Mês: dezembro 2007

Kanye West: ‘Can’t tell me nothing’

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O ano está acabando e, perdido na minha mania de fazer listinhas pra tudo, deixei os videoclipes a ver navios (como poderia ter esquecido deles, ahn?). Como nem eu nem você temos paciência para mais um top 10, sejamos breves.

A real: não foi um grande ano para o videoclipe. Para os bravos defensores do formato, rever o que de melhor apareceu em 2007 pode se tornaruma experiência meio tortuosa, já que será preciso forçar muito a barra para encontrar instantes de brilhantismo em clipes como, digamos, Atlas, do Battles, ou Earth intruders, da Björk (e nem vou colocar o link deles aqui, procurem por conta e risco).

Mas, como sempre, houve recompensa para a perseverança dos fiéis. Depois de ficar em dúvida entre os climas lynchianos de What a girl to do, do Bat for Lashes, e as “poses por segundo” de Top ranking, do Blonde Redhead (e, claro, há o óbvio D.A.N.C.E., do Justice), foi até fácil escolher o favorito. Nesta versão-paródia para Can’t tell me nothing, dirigida por Michael Blieden, o comediante Zach Galifianakis e o senhor-tempo-ruim Will Oldham transferem um rap sobre poder, fama e dinheiro para um ambiente, digamos, prosaico. Divirtam-se, e feliz ano novo! 

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Cinco álbuns para um ano novo

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Se descontarmos o prometido retorno do Portishead e os novos álbuns do Breeders e Franz Ferdinand, 2008 por enquanto promete ser um ano com um calendário de lançamentos bem menos espalhafatoso que o de 2007. Muitos dos discos que serão lançados entre janeiro e fevereiro já estão na rede, e fiz o test drive com alguns deles para tentar descobrir em que pé estaremos. O resultado, já aviso, está longe do espetacular.

hotchippeq2.jpgMade in the dark, Hot Chip

É uma das principais novidades do primeiro semestre, e… Já pode ser considerada uma pequena decepção – pelo simples fato de que, a essa altura, todo mundo está esperando do Hot Chip, no mínimo, um grande disco. O que eles praticam aqui é o exercício seguro de atirar para todos os lados, com pelo menos três variações para o hit Over and over (uma delas é Shake a fist) e até algumas baladas soul. O disco começa com percussão afro e zumbidos à música indiana, um Chemical Brothers sem calorias. Fica melhor quando investe naquilo que a banda sabe fazer muito bem: eletrônica delicada, juvenil e melancólica. Fique com Ready for the floor e One pure thought.

magneticpeq.jpgDistortion, The Magnetic Fields

Essa soa como uma decepção ainda maior – tão estranha que fico até com medo de ouvir o disco mais uma vez. Seria o ocaso de Stephin Merrit? Como sempre, ele segue à risca um conceito resumido no título do álbum. Agora as canções todas vêm embaladas em uma névoa de distorção – ainda que o efeito não seja assustador nem nada. Lembra muito, aliás, os climas sombrios (e cômicos) do projeto paralelo do compositor, o Gothic Archies. Momentos fortes como Too drunk to dream se perdem em trechos que, em dias melhores (i.e., fase 69 love songs), Merrit tiraria com os pés nas costas e reservaria para lados B de singles.

beachpeq.jpgDevotion, Beach House

O primeiro álbum desse duo de Baltimore ficou entre os melhores de 2006 na lista da Pitchfork – o único site que abriu o olho para a psicodelia dopada da banda, espécie de cruzamento entre Mazzy Star, Portishead (sem o lado eletrônico) e climas shoegazer. Este segundo é um pouco melhor, já que a massa sonora ganha algumas camadas mais sutis com a adição de elementos de soul music do fim dos anos 1960. Há faixas belíssimas e tristes à beça, que ouço sem parar – como Gila e Astronaut -, mas também não dá para relevar um certo marasmo, que pesa lá pela metade do caminho.

loveispeq.jpgMixed up, Love is All

É um disco de remixes prematuro. Os suecos têm apenas um trabalho, com nove faixas (Nine times that same song), e o momento talvez seria de um álbum com novas canções. Mas a justificativa para o ato de narcisismo é até boa: eles têm bons amigos como Hot Chip, The Bees, Studio e Maps, que às vezes até dão uma melhorada em faixas que pareciam largadas pela metade. Há tentativas muito acertadas, como a versão funk do The Bees para Make out fall out make up e as duas interpretações para Busy doing nothing (Optimo e Tapedecic), uma música tão bacana que parece ficar boa de qualquer jeito.

atlaspeq.jpgLet the blind lead those who can see but cannot feel, Atlas Sound

Por último, mas não menos importante… O primeiro álbum do projeto do porralokinha Bradford Cox (líder do Deerhunter) periga ser o mais interessante dessa listinha aqui. Só ouvi uma vez, então não posso dizer grandes coisas. Mas é como o oposto perfeito de um disco do Deerhunter: em vez da miscelânea de estilos, o álbum conta uma história com começo, meio e fim, toda costurada por uma estrutura ambient corrompida por belos surtos pop. O vocalista conta que é um disco sobre infância. E define como “música terapêutica”. Talvez seja isso mesmo, no melhor sentido. Volto a ele depois.

A coragem de amar, Crimes de autor *

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Disseram hoje que sou um tipo especial de esquizofrênico, já que me divido por três. O Tiago que escreve neste e em outros blogs – isso tudo de acordo com o tal sujeito indeterminado – seria muito diferente do homem que escreve para comprar o pão de cada dia, ou daquele outro que tenta se expressar oralmente. Eu nunca havia parado para pensar com paciência nesse assunto. Sou três em um? E, se sou três em um, estaria eu em promoção?

Questões. Acontece que, depois de dar três largas voltas ao redor do nada, cheguei à conclusão de que não há nada muito atípico ou sensacional (quisera eu) nessa multiplicidade de discursos ou de personas ou de formas escolhidas para encenar uma determinada situação ou de sei lá o que. Não escrevemos um bilhete de amor da mesma forma como preparamos uma carta de demissão. Não planejamos uma redação de vestibular com o mesmo desleixo como copiamos uma receita de bolo. Somos todos camaleões da palavra – até por obrigação, por necessidade. Mas entendo que essa obviedade possa sim parecer algo muito estranho, da mesma forma como o substantivo “maionese” ficará extremamente esquisito quando você decidir admirá-lo com toda a concentração do mundo por uns cinco minutos. Outro dia reclamei da minha prima de 11 anos, que escreve na internet com a mesma destreza de uma analfabeta funcional. Ela sabiamente retrucou: “Tio, não sou desse jeito toda hora!”

Como insisto nesse tipo de jogo mental, passei a sessão inteira de Crimes de autor com esses devaneios tolos quicando nos meus neurônios. Assumo: filmes de Claude Lelouch não costumam fisgar minha atenção. Sempre assisto a eles com o distanciamento curioso de quem espera o grande malabarismo de um peixe amarelo no aquário gigante. Me perdi no meu umbigo também por outra razão: como já havia indicado em A coragem de amar (uma espécie de rascunho gorduroso para o filme seguinte), o cineasta parece obcecado pela forma como o cinema e as pessoas encenam, mudam de tom, vestem-se em personagens, se dividem em duas ou três. É um belo tema, infelizmente mastigado por um diretor que costuma apelar a todo tipo de artifício boboca que tem à disposição.

Lelouch adora fazer com que os personagens cuspam lindas frases de papel-de-carta. “Se fosse possível descobrir a data e a hora da sua morte, você gostaria?”, questiona em A coragem de amar (uma comédia romântica musical com canções que, de tão irritantes, grudam nos mais horrendos pesadelos). “A maior felicidade está nas primeiras vezes”, dispara em Crimes de autor (e eu duvido muito disso, já que, para ficarmos num exemplo mórbido, não fui nada feliz quando vi um cadáver pela primeira vez). Lelouch também é fã de reviravoltas metalingüísticas – e aí aquele tipo inocente que caminha de locação em locação pode se revelar, na décima pirueta do roteiro, o autor da biografia do diretor de um filme inspirado na vida de um primo de Lelouch. A diversão está em servir o rocambole, e não em recheá-lo com reflexões minimamente instigantes.

E, se meu vocabulário atualmente parece muito limitado a termos gastronômicos, talvez essa conte como uma nova persona. A quarta? Chef Superoito, a seu dispor?

Os porralokinhas *

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Com minha prima Thainá, de 11 anos, fui ver Os porralokinhas.

Eu ainda estava contaminado pelo espírito natalino. Minha prima também. Aparentemente, só nós dois estávamos contaminados pelo espírito natalino, já que a sala de cinema estava completamente vazia. Foi aí quando descobrimos que nem as crianças em período de férias querem saber de filme brasileiro.

Minha prima estava tão animada com a boa ação do “tio” (é assim que ela me chama) que soltou urros de animação logo nos créditos iniciais. Eu reparei que a pipoca estava salgada demais. Os urros da menina fizeram eco, multiplicados pela sala completamente vazia. Os créditos iniciais são tosquíssimos. Pensei que, naquele momento, eu poderia estar fazendo algo mais produtivo. Poderia estar comendo omelete para ganhar proteínas e aumentar minha massa muscular.

A história de Os porralokinhas é uma porralokice: um grupinho de crianças de classe média alta se mete numa floresta, encontra o Tio Maneco, enfrenta um homem-jacaré e é salvo da natureza selvagem por uma trambiqueira de Copacabana. Pronto, estraguei a surpresa.

Minha prima não ligou para os efeitos especiais meio bizarros nem para uma cena em que dois garotos quase caem de uma ribanceira, mas são capturados por uma bola verde voadora que parece saída de um clipe antigo do Black Sabbath. Minha prima delirava de emoção. Eu imaginava: como aquela cena estaria descrita no roteiro? “E então os garotos são salvos por uma bola verde gigante voadora, e fazem gracinhas dentro da bola”.

Os pirralhos aventureiros falam tanto a palavra “caraca” que eu já estava me arrepiando todo, aí vi um índio com sotaque carioca e desisti de entender. Minha prima explicou que o desafio dos meninos era entrar no olho de um jacaré de pedra e resgatar um sapo de cerâmica que hipnotiza as pessoas. Ã-hã. Acordei do sono profundo numa cena em que as crianças flutuam em bóias coloridas numa espécie de mangue daqueles que a gente encontra no caminho para Pedra de Guaratiba (N.E.: Tiago Superoito, carioca, está contaminado pelo espírito natalino, e por isso escreve como um débil mental).

O Tio Maneco já está bem velhinho, e entra e sai da trama alegremente como um daqueles coadjuvantes insignificantes de Robert Altman. Há vezes em que ele aparece bem mais novo, em imagens rabiscadas meio Grindhouse de um filme antigo cujo nome não sei e estou com preguiça de procurar no Google.

Uma cambada de crianças pula de pára-quedas – minha prima, nesse trecho aí, gritou ‘caraca!’ – e, logo depois, muitas delas desaparecem da história. “O que aconteceu com as outras crianças?”, minha prima perguntou. “Pode ser que tenham morrido”, o “tio” respondeu. “Elas vão voltar?”, a prima perguntou. “Não, provavelmente morreram.” A vida não aceita artimanhas de roteiro, e é bom aprender isso desde cedo.

Minha prima gostou do filme. Perguntei a ela qual seria a cotação para o que acabara de ver e, depois de eu ter explicado o significado da palavra cotação, respondeu três estrelas. Por mim, não levaria uma estrelinha sequer, sou adulto e não tenho coração. Ficamos na média, e agora ela me fez prometer que irei acompanhá-la de novo no cinema “ano que vem” (e eu caí nessa charada ridícula). Semana que vem, talvez eu pegue uma sessão de Bee movie ou de Encantada ou de outro enlatado qualquer.

A desconhecida *

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A ucraniana Irina (Xenia Rappaport) tem tantos segredos escondidos no porão que uma década de terapia provavelmente serviria apenas para catalogar os traumas por ordem alfabética. Exilada na Itália, ela tenta escapar de um passado morto-vivo, que para ela retorna em flashes de lembranças – e para nós, espectadores sequelados, em flashbacks fragmentados, sangrentos, amarelados e tremidos, mais ou menos como cenas deletadas de um capítulo de Jogos mortais.

Ela sabe de quem escapa. E também sabe por que decide se infiltrar, disfarçada de empregada doméstica, na casa de uma família de classe média. Nós engoliremos essas informações aos poucos, já que estamos presos num thriller que, com duas horas de duração, só começará a revelar as verdadeiras intenções lá pelo centésimo minuto. Enquanto isso, seremos entretidos por um daqueles exercícios de estilo que, em uma suposta biografia de Giuseppe Tornatore, constará como a “homenagem a Hitchcock” ou como a “homenagem a (inclua aqui o nome de algum mestre italiano do cinema de horror, obscuro)”.

Tornatore manipula o gênero como quem usa serra elétrica para fatiar pizza. Não espere dele o mínimo de sutileza. Não espere senso de humor, nem mesmo em momentos acima do tom que estão um dedinho do completo ridículo (por exemplo: as cenas em que a obstinada Irina vaga por um lixão, à Estamira). A trilha sonora de Ennio Morricone nos prega repetidos sustos, como uma peça extravagante que se desenrola à margem da narrativa. E a fotografia é tão sombria que, na tosca versão digital exibida em cinemas brasileiros, dá vontade de pedir emprestado uma lanterna facilitar o acesso a algumas das cenas. Quando chegamos aos momentos finais, dá para admirar a ousadia de Tornatore (que também escreveu este roteiro esquisitíssimo). Mas também fica a vontade de assistir a qualquer Hitchcock, nem que para tirar o gosto amargo de derivação vagabunda – o que não chega a ser a mais saborosa das impressões.

A bússola de ouro *

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Uma coisa é construir um universo fantástico – outra é transformar a construção desse universo em uma dor de cabeça diabólica. Admiro a criatividade de Philip Pullman, que inventou uma forma complicadíssima de narrar uma fábula muito simples, e a cara-de-pau de Chris Weitz, que a adaptou num rocambole de referências (diretas ou indiretas, a esta altura não importa) a Senhor dos anéis, Harry Potter e, num determinado momento (acredite, arght), até a Piratas do Caribe. Na tentativa de fabricar o Ultimate Blockbuster, Weitz se aproximou perigosamente de uma estranha sátira involuntária dos lançamentos de férias. Cada seqüência deste filme nos levará inevitavelmente a outro filme – e a outro, e depois a outro, e depois a uma dor de cabeça diabólica.

A jornada de uma menina nos confins de um planeta meio mágico (versão feminina de Frodo?) para combater uma instituição de ensino dominada pelo autoritarismo (Hogwatrs em Harry Potter e a Ordem da Fênix?) que também aflige um bando de piratas (oh céus) poderia até ter rendido um filme B tosquinho e agradável, mas infelizmente acabou alçada à condição de grande aposta de fim de ano. Daí que, em vez de tratar a aventura com a leveza que ele merece, Weitz imprime à trama aquele peso de auto-importância capaz de transformar cada pequeno elemento da narrativa (e são muitos) em uma espécie de código secreto. Até deciframos que, por aqui, os animais de estimação representam a alma de cada pessoa, teremos perdido o fio da meada de todos os Tão Importantes Debates encenados por personagens que só parecem existir para discutir assuntos supostamente muito importantes (N.E.: Tiago Superoito perdeu os cinco primeiros minutos de filme, que supostamente explicam direitinho toda essa questão de fundamental interesse).

Pior é como guarda a solução dos mistérios mais palpitantes (qual seria, afinal, a função do tão enigmático Pó?) para o próximo episódio da série. Estamos na era dos filmes que, a partir do decalque de fórmulas de sucesso, funcionam como trailers informais para outros filmes. Bom lembrar que a brincadeira de transformar nosso cérebro em gelatina de morango custa quase R$ 20.

Garçonete **

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Quando vi o cartaz, já pensei: lá vem mais uma comédia romântica a lucrar com o efeito afrodisíaco da gastronomia nos corações, mentes e estômagos de espectadores mais sensíveis (e famintos).

Muito enganado, eu. Se o filme não chega a ser nouvelle cuisine, é daqueles que tentam arejar um gênero surrado com personagens de carne-e-osso. Até o balcão de oferendas saborosas e altamente calóricas – e, se você não sair da sala de exibição com vontade de comer torta de chocolate com morango, provavelmente precisará ir ao médico para uma consulta de emergência – parece ficar em segundo plano, como uma espécie de entradinha para abrir nosso apetite para a trama principal, sobre uma garçonete com o simples desejo de abandonar o marido bruto e a vida modorrenta em uma cidade sem futuro. Como se a premissa de O céu de Suely encontrasse o tom colorido e amigável de Pequena Miss Sunshine – e daí dá para ter uma idéia do sabor de um filme que até parece, mas não é mera tortinha de maçã do McDonald’s.

É filme que eu colocaria pra rodar antes da ceia de Natal. Minha mãe cairia no choro e minha tia provavelmente terminaria o casamento com o tio encrenqueiro. Mas é esse o espírito. Por falar nisso, antes que seja tarde, Feliz Natal!