Superoito express (42)

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Watch the throne | Jay-Z & Kanye West | 72

Parece que há algo muito errado, até defeituoso, quando os dois rappers mais poderosos do mundo se encontram para gravar um disco de 46 minutos de duração. Sabemos que, no hip-hop americano, o excesso faz parte do jogo (e não será difícil encontrar mixtapes com mais ideias que um álbum quádruplo de rock). Mas taí a surpresa de Watch the throne: é conciso, e não tão desconjuntado quanto prometia ser.

E, mais chocante que tudo isso, nem tão ambicioso quanto alguns de nós prevíamos. É como se Kanye West (de My beautiful dark twisted fantasy, 68 minutos) e Jay-Z (de The blueprint 3, 60 minutos) aproveitassem a ocasião para nos mostrar que nem sempre são os chefões controladores e obsessivos que dão a entender. Às vezes eles se divertem. E Watch the throne soa mais como feriado (é leve, até rasteiro em alguns momentos, sem tantos desafios para a dupla) que como um dia pesado de trabalho.

Pode soar decepcionante, para quem esperava um “statement” sonoro (como o primeiro The blueprint) ou uma epopeia sentimental (à altura de My beautiful dark twisted fantasy). Watch the throne é menos, bem menos – e nem consigo notar momentos verdadeiramente delirantes ou surpreendentes (ainda uma ou outra faixa brilhe com força: New Day, que relê Nina Simone via autotune, e That’s my bitch, com um Bon Iver irreconhecível). Noto o contrário: Kanye e Jay-Z se divertindo dentro da zona de conforto que criaram para eles.

E, se eu deveria sim ter me animado mais com essa ideia (um bom disco de Kanye ou de Jay-Z supera quase tudo o que se ouve nas rádios), o resultado me parece uma “victory lap” esquecível. Eles podem, eles fazem, mas este disquinho deixa um pouco de saudade dos discões que eles às vezes nos entregam – sim, os de 60 minutos.

Channel pressure | Ford & Lopatin | 79

Se Channel pressure é mesmo um tributo à poplândia dos anos 80, então o que vejo é Tron meets War games: o game da paranoia, como se o Muro de Berlim ainda estivesse de pé (e como se ainda estivéssemos todos esperando pela explosão nuclear e/ou pelo desembarque dos ETs de Spielberg). Mas tem bug neste sistema: aos poucos, o disco desta dupla americana se revela não somente uma festa retrô para trintões, mas um daqueles álbuns irônicos de electropop, nos moldes de Discovery (do Daft Punk) e United (do Phoenix), que usam a sucata nostálgica como material para uma criação que diz respeito ao tempo presente. Poucos discos soam tão atuais: principalmente no jeito despreocupado como flutua de estação em estação, dos excessos grotescos ao acorde mais singelo, quase brega (e Emergency room, acima disso tudo, é uma das músicas mais viciantes do ano). Modular o passado com uma aparelhagem toda nova: eis o desafio deste belo joguinho.

Instrumental mixtape | Clams Casino | 78

Clams Casino é o produtor de Nova Jersey que, dizem, cria no porão da mamãe a sonzeira oh-tão-sexy de rappers como Lil B, Soulja Boy e Mobb Deep. Esta mixtape instrumental, que ele distribui na web, mostra que o palavreado dos colegas às vezes atrapalham a arte do sujeito. De tal forma que ninguém vai sentir falta de vocais em faixas que nos surpreendem de 30 em 30 segundos e, por isso, nos entretém (aliás, é uma marca do estilo de Clams: bolar associações improváveis entre ritmos e gêneros, do rock progressivo à soul music setentista). It’s a keeper. Mas acho que seria interessante descobrir como ele se viraria num disco concebido para não ser acompanhado por vocais: aí sim, provavelmente estaríamos falando de um dos grandes álbuns do ano.

Electronic dream | araabMusik | 78

Se a mixtape de Clams Casino às vezes soa sortida como uma jukebox, a estreia do produtor Abraham Orellana (ou araabMuzik) impressiona por uma atmosfera de quase claustrofobia: quando paro de ouvir o disco, ainda fico com a imagem de um quarto pequeno e negro, fuzilado de minuto a minuto por flashes de estrobo. Tal como nos discos do The-Dream, o que temos é um produtor tentando agressivamente impor um estilo: que, apesar de não ser tão marcante ou original quanto ele acredita que é, cria uma tela específica, com limites muito bem definidos, e um temperamento que se reconhece de imediato. Para um primeiro disco, é de uma coesão incrível. Ainda acho, no entanto, que araabMusik criou uma mise-en-scene poderosa, mas à procura de um bom elenco de canções — poucas, acima de tudo Streetz tonight, ficam na minha memória quando a festa termina.

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2 comentários em “Superoito express (42)

    Diego Maia disse:
    agosto 16, 2011 às 2:57 am

    Até vejo as semelhanças do Ford & Lopatin com a nostalgia do Daft Punk e do, vá lá, Phoenix, mas falta o talento pop dessas duas bandas a eles.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 3:05 am

    É, ainda falta, mas o disco tem momentos pop muito fortes, acho.

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