8.5/10

BÔNUS TRACKS

antlerscapa1Tentacles | Crystal Antlers | 7.5 | Como clímax para o EP lançado em 2008, a estreia do sexteto californiano é um balde de gelo: os fãs certamente não esperavam (ou aprovariam) um álbum de esqueleto tão melodioso e acessível (exposto em faixas como Andrew). Na maior parte do tempo, soa como um You & me, do Walkmen, gravado na garagem de um fusca. Quanto mais tempo se investe no disco, porém, mais essa primeira impressão se mostra simplesmente preconceituosa. Não há nada errado quando uma banda tão virulenta tenta se apropriar de convenções do rock para colocá-las numa outra perspectiva – eu vejo como um esforço dos mais interessantes (e era o que me agradava nos primeiros álbuns do White Stripes). Jonny Bell vai rasgando os refrãos como quem enfrenta uma sessão de karaokê às duas da manhã. Mas quem rouba a cena é Victor Rodriguez, no órgão (a faixa de encerramento, com um quê de prog rock, vai do ambient à psicodelia). A lisergia do The Doors encontra a inconsequência noise do No Age – e tente imaginar por alguns segundos o quanto isso não é exatamente previsível.