Trecho de livro

[philip roth]

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“O sr. Cantor quebrou por fim o longo silêncio: “Algum de vocês tem amigos que ficaram doentes?”, perguntou.

Alguns confirmaram com um gesto de cabeça, outros disseram que sim.

“Isso é duro pra vocês, eu sei. Muito duro. Nós todos precisamos esperar que eles se recuperem e estejam logo de volta ao pátio.”

“A gente pode acabar num pulmão de aço para sempre”, disse Bobby Finkelstein, um garoto tímido que estava entre os mais tranquilos e que ele vira usando um terno nos degraus da sinagoga após o serviço fúnebre de Alan Michaels.

“É verdade”, disse o sr. Cantor. “Mas isso é quando ocorre uma paralisia respiratória, coisa muito rara. É muito mais provável que a pessoa se recupere. É uma doença grave, pode causar muito estrago, porém há exemplos de recuperação. Às vezes, ela é parcial, mas também pode ser fatal. A maior parte dos casos é relativamente branda.” Ele falou com autoridade, pois a fonte de seu conhecimento era o dr. Steinberg.

“A gente pode morrer”, disse Bobby, insistindo no assunto como raramente fazia. Em geral, parecia preferir que os extrovertidos tomassem a palavra, porém não era capaz de se calar sobre o que aconteceu com seus amigos. “O Alan e o Herbie morreram.”

“É, pode-se morrer”, o sr. Cantor concedeu, “mas as chances são poucas.”

“Não foram poucas para o Alan e para o Herbie”, Bobby retrucou.

“Estou dizendo que as chances são poucas em toda a comunidade, na cidade.”

“Isso não ajudou o Alan e o Herbie”, Bobby insistiu com voz trêmula.

“Você tem razão, Bobby. Tem razão. Não ajudou. O que aconteceu com eles foi terrível. O que aconteceu com todos os meninos é terrível.””

Trecho de Nêmesis, de Philip Roth.

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Trecho | Estranho

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“Convencer Patty de que alguém se comportava ‘mal’ era um verdadeiro empreendimento. Quando lhe contaram que Seth e Merrie Paulsen iam dar uma enorme festa de Halloween para os gêmeos e tiveram o cuidado de convidar todas as crianças do quarteirão menos Connie Monaghan, Patty só comentou que era muito ‘estranho’. No seu encontro seguinte com o casal Paulsen na rua, eles explicaram que tinham passado o verão inteiro tentando fazer a mãe de Connie Monaghan, Carol, parar de jogar pontas de cigarro da janela do quarto na piscininha rasa dos gêmeos. ‘É muito estranho mesmo’, concordou Patty, balançando a cabeça, ‘mas, sabe, não é culpa da Connie.’ Mas os Paulsen não ficaram satisfeitos com ‘estranho’. Queriam sociopata, queriam passiva-agressiva, queriam . Precisavam que Patty escolhesse um desses epítetos e concordasse com eles que era aplicável a Carol Monaghan, mas Patty era incapaz de ir além de ‘estranho’, e em resposta os Paulsen se recusaram a acrescentar Connie à sua lista de convidados. Patty ficou tão irritada com essa injustiça que levou seus filhos, mais Connie e uma amiguinha da escola, a uma plantação de abóboras e um passeio de charrete na tarde da festa, mas a pior coisa que ela diria em voz alta sobre o casal Paulsen era que aquela maldade deles com uma menina de sete anos era muito estranha.”

Trecho de Liberdade, de Jonathan Franzen.

Trecho | As coisas mais triviais

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‘Eu não existo‘, disse para si mesmo. ‘Não há nenhum Jason Taverner. Nunca houve e nunca haverá. Para o inferno com minha carreira; quero apenas viver. Se há alguém ou alguma coisa querendo eliminar minha carreira, tudo bem, à vontade. Mas será que não tenho licença nem para existir? Será que eu nem nasci?’

Voltando ao seu quarto de hotel, deu uma boa olhada no espelho todo cheio de sujeira de mosca. Sua aparência não se havia alterado; apenas precisava fazer a barba. Não estava mais velho. Nenhuma ruga nova, nenhum cabelo branco aparecendo. Os ombros e braços fortes de sempre. Nenhuma gordura na cintura, o que lhe permitiria usar a roupa justa que estava na moda para os homens.

‘E isso é importante para a imagem de uma pessoa’, pensou. ‘O tipo de ternos que se pode usar, especialmente aqueles apertados na cintura. Devo ter uns cinquenta desses. Ou pelo menos tinha. Onde estarão agora?’, perguntou-se. ‘O pássaro se foi; em que ravina cantará agora? Ou algo assim’. Uma coisa do passado, do seu tempo de escola. Esquecida até este momento. ‘Que estranho’, pensou, ‘as coisas que aparecem na cabeça da gente numa situação desconhecida e sinistra. Às vezes são as coisas mais triviais que se possa imaginar.'”

Trecho de Identidade perdida, de Philip K. Dick.