Apenas uma vez **

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Ao fim da sessão de Apenas uma vez, minha primeira reação foi a de desenterrar as dezenas de fitinhas-cassete que contêm alguns dos momentos mais patéticos e constrangedores da minha adolescência. Lá estou eu, com um violão e um pandeiro pré-gravado, interpretando horrendas canções originais sobre amor platônico, desespero sem causas e medo, muito medo, medo de deus e do mundo. Lá estou eu, com minha guitarra distorcida e desafinada, tentando reinventar o punk rock ou destilando versões inventivas para Roll with it (do Oasis) e Old black dawning (do Frank Black). Lá estou eu, jovem, tolo e rebelde.

(Falando sério: tenho pena daqueles que, quando eu morrer, decidirem ouvir todas essas bobagens. Provavelmente essas pessoas serão minha mãe, meu padrasto e minha irmã, sentados ao redor do aparelho de som, chocados com a péssima qualidade poética e melódica do material, comendo castanhas e chorando de desgosto).

Daí que entendo o sucesso desta produção pequena (custou US$ 160 mil, rendeu US$ 14 milhões) e intimista, feita em digital, escorada num elenco de músicos que certamente não freqüentaram workshops do Actor’s Studio. É um filme sobre o desejo por música, a fome de composição, o vômito da criação artística – tema com que muita gente (fãs, músicos de primeira viagem, etc) pode se identificar. Suspeito que o filme soaria ainda mais interessante se as canções fossem todas simplesmente péssimas, risíveis de tão ruins. Se tivessem entrado em contato comigo, eu teria cedido os direitos das minhas.

Mas não. É a história de um músico muito sério, muito ambicioso – misto de Damien Rice, Coldplay e David Gray -, que compõe refrãos apoteóticos à espera da grande chance. Enquanto ela não vem, ele se apresenta nas ruas. Evita interpretar pela manhã as composições próprias, já que as pessoas só querem saber de greatest hits. À noite, encena um repertório sofrido, sofrido, sofrido (e, em alguns momentos, sofrível). É num desses pocket shows de sarjeta que ele conhece uma menina estrangeira que sabe tocar piano e fala pouco inglês. Obviamente, ele se apaixonará por ela. Também obviamente, o romance será embarreirado por um motivo qualquer.

A narrativa, pueril-pueril, parece um pretexto para registrar os duetos musicais entre o casal. O filme cresce consideravelmente nessas cenas. Esses personagens capturam com nervos saltados o prazer que existe no ato de compor e interpretar as próprias canções. É bonito de se ver. Não tão bonito de se ouvir. A menos que você caia de amores pelas baladas mais derramadas de James Blunt. Ou tenha algumas fitinhas suspeitas guardadas no armário. Nesse caso, o filme pode provocar flashbacks e bad trips e dores de consciência e… cuidado.

10 comentários em “Apenas uma vez **

    Diego disse:
    abril 6, 2008 às 5:54 pm

    O Glen é over mesmo. Pra quê fazer as veias do pescoço saltarem em todas as músicas?

    Tiagão, não achei o link pra baixar o disco do Wado no site dele. Você tem?

    Tiago respondido:
    abril 6, 2008 às 6:01 pm

    Tá em downloads, acho.

    Diego disse:
    abril 6, 2008 às 6:46 pm

    Não achei nem ESSE link.

    Diego disse:
    abril 6, 2008 às 6:49 pm

    AH, achei! Na minha resolução de tela o link fica escondido. Foi mal.

    feliperezende disse:
    abril 6, 2008 às 7:02 pm

    Eu gostei tanto do filme quanto de algumas músicas. O cara é Damien Rice e a guria é Alanis Morissette mais recatadinha. Fine by me.

    Tiago respondido:
    abril 6, 2008 às 7:13 pm

    Caramba, Felipe. Esse é o casamento dos infernos! (hehehe, brincadeira)

    feliperezende disse:
    abril 6, 2008 às 7:21 pm

    Hahaha vai dizer que você não gosta de Blower’s Daughter Ou Delicate? Nem quando toca em Closer/Lost?

    Tiago respondido:
    abril 6, 2008 às 7:49 pm

    Damien Rice tem coisas legais. Mas ele exagera um pouco no tom do sofrimento. Já Alanis… Sei lá, não ouço há quase uma década!

    Rodrigo disse:
    abril 6, 2008 às 8:37 pm

    Não acho que as canções cheguem a ser um desastre nem; tem umas que eu acho até legais, como aquela que eles tocam no estúdio, mas outras são bem meia-boca mesmo, como “Falling Slowly”. No geral, acho um filme bem mediano (a câmera na mão é horrível e filme parece não ter uma base sólida pra se sustentar), e que ganha devido à paixão que os realizadores têm pelo projeto. Incrivelmente superestimado, de qualquer modo.

    Tiago respondido:
    abril 6, 2008 às 8:51 pm

    Também acho que foi superestimado, mas entendo o falatório todo… É que o filme tem uma atmosfera de “autenticidade” que agrada a uma parte da crítica (a mesma que sai festejando todo filme com tom documental, câmera na mão tremida etc)

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