Watchmen

Watchmen, a crítica

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Da série “críticas que não tratam o espectador como um asno”, tenho que recomendar o texto do Kléber Mendonça Filho sobre Watchmen. É um assombro. E olha que não fico indicando textos à toa. Está aqui.

E é mais que o suficiente, por hoje. Quer dizer, quase. Ontem, por obrigação de trabalho (caso contrário, estaria em casa vendo Big Brother), assisti a uma das exibições digitais de óperas do Met, em cartaz numa sala “de arte” perto de você. Não tenho condições de avaliar o espetáculo de 3h20 de duração, mas acredito sinceramente que a Rain deveria se dedicar a isso: óperas. E deixar os filmes em paz.

Watchmen – O filme

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Watchmen, 2009. De Zack Snyder. Com Billy Crudup, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley e Carla Gugino. 163min. 5/10

Watchmen – O filme é uma adaptação bastante fiel à trama narrada por Alan Moore na série de quadrinhos. Cá estão super-heróis aposentados, traumatizados e desiludidos. Cá está a América na ribanceira da guerra atômica, terra sem salvação. Os flashbacks intermitentes, as narrativas entrecortadas, as referências pop, Bob Dylan e Richard Nixon? Sim, senhor, tudo em ordem.

Como em 300,  Zack Snyder  leva ao pé da letra o mandamento principal de um fanboy: é fiel, extremamente fiel, aos ídolos. Alan Moore, que não está nos créditos do filme, aparece em cada fotograma. Nos diálogos. Nas situações. Nos personagens. Só se ausenta num detalhe (detalhe?): quem procura no filme o espírito aventureiro do britânico sairá, no mínimo, desamparado.

E usar adjetivos como inventivo ou ousado para classificar o Watchmen original é pouco, é insuficiente, não cola. Será que os fãs não perceberão que a HQ é quase o oposto do filme de Snyder? O cineasta adota o tom de homenagem, de reverência, de transcrição respeitosa. O Watchmen de papel é tudo menos isso.

Duas décadas depois de publicada, a série ainda provoca espanto pela forma feroz como enfrenta e quebra as convenções dos quadrinhos. Eu, que li o calhamaço ontem, perdi o sono. Irônica, metalinguística, um monstro de vinte cabeças, às vezes parece um romance, uma biografia, um diário, um gibi de super-herói (ou: uma paródia de gibis de super-heróis), um conto de ficção-científica, um filme-catástrofe, uma tese sobre cultura pop.

O filme é… bem, é um filme de Zack Snyder, e isso explica quase tudo. Eu queria muito não forçar comparações entre Snyder e Moore, mas me impressiona como o cineasta desaparece na sombra do escritor. Quando tenta contribuir, o diretor soa gratuito, como nas cenas de violência em slow-motion (grotescas, todas) e o sexo soft à Cine privê

De quem é o filme mesmo? Pensando melhor, não faço ideia. Desconfio que este Watchmen tenha nascido como um mamute geneticamente modificado, solto em Hollywood. Um bicho indomável, gigantesco, descontrolado – vide as quase três horas de duração.

A ambição é tanta que eu quase-quase admirei o filme como uma espécie de Southland tales para as massas. A trilha sonora oitentista lembra um pouco de Donnie Darko, ainda que reconstituir os anos 80 via Tears for Fears não pareça a estratégia mais original. O resgate da época, sempre de acordo com parâmetros realistas em voga, segue de perto o clima de Batman – O cavaleiro das trevas. Mas Snyder aplica tão radicalmente a ideia de abraçar toda a saga dos Watchmen que fica difícil não imaginar como o projeto se sairia melhor no formato de uma série televisiva de 12 episódios – com a vantagem de que a HBO atrai atores mais competentes.

Por falar em atores, que elenco é esse? Quando uma produção dessa estatura precisa recorrer a um clone de Robert Downey Jr (Jeffrey Dean Morgan, o Comediante), algo vai mal. Em várias das cenas, me peguei com a sensação de assistir a uma versão R-rated de Quarteto fantástico. Filmada por um David Fincher com saudades do discurso agressivo (e contraditório, e confuso) de Clube da luta.

Há quem goste. Aposto que alguém vai acabar comparando com Laranja mecânica. Bom mesmo é saber que Moore, gênio, fez questão de não assinar embaixo.