Uma época

Os discos da minha vida (top 10)

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A inebriante saga dos 100 grandes discos (da minha vida) se aproxima perigosamente do top 5. E isso não é bom sinal, amigos: para as próximas semanas, prevejo posts fracotes com parágrafos chorosos.

Aliás, hoje não é dia apropriado para escrever mais um textinho do ranking. O blogueiro faz aniversário e, soterrado em mensagens agradáveis de Facebook, está otimista, bobão e condescendente.

Antes de adentrarmos esta floresta de emoções, devo lembrar-lhes que postei ontem à noite uma mixtape especial com algumas das minhas músicas favoritas (ou quase isso: a ideia toda está explicada no post anterior, leiam lá). Um CDzinho sentimental que vai bem com este ranking sentimental.

E não sei se expliquei no post de ontem, mas gravei esta mixtape como uma espécie de presente pra vocês: não cometam a desfeita de jogar fora sem abrir o pacote, ok?

Voltando à corrida dos 100… Perdoem o trocadilho, mas o assunto é sério: quem não gosta do disco de hoje é doente do coração (download obrigatório, pois).

006 | Forever changes | Love | 1967 | download

Tal como Pet sounds, dos Beach Boys, Forever changes soa como um playground luminoso, girando em movimento perpétuo – até notarmos que esse parque colorido opera dentro de uma mente solitária.

É aí que a história pode ficar um pouco mais amarga, um pouco mais difícil.

No caso de Forever changes, estamos brincando dentro da percepção (delirante) de Arthur Lee, o “id” do Love. “Quando fiz o disco, eu pensei que morreria logo”, disse Lee. “Então essas seriam minhas últimas palavras.”

Parece complicado entender por que este disco perdurou enquanto vários outros da mesma época (de bandas que, como o Love, não deixaram um legado tão massacrante) esmaeceram. Talvez porque tenha o temperamento romântico, louco, de um testamento: Lee despede-se de uma época, de uma geração.

O disco seria produzido por Neil Young. E, como eu escrevi no post sobre After the gold rush, me parece uma daquelas obras que, apesar de refletir o “estado de espírito” de um período muito específico, encontram uma forma de contaminar meninos como eu, que ouviram este álbum já nos anos 90, contrabandeado via internet.

Ainda me pergunto: um Forever changes by Neil Young teria dado pé?

Acredito que Forever changes dê conta de ilustrar (e muito bem) qualquer seminário sobre a psicodelia sessentista. Mas, ao mesmo tempo, existe no disco um discurso subterrâneo, emotivo, que tem algo atemporal – que fala diretamente a qualquer um; ontem, hoje e amanhã. Porque, ao fim e ao cabo, o que ouço é um épico sobre um homem (Arthur Lee) tentando desafiar o pop.

O tipo de aventura louca que encontramos num disco como Sgt. Pepper’s, dos Beatles, e no próprio Pet sounds.

A diferença, creio é, é que Lee me parece um sujeito menos apolíneo que um Brian Wilson ou um Paul McCartney. Há trechos em Forever changes em que ele simplesmente se deixa levar. E é essa tensão entre o desejo de criar (e é um dos discos mais docemente inventivos que ouvi) e a vontade de se largar na correnteza de uma época que faz dele algo único.

E, mesmo quando abandonamos todo esse contexto (os anos 60, o rock psicodélico, a lisergia de Arthur Lee), ainda restam algumas das canções mais apaixonantes do rock: antes de soar estranhas (e, enfeitadas de exotismos hippies, elas destoam da cartilha beatle-stoneana da época), faixas como Alone again or, Andmoreagain e A house is not a motel nos conquistam de uma jeito mais primário. Como se já existisse beleza nos ossos dessas músicas.

É por isso que, quando sai a notícia de um relançamento de Forever changes, fico feliz: é como se Lee vencesse uma nova etapa numa jornada já muito longa. Quanto mais o tempo passa, nos livramos da obrigação de classificar este disco como o símbolo de uma época. É sim. Mas não é por isso que voltaremos sempre a ele, deslumbrados como crianças num parque de diversão. Top 3: Alone again or, Andmoreagain, Bummer in the Summer.

Após o pulo, veja os outros discos que apareceram neste ranking.

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