Dia: outubro 31, 2008

Death magnetic | Metallica

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Sei que é crime, mas admito que gostei de Load.

Quer dizer: gostei por umas três semanas. Ou um pouco mais que isso. Eu era um menino. Era 1996, por deus. Na época, me parecia uma baita reviravolta para a banda. Um golpe estranho, improvável. O monstro do metal, com um fã-clube em parte decididamente xiita, passava a mirar os órfãos do grunge, as paradas de rock alternativo, as trilhas sonoras de blockbusters, as prateleiras de supermercados.

Lembro da expressão de choque do meu vizinho metaleiro quando viu uma foto de um repaginado James Hetfield. Eu não imaginava que um corte de cabelo poderia provocar tamanha comoção em uma legião de machos. Mas provocou. O clipe de Until it sleeps, para muito homem barbado, representou nada menos que o fim da inocência. Um tique nervoso. Um bug.

Para mim, tanto fazia. Eu, fã de Nirvana e Soundgarden, achava graça. Ria da surpresa alheia. Lembro que comprei a fita cassete de Load e, depois de um tempo (graças à pregação do vizinho metaleiro), ouvi todos os álbuns anteriores da banda. Era fácil gostar de Master of puppets e de …And justice for all (e havia o Álbum Preto, que todos conhecíamos por osmose), mas nunca levei a sério a liturgia do metal e admito (outro crime!) que sempre encarei longos solos de guitarra como peças cômicas.

Mas entendo (como não?) o entusiasmo que Death magnetic deve ter provocado no meu vizinho. Depois de três álbuns dedicados a um crossover desgovernado (mas corajoso, admita) de subgêneros do rock pesado, o Metallica gravou um álbum que, em tese, descarta as aventuras recentes e retorna ao final dos anos 80. Com quilométricos solos de guitarra. Com letras sobre suicídio, pesadelos e apocalipses particulares. E uma faixa de dez minutos de duração.

Não quero estragar a festa de ninguém, mas a massacrante estratégia de divulgação do álbum (a banda é uma das últimas esperanças da indústria fonográfica) esconde um fato que não dá para ser contestado: Death magnetic, que nunca será um novo Master of puppets, nada mais é que um novo álbum do Metallica. Estamos de acordo sobre isso? Parece mero jogo de palavras, mas não: digamos que a assessoria de imprensa do Rolling Stones avise que a banda gravou um novo Sticky fingers. Você vai sair por aí acreditando?

Tomemos as coisas como elas são: neste disco, o Metallica tenta resgatar e concentrar alguns elementos que estavam diluídos desde o Álbum preto, de 1991. Em tempo de Guitar hero, não há nada ingênuo nessa decisão. Os fãs podem até se perguntar: ‘por que eles não tiveram essa idéia antes?’ Aposto que tiveram. Mas ela era comercialmente inviável. E o Metallica de 2008, sorry, continua uma banda bastante afinada com o mercado.

Para mim, a ficha caiu num show no Rock in Rio Lisboa, durante a turnê do tão execrado (mas elogiado à época do lançamento) St. Anger. No palco, vi um exército de entertainers. Um batalhão extremenente profissional. Quase um conglomerado do rock (e foi um dos espetáculos mais divertidos que vi na minha vida). O Metallica, a partir do sucesso comercial do início dos 90, nunca brincou em serviço. A guinada de Death magnetic (que nem é tão extraordinária assim) só poderia ter vindo de uma banda muito preocupada com a própria sobrevivência.

Nada menos surpreendente, por isso, que a convocação de Rick Rubin (que aparece até em álbum do Justin Timberlake) e o projeto de um comeback ensaiado – Madonna, para ficarmos no exemplo mais explícito, faz isso a cada dois anos. Death magnetic periga ser elogiado mais pelo que pretende ser do que pelas canções em si. Dizem que é o melhor disco da banda desde …And Justice for all. Mas a relação de singles (The day that never comes, My apocalypse, Cyanide, The Judas kiss e a infame The unforvigen III) ficará na memória de alguém?

Ao disco, então. O formato mais seco e direto da gravação – e o gancho do álbum é todo esse – tem um lado bom e outro desastroso: ressalta o entrosamento da banda e a capacidade de improvisação (algo que eles só conseguiram por ter todo esse tempo de estrada), mas sublinha a inanição dos versos, que empilham clichês do metal (“Ele cruzou a linha, em direção à cripta, eclipse total”, vide My apocalypse). Sem a catarata de solos de guitarra, que daria porte épico até a Ciranda cirandinha, as faixas poderiam estar em discos como Reload ou até mesmo em St. anger. A presença de um novo baixista nem interessa. O Metallica parece ter aprendido que, para compor um álbum querido entre metaleiros, é necessário seguir algumas regras rígidas. É o que fazem.

Daí que Death magnetic, com todos os apetrechos obrigatórios do gênero (como a típica balada evocativa e pessimista, no caso The day that never comes), acaba soando o mais convencional entre os álbuns da banda. O menos arriscado. O que não ouviremos com prazer (cheguei com muita dificuldade à quinta audição completa). E aí não importa se canções de sete minutos não tocam tão facilmente nas rádios. O Metallica fez o único disco que poderia ter feito em 2008, apenas isso. E, ainda mestre da eficiência, conseguiu vender a idéia de uma grande novidade.

Nono álbum do Metallica. 10 faixas, com produção de Rick Rubin. Warner Bros/Vertigo/Mercury. *  

The morning after

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Tudo o que quero é escrever um texto que não me decepcione na manhã seguinte.