Cardinology | Ryan Adams & The Cardinals

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Pode ser que eu esteja mesmo na contramão do bom senso – mas, ao contrário dos que festejam o Ryan Adams comedido, comportado e despretensioso da fase iniciada com Easy tiger (2007), estou com os que sentem falta da época em que o rapaz lançava três discos por ano (entre eles, um álbum duplo) e, com o ego infladíssimo, mandava os detratores catar coquinhos.

É o preço que se paga por trabalhar demais.

Hoje dizem que Ryan é um homem pleno, na idade da sensatez. O atestado mais redondinho deste período é Cardinology, um disco gravado sob medida para quem sempre detestou Ryan Adams. Seqüência cartesiana para Easy tiger, trata-se de um álbum de classic rock sóbrio e esforçado, quase tímido, sem o senso de humor que arejou delírios como Gold (ode monumental a Rolling Stones e Neil Young) e Rock ‘n’ roll (uma espécie de paródia do hard rock radiofônico).

Há quem diga que está entre os melhores de Ryan. Por aqui, a sensação é de que dilui o melhor de Ryan num sanduíche para consumo acelerado. As quatro primeiras faixas reduzem a carreira do compositor aos elementos básicos: Born into a light é a homenagem a Grateful Dead, Go easy nos lembra das influências de country rock, Fix it é a baladona de arena com um quê de U2 e Coldplay e Magick prova que Ryan não desistiu de brincar com referências de garage rock. Tudo muito simples, didático, a+b=c.

Apesar do comodismo quase irritante (e, para quem conhece a carreira do moço, impossível ouvir o álbum sem levantar suspeitas de auto-ironia), Cardinology é sim fluente e agradável, um disco que se escuta de uma vez só com prazer – sem gorduras, sem excessos, como se o produtor da Sheryl Crow tivesse podado um conjunto de 150 canções gravadas pelo músico entre 2007 e 2008. Faixas como Natural ghost e Cobwebs poderiam estar num álbum do Whiskeytown, a antiga (e excepecional) banda do cantor.  

Mesmo nos dias mais preguiçosos, Ryan nunca nos decepciona: é um operário do refrão fácil, que sabe se divertir com símbolos da história do pop. Mas, com todos os elogios que anda recebendo da crítica, a tendência é que Cardinology faça com que ele se esparrame ainda mais na condição de um talentoso compositor de soft rock para quarentões. Algo que faz bem – mas é tudo?

Décimo álbum de Ryan Adams. 12 faixas, com produção de Tom Schick. Lost Highway. **     

2 comentários em “Cardinology | Ryan Adams & The Cardinals

    Daniel Pilon disse:
    outubro 29, 2008 às 10:35 am

    Concordo com tudo. Também prefiro o ‘velho’ Ryan Adams.

    Tiago respondido:
    outubro 29, 2008 às 12:02 pm

    O meu favorito dele é o ’29’, então…

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