Dia: abril 9, 2009

Presságio

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knowing

Knowing, 2009. De Alex Proyas. Com Nicolas Cage, Chandler Canterbury, Rose Byrne e D.G. Maloney. 121min. 8/10

Os filmes querem que acreditemos neles, não querem? Mas às vezes essa se torna uma tarefa muito difícil, quando não impossível. 

Numa dessas noites chuvosas de sábado, eu estava completamente perdido num filme que adoro: A fantástica fábrica de chocolate, de Tim Burton. Reconheço a queda de ritmo e interesse na metade final da trama, mas eu poderia passar o mês inteiro assistindo aos trechos em que o cineasta cria um mundo delirante a partir da descrição de personagens: o menino balofo com bochechas rosadas e o olhar fixo de um psicopata; a menina milionária, arrogante como uma poderosa diretora de multinacional; o geek-mirim, entediado com os movimentos repetitivos de mais um game; o imperador sádico de uma babilônia de doces, com a feição esverdeada de um alienígena.

Eu estava lá, mesmerizado, quando minha avó entrou na sala. 85 anos. Lembro dos dias em que, há uma eternidade, eu a ouvia lamentando pelos cantos, descontente com o fato de poder respirar e andar por aí. “Eu quero morrer”, ela implorava, com um tom até sério e convincente, sempre que meu avó avisava sobre a decisão de queimar lixo do outro lado da rua. Ele voltava três, quatro horas depois, sabe-se lá de onde. Minha avó, que passou maus pedaços numa família de hábitos extremamente modestos, nunca foi de muitas fantasias.

Ela me interrompeu na cena em que o menino gorducho, depois de se deleitar no lago de cacau derretido, é sugado por uma tubulação larga e se transforma numa canção alegre entoada por um batalhão de Oompa-Lumpas. “Que mentirada boba, meu deus”, a vó comentou. Completamente desmotivada, se escondeu no canto da sala para tricotar ou preencher mais uma página de palavras cruzadas.

Vê como é complicado? E é um filme para crianças. Interpreto assim: para ela, não há como aceitar a existência de um embuste como A fantástica fábrica de chocolate. É algo muito exótico, mirabolante, que parece negar uma conexão muito clara com a realidade. A sandice cinematográfica não a diz respeito. Não há como. Assunto encerrado.

Bom neto que sou, não tomo esse exemplo para constranger a pobre velhinha. Minha avó, talvez sabiamente, não está só. Quando procurei a (simplificadíssima, como costume) compilação de resenhas do Metacritic sobre Presságio, encontrei termos como “ridículo”, “previsível”, “hilariante”, “desinteressante” e “inepto” (adoro esse último, vocês sabem). O crítico do USA Today chega a ditar uma espécie de código de ética para fitas de ficção-científica: “Negativo. O 11 de setembro não pode ser usado como premissa para um choroso filme-catástrofe sobre profecias.” Como é?

Para testar minha sanidade – já que saí do cinema bastante impressionado com este filme B de Alex Proyas, pronto a recomendá-lo a amigos, inimigos e desconhecidos -, li os comentários sobre O nevoeiro e Fim dos tempos. Também foram desprezados por uma gangue ruidosa da crítica norte-americana. O desdém, creio eu, poderia ser explicado pela minha avó: há filmes que obrigam os críticos (que, apesar das aparências, também tomam remédio para dor-de-cabeça e fazem compras em supermercados) a sintonizar uma estação que talvez não o interessem. Simplesmente isso.

E não estou jogando a culpa nos críticos – eu, para ficarmos num exemplo próximo, preciso de concentração e paciência para levar a sério adaptações de Jane Austen. Não é raramente que me censuro resmungando “mas quem precisa de um outro triângulo amoroso com vestidos floridos e sotaque britânico?” 

Então Presságio é uma obra de ficção-científica. Um filme que compõe um ambiente de fantasia e ilusão para lidar com questões que nos afligem. Assim são os pesadelos, as fábulas e os episódios de Além da imaginação. Em O nevoeiro, havia um monstro escondido em fumaça. Aqui, sabemos a data exata do fim do mundo. Nos dois casos, são situações extraordinárias que obrigam os personagens a rever certezas e lidar com uma sensação desmedida de medo, aflição. Estamos, mais uma vez, no limite.

Thrillers apocalípticos miram a catarse, por isso, costumam se transformar em sessões de terapia de grupo. Há quem os interprete por caminhos fatalistas que me parecem pantanosos: uma crônica sobre a extinção da vida abomina a humanidade? Ou manifesta o sentimento humano de desespero diante do inexplicável, do incontornável? Antes que ataquem Presságio com esse tipo de argumento subjetivo, contra-ataco com outro: mais sensato seria encará-lo como um conto de horror. O mais corajoso (já que seria absurdo usar a palavra destemido) a que assisti em algum tempo.

Pelo menos neste filme, Alex Proyas (do razoável Cidade das sombras) demonstra temperamento quente e firmeza de propósito. Explora à ferro e fogo as possibilidades de uma premissa quase tosca, juvenil. Ele vai até o fim, mesmo que para isso tenha que resgatar signos que pareciam perdidos no cinema fantástico dos anos 80 (e Spielberg deve ter se mijado de inveja do desfecho). Não está nem aí para a cartilha do “bom gosto” das fábulas sensíveis premiadas com estatuetas douradas. Não há sofisticação, tampouco condescendência. É um longa, por isso, quase marginal dentro do esquema de Hollywood. Um borrão não-identificado, como foram O nevoeiro (mais uma vez) e os recentes de Shyamalan.

É possível massacrar o filme com a aplicação de uma lógica teimosa dos que buscam realismo em tudo (“o mundo não vai acabar mesmo”, “esse tipo de previsão numérica do futuro é uma bobagem mística, não existe”, “a trama depende do excesso de coincidências, por isso é frágil”, etc). E é possível adentrar a ficção com instrumentos que a própria trama nos oferece. O personagem principal, interpretado por Nicolas Cage (um ator de duas ou três caretas, mas que cumpre as exigências do papel), é um astrofísico cético, defensor da ideia de que o mundo se manifesta graças a uma série de coincidências e eventos aleatórios. Imagine Carl Sagan, o autor de O mundo assombrado por demônios e Contato (li tantos livros do sujeito recentemente que a comparação passou a parecer inevitável. É uma homenagem?).

A outra hipótese – de que a vida é determinada por alguma força ou entidade que desconhecemos – é descartada por este protagonista racional. E pela maioria dos espectadores (me inclua nesse grupo dos que prezam o método científico). O golpe do filme é trancar esse homem da ciência num pesadelo determinista. Desde que encontra códigos com a previsão exata de grandes tragédias, ele começa a pensar duas vezes. Seria o destino? A verdade está lá fora? Eram os deuses astronautas?

O roteiro, mais inteligente e bem-humorado do que aparenta ser, provoca esse personagem (e o público) com eventos interligados e, em tese, improváveis. O código para o fim do mundo cai no colo do nosso herói, que calha de ser pai de um menino que… Bem. O crítico espertinho pode acusar o filme de se beneficiar de um roteiro excessivamente amarradinho. Mas, para uma ficção-científica que desconfia do acaso, o recurso se justifica plenamente. É o fio invisível que amarra os personagens – ainda que Proyas não negue a este grupo de vítimas um estranho tipo de esperança.    

A fúria como o filme conduz o espectador a um cenário sombrio, desagradável (as cenas de catástrofe são assustadoras, mesmo quando os efeitos visuais medianos nos obrigam a duvidar do que vemos), deve dividir a plateia entre crentes e céticos. Eu acredito. Não na tese da trama, mas nos sentimentos extremados que ela desperta. É uma dessas experiências imaginativas e perversas que só o cinema permite.

Saí da sessão tão abalado e animado que perdi o filme que veria depois. Mas esse sou eu. Eu, o fã de Além da imaginação. Eu, que daria o Oscar a Tim Burton e a Palma de Ouro a Hayao Miyazaki. Eu, Tiago Superoito. Minha avó, na certa, abandonaria a sala. Muita mentira, muita tolice, e, fala sério, apocalipse é tããão 1985.

ATUALIZAÇÃO (11 de abril): dois dias depois…

Ok, admito que eu estava pronto para, numa revisão em caráter extraordinário, identificar uma série de problemas que comprovariam uma primeira impressão apressada e equivocada do filme. Bolei até uma estratégia: eu voltaria ao blog, pediria mil desculpas aos leitores, ofereceria uma cartela de vale-pipoca aos mais irritadiços e concordaria com o crítico do New York Times, que tratou Presságio como um filmeco lento e intratável. Confesso que, quando o ritmo da narrativa empaca pelo 85º minuto, pensei em mudar minha nota para 7 e ressaltar a medonha interpretação de Nicolas Cage, digamos. Numa das cenas, o ator chora e o diretor filma a nuca do sujeito (certamente com medo de flagrar uma careta horripilante). A câmera treme que é uma loucura, né? Anotado. Mas aí notei a origem da minha obsessão com o longa-metragem mais menosprezado da temporada, o único que me obrigou a uma reprise imediata numa sala de cinema em… cinco, seis, vinte anos? Os 15 minutos finais, quando Proyas toma o filme para si e decide fazer dele o que bem entende, jogam na nossa cara que o cinema mais pessoal pode não entrar na seleção de Cannes ou de Veneza. Proyas, meu irmão, vou contigo. Só não me peça para encará-lo como gênio da raça, ou vai ter gente atirando pedrinha quando me encontrar na fila da próxima sessão.