Superoito express (7)

Postado em Atualizado em

superfurry

(Paralelamente: American beauty, Grateful Dead, 1970; Scott 2, Scott Walker, 1968; In the wee small hours, Frank Sinatra, 1955; Dusty in Memphis, Dusty Springfield, 1969; Something else, The Kinks, 1967; para todo o sempre, amém)

[E me perdoem, sei que estou metido numa geléia de discos e isso pode parecer enfadonho e redundante, mas prometo compensar assim que possível com transcrições de parágrafos de livros. Multidão que visita este blog movida pelo amor à literatura, stay tuned]

Dark days/Light years | Super Furry Animals | 7.5 | Está para o rock psicodélico do final dos anos 60 assim como Phantom power estava para o country rock do início dos 70. E com essa comparação superficial digo que: ainda que adote um método consagrado, “clássico” (no caso, o álbum de jam), o charme do álbum está no modo anárquico e inconsequente como corrompe a herança pop. São discos que fazem questão de não andar na linha. E se os melhores momentos do Super Furry Animals são os mais caóticos e surpreendentes (Guerrilla e Rings around the world, sejamos específicos), Dark days/Light years se esforça terrivelmente para encontrar um lugar entre os grandes. Não soa tão espontâneo quanto os anteriores, beira o exaustivo, mas preserva uma velha promessa do grupo: seguir em frente, sempre. Aqui, eles soam relaxados e seguros, e até arriscam uma ode aos Rolling Stones antes de se transformarem numa máquina ritmica inclassificável. Para o SFA, o significado da palavra “jam” é mais amplo do que se imagina – e, que bom, eles aprenderam a brincar feito gente grande.

Swoon | Silversun Pickups | 6 | A imprensa norte-americana adora uma banda independente que executa com competência uma tonelada de clichês do rock comercial, não adora? Só isso explica a badalação em torno do quarteto de Los Angeles, que lançou este segundo disco por um selo chamado Dangerbird e, ainda assim, virou destaque na Rolling Stone. A primeira audição é nada menos que chocante para quem viveu os anos 90: quando não soa simplesmente choroso, Brian Aubert canta exaamente como Billy Corgan, sob guitarras pesadas-mas-não-tanto que poderiam ter sido produzidas por Butch Vig. Para quem resiste bravamente à sensação de que o passado era mais divertido, o álbum até se sustenta pelo entusiasmo e uso consciente de fórmulas do rock que, na soma dos fatores, produz hits perfeitinhos como Growing old is getting old e It’s nice to know you work alone, que talvez arranquem lágrimas dos fãs do Muse e do Placebo. Talvez. E só deles, ok?

Quicken the heart | Maximo Park | 5.5 | Há bandas que não evoluem nunca, e dessas ficaremos apenas com os primeiros, ótimos álbuns. Quem lembra de Our earthly pleasures, o segundo do Maximo Park? Na minha memória é que não ficou. Mas ainda sentimos saudades de A certain trigger (parecia tão simples!), e por isso retornamos aos britânicos com interesse toda vez que eles lançam uma nova canção que deixa a impressão de que pode ser grande até o momento em que… hum, eles estragaram tudo outra vez. Quicken the heart é quase tão frustrante quanto o anterior, e chega num ponto que parece mais dedicado a reproduzir o catálogo do Futureheads que os clássicos do Gang of Four. Alguns momentos dignos (The kids are sick again, A cloud of mystery e Wraithlike) sentem-se muito sozinhos num conjunto flácido, repetitivo, que parece jogar na minha cara como eu deveria ter sido mais bondoso com o novo do Franz Ferdinand. Mas e então, abandonamos o Maximo Park de vez? Eu não. Ainda acredito que, com o humor fino e a aparente esperteza que eles têm, dia desses podem até nos pegar de surpresa. E repito: é um pouco melhor que o disco anterior. Melhor que o anterior, ouviram?

Primary colours | The Horrors | 5 | Meu caso com o Horrors está envenenado. Acabou. Fechou. Perdeu. Sei que há quem os defenda com dentes, unhas e o diabo a quatro. Entendo que este segundo álbum dos britânicos seria minimamente importante apenas por conter a grife de Geoff Barrow (e foi coproduzido pelo escritor Craig Silvey e pelo diretor de clipes Chris Cunningham, um crossover bizarro que deixaria Andy Warhol muito orgulhoso). Mas tudo o que eu (ainda) consigo ouvir é a décima-nona encarnação de Ian Curtis num moedor de carne à Psychocandy. Conciso – taí um adjetivo que será muito usado para descrever um álbum que compõe atmosferas intensas e sofridas e compactas de ruídos e ecos a serviço… do que mesmo? As trovoadas de Three decades me impressionaram, não há nada tão oco quanto os hits do White Lies, mas o restante do álbum vai agonizando lentamente até desaguar no óbvio ululante: influências de eletrônicas largadas numa jam de oito minutos de duração. Entendo. Mas não me assusta.

Anúncios

15 comentários em “Superoito express (7)

    Filipe Furtado disse:
    abril 23, 2009 às 10:32 pm

    Como você mencionou Scott 2 e Dusty in Memphis, não vou reclamar da critica absurda ao The Horrors.

    Daniel Pilon disse:
    abril 24, 2009 às 12:40 am

    Gosto do SFA e do The Horrors. Acho bem diferente do anterior e uma versão que deu certo do que o She Wants Revenge ven tentando fazer e não consegue.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 24, 2009 às 2:15 am

    Pra mim é um grande decalque e só. Não vejo nada de muito interessante neles, acho que nunca vi.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 24, 2009 às 12:52 pm

    Pois é, Pilon. Eu já não consigo passar nem perto do She Wants Revenge…

    Rodrigo disse:
    abril 24, 2009 às 4:06 pm

    Tiago, por que você também não fala sobre esses discos antigos que você ouve? Acho que seria uma boa, cara.

    Luciano Ferreira disse:
    abril 24, 2009 às 4:25 pm

    Gostei da atitude do The Horrors, acho que eles conseguiram sair do limitado universo musical que se meteram no álbum anterior, mas ainda precisam melhorar bastante. Concordo com o que falou so Silversun Pickups, os outro ainda não ouvi.

    guilherme disse:
    abril 24, 2009 às 6:43 pm

    por que voce nao comenta os discos antigos? ouvi 3 dos 5 e gostaria de ler sobre (#formacaomusical), mas em vez disso v. se prende a esses lançamentos queu nunca baixarei.

    Tiago respondido:
    abril 24, 2009 às 8:34 pm

    Puts, vocês querem MESMO que eu comente discos antigos? Nunca imaginava isso. Comentários são uma caixinha de surpresa.

    Rodrigo disse:
    abril 24, 2009 às 10:48 pm

    Putz, e por que não? hehehe. São os que mais me interessam. :)

    Tiago Superoito respondido:
    abril 24, 2009 às 11:14 pm

    Ok, então. Tá anotado.

    Sayd disse:
    abril 26, 2009 às 7:55 pm

    Cuidado com o óbvio ululante minha gente!!!
    Nelson q o diga! Aha!

    Sayd disse:
    abril 27, 2009 às 4:21 pm

    Escutei por acaso o Primary Colours do Horrons ontem. Algumas horas depois de comentar aqui. Esta era sem sombra de dúvida uma banda q não tinha o mínimo interesse e nenhum crédito comigo desde q escutei a histérica e infantil ‘sheena is a parasite’.
    Mas, acabei batendo de frente com um video deles (da ultima faixa do disco) escutei e pra minha supresa me identifiquei… baixei o disco e achei muito Bom. Sim, acima da média! É claro q esses garotos parece q selecionam suas referencias pelo q há de mais ‘cool’ em estetica e sonoridade dos ultimos trinta anos… mas. O resultado foi bom. Ainda q esta volta e meia o disco resvale em apropriações indisfarsáveis de joy division, cure e kraftwerk (como nesta última faixa).

    Tiago respondido:
    abril 27, 2009 às 5:59 pm

    Pra mim fica claro que eles têm duas ou três referências e vão tirando tudo daí.

    Fred disse:
    abril 30, 2009 às 9:10 pm

    SFA sempre merece minha confiança.
    Até Love Kraft eu via novidade em cada trabalho. Depois Hey Venus! desandou e esse Dark Days/Light Years retoma o bom trabalho, eu acho. Hey Venus era o tipo de álbum que não dá vontade de ouvir de novo. Esse aí é um monstrinho inclassificável, dos que se gosta mais a cada vez que se ouve – embora não seja grandioso como os que você descreveu.
    O que me decepciona só é a falta de repercussão desse disco. Melhor que Black Lips, por exemplo… melhor que MGMT (não é muito difícil ser melhor que MGMT).
    Para mim, SFA tá no rol dos grandes. Flaming Lips, Wilco, Radiohead… enfim.
    Se o Primal Scream – esse sempre é um monstro, mesmo – fizer o mesmo que eles (digo, pelo menos manter o nível anterior), ficarei feliz.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 30, 2009 às 9:35 pm

    Também não gosto muito do ‘Hey Venus’.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s