W.

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W., 2008. De Oliver Stone. Com Josh Brolin, Richard Dreyfuss, Jeffrey Wright e James Cromwell. 129min. 4/10

Na engrenagem deste blog, existe uma lei intocável. Não sei se vocês se deram conta disso (provavelmente sim, já que são pessoas inteligentes, mas fizemos o possível para manter esse procedimento em segredo), ela funciona da seguinte forma: TODOS, absolutamente todos os comentários sobre filmes e discos, ricos em informações superficiais, devem servir tão somente como pretextos para um turbilhão de parágrafos sobre a vida doméstica e a mente perturbada do autor e proprietário do blog: um sujeito sem méritos, trancado numa vidinha mediana.

E isso não é novidade, certo? E aí está a graça de escrever um blog, não? E tudo isso é muito divertido, né? É, é, é. Mas talvez vocês não imaginem o trabalho que dá cumprir esse mandamento, andar na linha, não cair na tentação de escrever um texto seco e preciso, sem gracinhas ou sarcasmo, sem piadinhas infelizes nem lembranças adocicadas. Ou diálogos com a minha avó. Ou conselhos do meu padrasto. É complicado. É dureza. Não recomendo. Eu deveria receber algum tipo de pagamento por isso.

Sem ironia. Repito: sem ironia! Manter este blog provoca um curto-circuito no meu cérebro que se manifesta toda vez em que tento criar conexões em tempo real entre um filme de ação e os parques de diversão da minha infância, entre uma comédia romântica e meus relacionamentos amorosos fracassados, entre tramas sobre pais ausentes e o meu próprio pai ausente. Nem sempre é automático. Só que estou domesticado. Reconheço que eu deveria tratar esse transtorno e me concentrar em livros do Philip Roth e discos do Tim Buckley. Mas não sou o tipo de sujeito que sai por aí quebrando leis.

Nem quero. Exemplo: enquanto assistia a esta cinebiografia pavorosamente entediante sobre George W. Bush, eu só conseguia pensar na minha curtíssima experiência política. Aos oito, nove anos de idade, me candidatei a vice-representante de classe e perdi feio. Um desastre. Mas o que permaneceu na minha memória não foi a derrota, e sim o processo dolorido que cercou a eleição. Acreditem: meninos de uma escola particular cravada no subúrbio do Rio de Janeiro podem encenar intrigas, maracutaias e jogos de poder tão palpitantes quanto os preparativos para a invasão ao Iraque. Como posso saber? Ora, o Oliver Stone me mostrou.

No caso, as lembranças me ajudaram a suportar o martírio que é W., um filmezinho ambicioso que, com a desculpa de compor o perfil austero de um homem importante, fica parecendo uma charge sem piada. O Bush de Josh Brolin é, apesar do esforço do ator (e nenhum ator vence Oliver Stone, entendam isso de uma vez por todas), uma caricatura: o adolescente beberrão e irresponsável que ouviu o chamado de deus e se transformou num político beberrão e irresponsável. Mas onde está a verve de um diretor que costumava interpretar a história dos Estados Unidos por uma lente provocativa? Nunca me imaginei sentindo saudades de JFK, mas cá estou eu, beiçudo, carente de teorias da conspiração. Se a maturidade de Stone equivale a World Trade Center e W., serei o primeiro a cobrar o retorno do moleque inconsequente. Onde assino?

A sorte do cineasta é que um “retrato sóbrio” do governo Bush é, por si só, patético. Não adianta prender o riso, nem transformar Bush-pai numa figura adorável: mesmo quando transcreve diálogos que provavelmente ocorreram (e soam tão maçantes quanto aquilo que imaginamos como os discursos preparados para reuniões na Casa Branca), o filme se livra da sombra de uma farsa. É “cinema de câmara”, descreveu Stone. Com um tema desses e personagens tão esdrúxulos (o que é o Colin Powell sem culhões?), eu preferiria punch de rock de arena.

(Mas ok, compreendo, nem sempre se tem o que se quer, este é o filme que Oliver Stone quis fazer e, nessa perspectiva, o resultado demonstra uma fase mais serena, uma tentativa de soar maduro, uma aproximação do discurso realista-jornalístico-friorento de um Steven Soderbergh e, claro, sempre haverá alguém pronto a valorizar a nobreza de um sussurro contra o esporro de um riff barulhento. Esse alguém não será eu.)

Voltando ao leite derramado da minha infância, o circo da administração Bush não difere muito da campanha entre alunos do meu colégio. Lembro que a classe devia escolher uma entre três chapas. O problema é que não havia uma terceira candidatura. Quando a professora pediu para que os petizes se manifestassem (“precisamos de mais um. Mais um. Um só, gente, por favor”), começamos a ler gibis e desenhar nas cadeiras e filosofar sobre a morte da bezerra. Isso até o momento em que um amigo meu chamado Rodrigo, ambição em pessoa, levantou o braço magrelo e sugeriu o próprio nome.

Ouvi duas ou três risadinhas (dos dois ou três estudantes que prestavam atenção a alguma coisa naquele momento), e só então me dei conta de que eu era o único amigo do novo candidato. No dia seguinte, minha fotografia estampava panfletos em preto-e-branco, distribuídos na cantina, na quadra esportiva, nos bebedouros e no corredor principal. Para vice, Tiago Superoito.

Tímido feito um poste, passei a pentear meu cabelo para o lado esquerdo, na esperança de escapar das gozações de quem sensatamente tratava a política como coisa de fresco. Não consegui. As garotas me viam como uma ratazana de 1,70m (elas tinham medo, muito medo) e os meninos populares me cortavam do time de basquete. Foram semanas desesperadoras, que terminaram com um final feliz: o nerd viciado em videogame e o nerd daltônico obcecado por livros de astronomia (meu amigo Rodrigo, esse) perderam para o garoto mais velho e desajustado, excelente atacante e o único da sala com mais de três fios de cabelo debaixo dos braços. Um estúpido. Um W. Bush.

O que aconteceu durante todo o ano poderia ser descrito mais ou menos um resumo do governo norte-americano pré-Obama: omissões desagradáveis, estratégias ineptas (adoro essa palavra) e uma guerra sem sentido. O representante de classe, grandalhão e desajeitado, exigiu dividir as aulas de Educação Física com outra turma que não “aquele bando de débeis mentais”. Resultado: ele foi suspenso e a classe inteira foi obrigada a encenar uma peça sobre a ditadura militar, “para aprender o que é bom pra tosse”. Rodrigo, que não sabia perder, apurava cada atitude tosca do governante, um playboy incapaz de gerenciar o próprio umbigo.

Deu no que deu: nos atormentaram, e muito cedo, com as consequências de um voto errado. Aposto que, se tivesse optado por filmar minha escola, Oliver Stone poderia até ter levado a Palma de Ouro em Cannes. Entre les murs meets Nixon. Não sinto saudades.

6 comentários em “W.

    Na disse:
    abril 15, 2009 às 6:51 pm

    Querido, isso tudo é muito melhor e mais interessante que frutas laranjadas e pecados negros.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 15, 2009 às 7:09 pm

    Não sei se é tão interessante assim…

    André de Leones disse:
    abril 15, 2009 às 9:19 pm

    Olá, Tiago.

    Tudo bem?

    Diga, como você viu “W.”? Em uma cabine, baixou pela internet? Se foi numa cabine, ele por acaso entra em cartaz em Brasília no final desta semana?

    Há muito tempo acho o cinema de Stone insatisfatório (para dizer o mínimo), mas ainda vejo todos os filmes que ele lança, nem sei direito por quê.

    Abraços.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 15, 2009 às 9:23 pm

    Tudo bem, André? Baixei o filme. Ele ainda não chegou às salas de Brasília, nem chega este fim de semana (e se até o ‘Che’ continua inédito por aqui, imagina isto).

    Também continuo assistindo aos filmes dele sem saber por que, mas eu poderia ter passado sem este último.

    Michel Simões disse:
    abril 17, 2009 às 4:53 pm

    Acho que poderia ficar eternamente inédito, depois do que vc descreveu hehehe

    Tiago Superoito respondido:
    abril 17, 2009 às 6:07 pm

    Nem tanto, né…

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