Mês: dezembro 2009

Long distance call | Phoenix

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Eu escreveria um post longo sobre a estranha agonia de um namoro à distância, mas esta canção do Phoenix diz tudo. Neste vídeo, uma cortesia finíssima do site La blogothèque, eles dão um giro nas ruas de Paris e fazem uma versão acústica da música, que está no disco It’s never been like that.

Então é isto, meu povo: hoje à noite, já morrendo de saudade, viajo para passar o réveillon com minha namorada, que está lá longe há tanto tempo. Dedico este clipezinho a ela.

Volto em uma semana. E, para 2010, prometo (como sempre prometo!) um blog menos errático, mais bonito e gostoso, saudável e com dinheiro no bolso. Feliz ano novo — e, se possível, não desapareçam, ok?

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Teen dream | Beach House

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Entre todas as pequenas bandas que apareceram nos últimos 10 anos, eu poderia apostar que o Beach House seria aquela que jamais mudaria. Acho até que escrevi sobre isso, não lembro quando. Se aconteceu, cá estou eu queimando minha língua mais uma vez.

Em retrospecto, as melodias dos discos Beach House (2006) e Devotion (2008) pareciam vazar de uma mesma caixinha de música atirada no fundo de uma caverna. Delicadas e misteriosas. Desde o início, era muito fácil classificar o estilo da dupla — shoegazing, dream pop —, mas quase impossível descrever a sensação de intimidade que canções como Gila e Apple orchard despertavam. Elas sugeriam uma beleza secreta, quase tímida e, por fim, de difícil acesso. Uma certeza, apenas: lá estava uma banda à prova de discos irregulares.

Nos quatro primeiros anos de carreira, Victoria Legrand e Alex Scally se esconderam numa atmosfera enevoada. Nada contra. Os álbuns lançados pela Carpark Records eram filmes domésticos, desfocados, despretensiosos, frágeis (e, nos momentos mais enfadonhos, monocromáticos). A voz de Legrand — sobrinha do francês Michel Legrand — provocava calafrios, mas às vezes parecia indiferente a tudo. Musa de mármore. Um resenhista definiu a estreia como um “álbum de outono” — e, ainda que a comparação não tenha tomado este rumo, vale lembrar que estamos falando da mais encabulada estação do ano.

Pois bem: esse Beach House acinzentado e cabisbaixo acabou. Bem-vindo à primavera.

Teen dream, que sai no fim de janeiro (no inverno norte-americano, portanto), acrescenta mais de uma dezena de cores à palheta da dupla. Inesperado pacas. Mas tem mais: o primeiro grande disco de 2010 arranca o Beach House do conforto do lar e joga a banda no mundo. Parecia impossível, mas eles cresceram e mudaram — graciosamente.

Os mais cínicos vão explicar essa nova estação da seguinte forma: eles teriam passado pelo típico banho de loja a que é submetido o elenco da Sub Pop. O selo de Seattle tem fama de polir e adoçar a sonoridade de recém-contratados. Volta e meia, a gravadora é “acusada” de ter arredondado discos de bandas como Cansei de Ser Sexy, Band of Horses e Fleet Foxes. De fato, o Beach House nunca soou tão radiofônico (o próprio título do disco é de consumo imediato). As duas primeiras faixas, as deslumbrantes Zebra e Silver soul, provocam paixão imediata em qualquer fã do Shins, por exemplo. A névoa de ruídos evaporou — e ganhamos o direito de assobiar mais de um refrão. Isto é: neste longa-metragem indie, fica mesmo difícil negar a interferência dos produtores.

O interessante é que, como raramente acontece, as concessões fazem bem ao duo. Dialogar com as expectativas da Sub Pop parece ter despertado o Beach House para o desafio de atingir um público maior sem abandonar o desejo por sutileza. Mais depuração, menos diluição. Ou, simplificando a saga: pop com tutano.

Daí que, se os dois primeiros discos traziam a imagem de dois outsiders que não deviam explicações a ninguém, Teen dream se apresenta como uma obra mais “responsável”, mais afável — e, por que não?, pop (e eu poderia terminar este texto agora mesmo com o argumento de que é um disco absolutamente tocante e que vocês deveriam abandonar tudo para ouvi-lo antes do dia 31, mas seria uma baita de uma apelação).

Os avanços impressionam. A performance vocal de Legrand, antes comparada à de Nico, agora é recriada de faixa a faixa, sintonizada ao clima de cada canção. A melancolia ainda vibra em cada acorde, mas a diversidade melódica acompanha toda a duração do disco, criando surpresas agradáveis: os ares oitentistas de Lover of mine (imagine um remix do Tears for Fears feito pelo Mazzy Star), a elegância jazzística de Better times, a afetuosidade quase derramada de Take care e a explosão de sintetizadores ao fim de 10 mile stereo. Um sonho em tecnicolor.

Sem juízo de valor: este é um daqueles álbuns em que uma pequena banda adapta um estilo sólido às convenções do pop rock. Isso parece um problema? Não quando essa pequena banda está disposta a usar um ou outro truque para facilitar nosso acesso a um mundo ainda delicado, ainda misterioso. Que me perdoem os mais radicais: à luz rósea do pop, a história do Beach House fica ainda mais bonita.

Terceiro disco do Beach House. 10 faixas, com produção de Chris Coady. Lançamento Sub Pop. 8/10

Adeus, 2009 | Os melhores filmes do ano (parte 2)

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Antes que eu esqueça (e seria ótimo se eu tivesse esquecido, mas infelizmente não consigo), os 10 insuportáveis do ano:

1. Os Normais 2 – A noite mais maluca de todas – José Alvarenga Jr.
2. Encontro de casais – Peter Billingsley
3. Se eu fosse você 2 – Daniel Filho
4. Diário proibido – Christian Molina
5. Austrália – Baz Luhrmann
6. Noivas em guerra – Gary Winick
7. W. – Oliver Stone
8. Velozes e furiosos 4 – Justin Lin
9. The Spirit – O filme – Frank Miller
10. Lua nova – Chris Weitz 

E, para fim de conversa, vamos ao top 10 (lembro que A bela Junie, de Christophe Honoré, não entra nesta lista por ter aparecido prematuramente na do ano passado). Obrigado pela paciência e Feliz Natal pra vocês.

10. O lutador – Darren Aronofsky

Vamos encarar assim: este poderia ter sido mais um filme sobre o martírio de um velho atleta (e, aí, não difere muito de Rocky Balboa). Mas, num impressionante curto-circuito entre ficção e realidade, Aronofsky acabou descobrindo que Mickey Rourke era o próprio personagem. Com a fúria de um cinema físico, em carne viva, resolveu filmar o transe. Que machuca o ator – e não livra quem está na plateia.

9. Deixa ela entrar – Tomas Alfredson

Em tempo de Crepúsculo e True blood, nenhum filme de vampiros soou tão inesperado quanto este longa sueco. Sem vocação alguma para o humor camp, Alfredson desenterra toda uma tradição do cinema e da literatura de horror para tratar de um tema nada sobrenatural: os medos que acompanham o fim da infância. Mais que o banho de sangue, é o lirismo que soa espantoso. 

8. Ervas daninhas – Alain Resnais

Desde o primeiro longa-metragem, Resnais teima em nos transportar para ambientes em que sonho, realidade, arte e memória formam uma só matéria. Mas teríamos que voltar aos anos 1980 para encontrar outro filme do mestre que, como Ervas daninhas, derruba tão alegremente (quase debochadamente) as certezas do espectador. É (quase) tudo ilusão, menos os sentimentos caudalosos dos personagens – e a vida, sim, é um romance.     

7. Polícia, adjetivo – Corneliu Porumboiu

Precisão: taí a palavra que abre a gramática de Corneliu Porumboiu. O diretor romeno confirma a promessa de A leste de Bucareste num filme que, com artifícios reduzidos ao mínimo, investiga com tamanho rigor as atividades banais de um homem comum (profissão: policial) que, no marasmo do cotidiano, identifica dilemas que dizem respeito também a nós: o quanto nós somos definidos pelo trabalho? Onde terminam as nossas convicções e começa a obrigação de cumprir as leis sociais? Qual é mesmo o significado da vida que escolhemos levar? Talvez seja necessário abrir o dicionário… 

6. Inimigos públicos – Michael Mann

O perfil de Michael Mann para o bandido-superstar John Dillinger é uma rajada de estilo. Como em O último dos moicanos, o cineasta não se contenta em contar a história da América: ele a revive. Com uma lente moderna (no caso, ultramoderna: as câmeras são digitais), interpreta um personagem simbólico com a complexidade que falta à média das fitas policiais: Dillinger é oportunista e sedutor, cruel e melancólico. Numa interpretação silenciosa, Johnny Depp atua como quem acompanha uma longa marcha fúnebre. Talvez o filme seja isto: réquiem para uma era.    

5. Aquele querido mês de agosto – Miguel Gomes

Que poderia ser chamado de A aventura. Miguel Gomes nos convida para uma jornada sem destino definido. Primeiro como documentário sobre os hábitos musicais de uma cidadezinha portuguesa, depois como uma ficção encenada por atores (escalados durante o processo de filmagem!), Aquele querido mês de agosto devolve ao cinema o direito de brincar.

4. Gran Torino – Clint Eastwood

Um western-de-vizinhança que revê a trajetória de Clint Eastwood (e por isso tem algo de Um mundo perfeito, Os imperdoáveis, Sobre meninos e lobos…) e, ainda assim, depura de tal forma o estilo do cineasta que acaba parecendo algo inteiramente novo: compacto, direto, sem arestas à mostra e, mais importante que isso, com um olhar cristalino para as tensões da América de hoje. Um filme que toma partido, que não se esconde. Se é isso que chamam de maturidade, só posso esperar com muita ansiedade pelos próximos. Go ahead, Clint.  

3. Beijo na boca, não – Alain Resnais

Injustamente desprezado pelo público brasileiro, este musical resume todo o poder de encantamento do cinema de Resnais. Não me pergunte como, mas o filme consegue conjugar um jogo metalinguístico sofisticado (e a questão parece ser esta: qual seria o efeito provocado por uma adaptação cinematográfica quase literal de uma opereta criada nos anos 1920) com os prazeres provocados por um bom musical hollywoodiano dos anos 1950. Talvez o tema tenha afastado o público, mas seria mais prudente dar a ele uma segunda chance: é um dos momentos mais luminosos do cineasta.   

2. Bastardos inglórios – Quentin Tarantino

Tarantino vai à Segunda Guerra Mundial, mas não abandona o balcão da videolocadora: num golpe aparentemente insano (mas que, visto de longe, parece até uma evolução natural do que ele desenvolvia até aqui), o diretor usa um dos Temas Sagrados da humanidade para mover a engrenagem de um cinema que nunca respeitou ninguém. A heresia pode não ter rendido a obra-prima que o diretor procurava, mas ele chegou perto: em Tarantinoland, os judeus têm direito a vingança – e o cinema salva o mundo. Quando sai o próximo ônibus pra esse parque de diversão?

1. Amantes – James Gray

Filmes como Os donos da noite e Caminho sem volta garantiram a James Gray um certo status de salvador do cinema policial americano. Em Amantes, que parece ter sido criado como uma resposta a esse fardo, o cineasta deixa o gênero de lado e sublinha o interesse por encenar apenas as relações humanas – amorosas, mas principalmente familiares. Daí nasceu um daqueles filmes profundamente simples e verdadeiros que raramente chegam às nossas telas. O cinema de Gray produz pequenos milagres (a cena em que os amantes conversam no topo do prédio, por exemplo), mas me emociona pela franqueza como encara as coisas da vida: a necessidade de amar, a carência afetiva, a dificuldade de crescer, o conforto familiar, o medo da solidão, as ilusões a que nos apegamos. Dá licença, serei brega: este é um filme para ser amado e vivido.

Adeus, 2009 | Os melhores filmes do ano (parte 1)

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Primeiro, às regras: entram nesta lista apenas os filmes que foram exibidos no circuito de cinemas brasileiro em 2009. Não contam, por isso, os que vi em festivais ou em DVD.

Isso significa, por exemplo, que Guerra ao terror (que chega às telas em fevereiro) talvez fique para o top do ano que vem. E que, para nosso azar, não haverá lugar para 35 doses de rum, Vício frenético, A família Wolberg, O que resta do tempo, Ricky e outros filmes mui bacanas que certamente estariam neste ranking.

Em resumo: o nosso circuitinho anda morno, o circuitão vai pior ainda, mas este foi (surpreendentemente) um bom ano. Os filmes que ocupam as oito primeiras posições são especiais, recomendadíssimos – e há outros, ainda que não tão extraordinários, se comunicam comigo de formas profundamente misteriosas (pule para a 12ª posição). Esta é a minha lista, e eu gostaria muito de conhecer a sua.

Infelizmente, não vi Moscou, do Eduardo Coutinho. Não sei, por isso mesmo, se gosto ou desgosto dele. 

Vou tentar ser breve nos comentários: sei que vocês estão de férias na praia, que a conexão é discada e que, neste mundo, ninguém tem mais tempo para nada. Comecemos (e sem menções honrosas, que aí já é abuso).

20. Milk – A voz da igualdade – Gus Van Sant

O filme político de Gus Van Sant é de uma precisão que emociona. Sem distrações, o cineasta desenha o perfil de um homem que virou mito que virou símbolo. Imagens dignas. E Sean Penn faz o resto do trabalho. 

19. Entre os muros da escola – Laurent Cantet

A escola de Cantet é uma metáfora para as tensões sociais da França, ok: mas bom mesmo é como este filme permite que entremos de corpo inteiro num ambiente tão familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Imersão absoluta – sem a necessidade de óculos 3D.   

18. O equilibrista – James Marsh

Não são muitos os documentários que abrem lacunas misteriosas para que preenchamos com a nossa imaginação. O que motiva o equilibrista Philippe Petit a se arriscar em espetáculos de altíssimo risco. James Marsh, felizmente, não tenta explicar.   

17. O fantástico sr. Fox – Wes Anderson

Um giro colorido e acelerado no parque temático de Wes Anderson, com todos os tiques, neuras e maravilhas a que estamos acostumados. Um avanço importante, no entanto: inesperadamente, o cineasta reencontrou a fluência narrativa e o gosto pelo riso solto. Brinquedinho bom, portanto. 

16. Up – Altas aventuras – Pete Docter

No formato de um curta-metragem de 15 minutos, seria a obra-prima melancólica da Pixar. Do jeito que está, mais para Madagascar do que para Meu vizinho Totoro, mostra que existe um preço que se paga quando o objetivo é agradar à toda família. Para os padrões dos blockbusters de férias, porém, é sofisticação em alto grau.

15. Valsa com Bashir – Ari Folman

Com traços psicodélicos e cores quentes, Folman reconstroi as memórias de uma guerra. De quebra, tira o cinema de animação do quarto das crianças.

14. Se nada mais der certo – José Eduardo Belmonte

Um olhar desconfortável para o Brasil, um país em perigo. Belmonte mira a classe média, essa gente estranha que compra ingressos para ver filmes, mas não se contenta com o diagnóstico da nossa tragédia: nos laços de companheirismo, há esperança. 

13. Avatar – James Cameron

O Star wars de James Cameron também é um filme “para crianças de 10 a 12 anos” (como diria George Lucas), com assumida carga moralizante, personagens-arquétipos e conflitos que cabem em pilulas que alimentam astronautas. Só não é ingênuo. Com a tecnologia 3D, o cineasta nos atira num mundo maravilhosamente estranho. Um planeta de ilusões palpáveis – sonhos reais.  

12. Presságio – Alex Proyas

A ficção científica mais subestimada do ano é também a mais assustadora. Esqueça 2012: Alex Proyas nos conduz numa viagem a um fim de mundo que soa cruel de verdade. O desfecho, que frustrou uma multidão, é a peça de resistência: uma ideia talvez tola, mas levada apaixonadamente às últimas consequências.  

11. Horas de verão – Olivier Assayas

Depois de rodar o mundo no encalço de personagens sem destino certo, Assayas os reúne numa casa de campo. A nossa trajetória deixa algum rastro? Uma crônica em tom menor, atenta a detalhes e à composição de ambientes, que, apesar de aparentemente singela, logo se faz grande: um dos melhores filmes do diretor.

Cousins | Vampire Weekend

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Alguém pode me explicar o que é essa nova música do Vampire Weekend? Carnaval de Olinda no moedor de carne? Sílvio Caldas meets David Byrne? Não entendi nada, mas não consegui deixar de balançar meus joelhos. O clipe faz jus à baderna (que, quando você se acostuma a ela, passa a soar como sequência natural da farra do disco anterior): numa prova de que eles não levam nada muito a sério, arriscam uma homenagem supimpa a Bob Dylan (foi isso mesmo que vi?). E correm pro abraço.

Adeus, 2009 | Superoito’s mixtape, parte 2

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Meu segundo best-of de 2009 saiu um pouco menos sombrio do que o primeiro, mas não tanto quanto eu esperava. Talvez o ano tenha sido assim mesmo: meio bizarro, osso duro de roer. Paciência.

Aos menos melancólicos, fica a dica: da sétima faixa em diante, a pista esquenta.

E tem pra todo mundo – uma óbvia do Dirty Projetors (eles estão ali em cima, na foto que abre o post), uma não tão óbvia do Animal Collective, um balanço charmoso do Basement Jaxx, a “devoradora de homens” Neko Case, o hit improvável do Phoenix e, claro, Fever Ray (para Diego e Filipe). Espero que vocês sofram um pouco, mas se divirtam.

Ei:  um abraço a quem baixou a primeira coletânea. O número de downloads me surpreendeu. E, já que a ideia não é um fiasco completo, em janeiro de 2010 começo a preparar coletâneas mensais.

Eis a tracklist desta nova mixtape:

1. Stillness is the move – Dirty Projectors
2. When I grow up – Fever Ray
3. Crystalised – The XX
4. Laura – Girls
5. Bonfires on the heath – The Clientele
6. Bluish – Animal Collective
7. People got a lotta nerve – Neko Case
8. 1901 – Phoenix
9. Ecstasy – JJ
10. Feelings gone – Basement Jaxx
11. Moth’s wings – Passion Pit

Faça o download (via Rapidshare): Superoito’s mixtape 2009, parte 2

E, ainda nesta semana, devo terminar minha lista de melhores filmes do ano. Até.

Adeus, 2009 | Os melhores álbuns do ano (parte 2)

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É isso, meus irmãos: o top dos melhores discos de 2009 está aí, galante e inteirinho para quem quiser ver. Mas lembro que, até o fim da próxima semana, a série Adeus, 2009 segue com a lista dos meus filmes favoritos (que será fechada assim que eu conseguir me livrar do trabalho e assistir a Avatar) e mais uma mixtape que, espero, será um pouco menos acinzentada do que a anterior. Espero que tudo termine bem. Enquanto isso… 

10. The Pains of Being Pure at Heart – The Pains of Being Pure at Heart

Certeza que o Pains of Being Pure at Heart nasceu mesmo em Nova York? Para mim, ainda soam como quatro galeses que, depois de passar o inverno ouvindo The Jesus and Mary Chain e Belle and Sebastian, resolveram passar o verão na Suécia: leram livros cabeçudos, gravaram um disco de rock, e lembraram dos dias calorosos de adolescência. Tipinhos blasé. Que sabem como matar o tempo de uma forma produtiva.

9. Together through life – Bob Dylan

O tempo de Dylan é ontem? É hoje? Não me pergunte. Together through life é mais um álbum que ri sarcasticamente das regrinhas do pop contemporâneo e inventa o som de uma época que talvez nunca tenha existido. Atenção para a sinopse: este é um road movie (em sépia) sobre a pré-história do rock, encenado por um ator/diretor que, impertinente, insiste em esnobar nossas expectativas. Moral da história: mais uma vez, o gênio ri por último.

8. Fever Ray – Fever Ray

A estreia solo de Karin Dreijer Andersson (a mulher-mutante-zumbi à frente do The Knife) é um breu. Não deve, por isso, ser ouvida de luzes apagadas. Como numa produção de horror alemã dos anos 1920, seres estranhos se movimentam lentamente sob sombras. Mais assustador é notar que, na tradição de um Portishead, trata-se de um álbum sobre o terror do cotidiano — que nos aflige entre quatro paredes de concreto. Sabe qual? Aquele que não poupa ninguém.

7. XX – The XX

Quatro moleques de 20 e poucos anos. O que eles teriam a dizer sobre o estado do rock britânico? Praticamente tudo. Mesmo sem querer, o primeiro disco do The XX soa como uma resposta a anos de grandiloquência, ambições épicas e uso descontrolado de fumaça artificial. Com fé quase cega na sutileza, a banda grava lindos esqueletos de love songs que, para nossa completa surpresa, soam mais sensuais que qualquer hit da Kylie Minogue. Sem exageros: um tesão de disco.

6. Dragonslayer – Sunset Rubdown

Pobrezinhos de nós, fãs do Wolf Parade. Depois do tufão chamado Dragonslayer, eu não me impressionaria se os canadenses resolvessem tirar recesso por tempo indeterminado. No disco, o exército de Spencer Krug renasce como uma criatura à parte, ameaçadora e misteriosa. É caminho sem volta: em apenas oito faixas (monumentais, ambiciosas), a banda cobra um lugar espaçoso no mundo. E não deixa que sintamos saudades daquele outro projeto de Krug.

5. Album – Girls

Conhecer a história de Christopher Owens não é fundamental para amar deste álbum (e amá-lo é muito fácil). Mas ela nos ajuda a entender por que um sujeito que passou a infância e a adolescência trancado num culto religioso estupidamente radical resolveu gravar um disco que soa como um grito de liberdade. Do rock ‘n’ roll ao noise, o Girls metralha canções com a alegria angustiante de quem finalmente abre um baú que havia sido trancado à força. Catarse. Ou, se preferir, apenas o som de uma juventude perdida.

4. Two dancers – Wild Beasts

No rock contemporâneo, muitas são as bandas conservadoras que se fazem de ultramodernas. Mas poucas tentam entender o que faz do “rock clássico” um porto seguro tão atraente para fãs de música pop. O Wild Beasts é, por isso, uma raridade: uma banda que abandonou tiques do indie para estudar a arte da canção. Two dancers parece familiar (e tipicamente britânico) desde a primeira audição. Mas a fórmula é revigorada de tal forma – pelas performances lânguidas dos vocalistas, pelos versos enigmáticos, pela atmosfera sombria e decadente que envolve as músicas – que, perto dele, qualquer hit do Coldplay parece desonesto. Nada de novo nessa história. Mas não é sempre que a tradição soa tão urgente.

3. Bitte orca – Dirty Projectors

Não importa quanto tempo você invista no álbum-revelação do Dirty Projectors: ele sempre deixará a sensação de uma obra aberta – uma narrativa sem desfecho. O processo criativo de Dave Longstreth é tão caótico que deixa a impressão de haver vários projetos em estágio embrionário dentro de Bitte orca. Essa profusão de ideias (quase todas inusitadas: há folk, pós-punk, afropop e o diabo) permite ao ouvinte um prazer incomum: somos convidados a nos perder dentro de um álbum de rock. Como nas melhores aventuras, o desafio é totalmente recompensado.

2. Veckatimest – Grizzly Bear

Veckatimest é o contra-ataque que não esperávamos do Grizzly Bear. Muitos fãs do disco anterior, Yellow house, talvez teriam apostado num álbum mais extrovertido e pop (ou, num sentido oposto, mais radical, experimental). Mas a banda – mais madura do que eu e você, possivelmente – preferiu seguir uma trilha mais enigmática. Sob neblina seca, o disco condensa as experiências anteriores (do rock californiano a uma psicodelia dura, quase entorpecida, quase fria) num molde absolutamente compacto. É como se todas as canções inesperadamente decidissem narrar uma só história, com a atmosfera desolada (mas com momentos de esperança e beleza) de um conto de fadas para adultos. Talvez seria melhor ouvir este disco em meio à leitura de A estrada, de Cormac McCarthy. Ou após uma sessão de Deserto vermelho, do Antonioni. Quem sabe aí começaríamos a entendê-lo?

1. Merriweather Post Pavilion – Animal Collective

Escrevi meus primeiros comentários sobre MPP (e o chamo assim porque somos íntimos) há exatamente um ano. Naquele dezembro, já dava para notar que seria quase impossível encontrar um concorrente à altura do impacto provocado por um disco que soa extraordinário até para os padrões (muito altos) do Animal Collective. Muito se falou sobre como a banda trata a música eletrônica – da mesma forma curiosa (infantil, no melhor dos sentidos) como brincou com elementos do folk e da música experimental. Mas o álbum ainda me deslumbra por outro motivo: por mostrar com clareza a face humana do trio.

Como sempre, não há limites para a invenção musical. O que faz de MPP uma obra-prima, no entanto, é como essa sonoridade irrequieta dialoga com os versos mais francos e emotivos que eles já gravaram. Depois da viagem ao fundo do coração selvagem, eis que encontramos a maior surpresa: Avey Tare, Panda Bear e Geologist, artistas do inusitado, também se sentem perdidos diante das incertezas do nosso mundo. Exatamente como quase todos nós.