[lost albums: ‘Mutations’, Beck]

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Numa das entrevistas que Beck Hansen concedeu para divulgar o disco mais recente dele, Morning Phase (mais um capítulo frouxo e esquecível de uma fase de autoplágio que começou em 2005 com Guero), não lembro por que motivo Mutations apareceu na conversa. Mas acabou surgindo – e de uma forma periférica, como de costume. Beck contou ao repórter que ficava surpreso quando alguém mais jovem o perguntava sobre o álbum. “Fico pensando: como ele conhece esse disco?”.

Talvez até eu, o maior defensor de Mutations que conheço, acabe admitindo que disco sempre mostrou um baita potencial para ser esquecido completamente por todos (até pelo Beck). Não é um álbum “importante” como Odelay, que veio antes – nesse caso, uma OBRA que sempre será lembrada em listas de 50/100/500 melhores. Tampouco é “catártico” e “emocionante” como Sea Change, que veio depois. Não soa “provocativo” como Midnite Vultures, nem “surpreendente” como Mellow Gold. Quando foi lançado, em 1998, foi tratado como um projeto despretensioso, desimportante, um exercício folk. Pior: hoje, o próprio Beck parece acreditar nessa definição.

Acontece que o tempo, apesar de não ter sido tão agradável com Midnite Vultures ou com Mellow Gold, foi gentil com Mutations – um disco que, a cada vez que ouço, soa como o grande álbum do Beck e um dos maiores dos anos 90. Talvez um exagero, mas me perdoem: é um exagero sincero.

E talvez ele me agrade tanto – e sempre mais – por conter em abundância características tão raras no repertório do compositor. Leveza. E outra: espontaneidade.

Talvez por ter tratado o disco como uma nota de rodapé, Beck se espreguiçou de um jeito nunca antes ouvido. Não é um disco desleixado – o homem é obsessivo, perfeccionista e, por isso, incapaz de se dar esse tipo de luxo. Mas as canções ganham arranjos e produção (de Nigel Godrich, diga-se) que arejam as melodias em vez de sufocá-las. É um método inverso ao aplicado em Odelay e Midnite Vultures. Em vez de tensionar mil e um efeitos especiais de forma a percebermos a existência deles, Beck integrou seus jogos sonoros de sempre às estruturas das canções. E elas, as canções, são tão completas e fortes que garantem a longevidade do álbum. Estou certo de que ele será para sempre belo, nunca datado (mesmo se esquecido por todos).

Ainda ouço Cold Brains e Lazy Flies como se pela primeira vez, o que não acontece com Where it’s At, por exemplo, ou com Loser, que são músicas também sobre uma época, uma geração. Mutations, pelo contrário, parece flutuar sobre os anos 90, já que Beck, quando o lançou tão discretamente, não via a necessidade de atrelar o álbum a um período, a uma sensação de estado-das-coisas. Era apenas um disco que, também musicalmente, se deixava perder em referências de épocas ora distantes (o blues, o folk), ora um pouco mais próximas (a psicodelia sessentista, a tropicália) – e de uma forma tão natural e suave que jamais deixava a impressão de querer nos ensinar algo. É somente uma viagem de Beck dentro das próprias lembranças sonoras – e, mais importante, uma viagem tranquila.

Em Sea Change, ele talvez tenha tentado aperfeiçoar esse modo de lidar com a própria arte – de um jeito mais relaxada. Não conseguiu, já que aquele foi um álbum concebido para provocar certo impacto, para ser “importante”, não uma nota de rodapé, para soar como um statement sobre um tema (a dor de amor, em resumo). É um disco extraordinário, mas que me parece pertencer à linhagem de Odelay e Midnite Vultures, já que um álbum com uma arquitetura muito bem pensada, um disco ainda (não gosto da palavra, mas não consigo pensar em outra) cerebral sobre crises sentimentais.

Mutations não escapa de certo esquematismo – afinal, Beck é sempre Beck e o próprio título do álbum é didático. Mas, ouvindo mais uma vez, acredito que esse tenha sido o momento em que o compositor conseguiu perfeitamente (talvez sem perceber) um equilíbrio entre as ideias de uma música feita em doses iguais de alma e razão, instinto e pesquisa sonora. Acho que é por isso que, se eu precisasse me livrar de todos os discos dele e ficar apenas com um, seria este. E se tivesse que escolher uma música, seria Cold Brains, que abre o álbum como se o único objetivo, ao menos desta vez, fosse criar música da forma mais sublime possível. Apenas isso.

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