George W. Bush

2 ou 3 parágrafos | Capitalismo: uma história de amor

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Para aqueles que (como eu) acreditavam que a queda de George W. Bush afundaria o cinema de Michael Moore, Capitalismo: uma história de amor (3/5) mostra que estávamos errados: a eliminação do inimigo provocou um efeito interessante, muito positivo, no discurso do cineasta. Antes, ele era um homem de certezas (Bush era o vírus no intestino da América). Agora, anda cheio de dúvidas: denuncia a crise do sistema econômico capitalista, mas não encontra remédio imediato para a síndrome.

A alternativa mais óbvia ao capitalismo seria o caduco socialismo, mas, antes que critiquemos a ingenuidade de Moore, o próprio diretor sai na frente e elimina qualquer tendência ao radicalismo. O que ele tateia é a possibilidade de um estado social-democrata — gerenciado por trabalhadores — um pouco mais humano do que este que está aí. E sobre isso todos concordamos (novamente, Moore prega para os convertidos, e daí o endeusamento de Barack Obama nos trechos finais, mas que filme triste!).

Em síntese: um longa muito mais complexo (e também sóbrio, uma colcha de tragédias americanas, apesar dos truques sentimentais de sempre) do que os panfletos que ele dirigia até aqui. O escracho é que, desta vez, me parece meio deslocado, como se entrasse no filme por obrigação. Provavelmente, o próprio Moore passa por uma crise. Parece cansado das gracinhas gratuitas, mas não sabe o que fazer com a imagem de provocador incendiário que ele criou. O filme é um reflexo dessas e outras incertezas.

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W.

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W., 2008. De Oliver Stone. Com Josh Brolin, Richard Dreyfuss, Jeffrey Wright e James Cromwell. 129min. 4/10

Na engrenagem deste blog, existe uma lei intocável. Não sei se vocês se deram conta disso (provavelmente sim, já que são pessoas inteligentes, mas fizemos o possível para manter esse procedimento em segredo), ela funciona da seguinte forma: TODOS, absolutamente todos os comentários sobre filmes e discos, ricos em informações superficiais, devem servir tão somente como pretextos para um turbilhão de parágrafos sobre a vida doméstica e a mente perturbada do autor e proprietário do blog: um sujeito sem méritos, trancado numa vidinha mediana.

E isso não é novidade, certo? E aí está a graça de escrever um blog, não? E tudo isso é muito divertido, né? É, é, é. Mas talvez vocês não imaginem o trabalho que dá cumprir esse mandamento, andar na linha, não cair na tentação de escrever um texto seco e preciso, sem gracinhas ou sarcasmo, sem piadinhas infelizes nem lembranças adocicadas. Ou diálogos com a minha avó. Ou conselhos do meu padrasto. É complicado. É dureza. Não recomendo. Eu deveria receber algum tipo de pagamento por isso.

Sem ironia. Repito: sem ironia! Manter este blog provoca um curto-circuito no meu cérebro que se manifesta toda vez em que tento criar conexões em tempo real entre um filme de ação e os parques de diversão da minha infância, entre uma comédia romântica e meus relacionamentos amorosos fracassados, entre tramas sobre pais ausentes e o meu próprio pai ausente. Nem sempre é automático. Só que estou domesticado. Reconheço que eu deveria tratar esse transtorno e me concentrar em livros do Philip Roth e discos do Tim Buckley. Mas não sou o tipo de sujeito que sai por aí quebrando leis.

Nem quero. Exemplo: enquanto assistia a esta cinebiografia pavorosamente entediante sobre George W. Bush, eu só conseguia pensar na minha curtíssima experiência política. Aos oito, nove anos de idade, me candidatei a vice-representante de classe e perdi feio. Um desastre. Mas o que permaneceu na minha memória não foi a derrota, e sim o processo dolorido que cercou a eleição. Acreditem: meninos de uma escola particular cravada no subúrbio do Rio de Janeiro podem encenar intrigas, maracutaias e jogos de poder tão palpitantes quanto os preparativos para a invasão ao Iraque. Como posso saber? Ora, o Oliver Stone me mostrou.

No caso, as lembranças me ajudaram a suportar o martírio que é W., um filmezinho ambicioso que, com a desculpa de compor o perfil austero de um homem importante, fica parecendo uma charge sem piada. O Bush de Josh Brolin é, apesar do esforço do ator (e nenhum ator vence Oliver Stone, entendam isso de uma vez por todas), uma caricatura: o adolescente beberrão e irresponsável que ouviu o chamado de deus e se transformou num político beberrão e irresponsável. Mas onde está a verve de um diretor que costumava interpretar a história dos Estados Unidos por uma lente provocativa? Nunca me imaginei sentindo saudades de JFK, mas cá estou eu, beiçudo, carente de teorias da conspiração. Se a maturidade de Stone equivale a World Trade Center e W., serei o primeiro a cobrar o retorno do moleque inconsequente. Onde assino?

A sorte do cineasta é que um “retrato sóbrio” do governo Bush é, por si só, patético. Não adianta prender o riso, nem transformar Bush-pai numa figura adorável: mesmo quando transcreve diálogos que provavelmente ocorreram (e soam tão maçantes quanto aquilo que imaginamos como os discursos preparados para reuniões na Casa Branca), o filme se livra da sombra de uma farsa. É “cinema de câmara”, descreveu Stone. Com um tema desses e personagens tão esdrúxulos (o que é o Colin Powell sem culhões?), eu preferiria punch de rock de arena.

(Mas ok, compreendo, nem sempre se tem o que se quer, este é o filme que Oliver Stone quis fazer e, nessa perspectiva, o resultado demonstra uma fase mais serena, uma tentativa de soar maduro, uma aproximação do discurso realista-jornalístico-friorento de um Steven Soderbergh e, claro, sempre haverá alguém pronto a valorizar a nobreza de um sussurro contra o esporro de um riff barulhento. Esse alguém não será eu.)

Voltando ao leite derramado da minha infância, o circo da administração Bush não difere muito da campanha entre alunos do meu colégio. Lembro que a classe devia escolher uma entre três chapas. O problema é que não havia uma terceira candidatura. Quando a professora pediu para que os petizes se manifestassem (“precisamos de mais um. Mais um. Um só, gente, por favor”), começamos a ler gibis e desenhar nas cadeiras e filosofar sobre a morte da bezerra. Isso até o momento em que um amigo meu chamado Rodrigo, ambição em pessoa, levantou o braço magrelo e sugeriu o próprio nome.

Ouvi duas ou três risadinhas (dos dois ou três estudantes que prestavam atenção a alguma coisa naquele momento), e só então me dei conta de que eu era o único amigo do novo candidato. No dia seguinte, minha fotografia estampava panfletos em preto-e-branco, distribuídos na cantina, na quadra esportiva, nos bebedouros e no corredor principal. Para vice, Tiago Superoito.

Tímido feito um poste, passei a pentear meu cabelo para o lado esquerdo, na esperança de escapar das gozações de quem sensatamente tratava a política como coisa de fresco. Não consegui. As garotas me viam como uma ratazana de 1,70m (elas tinham medo, muito medo) e os meninos populares me cortavam do time de basquete. Foram semanas desesperadoras, que terminaram com um final feliz: o nerd viciado em videogame e o nerd daltônico obcecado por livros de astronomia (meu amigo Rodrigo, esse) perderam para o garoto mais velho e desajustado, excelente atacante e o único da sala com mais de três fios de cabelo debaixo dos braços. Um estúpido. Um W. Bush.

O que aconteceu durante todo o ano poderia ser descrito mais ou menos um resumo do governo norte-americano pré-Obama: omissões desagradáveis, estratégias ineptas (adoro essa palavra) e uma guerra sem sentido. O representante de classe, grandalhão e desajeitado, exigiu dividir as aulas de Educação Física com outra turma que não “aquele bando de débeis mentais”. Resultado: ele foi suspenso e a classe inteira foi obrigada a encenar uma peça sobre a ditadura militar, “para aprender o que é bom pra tosse”. Rodrigo, que não sabia perder, apurava cada atitude tosca do governante, um playboy incapaz de gerenciar o próprio umbigo.

Deu no que deu: nos atormentaram, e muito cedo, com as consequências de um voto errado. Aposto que, se tivesse optado por filmar minha escola, Oliver Stone poderia até ter levado a Palma de Ouro em Cannes. Entre les murs meets Nixon. Não sinto saudades.