Top 10

top 10 | Os livros de 2011

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Depois dos rankings de Melhores Filmes, Piores Filmes e Melhores Discos de 2011, encerro a minha retrospectiva com uma lista de 10 bons livros que li durante o ano.

Para não bagunçar os critérios, só entram no top aqueles que foram publicados pela primeira vez no Brasil em 2011. Essa regra exclui, por exemplo, um punhado de romances antigos do Philip Roth, seminários de Freud e Moby Dick.

Mas ele, o manual do jogo, não torna inelegíveis os livros novos do Roth (Nêmesis), do DeLillo (Ponto Ômega) e do Piglia (Alvo Noturno), além de um punhado de outros (Um Dia, argh) que não entram no ranking porque não entram. Paciência.

Por coincidência, quase todos os que estão nesta saíram pela Companhia das Letras. Não foi de propósito, gente: nada tenho contra as outras editoras; e, no mais, não estou ganhando cachê pra publicar este post.

10 Ilustrado | Miguel Syjuco

Este thriller sobre um misterioso assassinato em Manhattan (a vítima: um escritor filipino de sucesso internacional, mas rejeitado pelos próprios compatriotas) pode ser lido como uma sátira cruel sobre um país caótico, onde a criação artística se tornou uma aventura. Felizmente, soa menos como world music, mais como rock psicodélico.

9 Escuta Só | Listen to This | Alex Ross

Este livro de ensaios seria apenas uma espécie de coletânea de sobras do monumental O Resto é Ruído, publicado aqui em 2009. Surpreendente é notar que, com a gravata afrouxada, Ross escreve ainda melhor: rigor histórico à parte, o que ele compõe são belas crônicas de fé no poder de sobrevivência da música – erudita ou não.

8 Silenciosa Algazarra | Ana Maria Machado

Uma coleção de pensatas ainda mais despretensiosa que o greatest hits de Alex Ross, mas que pode comover quem, como eu, não vê sentido algum nas políticas públicas de incentivo à leitura. Um livro simples, inconformado e potente, escrito numa prosa direta, que não quer nunca nos iludir.

7 O Romancista Ingênuo e o Sentimental | The Naive and the Sentimental Novelist | Orhan Pamuk

Este ano, chegou ao país um bom livro do Nobel turco, O Museu da Inocência. Mas ainda prefiro esta coletânea de palestras sobre romances literários. O poder de deslumbramento dessas “aulas” pouco ortodoxas – lições sobre o mistério das grandes obras – equivale ao dos melhores romances que Pamuk criou.

6 Cinefilia | Antoine de Baecque

Havia o perigo de que Cinefilia se saísse uma espécie de livro didático sobre a cinefilia francesa moderna – nascida ainda na pré-história da nouvelle vague -, mas não há nada singelo na ambição de Beacque: o francês quer aproximar o leitor de uma história ainda cercada mais por mitos que por homens. Daria um ótimo filme.

5 Zeitoun | Dave Eggers

O melhor livro de Eggers é, quem diria, uma reportagem literária sobre um sobrevivente do furacão Katrina. A secura como descreve sofrimento do personagem evita, a todo custo, o sentimentalismo oportunista que geralmente acompanha a reconstituição jornalística de atos heroicos. O escritor cresceu.

4 Os Filhos da Viúva | The Widow’s Children | Paula Fox

Escrito em 1976, esta é uma das obras-primas de Paula Fox que foram descobertas talvez tarde demais (nos Estados Unidos, os livros adultos da escritora saíram de catálogo em 1992), mas que não perderam o viço. A habilidade como alterna os pontos de vista dos personagens – abomináveis, adoráveis – nos deixa sem ar.

3 Diário da Queda | Michel Laub

Para quem não conhecia os anteriores de Laub (meu caso), este Diário da Queda chegou como uma senhora surpresa: o escritor tem a coragem de enfrentar grandes temas – o holocausto e Alzheimer, para ficarmos nos maiores deles – com o tom catártico de quem divide segredos muito pessoais com o leitor.

2 Liberdade | Freedom | Jonathan Franzen

Não sei se Franzen encontrou tudo o que procurava neste “grande romance americano” – um Tolstói para os subúrbios da era Bush! Uma Paula Fox em cinemascope! Um Paul Thomas Anderson das letras! -, mas é emocionante assistir às peripécias de um autor que usa o talento (não é pouco) à serviço de ambições tão amplas.

1 Meus Prêmios | Meine Preise | Thomas Bernhard

Por falar em ambições épicas… Meus Prêmios, este livrinho póstumo de Bernhard (que o austríaco escrevia pouco antes de morrer, em 1989), tem apenas 112 páginas, com nove artigos sobre (vocês adivinharam) os prêmios recebidos pelo escritor. E é isso. Só isso. Mas o que parece uma curiosidade tolinha na biografia do autor logo se impõe como uma obra atualíssima: isso porque as pessoas seguem premiando e as premiações literárias são, e sempre serão, jogos patéticos de vaidade – que, ao fim e ao cabo, nos ensinam um tanto sobre o comportamento humano. Bernhard é dos poucos escritores que conseguem me fazer rir de raiva. Meus Prêmios é, dito isso, um livro muito engraçado – e, ao mesmo tempo, revoltante.

top 10 | Os filmes de 2011

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Depois dos rankings de Melhores Discos e de Piores Filmes do ano, chegamos às listas dos meus filmes preferidos de 2011. São duas. A primeira contém 10 filmes recentes que ainda não estrearam no Brasil. E a segunda, já tradicional, reúne os longas que foram lançados no nosso (lamentável) circuito de exibição.

Geralmente, em fins de ano, faço um top 20 dos meus filmes prediletos. Mas, em 2011, preferi me limitar a um top 10. Por isso, vocês não vão encontrar na lista alguns filmes de que gosto muito, como Melancolia, Cisne Negro, O Céu sobre os Ombros, Lola e Passe Livre. Digamos que eles tenham escapado por pouco.

Como sempre, a lista dos filmes que não estrearam é mais interessante do que a lista dos que estrearam. Vamos a elas.

Os 10 que não estrearam no Brasil

1 Oki’s Movie, da Hong Sang-soo
2 Mildred Pierce, de Todd Haynes
3 Drive, de Nicolas Winding Refn
4 The Day He Arrives, de Hong Sang-soo
5 Fausto, de Alexander Sokurov
6 Habemus Papam, de Nanni Moretti
7 Histórias da Insônia, de Jonas Mekas
8 George Harrison: Living in the Material World, de Martin Scorsese
9 Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio
10 Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan

E os 10 que estrearam

10 Missão Madrinha de Casamento | Bridesmaids | Paul Feig

A melhor comédia do ano é a que tem os melhores personagens: hoje, quando lembro no filme, não me apego a cenas específicas (ainda que ele tenha pelo menos três gags hilariantes), mas numa protagonista que poderia existir, e me cativar, independentemente da trama. Se Hollywood deixasse, eu a acompanharia em mais duas, três sequências. Coproduzido por Judd Apatow.

9 A Pele que Habito | La Piel que Habito | Pedro Almodóvar

Talvez a provocação mais desagradável do repertório de Almodóvar, este monster movie nos atormenta com um punhado de cenas terríveis – todas elas, no entanto, ocorrem na imaginação do espectador. Às vezes é como se o cineasta criasse duas obras simultâneas: o melodrama polpudo de sempre e uma pensata bizarra sobre o poder de sugestão do cinema. O próprio filme é um espelho de dupla face.

8 Adeus, Primeiro Amor | Un Amour de Jeunesse | Mia Hansen-Love

Um conto trivial de adolescência (menina encontra menino, menino a abandona; e, anos depois, retorna), filmado com sensibilidade extraordinária. Hansen-Love não quer distância dos personagens. Como nos melhores romances romances literários, compõe tipos complexos e, ao mesmo tempo, muito comuns – que nos deixam com a boa ilusão de decidir, por eles próprios, os rumos da trama. Rohmer curtiria.

7 Bravura Indômita | True Grit | Joel e Ethan Coen

O western dos irmãos Coen está entre os melhores da dupla: mais um exemplo de adaptação literária que cria a impressão de dividir a autoria com os autores dos livros. Foi assim em Onde os Fracos não Têm Vez, muito atento aos espaços vazios da prosa de Cormac McCarthy. E é assim num longa que se movimenta como um conto de fadas lascado, cheio de poeira e afeto, à altura de Charles Portis.

6 O Garoto da Bicicleta | Le Gamin au Vélo | Luc e Jean-Pierre Dardenne

O cinema dos Dardenne costuma ser analisado pelo viés da ação, do movimento. Mas ainda vejo O Garoto da Bicicleta como um filme em que as cores cumprem um papel fundamental, num jogo de vermelhos, amarelos e azuis que cria um contraste forte com a condição do personagem principal, abandonado pelos adultos. E aí não custa usarmos o velho adjetivo que cabe à dupla: precisão.

5 Singularidades de uma Rapariga Loura | Manoel de Oliveira

Um Manoel de Oliveira que, como em Sempre Bela (o meu preferido entre os exibidos no Brasil em 2010) só parece pequeno: o que impressiona, novamente, é como um plano fixo tem o poder de abrir um mundo de significados. O que seria apenas uma adaptação suave de um conto de Eça de Queirós se mostra muito mais que isso: a moça na janela, reparem, não é só uma moça na janela.

4 Um Lugar Qualquer | Somewhere | Sofia Coppola

Se alguém resolvesse reunir os primeiros três filmes de Sofia Coppola numa antologia precoce, Somewhere seria um epílogo muito apropriado: ele depura (e explica, não sem algumas redundâncias) o olhar da cineasta; se livrando, por isso, de todos os acessórios (daí a impressão de que nada acontece na trama). Nesse processo, Sofia se desnuda como nunca antes. O meu preferido da diretora.

3 Isto não é um Filme | In Film Nist | Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb

Aparentemente, é o único filme que Jafar Panahi poderia ter feito nas condições a que estava submetido (em prisão domiciliar, condenado por se opor ao governo iraniano). Seria ingênuo, no entanto, tratar o longa como um manifesto ingênuo: com o amigo Motjaba Mirtahmasb, Jafar cria um filme livre, com narrativas sobrepostas e autoria compartilhada. O mais contundente dos protestos, portanto.

2 Cópia Fiel | Copie Conforme | Abbas Kiarostami

Um filme com tantas conotações que, mesmo depois de ter lido muito sobre ele, ainda não sei se sou capaz de entender tudo o que Kiarostami quer dizer. Admirável, acima de tudo, é como esse enigma tem uma aparência agradável: uma love story em belos cenários que vai sutilmente se contorcendo, se sabotando, aos olhos do espectador. Por fim, temos um ator e uma atriz, em movimento.

1 Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas | Apichatpong Weerasethakul

Já escrevi tanto sobre este filme – e ele aparecia no topo da lista dos meus favoritos entre os que não estrearam em 2010 – que corro o risco de ficar me repetindo. Mas, resumindo tudo, o que mais admiro em Tio Boonmee é o poder que ele tem de me deixar maravilhado (e aflito, mesmo numa segunda revisão) diante de personagens comuns e de situações cotidianas. Uma câmera em permanente estado de êxtase – e com a fé infantil de quem acredta em fantasmas.

top 10 | Os piores filmes de 2011

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Depois do ranking de Melhores Discos de 2011, aqui seguimos com a minha exaustiva (mas não muito) retrospectiva do ano. Se tudo der certo, o top dos melhores filmes vai ficar pronto semana que vem. Enquanto isso não acontece, vocês ficam com a temível, aflitiva, arrepiante… a lista dos piores filmes de 2011.

Geralmente não tenho paciência para relembrar os filmes que me deixaram com vontade de trocar a cinefilia por outro hobby qualquer (jardinagem, por exemplo). Mas vi tanta coisa ruim durante o ano que fiquei verdadeiramente enfezadinho e resolvi partir para a vingança. Não me culpem – também sou humano.

Funcionou assim: entre os filmes que foram lançados nos cinemas brasileiros durante o ano, reuni todos aqueles que me irritaram (cerca de 80) e cheguei, depois de um processo penoso de seleção, aos 10+1 unlucky ones.

Os títulos que sobreviveram ao mata-mata (vaso ruim, como diria minha vó, não quebra) formam um ranking até bem diversificado, com comédias românticas made in Brasil, caça-níqueis sobre sexo sem amor, heróis esverdeados (a cor da náusea), um castor de pelúcia e (pobre dele) Nicolas Cage.

A ideia não é escrever sobre os filmes superestimados que embrulham meu estômago (O Discurso do Rei), nem sobre os que me frustraram porque eu esperava muito deles (Inquietos), nem sobre aqueles que não dão conta de ambições celestiais (Árvore da Vida), mas apenas sobre os piores-piores-de-verdade, que ocupam as últimas posições na minha lista dos cerca de 230 filmes vistos deste janeiro deste ano.

Recomendo, por isso, que vocês não vejam estes filmes (este post é um serviço de utilidade pública). Ou que vejam por conta e risco. Ou que vejam pra dar umas risadas.

Antes, as menções horrorosas (em ordem alfabética; e não vejam estes também, por favor): Bruna Surfistinha, BurlesqueA Chave de Sarah, Cilada.com, Desenrola, A Garota da Capa Vermelha, Mamonas pra Sempre, O Turista.

10 Amizade Colorida | Friends with Benefits | Will Gluck
Sexo sem Compromisso | No Strings Attached | Ivan Reitman

Nosso ranking começa com duas comédias românticas sobre as coisas estranhas que acontecem quando as pessoas fazem sexo sem amor com um parceiro fixo (resposta: elas acabam se apaixonando). Os filmes não são exatamente idênticos – um tem Natalie Portman, o outro Mila Kunis -, mas não consigo me decidir sobre qual seria o menos sexy. Sexo sem compromisso tem Ashton Kutcher (nunca convincente no papel de Ashton Kutcher). E Amizade colorida tenta vender tantos produtos que saí do cinema com o desejo imenso de dar uma passadinha num free shop, antes de embarcar pra um planeta onde não fazem comédias, nem fitas românticas, nem mershandising da Apple, nem sexo sem amor com parceiros fixos.

9 Eu Queria Ter a Sua Vida | The Change-Up | David Dobkin

Em 2011, não foi apenas Se Beber, Não Case 2 que tentou desesperadamente ser Se Beber, Não Case. Algumas comédias chegaram perto (Quero Matar Meu Chefe). Outras chegaram perto demais, capotaram e explodiram: é o caso de Eu Queria ter a sua Vida, um filme-de-machos que troca a fórmula ressaca + camaradagem + confusões pela equação (menos divertida, diga aí) família + caganeira + confusões. A sequência inicial, que termina com um close no ânus de um bebê, redefine o humor americano, e em poucos minutos – é tão grotesca que tem um quê de vanguarda, a ser admirada num futuro mais ou menos distante por espectadores mais, digamos, radicais. Para o público brasileiro, deixou uma lição dura: Se Eu Fosse Você 2, no fim das contas, não é o pior filme sobre gente desinteressante trocando de corpos.

8 Reféns | Trespass | Joel Schumacher

Esta variação mambembe de Horas de Desespero foi exibida tão rapidamente nos cinemas americanos que talvez nem possa ser tratada como o maior fracasso das carreiras de Joel Schumacher, Nicolas Cage e Nicole Kidman. Mas vamos fazer de conta que é sim, porque todos os envolvidos colaboraram para o colapso de um filme que desaba logo nos primeiros 10 minutos de projeção. A trama tem um quê de comédia nonsense (e Nic Cage, com o look de um vendedor de produtos da Herbalife, é o único a entender tudo isso muito bem): bandidos atrapalhados assaltam a casa de um pai de família camicase. Mas Schumacher trata essa trama como uma atualização de Shakespeare: o clímax é tão pirotécnico quanto as cenas de ação de Transformers, e as revoravoltas do roteiro provocam gargalhadas de sarcasmo na plateia. Todos, principalmente o público, conseguem sentir o quão terrível deve ser ficar preso numa casa, na companhia de pessoas estúpidas.

7 O Besouro Verde | The Green Hornet | Michel Gondry

Michel Gondry fez videoclipes bacanas, não fez? Fez sim. E dirigiu aquele filme do Charlie Kaufman, não dirigiu? Dirigiu sim. Mas nada disso – nem os clipes, nem os filmes, nem os comerciais de tevê – nos preparou para o humor dolorosamente infantil deste O Besouro Verde, uma fitinha de super-heróis que agoniza em verde-musgo, implorando ao espectador que a tratemos como um episódio vagabundo de seriado de tevê (e aqui começa, neste ranking, a seleção de longas que quase me mataram de tédio em 2011). O carisma do herói é nulo (mesmo quando ele se transforma num herói supostamente carismático) e os efeitos 3D só servem para obscurecer as cenas de ação ineptas. Mas a melhor piada fica pro fim: as invencionices visuais de Gondry só aparecem na sequência de créditos de encerramento (boa sequência, aliás). E Seth Rogen… Ele fez aquele filme bacana, não fez?

6 Os 3 | Nando Olival

Os 3 é um filme sensual e atrevido para adolescentes de 14 anos de idade. Isso significa que: 1. quase não tem sexo ou atrevimento, e que 2. os personagens se comportam como adolescentes de 14 anos de idade. Nando Olival, o diretor, tem experiência no mercado publicitário. Talvez por isso tenha planejado o filme para atingir um determinado segmento do público – ainda que esse segmento talvez prefira ver filmes sensuais que mostrem um pouco mais de sensualidade e atrevimento. Os personagens, jovens e bonitos, são publicitários recém-formados que se submetem a uma experiência de uma agência publicitária: fazem da própria rotina um reality show. O longa, porém, não sabe (ou não quer) manusear essas camadas de metalinguagem: lá pelas tantas, não fica muito claro se o cineasta quer vender uma ideia de juventude, um filme supostamente sensual, uma história de amor a três ou uma coleção de roupas transadas. Talvez tudo isso, a um preço baratinho.

5 Qualquer Gato Vira-Lata | Tomas Portella

O pior filme brasileiro do ano transfere para os cinemas toda a ginga e malemolência daqueles espetáculos teatrais que, encenados para servir de vitrine para atores famosos de tevê, nos deixam com muito medo de voltar ao teatro. Ainda não consigo ver nada minimamente plausível ou interessante (muito menos engraçado) num personagem como o de Malvino Salvador: um professor boa-praça que usa argumentos da biologia para explicar aos alunos sobre padrões de relacionamentos amorosos (hem?). Num Rio de Janeiro em que os únicos modelos de masculinidade disponíveis para uma mulher solteira são o machista bem intencionado (Malvino) e o machista cafajeste (Dudu Azevedo),a personagem de Cléo Pires obviamente se sente muito confusa e perdida. Só que ela demora tempo demais (98 minutos!) para notar que o príncipe encantado não é o malandro sarado imaturo bronco semi-alfabetizado. Tempo demais, mulher.

4 Sucker Punch – Mundo Surreal | Zack Snyder

Sucker Punch seria, em tese, o Clube da Luta de Zack Snyder – o filme comercial subversivo sobre temas subversivos, com uma lição importante sobre o sistema cruel onde vivemos. O problema é que não é nada disso. O que se ouve na tela é o som de grandes ambições caindo por terra. Ou: um caso a ser usado por executivos de grandes estúdios para exemplificar o perigo que é dar carta branca a cineastas fora de controle. Não sei o que me deixou mais irritado: o drama teen sobre loucura, com um quê de Garota, Interrompida, as cenas de ação no esquema videogame-over-the-top (com um mashup cansativo de blockbusters de fantasia) ou a revelação final, que tenta nos surpreender com um golpe brutal, radical (sinto dores até agora), nos nossos neurônios. Muita areia pseudofilosófica pro caminhaozinho do cineasta.

3 Lanterna Verde | Green Lantern | Martin Campbell

Não sou fã de quadrinhos (há muito-muito tempo, doei toda a minha coleção do Batman para uma biblioteca pública). Talvez por isso eu tenha me esforçado tanto para encontrar as diferenças entre as adaptações de HQ que chegaram aos cinemas em 2011. À exceção de Thor, um tantinho desembestada, as outras não me pareceram tão vibrantes quanto um episódio qualquer de Smallville. Mesmo dentro esse contexto desanimador, no entanto, Lanterna Verde se destaca: se gibi fosse, eu provavelmente o devolveria na banca de revistas, antes de chegar à terceira página. O prólogo é a rave multicolorida e abstrata que deve passar na cabeça de nerds em coma: uma mitologia erguida a fórceps, e com todos os personagens exóticos/patéticos que sobraram na sala de montagem da série Jornada nas Estrelas. O restante do filme, ufa, renega uma parte dessa estética kitsch purpirinada para se transformar, deus!, no típico action movie engraçadinho e inofensivo que Ryan Reynolds se amarra em fazer. Só não abandonei o cinema, juro, porque estava chovendo.

2 Um Novo Despertar | The Beaver | Jodie Foster

Vamos falar sobre humor involuntário? Um Novo Despertar, um drama intimista (!) sobre a amizade entre um homem deprimido e um fantoche de castor, me fez rir enquanto eu lia a premissa no jornal. Mel Gibson contracenando com um bichinho fofo para crianças? Imperdível. No quesito “vergonha alheia”, o filme supera expectativas: de um lado, temos a performance (profundamente séria) de Gibson; de outro, a direção (profundamente séria) de Jodie Foster, que faz questão de tomar cada uma das cenas como chances valiosas para emocionar o espectador, matando-o lentamente com musiquinhas doces na trilha sonora, personagens que balbuciam palavras bonitas e um roteiro tomado por lições supostamente tocantes sobre perseverança e superação. De qualquer forma, contém a cena mais arriscada do ano: um embate físico entre Gibson e, sim, o castor de brinquedo. Profundamente engraçada, claro.

1 Cowboys & Aliens | Jon Favreau

O ponto de partida desta superprodução (produzida por Steven Spielberg, quem mais?) é promissor: e se combinássemos dois gêneros populares – o faroeste e a ficção científica – para criar um combo pós-moderno de entretenimento? A trama também tem algo de interessante, já que promete contorcer a mitologia de um western típico (desta vez, com caubóis, índios e ETs). Então percebam: eu estava até esperançoso quando comprei ingresso para ver este filme. O que encontrei na tela, pro meu azar, foi uma terra desolada, pobre, governada por um cineasta sem pulso (e aí ficou claro que Homem de Ferro era um filme de Robert Downey Jr, não de Jon Favreau) e habitada por uma equipe que parece ansiosa para encerrar as filmagens e voltar para casa. Não estou exagerando: foram raras as vezes em que experimentei a sensação de mofar numa sala de projeção, diante de imagens menos atraentes que o carpete vermelho do cinema (recentemente, só aconteceu algo parecido com Matrix Revolutions). Um filme com duas ou três ideias (que talvez justifiquem resenhas elogiosas, vá saber), mas sem força vital. Não houve sessão mais deprimente em 2011.

Os discos da minha vida (top 10)

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A maratona dos 100 discos que salvaram, infernizaram a minha vida segue no top 10. O destino: a minha ideia de paraíso. 

Uma viagem perigosa, sim. Voltar ao álbum desta edição, meus amigos, me deixou com muito medo do top 5. Porque, vocês sabem, perco um pouco a noção quando escrevo sobre o que amo loucamente.

008 | Doolittle | Pixies | 1989 | download

Antes dos Pixies eu já conhecia Nirvana, Beach Boys, Ramones, David Lynch, um pouco de Buñuel e um tantinho da Bíblia. Mas, ainda assim, eu não estava pronto para Doolittle.

Porque o álbum me parecia bizarro, só que de uma forma agradável. Ou, virando a frase de ponta-cabeça: agradável, só de que uma forma bizarra. Diante da criatura deformada (e bela), passei um tempo coçando a cabeça.

Eu conseguia, por exemplo, me identificar com a ansiedade de Black Francis (o homem, o personagem, o ogro, o serial killer, o comediante). E Doolittle é um disco ansioso. Ansiedade, esse sentimento que todo menino de 15 anos compreende intimamente.

Ao mesmo tempo, Doolittle soava como um disco que se esforçava para soar degenerado. Um jogo calculado para nos chocar. Trata de morte, surrealismo, suicídio em massa, macaquinhos mortos, Sansão & Dalila. Mas tudo acabava soando cômico, divertido. O horror convertido em farsa. “O conceito é entreter”, dizia Black, meio que para confundir as coisas.

Não sei ainda se entendo o cinismo do disco (ainda que me pareça muito clara a influência sobre Nevermind, outro álbum punk ultrasarcástico e juvenil, adulterado para soar pop), mas, mesmo polido, ele soa tão psicótico, tão esquizofrênico e lúdico quanto os versos de Black.

É um daquelas discos em que a produção colide (de propósito) com as melodias. As melodias, por sua vez, espelham as letras — que, por sua vez, compõem um território muito específico. É uma coleção perfeita, exatinha, de canções muito tortas. Um “tour” ordenado a uma mente caótica.

Começando pelo começo: descobri o disco em meados dos anos 90, numa época em que os CDs importados chegavam aqui a preços simpáticos (R$ 20, em média) e estavam disponíveis na lojinha da superquadra ao lado. Eu ia a pé (e, para isso, cruzava um terreno baldio, cheio de mato e barro) para visitar uma dessas lojas, quase todas as tardes.

Eu era um moleque enxerido e talvez curioso demais, que chegava mais cedo na Cultura Inglesa para ler os semanários de rock. Mas um moleque sem dinheiro. Um moleque tímido e sem dinheiro, mas enxerido e talvez curioso demais. Daí que, na loja de importados, eu pedia para ouvir os CDs antes de comprá-los. Pedia timidamente. Se eu gostasse dos discos, fazia anotações para pedir de presente de aniversário (ou de Natal).

Naquele período, anotei no caderninho: Slanted and enchanted, do Pavement, Mighty Joe Moon, do Grant Lee Buffalo, e Sister, do Sonic Youth. O balconista viu o papelzinho e soltou uma risada cruel. “Você só precisa de um CD. Este, irmão”, e apontou para Doolittle.

Não o levei muito a sério (o sujeito cantava numa banda de shoegazing, que na época eu detestava), mas, depois de ler um comentário muito positivo de Kurt Cobain sobre o disco, resolvi dar uma chance. Ouvi uma vez, achei engraçadinho, mas não comprei. Não me convenceu. Demorou para me convencer.

Alguns meses depois, cedi à insistência do amigo vendedor. E, graças a ele, a história começou.

Logo, fui fisgado. As músicas soavam imprevisíveis, cheias de surpresas, pecinhas de um quebra-cabeça genioso, o tipo de brincadeira que não cansa — e, claro, tão ansiosas quanto meu primo de cinco anos de idade. Mas o que me capturou foi o espírito enigmático da obra: decodificar o CD se transformou num hobby que ocupou praticamente um ano inteiro da minha vida.

Na pré-história da internet, antes do Napster e do Google, eu fuçava cada número amarelado des semanários à procura de informações sobre as músicas. Quando foi que Black Francis viu Um cão andaluz? O que representam as imagens fúnebres de Wave of mutilation? Monkey gone to heaven é mesmo uma canção ecológica? Perguntas e mais perguntas (algumas, resolvidas quase 10 anos depois).

Acabou que o disco foi perdurando enquanto outros passavam. Slanted and enchanted, apesar de fatal, passou. Mighty Joe Moon, que amo, não me intrigou de tal forma. E, aos poucos, fui criando uma relação com o Pixies que equivale ao fã de futebol: eu queria ter todas as camisas autografadas, todas as figurinhas (repetidas ou não), os singles, os pôsteres.

E, se o Nirvana era uma banda que me afetava na catarse, o Pixies alegrava minha imaginação. Era a trilha para Pierrot le fou, do Godard, que eu descobriria alguns anos mais tarde. Um e outro me pareciam obras aventureiras, destemidas, que iam ao inferno e voltavam com um sorriso e uma flor. E que, talvez contra minha vontade, soavam agradáveis. De um jeito louco que não consigo explicar. Top 3: Gouge away, Debaser, Tame.

Após o pulo, veja todos os discos que já apareceram nesta lista.

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Os discos da minha vida (top 10)

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No top 10 da saga dos 100 discos da minha vida, as regras do jogo mudam um pouco: um álbum indefectível por semana, com textos um tantinho mais robustos (mas ainda constrangedores de tão pessoais, porque o espírito do ranking é esse aí). E nada de prólogos, porque tudo foi dito-  e o que não foi dito, meus amigos, agora merece o silêncio.  

010 | After the gold rush | Neil Young | 1970 | download

Fico me perguntando: o que sentiam os meninos de 15 anos que ouviram After the gold rush em 1970, assim que o disco foi lançado? Faço uma acrobacia de imaginação para descer àquela época, mas é inútil.

Hoje, o disco é uma unanimidade. Quando organizam listas dos melhores dos anos 70, ele geralmente está lá, junto com um Clash, um Joy Division, um Nick Drake, um Lennon, um Stones. Ninguém discute: é clássico.

Tente, ó leitor, investigar na web. Você vai encontrar quatro ou cinco resenhas absolutamente positivas (e calculo apenas as fontes confiáveis) que ressaltam o que o disco tem de irrepreensível. A exceção é um texto publicado em 1970 na Rolling Stone — que avalia o álbum como uma aventura desnecessária na carreira de um bom compositor.

Eis o mistério: o que esperavam de Neil Young em 1970? Acredito que não era pouco. Naquela temporada, o canadense havia lançado um disco de country/folk com Crosby, Stills & Nash (Déjà vu, um sucesso enorme) e o single Ohio, que reafirmava o peso do álbum anterior, o muito elogiado Everybody knows this is nowhere. Tudo bem, tudo bom. Mas em seguida, o que fazer?

Talvez nada muito inesperado, respondia Young. Indo e vindo entre os extremos do músico, After the gold rush deve ter provocado certo desânimo, que o crítico da Rolling Stone rapidamente espelhou: estaria Neil Young matando tempo e afinando as cordas antes de surpreender o público novamente?

O tempo mostrou que essa questão era irrelevante: a carreira de Young oscilaria entre momentos mais e menos ruidosos. O movimento, na trajetória deste herói, se mostrou pendular. Entre guitarras altas e violões interioranos. Entre hard rock e country. Entre dois personagens: o guerreiro épico (envolto em feedback) e o rancheiro melancólico. Indo e vindo, subindo e descendo, para um lado e depois para outro.

Acontece que, na era de After the gold rush, esses dois temperamentos ainda não estavam totalmente definidos. Nem para os fãs, nem para a imprensa, tampouco para o próprio Neil Young. Harvest, que veio em seguida, era um disco mais coeso de country (com algo de loucura, lisergia). After the gold rush soa como um Young atípico, ainda “verde” (na arte do álbum, pelo menos), que tentava engaiolar referências às vezes dissonantes dentro de um LP.

Mas voltando à pergunta que abre este textinho tão modesto: o que teria sentido o menino de 15 anos que ouviu este disco em 1970? Eu, que tinha essa idade quando descobri o álbum (em 1995, se não me engano), admito que me senti um pouco intimidado. Acima de tudo, soava como um disco cheio de si, mesmo quando arriscava passos duvidosos (When you dance you can really love ainda me parece muito estranha).

Eu não conhecia absolutamente nada de Neil Young. Comecei por After the gold rush e depois segui com Harvest e Everybody knows this is nowhere. Não sei se tomei o caminho certo, no entanto foi o que aconteceu. Talvez Harvest seja igualmente impressionante, mas ainda penso em After the gold rush sempre que falam em Neil Young. Me parece um retrato perfeito. A síntese.

Inicialmente, o disco foi escrito como trilha sonora para um roteiro que não chegou a ser filmado. Mas quem precisa de filme quando se tem canções que delimitam um ambiente tão completo e tão poético (uma América de faroestes antigos e pistas de dança desoladas), que soam pessoais mesmo quando parecem contar histórias que pertencem a uma época muito anterior a Young, à invenção do rock? Filme pra quê?

Em 1970, talvez não esperassem de Neil Young um disco de canções de amor. Talvez seja isso. Deve ser isso. Da mesma forma como não esperavam de Bob Dylan, em 1969, a leveza de Nashville skyline. Em 1970, After the gold rush deve ter soado inadequado. Hoje, serve de bibelô agradável em estantes de discos. Obra-prima é obra-prima.

Acredito, no entanto, que o disco pode parecer ainda mais valente, ainda mais vívido, quando tentamos transportá-lo para a perspectiva da década em que foi lançado. Sei que é um esforço quase impossível, mas vale a fantasia. Porque After the gold rush era um disco outsider, frustrante de tão sentimental e antiquado. E, ao mesmo tempo, uma obra que criava um cenário alternativo, quase surreal, de homens solitários vagando em estadas inacabadas. “Tem uma banda tocando na minha cabeça”, Young avisa, na faixa-título. E não haveria motivos para reprimir o som bonito que ela, essa banda de um único homem, produz. Top 3: After the gold rush, I believe in you, Birds.

Após o pulo, veja os outros discos que apareceram neste ranking.

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10 discos brasileiros de 2010

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Escrever sobre discos brasileiros neste blog, para mim, é complicado. Faz algum tempo que não me meto com eles.

Com os internacionais, sinto que tenho uma liberdade maior para bolar os textos que bem entendo. Fico com a impressão de que, quando escrevo sobre os álbuns daqui, assumo uma responsabilidade que vai além das intenções deste blog.

O que pode ser uma grande bobagem, eu sei, mas é o que acontece. E estou bem assim. Este blog não é uma revista de música, não é um suplemento cultural, não é um release, não faz parte de nenhuma cena. É apenas o lugar onde estico as pernas quando volto do trabalho.

Mas, para não fugir totalmente da onça, fiz uma listinha com os discos brasileiros que mais gostei de ouvir em 2010.

Este ranking foi criado em dois momentos. Primeiro, a partir dos discos nacionais que ouvi durante o ano, no trabalho. Depois, durante o mês de dezembro, quando finalmente acertei contas com a montanha de álbuns que deixei passar nos meses anteriores. Eu poderia ter feito um top 20 – bons discos ficaram de fora. Mas preferi uma seleção um pouco mais rigorosa, só com aqueles 10 que mais me impressionaram.

Se eu fizesse uma lista de melhores do ano que incluísse discos nacionais e internacionais, apenas o primeiro colocado entraria no meu top 20.

Então vamos, que estou falando demais.

10 | Escaldante banda | Garotas Suecas

Um disco de soul music que, quando toma embalo (em faixas geniosas como Ela e Ninguém mandou), soa como o bootleg psicodélico que um discípulo talentoso de Jorge Ben poderia ter gravado no início dos anos 70.

9 | Do Amor | Do Amor

Talvez um passo maior que as pernas, mas e daí? Um disco que quer ser tudo de uma vez só, gravado com o entusiasmo e a ansiedade de quem quer nos conquistar completamente logo no primeiro encontro. Haja amor.

8 | Calavera | Guizado

De longe, parece um vale-tudo psicodélico. Quanto mais nos aproximamos do disco, no entanto, mais ele nos convence de que nenhuma loucura é gratuita. Firme tanto nos momentos de transe quanto de lirismo (e O marisco é uma das grandes canções do ano).

7 | Emicídio | Emicida

Tem tudo o que esperamos de uma boa mixtape de hip-hop: os exageros, as arestas, os projetos inacabados e as ideias brilhantes. O caderno de esboços de um rapper que não confunde contundência com sisudez. E que deixa a impressão de ainda estar se aquecendo para a briga.

6 | Aos abutres | Lestics

O country/folk rock abrasileirado do Lestics pode soar singelo, mas me espanta como a banda nos emociona com os elementos básicos da canção. Gravado em esquema caseiro, um disco sem data de validade. Nas nuvens é minha música preferida de 2010.

5 | Eu menti pra você | Karina Buhr

Se a delicadeza é a chave para a maior parte dos discos de cantoras brasileiras (de Vanessa da Mata a Tulipa Ruiz), Karina toma o caminho do atrevimento. Um disquinho corajoso até quando fala macio, e hilariante quando aplica o deboche para o bem da nação (no funk Ciranda do incentivo, delicioso copo de veneno).

4 | Watson | Watson

Não é um disco sobre Brasília, mas quem vive por aqui vai encontrar um retrato muito atípico da cidade, que se infiltra nas canções sem que percebamos. Um lugar estranhamente comum, com tardes silenciosas de domingo, conversas de bar e bandas que se apresentam para ninguém. Pena que o mercado independente brasileiro ainda é tão deslumbrado com o Sudeste: este é o álbum de rock mais franco do ano.

3 | Feito pra acabar | Marcelo Jeneci

É a unanimidade de 2010, mas prefiro encarar esta estreia apenas como a bela certidão de nascimento de um autor. Eu preferiria um álbum um pouco mais curto, com outra ordem de músicas (o início me parece um marasmo) e uma capa menos genérica. Mas esse sou eu reclamando por pouco. O que Jeneci conseguiu é o bastante: fez um disco muito pessoal, mas que parece conter todo o espírito de uma geração que ficou órfã do Los Hermanos, ainda flutuando em lirismo, gentileza e acordes amáveis.

2 | Efêmera | Tulipa Ruiz

É um début que me parece mais coeso e seguro do que o de Marcelo Jeneci, ainda que os dois pertençam ao mesmo mundo (até os títulos se complementam). Em todas as canções, Tulipa consegue criar uma atmosfera de leveza e intimidade que nos desarma. “Vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo”, ela avisa, logo no começo. O álbum é esse entardecer.

1 | Amigo do tempo | Mombojó

Depois de um disco retraído, cuidadoso demais (Homem-Espuma, de 2006), o Mombojó volta a se largar no furacão. Amigo do tempo retoma as liberdades de Nadadenovo, mas nada de reprise: escrito por uma banda menos ingênua, mais lírica, ainda disposta a se perder e se reinventar. “Não sou mais quem fui. Sinto perigo em qualquer lugar”, dizem, em Casa caiada. Crescer é um mistério. E é exatamente nesse ponto que a história começa a ficar boa.