Dia: abril 2, 2009

Art Brut vs. Satan | Art Brut

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artbrutcapaArt Brut: discos, bebedeiras, metalinguagem, etc.

Nesta altura dos acontecimentos, eu queria não importar tanto com o blog sonoro de Eddie Argos. Mas é daqueles que acompanhamos com curiosidade mórbida. Sabemos muito bem que os posts podem sempre resvalar em confissões constrangedoras, desencontradas. Em crise. E vergonha alheia.

Nosso herói pode não ter muito talento. Pode ter perdido o fio da moda.  Mas é absolutamente franco em tudo o que faz – e isso, às vezes, importa.

“Por que todo mundo está tentando ser o U2?”, ele pergunta, numa das faixas de Art Brut vs. Satan. Não sei, colega. “Por que as bandas não podem ser iguais às canções que escrevem?”, desabafa, mais adiante. Também não faço ideia. Argos, meu chapa, será que você não poderia escrever umazinha sobre críticos de cinema? A rotina de uma redação de jornal, então? Renderia um belo de um disco, né?  

Fatos: o Art Brut gravou um álbum-diário escrito em papel barato (ou, digamos, publicado no blogger.com.br). Exatamente igual (em conceito, pelo menos) aos anteriores. Um disco que termina na quarta faixa. E que, dela em diante, se transforma numa crônica pós-punk sobre discos, fãs de música, bandas de rock. 

Pode parecer uma estratégia calculada. Depois de agradar à crítica com um metarock muito simples, o Art Brut tenta repetir a fórmula pela segunda vez. Pensar desse jeito, porém, seria duvidar do trunfo da banda britânica: a sinceridade com que Argos transforma canções de três minutos em megafone para um discurso sarcástico e informal sobre a vida de quem não sabe muito bem se beija a garota ou dedica atenção à canção favorita (eles já escreveram uma música exatamente sobre esse dilema, aliás).

O próprio Argos sabe que a ladainha soa repetitiva. Pergunte a ele. Aposto que dirá algo como “pois é, escrevi um hit sobre o assunto”. Ou, se quiser mais explicações, pule logo para a sétima faixa do disco, Slap dash for no cash, em que o vocalista admite gostar de gravações apressadas, sem ornamentos, lo-fi. “Aperte o ‘record’ e comece a tocar”, aconselha. É um disco que se explica, que teoriza sobre a própria existência.

Sem o impacto da novidade (muita gente gostou de Bang bang rock ‘n’ roll simplesmente por ter conhecido Argos), Art Brut vs. Satan periga receber as críticas mais desinteressadas do ano. Um fiasco por encomenda. Ao contrário do Franz Ferdinand, eles não tentam remodelar o próprio estilo. Ao contrário do Kaiser Chiefs, não querem conquistar as fãs de Lily Allen. Apenas apertam o botão. O disco parece até um acidente de percurso – uma polaróide a algumas semanas de esmaecer.

Capturar o calor do momento, sempre. Demons out, que contém o título do disco, soa como um ataque à indústria fonográfica. Eles respondem à decisão da EMI de enxotar a banda (que agora lança pelo selo Cooking Vinyl) com uma gota de sarcasmo: “consumidor de discos, nós o odiamos”, disparam. “Como eu dormiria direito se soubesse que ninguém gosta da música que gostamos?”, desabafam.

E daí seguem. A produção de Frank Black (Frank Black and the Catholics vem à mente) não muda as peças de lugar: o rock do Art Brut é anêmico porque é. Quando não narra a incrível descoberta da banda Replacements (em The Replacements), Argos ressalta as experiências mais triviais: o gosto por cereal, gibis e milkshake (DC Comics and chocolate milkshake, já que “algumas coisas sempre serão legais, mesmo quando você tem 28 anos”), a paixão por trens e ônibus (“Eu amo o transporte público”, em The passenger, que soa como uma piada de mau gosto para o pedestre de Brasília, infeliz), as bebedeiras sem fim (“Não lembro nada do que fiz”, confessa, em Mysterious bruises e completa, para bom entendedor: “I fought the floor and the floor won”).

E, no subterrâneo da gozação, o sentimento de uma adolescência que nunca passa. “Você gosta dos Beatles, eu gosto do Stones. Mas esses são apenas os discos dos nossos pais”, diz, em What a rush

Argos, a seu modo, é um desses astros de rock insatisfeitos, rebeldes, que esmurram paredes com a testa. Tudo o que ele deseja, porém, é ouvir bandas de rock radicalmente honestas. Simples. Tolo. E é por isso que o Art Brut, raquítico por opção, não sairá tão cedo da minha lista de favoritos.

Terceíro álbum do Art Brut. 11 faixas, com produção de Frank Black. Lançamento Cooking Vinyl. 6.5/10

2 ou 3 parágrafos | Pagando bem, que mal tem?

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zakmiri

É um tanto deprimente acompanhar Kevin Smith numa nova tentativa de reprisar o projeto de ‘comédia romântica for geeks’ que deu certo em Procura-se Amy. A premissa promete dezenas de situações hilariantes (um casal de amigos de colégio decide escrever, dirigir e atuar num filme pornô ‘de garagem’), mas Smith continua obcecado por um tipo de humor escalafobético e adolescente que hoje não sugere nenhuma autenticidade – não é exatamente um estilo, mas uma fórmula aplicada pela enésima vez.

É por isso que, mesmo quando testa o estômago do gênero (há muito tempo não vejo uma comédia tão grosseira, positivamente grosseira, no multiplex aqui da cidade), Pagando bem, que mal tem (5/10) parece exausto. Ainda assim, interessante a experiência de assistir a uma comédia romântica para homens. Melhor: para moleques de 15 anos, no máximo.