Kanye West

Mixtape! | Agosto, die young

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A mixtape de agosto, que agora vocês têm em mãos, me tomou de surpresa. Primeiro porque ela soa mais coesa (e intrigante!) do que eu previa. E, em segundo lugar, por um motivo que só descobri depois de ter ouvido o CDzinho pela terceira vez: ele se tornou muito mais cinzento do que a coletânea que eu planejei.

Acidentes acontecem, pois bem. E esta mixtape, oh sim, aqui me parece um belo acidente.

Logo depois que gravei o CD, me decepcionei um pouco com o resultado: parecia disforme, desajeitado. Depois percebi que ele fazia todo sentido. E exclamei, aqui comigo: “Uau! Ficou incrível!”. Hoje, neste último dia de agosto, estou certo de que é a melhor mixtape que apresentei neste nobre espaço on-line.

Mas essa é apenas a minha opinião, ok? Vocês têm todo o direito de xingar muito na caixa de comentários, é claro.

Deixe-me explicar o processo: esta mixtape começou como uma coletânea de hip-hop/R&B, e foi se transformando em algo totalmente diferente. Noto que existe uma camada de tristeza, talvez mal estar, ao redor destas canções. Não é uma mixtape eufórica como a de julho, e não funciona muito bem em academias de ginástica.

Acho até que, se vocês prestarem atenção, o disquinho contará a historinha de um amor violento que deu terrivelmente errado. E tem outra coisa: durante o mês, me peguei conversando muito (com minha família, amigos) sobre o medo que as pessoas têm de envelhecer, e sobre como às vezes se tenta prolongar a juventude (sem sucesso, obviamente). Talvez o disco seja um pouco sobre isso (e, por coincidência, tem uma música chamada Die young).

Sem mais divagações, então: este CD contém faixas de Richmond Fontaine, The Weeknd, Girls, Stephen Malkmus & Jicks, Kanye West & Jay-Z, Cities Aviv, Ford and Lopatin, EMA e Gillian Welch (para o Guilherme Semionato, que às vezes visita este blog). O melhor está no fim: a foto acima, portanto, é do Moonface.

A lista de músicas está na caixa de comentários.

Há duas formas de ouvir o CD: aqui no blog e fazendo o download. Eu sugiro a primeira opção (com músicas editadas e lustradinhas), mas a segunda é sempre muito válida (eu mesmo prefiro ouvir essas mixtapes enquanto caminho por aí). Espero que vocês gostem, e, se possível, deixem comentários.

Faça o download da mixtape de agosto

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Superoito express (42)

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Watch the throne | Jay-Z & Kanye West | 72

Parece que há algo muito errado, até defeituoso, quando os dois rappers mais poderosos do mundo se encontram para gravar um disco de 46 minutos de duração. Sabemos que, no hip-hop americano, o excesso faz parte do jogo (e não será difícil encontrar mixtapes com mais ideias que um álbum quádruplo de rock). Mas taí a surpresa de Watch the throne: é conciso, e não tão desconjuntado quanto prometia ser.

E, mais chocante que tudo isso, nem tão ambicioso quanto alguns de nós prevíamos. É como se Kanye West (de My beautiful dark twisted fantasy, 68 minutos) e Jay-Z (de The blueprint 3, 60 minutos) aproveitassem a ocasião para nos mostrar que nem sempre são os chefões controladores e obsessivos que dão a entender. Às vezes eles se divertem. E Watch the throne soa mais como feriado (é leve, até rasteiro em alguns momentos, sem tantos desafios para a dupla) que como um dia pesado de trabalho.

Pode soar decepcionante, para quem esperava um “statement” sonoro (como o primeiro The blueprint) ou uma epopeia sentimental (à altura de My beautiful dark twisted fantasy). Watch the throne é menos, bem menos – e nem consigo notar momentos verdadeiramente delirantes ou surpreendentes (ainda uma ou outra faixa brilhe com força: New Day, que relê Nina Simone via autotune, e That’s my bitch, com um Bon Iver irreconhecível). Noto o contrário: Kanye e Jay-Z se divertindo dentro da zona de conforto que criaram para eles.

E, se eu deveria sim ter me animado mais com essa ideia (um bom disco de Kanye ou de Jay-Z supera quase tudo o que se ouve nas rádios), o resultado me parece uma “victory lap” esquecível. Eles podem, eles fazem, mas este disquinho deixa um pouco de saudade dos discões que eles às vezes nos entregam – sim, os de 60 minutos.

Channel pressure | Ford & Lopatin | 79

Se Channel pressure é mesmo um tributo à poplândia dos anos 80, então o que vejo é Tron meets War games: o game da paranoia, como se o Muro de Berlim ainda estivesse de pé (e como se ainda estivéssemos todos esperando pela explosão nuclear e/ou pelo desembarque dos ETs de Spielberg). Mas tem bug neste sistema: aos poucos, o disco desta dupla americana se revela não somente uma festa retrô para trintões, mas um daqueles álbuns irônicos de electropop, nos moldes de Discovery (do Daft Punk) e United (do Phoenix), que usam a sucata nostálgica como material para uma criação que diz respeito ao tempo presente. Poucos discos soam tão atuais: principalmente no jeito despreocupado como flutua de estação em estação, dos excessos grotescos ao acorde mais singelo, quase brega (e Emergency room, acima disso tudo, é uma das músicas mais viciantes do ano). Modular o passado com uma aparelhagem toda nova: eis o desafio deste belo joguinho.

Instrumental mixtape | Clams Casino | 78

Clams Casino é o produtor de Nova Jersey que, dizem, cria no porão da mamãe a sonzeira oh-tão-sexy de rappers como Lil B, Soulja Boy e Mobb Deep. Esta mixtape instrumental, que ele distribui na web, mostra que o palavreado dos colegas às vezes atrapalham a arte do sujeito. De tal forma que ninguém vai sentir falta de vocais em faixas que nos surpreendem de 30 em 30 segundos e, por isso, nos entretém (aliás, é uma marca do estilo de Clams: bolar associações improváveis entre ritmos e gêneros, do rock progressivo à soul music setentista). It’s a keeper. Mas acho que seria interessante descobrir como ele se viraria num disco concebido para não ser acompanhado por vocais: aí sim, provavelmente estaríamos falando de um dos grandes álbuns do ano.

Electronic dream | araabMusik | 78

Se a mixtape de Clams Casino às vezes soa sortida como uma jukebox, a estreia do produtor Abraham Orellana (ou araabMuzik) impressiona por uma atmosfera de quase claustrofobia: quando paro de ouvir o disco, ainda fico com a imagem de um quarto pequeno e negro, fuzilado de minuto a minuto por flashes de estrobo. Tal como nos discos do The-Dream, o que temos é um produtor tentando agressivamente impor um estilo: que, apesar de não ser tão marcante ou original quanto ele acredita que é, cria uma tela específica, com limites muito bem definidos, e um temperamento que se reconhece de imediato. Para um primeiro disco, é de uma coesão incrível. Ainda acho, no entanto, que araabMusik criou uma mise-en-scene poderosa, mas à procura de um bom elenco de canções — poucas, acima de tudo Streetz tonight, ficam na minha memória quando a festa termina.

Bon Iver | Bon Iver

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Mais do que melodia, estilo e poesia, música pop também é uma arte da fabulação. Uma canção quase nunca é apenas o que se ouve, não é simplesmente o acúmulo de acordes, harmonia e voz. Ela faz parte de uma narrativa complexa (e às vezes muito longa) sobre a criação de heróis, mitos.

Acontece assim desde o começo (e isso que digo é até bem óbvio). Desde Elvis Presley, de Lennon & McCartney, de Mick Jagger e Johnny Rotten, de David Bowie e Neil Young, de Ian Curtis e Madonna. Quando bate o ouvido numa música de Kurt Cobain, por exemplo, a tendência do fã é associar aquele “capítulo” a uma história maior, que parece seguir indefinidamente. Como se cada canção abrisse uma nova trilha de acesso à persona do ídolo.

Era assim quando eu ouvia os primeiros discos do Radiohead. Eu imaginava Thom Yorke como um sujeito arredio e de saúde frágil, extremamente inteligente porém incapaz de se adequar ao mundo. Um band leader que se adoentava a cada sopro de vento um pouco mais frio. Já Prince me parecia um vampiro moderno, sexy porém condenado a viver na solidão de uma mansão dourada. Não sei ainda, sinceramente, o que pensar de Frank Black: mas ele sempre aparentou ser um sujeito meio doentio, dado a surtos.

O fã mais imaginativo cria histórias que os aproximem do artista. Já o artista, num caminho paralelo, também vai construindo um personagem que se torna mais profundo e contraditório (mais crível, digamos) a cada música, a cada disco. Há os músicos mais instintivos, que vão definindo essa identidade como que naturalmente. E há os que maquinam cada transformação, cada performance, que confudem conscientemente a própria vida com a imagem divulgada na mídia, multiplicada nos palcos, ampliada e retorcida.

É engraçado, por isso, como a história do pop pode ser lida como um grande romance à moda de Tolstoi, com centenas de personagens metidos em tramas enormes, folhetinescas. O mocinho e o bandido, a donzela e a mulher independente, os sentimentais e os brutos. Personagens ricos, até imprevisíveis, que parecem cumprir arcos narrativos muito bem definidos. A história de Michael Jackson, para ficarmos no exemplo mais épico, renderia um filme extraordinário.

Se pensarmos o pop como um livro de mil páginas e os artistas como personagens permeáveis (criados por eles próprios, mas também por cada “leitor”), a história de Justin Vernon pode parecer um exemplo arredondado, perfeitinho, de como a música se beneficia de um contexto “ficcional”, de uma narrativa lúdica que paira em torno dos sons que aparecem nos discos. Porque a história de Vernon, queira ou não, é uma bela de uma fábula.

O disco que iniciou a saga, For Emma, forever ago (2008) pode ser encarado de uma forma relativamente simples: Vernon, que então assumiu o codinome Bon Iver, parecia cobrar um lugar entre os songwriters melancólicos, cabisbaixos, na tradição de Tim Buckley e Nick Drake. Mas, simultaneamente, trabalhava com camadas cíclicas e enevoadas de efeitos sonoros que pareciam remeter a bandas um tanto mais experimentais, como Animal Collective e Deerhunter.

Era possível gostar de Vernon apenas por esse estilo, que soava ao mesmo tempo convencional (visitava o fim dos anos 60, início dos 70; e não parecia nada novo) e up-to-date (já que testava um folk atmosférico, misterioso, que ainda se tornou muito querido no indie rock). Mas, quando se conhecia a história de For Emma, forever ago, era possível amar Vernon. E tratá-lo como um personagem, um ser da música pop.

O disco, dizem, foi gravado num período de isolamento do cantor, que abandonou uma banda não muito bem sucedida e se isolou num chalé abandonado, onde registrou canções absolutamente pessoais (e sofridas) sobre amor e dor. Soa como um CD talhado a machadadas. E talvez seja isso mesmo. Hoje se sabe que a maior parte das músicas estava escrita antes da viagem à casinha da montanha. E que a sensação de isolamento e angústia que as canções evocam talvez sejam apenas uma (excelente, diga-se) obra de ficção.

No entanto, quem se importa? Conhecer todos os detalhes sobre a gravação de um disco como esse (envolto numa história tão fascinante) seria como passar um tempo na companhia de Thom Yorke e, em seguida, ouvir Kid A. Aposto que o personagem do vocalista perderia um pouco do encanto que desperta em nós.

O desafio do disco novo de Bon Iver é, portanto, apresentar uma nova aventura para um herói que, desde o lançamento de For Emma, se transformou numa espécie de coadjuvante pau-pra-toda-obra. A voz de Vernon parecia tão especial (e as harmonias, tão memoráveis e curtas, por isso “sampleáveis”), que o cantor foi convidado para participar de uma série de projetos. Topou quase todos – entre eles, o mais recente de Kanye West.

Fico me perguntando: o que se espera de um disco novo de Bon Iver? Descobri que, particularmente, eu não esperava nada. Na verdade, não queria nem mesmo um disco. Porque, na minha cabeça, a história daquele personagem já estava contada. For Emma me parece um álbum completo, com início, meio e fim. É claro que, no capítulo final, bate uma curiosidade sobre o que teria acontecido ao homem das cavernas: mas talvez não seria tão atraente ouvir um disco inteiro sobre um tipo outsider que consegue fama, reconhecimento, fãs e sai para jantar com rappers e roqueiros. Parece um tanto banal (ainda que, no caso de Vernon, a realidade possivelmente seja bem essa).

Esqueçamos a realidade, portanto. O disco novo de Bon Iver segue o personagem de For Emma numa lenta trajetória de reconhecimento do mundo: como se aquele tipo ferido, introspectivo, resolvesse seguir lentamente para fora. É, antes de qualquer coisa, mais um belo exercício de ficção: Vernon dá conta de empurrar os limites de um universo (criado a partir de impressões pessoais, é claro, já que estamos no ar rural/doméstico de Wisconsin, cidade natal do músico) sem trair o perfil psicológico do personagem. “Não estou mais vivendo na escuridão”, ele conclui, na última faixa do disco.

É uma espécie de happy end. O interessante é como Vernon não transforma um disco de libertação e celebração (afinal, profissionalmente o músico nunca esteve mais feliz) numa corrida-da-vitória, num oba-oba sem propósito. Pelo contrário: apesar de estar acompanhado de músicos muito talentosos (entre eles, o guitarrista Greg Leisz, que trabalhou com Lucinda Williams, e os saxofones de Colin Stetson, do Árcade Fire), o compositor segura as rédeas de uma mise-en-scene até muito concisa, apesar de todas as mudanças sutis de climas e tons que aparecem entre uma música e outra.

Se For Emma era um drama sobre alienação e lembranças, Bon Iver soa como uma aventura mais serena, em que as memórias (ainda muito fragmentadas; é quase impossível decifrar as letras) se deixam contaminar pelas paisagens de cidades, por espaços abertos, fluem num leito muito largo. O movimento para frente se torna enfim possível, mas o terreno parece tão amplo que o personagem dá passos curtos. Vai seguindo pouco a pouco.

Cada canção olha para uma paragem diferente, das guitarras repetitivas e densas de Perth aos ar quase kitsch dos sintetizadores de Beth/Rest. Um momento especialmente deslumbrante é Hinnom, TX, quando Vernon parece cantar num bosque de maravilhas: a voz ecoando alta, grave, em meio a estalos ora estranhos, ora muito agradáveis e gentis. Ouvir o disco mais de três, quatro vezes pode mostrar que ele se aventura mais do que imaginávamos nas primeiras audições.

O que me agrada, acima de tudo, é como Vernon banca a missão de criar um disco que dá continuidade ao anterior, que vai modelando uma persona, uma identidade, uma narrativa própria. É a juventude de um personagem. É possível dizer que, como o herói deste disco, Bon Iver escolhe mapear com cautela, mas sem preguiça ou covardia, o chão onde pisa. Criou um capítulo talvez mais controlado e sóbrio do que esperávamos, mas tão gracioso quanto selvagem – e seguro de si. Quando termina, nos deixa com vontade de ouvir mais.

Segundo disco de Bon Iver. 10 faixas, com produção de Justin Vernon. Lançamento Jagjaguwar Records. 8/10

Os melhores discos de 2010 (10-1)

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Vamos ao top 10?

Não necessariamente os 10 Melhores Discos de 2010 (admito que o título do post ficou um pouco blasé: é pra chamar atenção no Google), mas aqueles que provocaram reações felizes neste blog e, simplificando de vez a metodologia, fizeram de 2010 um ano um pouco menos frustrante para o blogueiro que escreve estes posts confusos. Um sujeito que acha que entende sobre alguma coisa e que, de janeiro pra cá, sofreu um bocado.

Antes, as menções honrosas, para ouvir antes de morrer (em ordem alfabética): American slang, The Gaslight Anthem; Before today, Ariel Pink’s Haunted Graffiti; Broken dreams club, Girls; Cosmogramma, Flying Lotus; The fool, Warpaint; Forgiveness rock record, Broken Social Scene; Gorilla manor, Local Natives; Grinderman 2, Grinderman; Hidden, These New Puritans; IRM, Charlotte Gainsbourg;  Pilot talk, Curren$y; Public strain, Women; Treats, Sleigh Bells.

E, coming soon, a lista dos 20 melhores filmes de 2010 e, se tudo der certo e eu cumprir o meu cronograma apertado, os 10 discos brasileiros do ano. Mas não prometo nada, ok?

10 | The age of adz e All delighted people EP | Sufjan Stevens

I should not be so lost… But I’ve got nothing left to love – ‘I walked’

Sufjan no furacão (ou: a crise dos 30). “Quanto mais ouvimos o disco, mais fica claro que a provocação não é gratuita – ele foi criado como uma afirmação de princípios. É como se as faixas refletissem um compositor de pulsos abertos, afetado por decepções amorosas, desejo de espiritualidade, medo da passagem do tempo e outras crises que se enfrenta aos 35. A reação de Sufjan a esse cataclisma define a música que ele produz hoje, mais tensa e caótica do que de costume.” (14 de outubro, texto completo)

9 | The Monitor | Titus Andronicus

The enemy is everywhere – ‘Titus Andronicus forever’

Um épico americano, em lo-fi. “Um disco imenso e valente, que cria uma atmosfera de filme de época (sobre a Guerra Civil) para se aventurar na América de hoje. Nunca sem paixão, o Titus Andronicus entende os desafios de uma banda de rock independente: aproveitar as liberdades do mercado para brincar com as convenções, experimentar, criar monumentos de areia — nem que apenas para procurar um tipo diferente de diversão” (12 de fevereiro, texto completo)

8 | The ArchAndroid (Suites II and III) | Janelle Monáe

It’s a cold war… You better know what you’re fighting for – ‘Cold war’

Janelle, nossa heroína. “Sem querer forçar comparações absurdas (mas já forçando), a estreia de Janelle Monáe soa como se tivesse sido criado por uma menininha que, sem contato com os produtos mais mecânicos do pop, ouviu um disco dos Beatles (ou do Frank Zappa, ou do Love, ou uma ópera-rock do The Who) e decidiu escrever algumas canções. Nos 68 minutos de duração, a palavra que quica é liberdade.” (27 de maio, texto completo)

7 | Body talk | Robyn

Get a heart made of steel ‘cause you know that love kills – ‘Love kills’

Agonia e êxtase. “Robyn entende o que há de mais poderoso na música pop: cumplicidade e catarse. Com arranjos introspectivos, este seria um dos discos mais melancólicos da temporada (reparem nos versos sobre amores perdidos, crises de identidade, depressão e solidão). Mas o clima é festivo de doer. Os minidiscos são de provocar dependência química, mas este aqui é grande disco pop do ano.” (9 de dezembro, texto completo)

6 | Halcyon digest | Deerhunter

Walking free… Come with me… Far away… Every day – ‘Desire lines’

Um álbum de memórias, sobre juventude, mas Bradford Cox ainda vive cada disco como se não houvesse amanhã. “O vocalista se exibe em quase todas as canções. Ora melancólico (quase suicida), ora eufórico, otimista. Em todos os casos, leva às gravações um discurso franco, sem corretivos, que nos toma pelos braços. Somos cúmplices. Pode ser encenação – mas, nesse caso, a técnica só valoriza um álbum que soa como os posts desesperados (e ansiosos, e por vezes apressados) de um blogueiro que ouviu demais.” (20 de setembro, texto completo)

5 | The Suburbs | Arcade Fire

Sometimes I can’t believe it, I’m moving past the feeling – ‘The Suburbs’

Um grande disco de rock dos anos 70 para as tardes silenciosas da minha juventude. “O discurso do Arcade Fire se infiltra em nossas vidas, em nossas lembranças, em nossas aflições. Não existe conclusão em The suburbs porque nossas vidas também são imprecisas. E, se o disco parece se movimentar em círculos (com trechos de melodias e de versos que se repetem), é que estamos sempre retornando às nossas casas, aos nossos antigos problemas, aos nossos sonhos mortos, às nossas frustrações e à nossa adolescência.” (27 de julho, texto completo)

4 | Teen dream | Beach House

It is happening again – ‘Silver soul’

Jornada delicada sonho adentro. “Este é um daqueles álbuns em que uma pequena banda adapta um estilo sólido a certas convenções do pop rock. Soa como um problema? Não quando essa pequena banda está disposta a usar um ou outro truque para facilitar nosso acesso a um mundo ainda sutil, ainda misterioso. Que me perdoem os mais radicais: à luz rósea do pop, a história do Beach House fica ainda mais bonita.” (26 de dezembro de 2009, texto completo)

3 | Have one on me | Joanna Newsom

Hey, hey, hey, the end is near. On a good day you can see the end from here – ‘On a good day’

Visões de Joanna (num disco onde, se aceitarmos o convite, podemos morar por um bom tempo). “A sensação de liberdade, de não dever satisfações ou se obrigar a algum tipo de obrigação, contamina de tal forma este álbum triplo que, lá pelos 60 minutos de viagem, tudo o que eu consigo ouvir nele é beleza bruta, beleza estranha, beleza sutil, beleza que emociona, beleza nos detalhes mínimos, beleza que não se sabe de onde vem, beleza inclassificável, beleza difícil, beleza insuportável. Outra beleza.” (2 de março, texto completo)

2 | Expo 86 | Wolf Parade

A little vision come, come shake me up – ‘Ghost pressure’

Quatro velhos amigos numa sala (enquanto o mundo pega fogo). “Quando fazemos algum esforço, conseguimos visualizar, entre uma faixa e outra, uma banda correndo dentro do estúdio, excitadíssima com as próprias canções, com pressa para gravar, mixar, concluir o trabalho e mostrar-nos o resultado. É, apesar dos versos ainda muito agoniados, um disco que sorri para si mesmo e para o público. Nada como o som de uma banda de rock no auge, feliz com a imagem refletida no espelho” (16 de maio, texto completo)

1 | My beautiful dark twisted fantasy | Kanye West

We’re going all the way this time – ‘All of the lights’

No mundo parelelo de Kanye West, discos pop ainda nos deslumbram e espantam, ainda nos levam a lugares onde nunca estivemos. “A angústia de West, para nossa surpresa, acaba por energizar o disco, já que ele compõe e grava como se estivesse à beira do precipício. Como se houvesse apenas mais uma chance (não é o caso, mas o sujeito é uma pilha de nervos). Em sua discografia, não existe um outro disco que aposte tantas fichas, que mire tão alto e que tome caminhos tão arriscados. As faixas são grandiosas por birra, não por necessidade. Muitas delas caberiam em três minutos de duração. Mas West as alonga para explicitar o que têm de desconfortável. Uma obra-prima.” (16 de novembro, texto completo)

Mixtape! | O melhor de novembro

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A mixtape de novembro foi criada na base do improviso, do fluxo de consciência. Sabe como? Não defini conceito nem bolei ideias malucas nem saí em busca de uma atmosfera específica para envolver as canções escolhidas para este humilde cdzinho. Ele é o que ele é.  Ele é assim e pronto.

Não sei se ele espelha meu temperamento – talvez sim, mas com a mesma intensidade dos anteriores?

Ouvi duas vezes (enquanto lavava as minhas cuecas) e notei algumas características que me surpreenderam. 1) é um cd quase sempre em tom menor, ainda que a primeira parte possa provocar a sensação de que eu estava procurando um foco para a mixtape como quem surfa em estações de rádio até achar um pouso (no caso, o pouso é dolorido, como indica a segunda metade). e 2) existe unidade nessa coletânea, mesmo que você não a perceba de imediato.

É, como de praxe, a melhor mixtape amadora de todos os tempos. Mas, por ter sido gravada de um jeito impulsivo, ela revela algo sobre a minha pessoa que nem eu sei explicar. Tenho quase certeza de que, na faixa de abertura, sou eu falando.

A intenção, no entanto, não era que soasse complexo demais, nem sombrio demais, nem ambicioso demais. É um cd para ser ouvido nos fins de tarde, no último dia de férias, depois de despedidas que apertam o coração ou quando se sente saudade de amigos que estão muito longe. Tem isso: é um disquinho que machuca nos momentos mais dóceis. Cuidado, portanto.

Aos amigos, então: dedico ao Michel e à Alê. Espero que, lá de longe, eles ouçam e gostem (pelo menos um pouco).

Quem está na foto lá de cima é o habitué Kanye West, que gravou o meu disco favorito do mês: My beautiful dark twisted fantasy. Ele aparece na mixtape junto com o comparsa Kid Cudi e uma gangue da responsa: Girls, Jim Noir, Daft Punk, Atlas Sound, Warpaint, Beachwood Sparks (interpretando Sade), Neil Young e Beck com Nigel Godrich (numa faixa do filme Scott Pilgrim contra o mundo).

Estou aqui ouvindo o disco pela terceira vez e pensando: deus, ficou MUITO BOM!

Faça o download aqui (link atualizado).

E, depois de ouvir a mixtape, mande um alô e faça um comentário simpático. Estamos no mesmo barco, não estamos?

Superoito express (33)

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Man on the moon II: The legend of Mr. Ranger | Kid Cudi | 7

Um álbum de hip-hop dividido em cinco atos (um deles atende por You live and you learn), com uma faixa chamada Scott Mescudi vs. the world e um título que parece ter sido concebido pelo George Lucas. Tem como não gostar? Infelizmente tem, se o seu iTunes emperrar na faixa 8, Erase me, um rockzinho ordinário que nem Kanye West salva. Antes que você comece a refletir sobre o quão terrível é o fato de que os mais promissores pupilos do rap geralmente não sabem diferenciar Kings of Leon de Queens of the Stone Age, sugiro um rolê no segundo ato do disco, A stronger trip, usa psicodelia e dub para fins medicinais (a dobradinha Marijuana e Mojo so dope é, perdoe a falta de inspiração, viciante).

E, quando o sujeito resolve brincar com um sampler soturno de St. Vincent (“Paint the black hole blacker”, em Maniac), a pergunta volta a fazer sentido: tem como não gostar? Tem, principalmente para quem ainda se encontra perdido nos vãos de My beautiful dark twisted fantasy, de Mr. West. Dois álbuns talvez igualmente ambiciosos, mas note as diferenças: enquanto West bagunça o interior das canções (que são longas e sinuosas), Cudi tenta nos impressionar com o acúmulo de faixas que disparam ideias coloridas, mas por vezes superficiais. É daqueles discos que nos agradam mais pelo temperamento frenético do repertório do que pelas canções em si. Não é tudo o que pensa que é – mas tem como não gostar?   

Le noise | Neil Young | 7

Em tese, é o disco em que Young decanta a própria identidade até que restem apenas os elementos essenciais: a guitarra (alta, ruidosa, massacrada por toneladas de efeitos) e a voz. Mas nada na trajetória do homem é simples como parece, e basta lembrar que o disco anterior a este é o desgovernado (mas muito franco) Fork in the road, praticamente um álbum conceitual acerca de um carro ecológico. O que o produtor Daniel Lanois faz em Le noise é um ‘extreme makeover’ parecido com o método que aplicou em Time out of mind, de Dylan: criar uma atmosfera crepuscular, cinematográfica, mas com lacunas para que o compositor vença os maneirismos de estúdio. Mas esse conceito rigoroso por vezes parece uma estratégia para empacotar canções não exatamente inesquecíveis. Elas condensam tudo o que esperamos de um disco de Young – os lamentos de guerra e os hinos pacifistas e os retratos de homens solitários e a fúria juvenil – sem muitas surpresas ou desafios. De qualquer forma, é sempre uma alegria ver o sujeito verdadeiramente se esforçando e criando maravilhas como Peaceful Valley Boulevard. E, sejamos justos, é o mais coeso dele desde Silver and gold, de 2000. 

Marnie Stern | Marnie Stern | 7

O terceiro disco da nova-iorquina pode ser interpretado de uma forma pessimista (soa como uma reprise dos anteriores, um beco sem saída, um exercício seguro etc) e de uma forma muito otimista (soa como uma celebração do estilo que Marnie talhou nos dois outros discos). Minha tendência, no caso, é o pensamento positivo: este é o primeiro disco dela que não me parece um projeto frio de faculdade de Arte, com todas aquelas camadas calculadas de distorção supostamente agressiva. Acredito que, desta vez, Marnie conseguiu vencer se livrar desse véu chamativo e se encontrou nas canções. A última faixa, The things you notice (que incluí na mixtape de outubro) poderia muito bem servir de ponto de partida para o próximo disco: tem o molde atormentado, paranoico, pontiagudo, do restante da discografia que ela lançou – mas é como se a autora das canções finalmente se expusesse de corpo inteiro. É bonito, é delicado (de uma forma inusitada) e, melhor ainda, soa intenso.

 Swanlights | Antony and the Johnsons | 6

Um dos discos mais valentes do ano, já que Antony renega quase todos as referências pop para encontrar uma sonoridade tão serena e introspectiva quanto é (aparentemente) o momento em que ele vive. E encontra: mas pena que é um som tão etéreo que às vezes se dissolve nos headphones. Ouvi o disco pelo menos cinco vezes e só consigo me lembrar das faixas que destoam desse climão solene: I’m in love, que soa como uma daquelas divinas criaturas de Van Dyke Parks, e Thank you for your love, que abre um caminho soul no coração desta floresta gelada. Não é um álbum que consigo ouvir com frequência (e não recomendo a ninguém que acabou de romper um namoro; a dose de melancolia pode ser brutal). Mas, no momento certo, pode ser o antídoto aos excessos que imperam no indie rock.

My beautiful dark twisted fantasy | Kanye West

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Minha história com os instrumentos musicais (em cinco capítulos):

1, violão: tentei quando eu tinha 12 anos, me aborreci com a repetição dos acordes e, depois de memorizar todas as manhas de Michelle e Wave, puxei o meu banquinho. Antes disso, meu professor, um velhinho raquítico que viveu três ou quatro vidas, morreu.

2, piano: chegou muito antes, seis/sete anos, lembro da professora octogenária, a da ladainha medonha — ‘endireite os dedos, Tiago, os dedos, Tiago, os dedos’ — e eu nunca descobri se ela queria que eu mantivesse os malditos num ângulo reto ou levemente oblíquo. Aprendi uma versão débil para a nona sinfonia de Beethoven, fiquei superfeliz, concluí: escalei o Everest, quero descer.

3, pandeiro: foi numa roda de pagode que meus primos improvisaram na casa da minha avó ou da minha tia ou da vizinha, não recordo. Naquela época, ou você curtia pagode ou você era um pulha como eu. Tiago era menino, não sacava absolutamente nada de ritmo. Ritmo? Que ritmo? Os primos me aconselharam alguns truques, me envaideci com a performance, eu e o pandeiro, nascidos um para o outro, esqueci tudo no dia seguinte.

4, teclado: dava uma vergonha danada testemunhar as batalhas espartanas, sangrentas, gente sangrando e tal, que minha irmã travava contra o aparelho. Uma guerra sem vencedores e um mundo mais triste para todos. Eu gostava de ir aumentando a velocidade das batidas, daí a valsinha ficava punk rock. Era um brinquedo bobo, nunca levei a sério.

5, guitarra: muito, muito barulho; eu fazia muito barulho, mas, sinceramente, era um fiasco. Ai tentei tirar Palo Alto, aquele lado B do Radiohead que me fazia chorar, e o volume lá nas últimas, e o vizinho pendurou um Comandos em Ação num fio de barbante, que desceu até a janela do meu quarto. Grudado no soldadinho, um aviso breve: “morra, babaca”.

E é isso. The end, vamos para casa.

Ou, antes que eu esqueça: essa história toda, esses capítulos sobre minha relação conflituosa com os cinco instrumentos musicais (cinco namoros fracassados e de curta duração, mas que deixaram marcas e alguma saudade), diz algo sobre o meu gosto por discos desvairados e fantásticos e arriscados e intensamente criativos como este My beautiful dark twisted fantasy, do Kanye West. E, se vocês me permitirem, se vocês não tiverem algo mais interessante para fazer, vou tentar explicar a conexão que existe entre uma coisa e outra.

Não sou, como vocês devem ter percebido, o cara da técnica. Tentei aprender instrumentos e fracassei com todos eles. Hoje, arranho o violão, arranco uns efeitos cavernosos de guitarra e tiro Cai, cai, balão no teclado. Não sei muita coisa além disso. Mas, na minha adolescência, quando eu era um garoto enfezado e , esses instrumentos eram a minha maior diversão. Eram (serei dramático, spielberguiano, para que vocês entendam direitinho) meus amigos.

Agora tente adivinhar: como eles serviam a um zero à esquerda que não entendia nada, absolutamente nada de partituras, harmonias e acordes um pouquinho mais complexos?

Eles serviam a uma espécie de jogo, de laboratório inconsequente de barulhinhos irritantes e melodias imperfeitas. Eu costumava repetir acordes de violão, gravá-los em fitas cassete e, depois, combinar esses trechos com ruídos de teclados e, numa terceira fita, adicionar vocais quase sempre desafinados. Um horror. Mas lembro do prazer que eu sentia quando ouvia o resultado. Era mais ou menos como assistir a um número de mágica.

Guardo muitas dessas fitas e admito que não tenho coragem de ouvir nenhuma delas. São toscas, melancólicas e me mostram que fui um rapazinho infeliz. Isso me entristece. Elas me ensinam, entretanto, de onde vem a alegria que sinto quando ouço discos que usam instrumentos não para atingir ideiais de perfeição técnica, mas para criar combinações sonoras que provocam sorrisos de espanto e excitação – que fazem do pop uma espécie de playground.

Aposto que Kanye West também se entedia com a estrutura mais convencional daquilo que se chama de pop perfeito. Os solos límpidos de guitarra. O refrão certo na hora certa. A ideia polida. O riff sem arestas. Os versos simétricos, as rimas exatas. A sensação de que o compositor é também um músico dedicado e que, raios, ele levou alguns bons anos para aprender a dedilhar este violão!

Nada contra os virtuoses, mas sempre preferi o mal estar dos artistas que não se conformam com os limites da arte, de qualquer arte. Os idolos deslocados, os esquisitos, os incompreendidos, os solitários, os renegados, they don’t belong here.

Kanye West é, não se engane, não se iluda, um desses. Quem espia o blog do rapper ou o acompanha via Twitter sabe que o globetrotter é um acidente prestes a acontecer: são incontáveis os posts rasos e os tuítes risíveis, as demonstrações constrangedoras de amor às futilidades do showbusiness, o gosto por tudo o que é instantâneo e fashion e, principalmente, a necessidade de provar – a cada saraivada de caracteres – que merece reconhecimento, atenção, prêmios, elogios, um lugar cada vez maior e mais confortável no mundo. “Nenhum homem deveria ter tanto poder”, ele aconselha  (a si mesmo), no primeiro single deste disco, Power. Sejam bem-vindos.

O ego faminto de West é prato feito para revistas de celebridades, e o ídolo cumpre esse papel de forma exemplar: odiamos o homem que se descontrola diante da plateia, mesmo quando a crise nos parece falsa. Detestamos o ricaço que perde as estribeiras e sucumbe, erra, perde. Preferimos o autocontrole, a segurança, às demonstrações de fragilidade. Estamos ali para testemunhar o momento em que fracasso chutará a porta, e estaremos lá para celebrar o funeral de mais um astro pop superestimado por nós mesmos.

So what’s a black Beatle anyway?

Imagino que West escreveu as novas canções entre sessões de terapia, entre uma e outra compra milionária, entre um e outro desfile de moda. Nos momentos de incerteza (que, creio eu, existem até para um milionário esbanjador; vide qualquer filme de Sofia Coppola). Depois que você faz alguns discos de sucesso, o que acontece? Depois que você grava tudo o que precisava ter gravado, para onde ir? Quais são as canções que se escreve quando a plateia começa a cair em tédio?

“Todo mundo sabe que sou um monstro”, West se martiriza, ao som de efeitos robóticos. E depois quase entrega os pontos: “Eu cruzei a linha. Eu deixo que Deus decida. Estou de volta para casa.” A música seguinte prolonga o martírio: “A vida às vezes, meu amigo, é ridícula”. E não é?

O novo de West dá sequência a dois álbuns que soavam um pouco mais confiantes: mesmo a fossa de 808s and heartbreak parece controlada, estancada num conceito muito bem definido, um ato de bravura do macho sensível. Graduation era um brinquedo tão reluzente quanto superficial, mas que será lembrado como o retrato de um astro no comando do próprio destino, flutuando nos top ten. My beautiful dark twisted fantasy, em comparação, soa desastroso: da primeira à última faixa, West expõe o medo de perder, de ficar para trás, de se tornar irrelevante, de se tornar (tragédia!) qualquer um. De ser esquecido, perder a identidade, perder followers, etc.

Os versos, até um tanto entediados e conformados com as puxadas de tapete da existência, são o que este disco tem de mais dark. “Vai ser uma morte muito bonita, um salto da janela”, avisa em Power, o réquiem para o super-rapper.

É essa angústia, surpreendentemente, que acaba por energizar o disco, já que West compõe e grava como se estivesse à beira do precipício. Como se houvesse apenas mais uma chance (não é o caso, mas o sujeito é uma pilha de nervos). Em sua discografia, não existe um outro disco que aposte tantas fichas, que mire tão alto (sob pena de tombar no ridículo) e que tome caminhos tão arriscados. Talvez inspirado por Sufjan Stevens e pelo Arcade Fire, West percebeu que a temporada é propícia para esse tipo de monumento extravagante. Quase todas as 13 faixas do disco cabem nessa definição.

São canções como Runaway, All of the lights, Power e Blame game que condensam o espírito do álbum: elas começam e se recusam a terminar, se sabotam, abrem singelas e fecham estranhíssimas. Em alguns casos, como Devil in a new dress, um sampler se repete à exaustão, até esgotar todas as possibilidades de encantamento e morrer na praia. Existe algo de rock progressivo na estrutura dessas faixas, mas não é a melhor forma de defini-las. Existe algo de glam rock e ópera-rock, mas nenhum desses rótulos veste perfeitamente o estilo de West.

É um voo talvez alto demais, talvez cego. As faixas são grandiosas por birra, não por necessidade. Muitas delas caberiam em três minutos de duração. Só que, impertinente, West as alonga para explicitar o que elas têm de desconfortável. São paranoicas (o sucesso pode acabar num segundo). São ambiciosas (o céu é o limite). “Estou perdido no mundo”, ele reconhece, na penúltima faixa do disco, ao som de um sampler fantasmagórico de Woods, de Bon Iver.  A última canção, quase uma vinheta, atende por Who will survive in America. Sobreviver é a questão.

Goodnight, cruel world, I see you in the morning.

Voltando à minha relação com os cinco instrumentos musicais, reparo que álbuns assim – álbuns que não se aguentam dentro do pop, que querem quebrar as paredes do quarto – se comunicam com o meu desejo adolescente de encontrar sons para sentimentos que eu não conseguia decodificar de outra forma. Nessa tentativa, fracassei de todas as formas. Fracassei e fracassei feio. Eu e meus garranchos, minhas fitas toscas e ruidosas. Kanye West, porém, é desses que triunfam quando menos se espera. Um homem estúpido, egocêntrico, frívolo, uma celebridade em crise – tudo isso talvez seja verdade. Mas, neste momento, invejo o monstro terrivelmente.

Quinto disco de Kanye West. 13 faixas, com produção de Kanye West e outros. Lançamento Roc-A-Fella, Def Jam Records. 9/10