Dia: abril 24, 2009

2 ou 3 (longos) parágrafos | Eu te amo, cara

Postado em Atualizado em

lv

Encontrar um grande amigo pode ser mais difícil que arrumar uma namorada que não o trate como uma criança irresponsável e desequilibrada de seis anos de idade, não pode? Talvez não (esse tipo de namorada só existe no mundo mágico dos contos de fadas, meu chapa), mas ainda assim imagino os pesadelos de quem sai à procura de um cúmplice para a vida toda. Como não? Ao contrário dos relacionamentos amorosos, o universo das amizades é guiado por gestos confusos e um manual de conduta que parece escrito num idioma incompreensível. Pode ser um pântano. Um campo minado. Ou pior que isso. Os conflitos não acabam nunca: com um melhor amigo, podemos discutir a relação? Fazer juras de confiança eterna? Devemos estipular limites? Vale chantagem emocional? E dar um tempo, para experimentarmos novas experiências de coleguismo, é tolerável? Mais tortuoso é saber quando exatamente a relação deve acabar. No momento em que a química desaparece e ele passa a nos tratar como um… estranho? Teremos permissão para visitar os pais dele quando a amizade azedar?

Taí, então, um filme que lida com nossas ó-tão-sérias dúvidas sobre a existência, os laços de companheirismo, as tensões pré-matrimoniais e tudo mais. Ironias à parte (e minha maior curiosidade é saber como os dois leitores portugueses deste blog interpretam meu humor ginasiano; vergonha alheia, na certa), Eu te amo, cara (7/10) é daquelas comédias sabidas, na esteira de Judd Apatow, perfeitas para o público que prefere ser surpreendido por um Presságio a bater ponto burocraticamente nas sessões de Che e W. Vamos lá, gente, o que é mais importante neste mundo? A saga de um bobalhão transformado em presidente da República ou uma crônica sobre o quão desengonçados podemos nos revelar diante de situações triviais como convidar um candidato a confidente para…hum… comer filés de peixe num restaurante bacana mais tarde?

Nesse ponto sou bastante inocente e pretendo continuar desse jeito: não menosprezo o prazer de assistir a um filme singelo e fluente (mas nada desleixado, já que decididamente descomplicado) como este. Nada extraordinário, mas o cinema “respeitável” dos Estados Unidos ganharia um tanto mais de vivacidade se compusesse cenas dessa forma relaxada, com lacunas de desconforto entre gags e alegre humor autoreferencial (há timing nas piadas com Chocolate a O diabo veste Prada, por exemplo). Impossível desconsiderar a reverência excessiva à cartilha de Apatow – e há o perigo de que esse modelo se transforme em fórmula. Outros poréns: a trilha sonora indie soa gratuita e a premissa lembra muito o mediano Meu melhor amigo (com a diferença de que o longa francês não é engraçado, ha-ha). Mas a corja da Dreamworks me ganhou quando decidiu apostar no talento cômico de Paul Rudd para segurar esta love story para fãs do Rush. É o cara. Numa comédia que, vamos lá!, não é só mais uma.