Os discos da minha vida (top 3)

Postado em Atualizado em

Chegamos ao top 3, amiguinhos. E não se assustem: o visual do blog mudou (por aqui é tempo de mudanças), mas este sítio permanece limpo e produtivo, gerenciado por gente sincera e trabalhadora.

E, caso vocês cansem deste layout, prometo trocá-lo por outro. Mas aquele antigo, me perdoem, já deu.

Agora vamos ao ranking, ok? O disco de hoje é um monstrão, talvez o álbum mais loucamente criativo do rock, mas pra mim ele soa um tanto triste. Talvez vocês entendam por que ao ler o textinho a seguir.

Semana que vem conheceremos ao fim desta saga. Foi uma eternidade – que passou até rapidinho (eu avisei!). Tá perto, e vocês nem vão perceber quando chegarmos lá.

003 | White Album | The Beatles | 1968 | download

Fazia mais de um ano que eu não conversava com meu pai, mas desta vez resolvi enfrentar o telefone. Foi um diálogo curto – que, de acordo com o visor do meu celular, durou dois minutos e trinta e quatro segundos. Ele: alô, tá bem?, tudo certo?, trabalhando muito?, e a irmã?, e a mãe? E eu: sim, não, mais ou menos, cê sabe como as coisas são, tá ótimo, é.

Eu, francamente, não dizia coisa com coisa (porque não tinha nada a dizer); e ele revidava com resmungos (talvez porque não estivesse bem por algum motivo, mas nada disso me diz respeito).

Um espectador daquele teatrinho talvez percebesse algo estranho naquele telefonema lacônico de domingo. Mas era esse o nosso papo habitual. Pai e filho fazendo de conta que nada havia mudado, de que o tempo não havia passado, de que estava tudo bem. Não estava. Mas fazer de conta quase sempre funcionava. Era isso ou encarar mistérios que nos machucariam.

Não somos nem nunca fomos sujeitos corajosos.

Perdi meu pai de vista acho que aos oito (talvez nove) anos, quando ele ainda estava presente. Não lembro quando ele desapareceu, mas acho que foi no dia em que comecei a notar que, se pudesse, ele seria empurrado lentamente pela vida, ladeira acima, como um bloco pesado de cimento. Era um homem que não parecia conseguir se mover por conta própria, sempre à espera do solavanco do acaso.

Quando percebi quem ele era, e quando atentei para o fato de que (por alguma razão mística) eu estava começando a me tornar muito parecido com ele, me afastei naturalmente. Depois que nos mudamos de cidade – eu, mãe, irmã e padrasto -, o pai encontrou uma desculpa para se camuflar completamente numa vida bege.

E, honestamente, nunca me deixei importar muito por esse silêncio que se impôs entre meu pai e o restante da família. Minha irmã sofreu e se rebelou; eu tentei me colocar no lugar dele (um homem tímido, apático, porém amável, justo, bom) e relevei tudo.

Comecei a me incomodar com essa distância há pouco tempo, quando percebi que talvez a minha relação com meu pai chegara ao fim. Ele com sessenta anos, eu com trinta. Ambos adultos e desconhecidos um para o outro. Nossas ligações telefônicas se transformaram em compromissos obrigatórios e por isso enfadonhos. Isso até o dia em que, sem que nada de especial ou dramático acontecesse, paramos de conversar.

E hoje, se você me perguntar, talvez eu diga que não sei se é possível resgatar o que, para mim, nunca pareceu tão importante. Não consigo sentir raiva do meu pai porque me acostumei a não contar com ele.

O que sobrou do velho foram fotografias, algumas marcas do meu temperamento (e luto contra todas elas), o meu jeito de andar, o meu rosto meio quadrado, o meu sorriso, a minha testa (ele está em todo lugar), um pouco da minha preguiça.

Também sobraram algumas das músicas que ele ouvia, e as músicas que ele me ensinou a ouvir. Um disco dos Beatles sempre reconstruirá ao meu pai, feito um holograma, mesmo que eu não queira. Os discos dos Beatles (mais que os discos de qualquer outra banda) carregam alguns dos sinais mais positivos que guardo daquele homem. Talvez por isso eu guarde esses discos como quem preserva moléculas essenciais dentro de uma geladeira de laboratório.

Mais do que todos os álbuns dos Beatles, é o White album que representa para mim um mapa de genes. Cada música aponta para uma lembrança boa do meu pai, e sempre volto ao disco quando tenho a necessidade de reatar o elo com uma imagem fraternal que talvez nunca tenha aparecido de verdade.

Dear prudence, Blackbird, Julia… São algumas das canções de ninar que talvez tido vontade de cantar (mas nunca cantou). Back in the USSR, Helter skelter… São faixas que extravasam a rebeldia, a liberdade que eu esperava dele (mas nunca encontrei). Glass onion, Piggies… São músicas que me mostram o pai criativo e alegre que mora nos meus pensamentos, num canto do meu cérebro que talvez exista para que eu não enlouqueça.

Talvez a única imagem fiel do meu pai, a única imagem real, esteja guardada em While my guitar gently weeps: não sei por que, mas a voz quase feminina de George Harrison, melancólica diante de um mundo que está mudando (mas ele quer permanecer imóvel, num idílio infinito) é o retrato daquele moço barrigudo e afável, que hoje segue vivendo à margem de qualquer desafio, de qualquer risco.

É bem verdade que discos têm o poder de enclausurar lembranças, estados de espírito, sensações que remetem a momentos específicos da nossa infância, da nossa adolescência. Mas o White album, para mim, é um pouco como um disco que inventei para mim: o souvenir ilusório de um pai, uma mentira. Não sei o que John Lennon e Paul McCartney diriam ao perceber a criatura que produziram.

O que meu velho me ensinou de mais importante foi amar a música com a inocência de quem ama um bicho de estimação (e devo quase todo este blog a ele, de alguma maneira). O que entreguei em troca foi esta fotografia falsa e bonita: um monumento pop para o grande pai que nunca existiu. Top 3: While my guitar gently weeps, Dear Prudence, Blackbird.

Após o pulo, veja todos os discos que entraram neste ranking.

04 nevermind, nirvana
05 blood on the tracks, bob dylan
06 forever changes, love
07 ziggy stardust, david bowie
08 doolittle, pixies
09 unknown pleasures, joy division
10 after the gold rush, neil young
11 a tábua de esmeralda, jorge ben
12 automatic for the people, r.e.m.
13 xo, elliott smith
14 sticky fingers, rolling stones
15 achtung baby, U2
16 pink moon, nick drake
17 grace, jeff buckley
18 loveless, my bloody valentine
19 radio-activity, kraftwerk
20 the queen is dead, the smiths
21 siamese dream, smashing pumpkins
22 magical mystery tour, the beatles
23 odelay, beck
24 velvet underground and nico, velvet underground
25 rubber soul, the beatles
26 kid a, radiohead
27 zen arcade, hüsker dü
28 transa, caetano veloso
29 low, david bowie
30 nashville skyline, bob dylan
31 wowee zowee, pavement
32 odessey and oracle, zombies
33 as quarto estações, legião urbana
34 last splash, the breeders
35 what’s going on, marvin gaye
36 daydream naton, sonic youth
37 abbey road, the beatles
38 the soft bulletin, flaming lips
39 plastic ono band, john lennon
40 london calling, the clash
41 exile on main street, rolling stones
42 younger than yesterday, the byrds
43 sgt. pepper’s lonely hearts club band, the beatles
44 stankonia, outkast
45 the who sell out, the who
46 is this it, the strokes
47 astral weeks, van morrison
48 mighty joe moon, grant lee buffalo
49 le historie de melodie nelson, serge gainsbourg
50 the ramones, the ramones
51 the dark side of the moon, pink floyd
52 construção, chico buarque
53 parklife, blur
54 murmur, rem
55 music from big pink, the band
56 bringing it all back home, bob Dylan
57 in the wee small hours, Frank sinatra
58 moon safari, air
59 the stooges, the stooges
60 carnaval na obra, mundo livre sa
61 paul’s boutique, beastie boys
62 in utero, nirvana
63 american beauty, greateful dead
64 ladies and gentlemen, we are floating in space, spiritualized
65 os mutantes, os mutantes
66 discovery, daft punk
67 sea change, beck
68 dusty in memphis, dusty springfield
69 69 love songs, the magnetic fields
70 portishead, portishead
71 scott 4, scott walker
72 teenager of the year, frank black
73 either/or, elliott smith
74 elephant, the white stripes
75 on the beach, neil young
76 deserter’s songs, mercury rev
77 off the wall, michael jackson
78 post, bjork
79 surf’s up, beach boys
80 pulp fiction, soundtrack
81 songs from a room, leonard cohen
82 a ghost is born, wilco
83 under a red blood sky, u2
84 behaviour, pet shop boys
85 sheik yerbouti, frank zappa
86 electro-shock blues, eels
87 this is hardcore, pulp
88 brotherhood, new order
89 selvagem?, os paralamas do sucesso
90 merriweather post pavilion, animal collective
91 all things must pass, george harrison
92 the downward spiral, nine inch nails
93 bookends, simon and garfunkel
94 mezzanine, massive attack
95 #1 record, big star
96 summer in abbadon, pinback
97 gentleman, the afghan wighs
98 grievous angel, gram parsons
99 ten, pearl jam
100 grand prix, teenage fanclub

Anúncios

20 comentários em “Os discos da minha vida (top 3)

    dh disse:
    agosto 16, 2011 às 12:47 am

    Grande disco, ás vezes injustiçado, o White Album é um dos que mais ouço, acho que pela sua variedade: sempre há uma música apropriada para se ouvir em determinado momento.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 12:53 am

    Não sei se injustiçado, mas grande disco, sem dúvida.

    Ailton Monteiro disse:
    agosto 16, 2011 às 12:59 am

    O melhor álbum de todos os tempos, pra mim, mesmo eu nunca tendo conseguido ouvir até o final a cacofônica “Revolution 9”. Muito bonita (e triste) essa história com o teu pai. Por que será que a maioria dos pais, pelo menos em relação aos filhos homens, são assim tão estranhos? Comigo foi bem parecido, mas acho que num grau pior do que foi para você, já que pelo menos o teu pai te apresentou aos Beatles. Meu pai ouvia Núbia Lafayete (mais confeso que herdei dele o gosto pela música de dor de cotovelo)! Eu fui apresentado aos Beatles só aos vinte anos! E comecei logo com o Album Branco e Sgt Pepper.

    André Bezerra disse:
    agosto 16, 2011 às 1:10 am

    Que forte a lista ter desembocado esse álbum justo na data de ontem…

    Bruna Pinheiro disse:
    agosto 16, 2011 às 1:14 am

    Super me identifiquei com seu post. Tenho uma relação “esquisita” com meu pai também. E assim como o seu, ele me deixou os Beatles como herança. Vendo você escrever isso aos 30, refleti se quero fazer isso daqui há 10 anos ou não. De alguma forma, ainda posso tentar mudar as coisas, né?
    Obrigada pelo texto, me fez pensar diferente! :D

    ps: não sei se conseguiria fazer uma lista dos 100 discos da minha vida. Árdua tarefa, hein?!

    Ricardo disse:
    agosto 16, 2011 às 1:20 am

    Um dos textos que mais gostei da lista para o disco que seria o primeiro lugar se eu resolvesse fazer uma dessas.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 1:20 am

    Também nunca consegui ouvir a Revolution 9 inteira, Ailton. Você demorou a conhecer os Beatles, mas começou muito bem.

    Pois é, André, coincidência total. E o mais engraçado é que eu estava arrumando a bagunça lá na casa da minha mãe e fui esbarrando em várias cópias do álbum branco…

    Talvez dê pra mudar as coisas, Bruna. Mas às vezes isso não acontece e não podemos fazer nada pra que seja diferente. Acontece.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 1:21 am

    Valeu, Ricardo.

    jv disse:
    agosto 16, 2011 às 2:13 am

    o layout novo ficou bem bacana.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 2:19 am

    legal, jv.

    Fausto disse:
    agosto 16, 2011 às 5:03 am

    Ficou bom o layout. Dear Prudence é uma beleza mesmo, e gosto da versão da Siouxsie mais ainda.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 12:21 pm

    Valeu, Fausto

    Adalberto disse:
    agosto 16, 2011 às 12:30 pm

    Ficou lindão o novo layout desse blog,Tiago.
    Mas não é só isso que tenho a dizer…

    São poucos os blogs, revistas e sites especializados que falam de música, cinema e cultura pop que são como esse blog.
    Esse blog, de textos tão pessoais e resenhas que são dotadas de um belissimo apelo sentimental, que deixam os leitores bastante familiarizados (de várias formas) com as histórias reais vividas pelo autor.

    Parabéns pela coragem, garoto…

    São poucos que tem sua auto confiaça.

    Eduardo disse:
    agosto 16, 2011 às 12:42 pm

    Não há muito o que falar a respeito do álbum branco. Clássico absoluto, aliás, como tudo o que os bezouros fizeram a partir do Rubber Soul. Meu pai, já falecido, também me ensinou a gostar dos Beatles, mas ele preferia a fase Help/A hard days night, que influenciou diretamente a nossa jovem guarda.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 12:42 pm

    Opa, Adalberto. Elogio bonitão, gostei! Obrigado, cara. O blog só existe dessa forma estranha porque vocês embarcam na loucura e acabam me estimulando a continuar. Acho que eu perderia o ânimo se ninguém estivesse lendo (se bem que, você sabe, quem gosta de escrever acaba escrevendo de qualquer jeito). Abraço!

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 16, 2011 às 12:45 pm

    Meu pai também prefere essa fase aí, Eduardo.

    Duque disse:
    agosto 18, 2011 às 9:52 pm

    Cara, um dos melhores textos da série, e claro, um dos melhores discos também. E o layout ficou bom mesmo.

    Thaís disse:
    agosto 21, 2011 às 11:06 am

    Texto inspiradíssimo, Tiago (na esperança de ler um livro seu!). Adoro esse álbum. É um caldeirão de emoções.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 21, 2011 às 3:58 pm

    Obrigado, Duque e Thaís.

    Rodrigo disse:
    agosto 21, 2011 às 4:03 pm

    Acho maravilhosa essa conexão dos seus textos, entre os discos e a relação precisamente pessoal que você tem com eles. Esse aí é bem importante para mim tb. Lembrei do texto que você escreveu sobre o show de Paul McCartney, você comentava sobre a relação com o seu pai e na época me colocou numa situação embaraçosa: tava num hostel no rio, tomando café da manhã quando resolvi ler textos sobre o show (que eu tinha ido em sp dias antes). Daí encontrei o seu, comecei a ler, cercado de desconhecidos, cada um na sua, quando algumas lágrimas começaram a escorrer. O pessoal sabia que eu era de Recife. Devem ter achado que era saudade. :P

    Se os textos forem melhorando de acordo com o top, estamos feitos. abraço :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s