True blood

The five ghosts | Stars

Postado em

Não acredito em fantasmas. Mas meus fones de ouvido querem que eu acredite.

Elas, as almas penadas, assombram algumas das minhas canções favoritas de 2010. Perambulam em Ghost pressure, do Wolf Parade, se camuflam nas metáforas de Anyone’s ghost, do The National. Passeiam em melodias do The Roots, do Blitzen Trapper e de tantos outros. O indie rock, especialmente, virou uma casa do espanto.

Na história do pop, fantasmas sempre apareceram subitamente para representar frustrações, aflições, agonia, amores perdidos e todo tipo de crise nervosa. Mas há bandas, como o Wolf Parade, que se interessam tão profundamente pelo tema que mereceriam inaugurar um gênero específico: rock fantasmagórico, que tal?

Bem-vindos, então, a The five ghosts, do Stars. Um álbum conceitual sobre fantasminhas camaradas e outros nem tanto.

O interessante, no caso, é que não se trata de um típico “ghost record” (anote aí que a moda vai pegar). O que há de mais bizarro no quinto álbum dos canadenses é que um tema sempre tão cavernoso é tratado com leveza e até bom humor. É isso mesmo que você leu: este é um disquinho tão doce e tão macio e tão amigável que deixa nos nostálgicos a vontade louca de clicar a palavra “Cardigans” no YouTube – e ser feliz.

O que não deixa de provocar um certo incômodo. Estamos falando de fantasmas, não estamos?

Ainda mais perturbador: não são personagens de contos de fadas que habitam essas canções. Dead hearts, a primeira música, é uma versão indie para O sexto sentido, sobre “amiguinhos” que têm luzes dentro dos olhos e que estão “lá fora” (medo!). Mas é narrada num jogo vocal inocente, entre menino e menina, acompanhado de guitarras dedilhadas, cordas e um piano delicado. Uma fofura dos infernos.

A terceira se chama I died so I could haunt you (‘Eu morri só pra te assombrar’) e abre com a informação de que “há milhares de fantasmas à luz do sol”. O refrão, com um quê de power pop, é tão contagiante quanto um hit do Jonas Brothers. E aí chega Fixed, com uma melodia grandalhona e reluzente meio The Killers. A seguinte é até engraçadinha: We don’t want your body (‘Nós não queremos seu corpo’), um electropop de morango, vai num clima vampiresco safado que soa como uma homenagem a True blood.

De fato, nenhum outro disco do Stars soa tão coeso. “Foi a primeira vez em que tivemos o luxo de dividir uma sala e escrever, juntos, as canções”, contou a vocalista Amy Millan. O método surta efeito. Mas me pergunto se muitas dessas faixas não mereciam mais tempo para germinar dentro da sala. Mais adubo. Mais água e brisa. Nos momentos mais extrovertidos, o disco soa menos como um conto de horror a ser levado a sério e mais como uma paródia rasteira do estilo Orgulho e preconceito e zumbis (e zumbis canadenses, ha-ha).

Mas, pelo menos, é um disco que mostra a distância que separa os fantasmas de um Edgar Allan Poe das criaturas de uma Charlaine Harris. The five ghosts não é de todo transparente (repito: um disco otimista e até eufórico sobre fantasmas!), mas mostra uma grave tendência à segunda opção.

Quinto disco do Stars. 11 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Soft Revolution/Vagrant Records. 6/10

2 ou 3 parágrafos | True blood, primeira temporada

Postado em

trueblood4

Os primeiros episódios de True blood apresentam algo diferente: uma série com a grife “sofisticada” da HBO que, com plena noção do significado da palavra camp, chupa referências de dezenas de filmes B/livros baratos e joga esse caldo vermelho-sangue no ventilador. Um nojo, uma delícia.

Até a metade da primeira temporada, é o que Alan Ball fez de mais ousado: e nem estou falando da veia política da trama (que transforma os vampiros numa minoria, vítima de preconceitos, truculência, etc) ou das dentadas no conservadorismo americano (o sotaque sulista, carregadíssimo, é de dar dor de barriga – Anna Paquin está hilariante). Essas elementos garantem “respeito” à série, mas o espetáculo é de imagem e conceito: trata-se de um metaproduto pop, de um conto sobre contos de vampiro.

Isso, como eu dizia, até o meio da temporada (6.5/10). É decepcionante como a série vai diluindo essa estética trash para ir se acomodando ora num romantismo frouxo, ora num subplot de investigação policial que nunca engrena (e aí o desfecho soa obrigatoriamente como um anticlímax). De qualquer forma, vale como uma resposta debochada à ingenuidade de Crepúsculo – e prova de que há espaço para uma saudável dose de esculhambação no horário nobre.