Vida mansa

Wilco (The album) | Wilco

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wilcoalbumAndo obcecado com a idade dos rockstars. O Green Day, sabemos, é uma banda de trintões. O mais experiente dos Jonas Brothers tem 21. Julian Casablancas é um ano mais velho do que eu (fez 30 em agosto de 2008). Caetano, que também deveria contar como uma espécie de rockstar, tem 66. E Jeff Tweedy, 41.

Legal, né? Mas são informações que, quase sempre, não nos ajudam em nada. O Green Day, sabemos, ainda soa como um bando de moleques de 16 anos. O mais experiente dos Jonas Brothers é virgem. O Julian Casablancas vive tão aceleradamente que já deve ter entrado na crise da meia idade. E Caetano, depois do tombo que tomou no show de sábado aqui em Brasília (aos sádicos, o vídeo está aqui — aguardem até o fim, ok?), levantou-se alegre e faceiro.

E Jeff Tweedy? Bem. Taí uma exceção. A arte do sujeito parece reverberar a idade que ele tem. Sempre foi assim. O Wilco é uma banda que envelhece (ou amadurece, a depender da perspectiva) a cada disco.

A.M. (1995) é o disco dos 25, jovial e ironicamente despretensioso. Being there (1996) preserva o bom humor e a leveza, mas já com a ambição de soar como um clássico álbum duplo dos anos 70, à Grateful Dead. Juventude em marcha.

Missão cumprida, já alçado ao posto de porta-voz do country alternativo, Tweedy começa a entrar numa suave crise de identidade (no ensolarado e agoniado Summerteeth, de 1999), que desemboca na obra-prima dos 30: o aventureiro (mas já desencantado) Yankee hotel foxtrot (2002). O que segue é o furacão: A ghost is born (2004) trata de períodos de depressão e desespero. O sonho acabou — ruídos versus melodia, amores perdidos, um deus ausente, traumas e saudades da juventude (e espero não sentir algo parecido quando chegar aos 36).

A boa notícia é que sobreviveremos. No álbum seguinte, de 2007, Tweedy recupera-se parcialmente da maré de desastres pessoais e vê um céu azul. Em Sky blue sky, tomado por uma nostalgia doce que as pessoas talvez sintam aos 39, relembra os sons que ouvia no rádio quando criança. A tensão que comprimia e perfurava os discos anteriores do Wilco quase desaparece no ar: às vezes perigosamente colado a um tipo inofensivo de soft rock, mas ainda absolutamente franco (a lição de Neil Young aplicada à risca).

Prolongamento dessa fase, Wilco (the album) é decepcionante para quem aguarda por um retorno mágico da juventude de Tweedy, mas um lembrete de que os álbuns da banda são retratos de vida. E a vida do homem anda mansa, aparentemente.

Já no título, eis um álbum contente, satisfeito, sem peso sobre os ombros. Na primeira faixa, Wilco (the song), Tweedy oferece um “ombro sonoro” para que choremos nossas tristezas. É só.

Deveríamos cobrar mais? A canção seguinte, Deeper down, é uma balada sôfrega de A ghost is born em versão diet, sem angústia.Agradável. Nas seguintes, a banda tenta cristalizar uma sonoridade ora suave e confortável (One wing, You and I), ora levemente experimental, com guitarras nervosas e brincadeiras de estúdio (o piano repetitivo de Bull black nova é um aceno para o Spoon?). Um rock ameno, que belisca mas não morde. Nos versos, Tweedy narra histórias tortas (O surto de Bull black nova deixa até sangue no sofá), mas sem convicção, como se interpretasse versos de outra pessoa.

É uma marolinha. Mas fico feliz por ele. Sério. Eu estava lá, acompanhei os capítulos mais duros dessa história, sei que foi árduo, uma luta, uma jornada, um colapso nervoso. Só que, sinceramente (perdoem minha imaturidade!), ainda não consigo ficar tão alegre com a perspectiva de, em 2039, ouvir um tranquilo disco de bluegrass chamado Wilco (the old age).

Oitavo álbum do Wilco. 11 faixas, com produção de Jim Scott e Wilco. Nonesuch Records. 6/10

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