Trecho | A parte dos críticos

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“Ela se perguntava (e de passagem perguntava a eles) até que ponto alguém pode conhecer a obra de outro.

– Eu, por exemplo, adoro a obra de Grosz – disse indicando os desenhos de Grosz pendurados na parede -, mas conheço realmente sua obra? Suas histórias me fazem rir, em certos momentos creio que Grosz desenhou para que eu risse, por vezes o riso se transforma em gargalhada, e a gargalhada num ataque de hilaridade, mas uma vez conheci um crítico de arte que gostava de Grosz, é claro, mas que ficara deprimidíssimo quando via uma retrospectiva da sua obra ou por motivos profissionais tinha de estudar alguma tela ou desenho dele. E essas depressões ou esses períodos de tristeza costumavam durar semanas. Esse crítico de arte era amigo meu, mas nunca havíamos tocado no tema Grosz. Uma vez, porém, lhe contei o que acontecia comigo. No início ele não podia acreditar. Depois pôs-se a sacudir a cabeça de um lado para o outro. Depois olhou para mim de alto a baixo, como se não me conhecesse. Pensei que ele tinha enlouquecido. Rompeu sua amizade comigo para sempre. Faz pouco me contaram que ele ainda diz que eu não sei nada de Grosz e que meu gosto estético é igual ao de uma vaca. Bem, por mim pode dizer o que quiser. Eu rio com Grosz, ele se deprime com Grosz, mas quem realmente conhece Grosz?

– Suponhamos – continuou a senhora Bubis – que neste momento batam na porta e apareça meu velho amigo, o crítico de arte. Ele senta aqui, no sofá, a meu lado, e um de vocês saca um desenho sem assinatura e nos garante que é de Grosz e que deseja vendê-lo. Olho o desenho, sorrio, tiro o meu talão de cheques e compro. O crítico de arte examina o desenho, não se deprime e tenta me fazer mudar de ideia. Para ele não é um desenho de Grosz. Para mim é um desenho de Grosz. Qual dos dois tem a razão?

– Ou formulemos a história de outro modo. O senhor – disse a senhora Bubis apontando para Espinoza – saca um desenho sem assinatura e diz que é de Grosz e tenta vendê-lo. Eu não rio, observo-o friamente, aprecio o traço, o pulso, a sátira, mas nada no desenho estimula meu deleite. O crítico de arte o observa cuidadosamente e, como é natural dele, fica deprimido e ato contínuo faz uma oferta, uma oferta que supera suas economias e que, se aceita, o mergulhará em longas tardes de melancolia. Tento dissuadi-lo. Digo que o desenho me parece suspeito porque não me provoca o riso. O crítico me responde que já era hora de eu enxergar a obra de Grosz com olhos de adulto e me felicita. Qual dos dois tem a razão?”

Trecho de 2666, de Roberto Bolaño.

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