Mês: outubro 2008

Death magnetic | Metallica

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Sei que é crime, mas admito que gostei de Load.

Quer dizer: gostei por umas três semanas. Ou um pouco mais que isso. Eu era um menino. Era 1996, por deus. Na época, me parecia uma baita reviravolta para a banda. Um golpe estranho, improvável. O monstro do metal, com um fã-clube em parte decididamente xiita, passava a mirar os órfãos do grunge, as paradas de rock alternativo, as trilhas sonoras de blockbusters, as prateleiras de supermercados.

Lembro da expressão de choque do meu vizinho metaleiro quando viu uma foto de um repaginado James Hetfield. Eu não imaginava que um corte de cabelo poderia provocar tamanha comoção em uma legião de machos. Mas provocou. O clipe de Until it sleeps, para muito homem barbado, representou nada menos que o fim da inocência. Um tique nervoso. Um bug.

Para mim, tanto fazia. Eu, fã de Nirvana e Soundgarden, achava graça. Ria da surpresa alheia. Lembro que comprei a fita cassete de Load e, depois de um tempo (graças à pregação do vizinho metaleiro), ouvi todos os álbuns anteriores da banda. Era fácil gostar de Master of puppets e de …And justice for all (e havia o Álbum Preto, que todos conhecíamos por osmose), mas nunca levei a sério a liturgia do metal e admito (outro crime!) que sempre encarei longos solos de guitarra como peças cômicas.

Mas entendo (como não?) o entusiasmo que Death magnetic deve ter provocado no meu vizinho. Depois de três álbuns dedicados a um crossover desgovernado (mas corajoso, admita) de subgêneros do rock pesado, o Metallica gravou um álbum que, em tese, descarta as aventuras recentes e retorna ao final dos anos 80. Com quilométricos solos de guitarra. Com letras sobre suicídio, pesadelos e apocalipses particulares. E uma faixa de dez minutos de duração.

Não quero estragar a festa de ninguém, mas a massacrante estratégia de divulgação do álbum (a banda é uma das últimas esperanças da indústria fonográfica) esconde um fato que não dá para ser contestado: Death magnetic, que nunca será um novo Master of puppets, nada mais é que um novo álbum do Metallica. Estamos de acordo sobre isso? Parece mero jogo de palavras, mas não: digamos que a assessoria de imprensa do Rolling Stones avise que a banda gravou um novo Sticky fingers. Você vai sair por aí acreditando?

Tomemos as coisas como elas são: neste disco, o Metallica tenta resgatar e concentrar alguns elementos que estavam diluídos desde o Álbum preto, de 1991. Em tempo de Guitar hero, não há nada ingênuo nessa decisão. Os fãs podem até se perguntar: ‘por que eles não tiveram essa idéia antes?’ Aposto que tiveram. Mas ela era comercialmente inviável. E o Metallica de 2008, sorry, continua uma banda bastante afinada com o mercado.

Para mim, a ficha caiu num show no Rock in Rio Lisboa, durante a turnê do tão execrado (mas elogiado à época do lançamento) St. Anger. No palco, vi um exército de entertainers. Um batalhão extremenente profissional. Quase um conglomerado do rock (e foi um dos espetáculos mais divertidos que vi na minha vida). O Metallica, a partir do sucesso comercial do início dos 90, nunca brincou em serviço. A guinada de Death magnetic (que nem é tão extraordinária assim) só poderia ter vindo de uma banda muito preocupada com a própria sobrevivência.

Nada menos surpreendente, por isso, que a convocação de Rick Rubin (que aparece até em álbum do Justin Timberlake) e o projeto de um comeback ensaiado – Madonna, para ficarmos no exemplo mais explícito, faz isso a cada dois anos. Death magnetic periga ser elogiado mais pelo que pretende ser do que pelas canções em si. Dizem que é o melhor disco da banda desde …And Justice for all. Mas a relação de singles (The day that never comes, My apocalypse, Cyanide, The Judas kiss e a infame The unforvigen III) ficará na memória de alguém?

Ao disco, então. O formato mais seco e direto da gravação – e o gancho do álbum é todo esse – tem um lado bom e outro desastroso: ressalta o entrosamento da banda e a capacidade de improvisação (algo que eles só conseguiram por ter todo esse tempo de estrada), mas sublinha a inanição dos versos, que empilham clichês do metal (“Ele cruzou a linha, em direção à cripta, eclipse total”, vide My apocalypse). Sem a catarata de solos de guitarra, que daria porte épico até a Ciranda cirandinha, as faixas poderiam estar em discos como Reload ou até mesmo em St. anger. A presença de um novo baixista nem interessa. O Metallica parece ter aprendido que, para compor um álbum querido entre metaleiros, é necessário seguir algumas regras rígidas. É o que fazem.

Daí que Death magnetic, com todos os apetrechos obrigatórios do gênero (como a típica balada evocativa e pessimista, no caso The day that never comes), acaba soando o mais convencional entre os álbuns da banda. O menos arriscado. O que não ouviremos com prazer (cheguei com muita dificuldade à quinta audição completa). E aí não importa se canções de sete minutos não tocam tão facilmente nas rádios. O Metallica fez o único disco que poderia ter feito em 2008, apenas isso. E, ainda mestre da eficiência, conseguiu vender a idéia de uma grande novidade.

Nono álbum do Metallica. 10 faixas, com produção de Rick Rubin. Warner Bros/Vertigo/Mercury. *  

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The morning after

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Tudo o que quero é escrever um texto que não me decepcione na manhã seguinte.

Drops de FicBrasília

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* O Festival Internacional de Cinema de Brasília (FicBrasília) chega ao décimo ano com uma edição que traz a Brasília alguns filmes importantes das mostras do Rio e de São Paulo – muitos deles com distribuição garantida no Brasil. Pode parecer pouco, mas não é.

* Por aqui veremos Ballast, de Lance Hammer, Liverpool, de Lisandro Alonso, Acne, de Federico Veiroj, O canto dos pássaros, de Albert Serra, Cinzas do passado – Redux, de Wong Kar-wai, Um conto de Natal, de Arnaud Desplechin, Derek, de Isaac Julien, Filth and wisdom, da Madonna, A fronteira da alvorada, de Philippe Garrel, Sob controle, de Jennifer Lynch.

* Mais: Leonera, de Pablo Trapero, Night and day, de Hong Sang-soo, Ninho vazio, de Daniel Burman, Nucingen Haus, de Raoul Ruiz, La rabia, de Albertina Carri, O silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman, Terra vermelha, de Marco Bechis, The wackness, de Jonathan Levine, Youth without youth, de Francis Ford Coppola.

* E os brasileiros que concorrem ao Prêmio Itamaraty: Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte, Feliz Natal, de Selton Mello, A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele, Juventude, de Domingos Oliveira.

* Tem também uma retrospectiva dedicada a Paulo José e uma seleção de japoneses (entre eles, Sad vacation, de Shinji Aoyama, e Glória ao cineasta, de Takeshi Kitano).

* Isto é: entre os 130 filmes, há filmes. Se essa programação enxuta não chega a destacar o festival no cenário nacional, ela tem uma importância tremenda para os cinéfilos da cidade – eles terão a vantagem de assistir aos longas sem as filas quilométricas de São Paulo, por exemplo (e cá estou eu tentando ver o lado positivo das coisas), e com ingressos a R$ 12.

* Pois bem: o FicBrasília começou ontem com uma sessão de “traje passeio completo” apresentada por Maria Paula e Murilo Grossi, com homenagem a Paulo José e um curta-metragem de animação (Pajerama, de Leonardo Cadaval).

* O Academia Hall, uma sala de espetáculos de quase três mil lugares, ficou lotada para a pré-estréia de Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. Na sessão, pairou um climão de festa de cidade do interior, com crianças correndo pelos corredores, falatório incessante do público, gente sentada no chão e uma cortina que não parava fechada.

* Um sucesso, podemos dizer.

* No coquetel, serviram salgadinho frio, cerveja e fanta laranja. Os sushis evaporaram em cinco minutos. Ninguém reconhecia as celebridades locais que posavam para os flashes. Mas pelo menos foi autêntico: Brasília é, como sabemos, uma grande cidade pequena. 

* Foi uma sessão, como nas salas de multiplex, tomada por casais. Homens engravatados e mulheres de longo. O filme? Elas adoraram secretamente; os namorados morreram de raiva. Vale um parágrafo só dele.

* Vicky Cristina Barcelona | Woody Allen | **

Acompanhado de um narrador/guia turístico onipresente e quase entediado, nosso cético favorito viaja à Espanha para filmar o prazer (como tudo na vida, segundo ele, um mero sentimento passageiro a ser aproveitado antes que o tempo nos leve). É, de verdade, o filme mais saboroso de Allen desde Match point, mas o tom libertário desta crônica de viagem não chega a provocar arrepios – é amenizado pela frieza como o cineasta organiza as peças da narrativa: os personagens são cartas marcadas (todos os espanhóis da trama são ou alegremente instintivos ou pirados) e as paisagens (e os belos planos de rostos de mulheres) acabam esculpidas com a beleza fácil dos panfletos publicitários. De qualquer forma, me agrada a forma com que o cineasta segue vendendo um olhar de mundo muito duro (e particular) como divertimento.

Pensamento positivo

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Minha namorada diz que sou a Clarah Averbuck de bermudas.

Estou tentando tomar isso como um elogio.

O neto pródigo

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Enquanto procuro um imóvel para chamar de meu, estou hospedado no apartamento da minha avó. Devo passar uns dois meses por aqui, com todas as mordomias a que um neto tem direito.

O que seria uma experiência fantástica – se eu tivesse nove anos de idade.

O apartamento é o mesmo em que morei quando vim do Rio de Janeiro para Brasília, no início da adolescência. Meu quarto está quase igual ao que era. Os móveis, tudo. Só fiz questão de dar um sumiço no quadro com o desenho do burro lilás, que ficava pendurado próximo à porta. Quero deixar claro, talvez para mim mesmo, que finalmente cresci.

Mas às vezes desconfio disso. E minha avó, simpática e dedicada como todas as avós, está sempre pronta a me convencer de que ainda tenho sim, claro, como não?, nove anos de idade. Por aqui sou um neto e netos aparentemente nunca crescem.

Hoje tomei um susto quando ela empurrou a porta do meu quarto às sete horas da manhã com uma jarra de suco de laranja na mão. A avó, coitada, setenta e tantos anos, coluna envergada, se equilibrando com a jarra enquanto o netinho dorminhoco se espreguiçava todo torto, suado, babando, quase pelado e desejeitado aos gemidos de ‘não, não, tá cedo, me deixa dormir, tô de férias, ahn, não, poxa’.

O episódio de sitcom não estava no meu script, por isso senti vergonha. Um desjejum no mínimo cômico para um cidadão que saiu de casa em busca de independência, pronto para aceitar os riscos e as vantagens da idade adulta, um super-herói urbano. No que deu? Acabei aqui, no meu antigo quarto, com uma jarra de suco de laranja preparada especialmente para mim. Não é engraçado?

Para mim, é mais que isso: é um salto na máquina do tempo. Num dos quartos, minha avó mantém uma espécie de museu de família, com fotos antigas e objetos que, daqui a alguns poucos anos, valerão uma fortuna. Perdi quase uma hora redescobrindo todos aqueles penduricalhos, aquelas imagens de uma época que me parece cada vez mais distante. Eu aos dois anos de idade, fazendo careta para a lente. Eu com meus primos na escada do zoológico, fazendo careta. Eu vestido de palhaço num concurso de fantasia, fazendo careta. Eu na minha primeira comunhão, fazendo careta (uma prova de que nunca levei nada a sério).

Enjoei das minhas poses infantis e, exausto, tombei na máquina de costura quase centenária. Derrubei cinco ursos de pelúcia que provavelmente teriam idade para integrar a comissão que elege o melhor filme estrangeiro no Oscar. É um apartamento habitado pelo passado, pensei. Há fantasmas em todo canto. As crianças que estavam em mim, na minha irmã, nos meus primos. Meu avô (que morreu), meu tio (que morreu), todos os carnavais (que morreram).

Quando saio, minha avó de telenovela, de telefilme americano, de anúncio de margarina, de cartão-postal pede para que Deus me guarde e me acompanhe. Avisa para que eu tome cuidado com os carros e que vista um agasalho se fizer frio. Agradeço a preocupação com o sorriso encabulado dos meninos que se incomodam quando os pais os buscam no colégio. Quem diria: igualzinho a quando eu tinha nove anos de idade.

Enquanto isso em Dubai

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O bom de Dubai é que aqui não tem deputado, não tem senador, não tem nada disso. Só tem o sheik, e o sheik manda em tudo. Mas ele só manda coisa boa. Só coisa boa pro povo. O Brasil devia fazer igual.

Ainda não entendo como minha avó, uma velhinha tão sensata (dia desses ela confessou ser contra a pena de morte!), consegue gostar tanto da Hebe Camargo.

Cardinology | Ryan Adams & The Cardinals

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Pode ser que eu esteja mesmo na contramão do bom senso – mas, ao contrário dos que festejam o Ryan Adams comedido, comportado e despretensioso da fase iniciada com Easy tiger (2007), estou com os que sentem falta da época em que o rapaz lançava três discos por ano (entre eles, um álbum duplo) e, com o ego infladíssimo, mandava os detratores catar coquinhos.

É o preço que se paga por trabalhar demais.

Hoje dizem que Ryan é um homem pleno, na idade da sensatez. O atestado mais redondinho deste período é Cardinology, um disco gravado sob medida para quem sempre detestou Ryan Adams. Seqüência cartesiana para Easy tiger, trata-se de um álbum de classic rock sóbrio e esforçado, quase tímido, sem o senso de humor que arejou delírios como Gold (ode monumental a Rolling Stones e Neil Young) e Rock ‘n’ roll (uma espécie de paródia do hard rock radiofônico).

Há quem diga que está entre os melhores de Ryan. Por aqui, a sensação é de que dilui o melhor de Ryan num sanduíche para consumo acelerado. As quatro primeiras faixas reduzem a carreira do compositor aos elementos básicos: Born into a light é a homenagem a Grateful Dead, Go easy nos lembra das influências de country rock, Fix it é a baladona de arena com um quê de U2 e Coldplay e Magick prova que Ryan não desistiu de brincar com referências de garage rock. Tudo muito simples, didático, a+b=c.

Apesar do comodismo quase irritante (e, para quem conhece a carreira do moço, impossível ouvir o álbum sem levantar suspeitas de auto-ironia), Cardinology é sim fluente e agradável, um disco que se escuta de uma vez só com prazer – sem gorduras, sem excessos, como se o produtor da Sheryl Crow tivesse podado um conjunto de 150 canções gravadas pelo músico entre 2007 e 2008. Faixas como Natural ghost e Cobwebs poderiam estar num álbum do Whiskeytown, a antiga (e excepecional) banda do cantor.  

Mesmo nos dias mais preguiçosos, Ryan nunca nos decepciona: é um operário do refrão fácil, que sabe se divertir com símbolos da história do pop. Mas, com todos os elogios que anda recebendo da crítica, a tendência é que Cardinology faça com que ele se esparrame ainda mais na condição de um talentoso compositor de soft rock para quarentões. Algo que faz bem – mas é tudo?

Décimo álbum de Ryan Adams. 12 faixas, com produção de Tom Schick. Lost Highway. **