Voltamos a apresentar

Postado em Atualizado em

Depois de uma temporada em São Paulo, a cidade das filas e dos engarrafamentos, retornar a Brasília numa manhã de segunda-feira deixa a impressão de que a vida numa maquete pode sim, em alguns momentos, a depender do referencial, ser até bastante tranqüila. Quase agradável. 

Por exemplo: aqui também estamos todos tostando sob um sol apocalíptico, mas somos convidados a refletir sobre o calor enquanto cruzamos o Eixão amplo, vazio, habitável. Podemos tecer teses, filosofar em silêncio, prever cenários, arriscar estatísticas. O calor, o aquecimento global, o inchaço urbano, o colapso de todas as estruturas. 

Em São Paulo, nem há clima para isso. No máximo, corremos para o espaço refrigerado mais próximo enquanto desviamos da multidão, fulos da vida. Nada muito romântico. Na capital levamos o dia-a-dia de uma outra forma, tomamos fôlego – e ainda não entendo por que os grandes intelectuais do Brasil saem da USP e não da UnB.

Passei o dia em meio às caixas de papelão que contêm toda a minha vida minúscula, consumista e, por fim, insignificante. Os CDs, os livros e os DVDs – tudo o que tenho, basicamente. No meu novo quarto, ordenei meus objetos de uma forma desleixada, desapegada, acelerada, talvez na tentativa de fugir da experiência da mudança, tratá-la como bobagem. Não funcionou. Da janela do prédio, tudo o que ouvi foi o ruído de algumas criancinhas que jogavam queimada no playground. Um silêncio. Um silêncio quase infernal.

Brasília às vezes cobra respostas, atiça o desespero. Fica parada com a mão no queixo, silenciosamente à espera de uma crise existencial qualquer. A minha: a idéia de mudar de casa, um movimento que parecia tão simples, provocou uma tarde de tristeza, de saudade. Não estou de manha, já que encarei o processo com dignidade, sem chiliques. Longe da minha família, com quem vivi durante 29 anos, me senti condenado à condição de eterno visitante – e, sublinhem o ridículo da situação, por enquanto estou hospedado no apartamento que conheço há 17 anos. Aposto que, mesmo quando eu me enclausurar numa quitinete, ainda pensarei assim: serei um mero convidado, fora do ninho.

Mas, com o tempo, quem não se acostuma? Com um pouco de barulho nas ruas, provavelmente eu nem estaria preocupado com isso. Só que estou em Brasília – e isso às vezes faz toda a diferença.

Anúncios

4 comentários em “Voltamos a apresentar

    Michel disse:
    outubro 28, 2008 às 2:43 am

    Encaixotar as coisas é realmente meio estranho, e o mais estranho ainda é qdo vc começa a visitar a casa dos pais se sentindo visita!

    Tiago respondido:
    outubro 28, 2008 às 8:44 pm

    Sim, Michel, experimentei isso ontem e foi no mínimo estranho.

    Diego disse:
    outubro 28, 2008 às 8:46 pm

    Encaixoto as minhas nas próximas semanas e, pior ainda, não sei para onde elas vão. Isso, sim, é estranho.

    Tiago respondido:
    outubro 28, 2008 às 8:48 pm

    Hahaha. Ok, Diego, você venceu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s